Um arco-íris. Duplo.

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Uma beleza, não é mesmo? O arco-íris duplo se forma quando “os raios de luz oriundos do Sol, além de refratar e refletir uma única vez, produzindo o arco-íris primário, refletem também uma segunda vez no interior das gotas de chuva, dando origem a um segundo arco-íris, com cores mais fracas” (Dept. Fisica da Universidade Federal do Ceará).

A foto foi feita ontem, em Kelowna, Canadá, pela Denise Emerson.

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A fonte secou

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Luiz Arthur Castanheira, diretor do Parque Nacional da Serra da Canastra, informando que a nascente do Rio São Francisco, situada em São Roque de Minas, secou:

“Essa nascente é a original, a primeira do rio e é daqui que corre para toda a extensão. Ela é um símbolo do rio. Imagina isso secar? A situação chegou a esse ponto não foi da noite para o dia. Foi de forma gradativa, mas desse nível nunca vi em toda a história”

analuciasilvag1BSó para lembrar, a bacia hidrográfica do rio São Francisco abrange 504 municípios de sete estados – Bahia, Minas Gerais, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Goiás e Distrito Federal. Atravessa quase 1 milhão de quilômetros quadrados de regisão semiárida, atende a região nordeste e grande parte de Minas, até desembocar Oceano Atlântico, entre Alagoas e Sergipe.

O pior de tudo é que não vi nenhum uma palavra sequer sobre o assunto de nenhum dos três principais candidatos ao cargo máximo do Brasil. A preocupação em desqualificar o adversário é tão grande que ficamos sem saber se eles tem sequer um programa de governo ou, pelo menos, alguma ideia para minorar os efeitos das mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global.

É uma pena, mas a mediocridade vai acabar com o Brasil.

Fotos: Ana Lucia Silva (G1)

O mural

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Parafraseando o velhíssimo rock – “vinha andando pela rua, quando vi pela frente, na fachada da Usina, um painel diferente” – o trabalho do grafiteiro Derlon Almeida, na parede lateral da “Usina Cultural Energisa” que dá para rua Dante Laginestra, ficou sensacional, até mesmo por quebrar a sisudez do casarão que tem cultura em seu nome.

grafite3 (1)O artista é natural do Recife e seus desenhos misturam arte popular e street art. Traços fortes, muito contraste e valorização da cor branca fazem parte dos grafites, com referência à cultura tradicional nordestina. O trabalho também é inspirado na xilogravura, método antigo de pintura.

Criado durante o último Festival de Inverno, foi (e é) um excelente presente para Nova Friburgo. Está bem conservado, a turma tem respeitado o trabalho e sem dúvida, alegra e surpreende quem passa ali no centro. Estão todos de parabens, o artista e os responsáveis pela viabilização da ótima iniciativa.

Queremos mais!

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Um país dos idosos

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- Boa tarde, o senhor não prefere usar a fila dos idosos? Só tem uma pessoa e o senhor pode aguardar sentado.

Olhei para o lado e uma mocinha uniformizada indicava o último caixa do banco. Por uns momentos achei que não fosse comigo. Idoso? Fila especial? Sentar? Como assim? Mas não é que ela tinha razão? Eu sou idoso e agora, com uma barba branca no rosto e ralos cabelos da mesma cor na cabeça, não dá nem para disfarçar a idade. Aproveitei que a fila normal estava encrencada, aceitei a oferta e, oficialmente, assumi a terceira idade.

Vejam só, eu já era feliz e não sabia. Com dois anos de atraso descobri, ou melhor, tive que admitir que já era um vetusto, longevo, duradouro, macróbio, assazonado, matusalém, experimentado, ancião, provecto, sovado, grandevo, anoso, velhote ou coroa, como queiram. Filas exclusivas, ônibus e metrô grátis, teatro, cinema e shows com desconto, reumatismo, gota, vacinas de gripe, dores nas juntas e costas, aposentadorias e tombos ridículos, tudo isso passou a fazer parte do meu mundo.

Bom, essa alienação, digamos assim, tem uma explicação: minha filha mais nova nasceu no mesmo dia que eu e durante 30 anos a dona do aniversário foi ela. Para mim era muito conveniente já que ninguém lembrava que eu estava ficando mais velho. O problema é que ela foi morar no Canadá e, de repente, me vi no centro das atenções. Nada contra, é claro, aniversário é muito bom, a gente ganha carinhos, presentes e parabéns, mas você irremediavelmente se dá conta da idade que está fazendo.

No Brasil não brincamos em serviço e pela Lei 10.741, de 1º de outubro de 2003, todo mundo com 60 anos ou mais é considerado idoso e ponto final. Aliás, fico aqui pensando se esconder ou mentir a idade, não seria um crime. Mas brincadeiras à parte, a citada lei que criou o Estatuto do Idoso foi um avanço enorme em um país que sempre esqueceu que eles existem.

Seguindo a tendência mundial, o Brasil também está envelhecendo. Um estudo do Banco Mundial mostra que em 2050 seremos 64 milhões de idosos, 29,7% da população total, mais que o triplo do registrado em 2010. Proporcionalmente, para cada 100 jovens existirão 172 idosos. As causas são várias: queda da mortalidade infantil, aumento da expectativa de vida e uma enorme diminuição da taxa de fecundidade.

A OMS (Organização Mundial da Saúde), por sua vez, garante que no planeta existirão dois bilhões de idosos em 2050, cerca de 20% da população mundial, o que serve para lembrar que a garotada que está lendo esta crônica terá entre 60 e 70 anos, todos oficialmente idosos. É meus caros, o futuro está logo ali.

Existe um segredo para uma velhice tranquila? Afinal, não somos nenhuma Escandinávia e nossas deficiências são facilmente notáveis, até mesmo porque atingem toda a população: sistema de saúde precário, transporte público inadequado, cidades mal planejadas, isolamento social, dificuldade de trabalho e, principalmente, falta de consideração e respeito. Mas nem tudo está perdido, é claro.

Meu sogro, hoje com 85 anos, mora sozinho com a esposa, tem o seu notebook, frequenta as redes sociais, se comunica pelo Skype, está antenadíssimo com as novidades da informática e é o responsável pelas contas do condomínio onde mora. Tenho amigos, alguns até já aposentados, que trabalham animadamente, sem a menor intenção de parar para, sei lá, pescar! Um deles gosta de brincar dizendo que o que mata é falta do que fazer, para justificar sua permanência em atividade.

Talvez o segredo para uma boa velhice seja atitude! É evidente que não dá para comparar um idoso de 60 anos com um de 80, afinal o tempo é inexorável e, por mais que a medicina avance, o corpo e a cabeça não são os mesmos. Mas acho que tocar a vida fazendo o que gosta, com independência, participação, saúde e amando muito, é um bom caminho. Sei que o Brasil ainda é injusto e desigual e este talvez seja o principal motivo para não descansarmos. A nossa luta hoje por um país melhor, será a boa qualidade de vida dos idosos de amanhã.

É como diz o antigo blues do músico americano Muddy Waters e eu adoro repetir: pedras que rolam não criam limo. E aí estão os velhinhos dos Rolling Stones para confirmar.

A Voz da Serra (27/10/2012)

Eu não sou Robert Mitchum

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Ficamos frente a frente em plena avenida principal. Eu caminhava completamente distraído pensando no dia de amanhã, mas não o suficiente para não reparar que ela vinha pela mesma calçada, pequena e linda como sempre. Toda de preto, discretamente elegante e com a mania irritante de deixar o belo rosto escondido atrás do enorme óculos escuros.

Paramos um em frente ao outro e ela ficou me olhando, aguardando meu cumprimento. Tirei o cigarro do canto da boca (um hábito que ela detestava, mas fazer o quê?), ajeitei o chapéu e respondi com meu sorriso torto e semi cerrado que, como ela gostava de provocar, me deixava com o rosto engraçado.

Eu era quase um urso do seu lado. Não, não sou alto nem corpulento, era a sua delicadeza, seu tipo mignon e aparentemente frágil que deixava essa impressão. No entanto, sabia perfeitamente que as coisas nem sempre são o que aparentam ser. Ali estava uma mulher forte, inteligente, independente e provocantemente indecisa. Abraçamo-nos com carinho e saudade.

Antes que ela falasse alguma coisa, elogiei sua forma e reclamei dos óculos, que retirei carinhosamente de seu rosto com a desculpa de ver os seus olhos. Ela riu, abriu a bolsa e pegou um cigarro. Imediatamente acendi o Zippo prateado, sentindo o toque de sua mão suave segurar as minhas para o vento não apagar a chama do isqueiro.

O tempo, por sinal, não ajudava. Já era inicio da noite, estava frio e o meu surrado casaco não era suficiente para proteger do vento. Entramos em uma livraria para nos proteger. Enquanto fingia folhear um livro, raciocinava rápido: sabia que não podia desperdiçar aquele encontro ocasional. Onde íamos terminar, se é que isso tinha alguma importância, nem passou pela minha cabeça.

Falamos algumas bobagens e a convidei para tomar um drinque em um night club ali perto. Ainda era cedo e encontraríamos um ambiente mais íntimo. Como um casal demos os braços e caminhamos pela avenida principal, agora iluminada e tomada por pessoas procurando suas conduções para casa.

Sem dúvida, estávamos felizes.

Cumprimentamos o velho barman, cúmplice de outras paixões e nos sentamos na mesma mesa de sempre. Pedi seu tão apreciado martini e ela, com um ar cínico, mostrou-se surpresa pela minha lembrança. Mandei vir um scotch puro, sem gelo e falei uma bobagem qualquer em seu ouvido. Nossos rostos ficaram tão próximos que fiquei perturbado. Seu perfume, ainda o de sempre, era marcante na medida certa e muito envolvente.

Ela estava à vontade e bem humorada. Esquecemos o tempo, a bebida relaxava e nós dois nos bastávamos. De repente riu e falou que alguma coisa estava diferente em mim, eu estava lembrando muito o Robert Mitchum, com sua cara amarrotada, o cigarro eternamente no canto da boca, pouquíssimas palavras, e um eterno ar de quem não está levando nada à sério. Claro que não respondi nada, era bom que ela pensasse assim.

O garçom se aproximou para trocar o pratinho das castanhas e, por um instante silenciamos. Com a cabeça baixa, ela colocou suas mãos nas minhas. Olhos nos olhos, toquei em seu pequeno queixo e trouxe
seu rosto bem para perto do meu. Rocei de leve meu nariz em sua face e naturalmente encostamos nossos lábios, sem pressa ou ansiedade. Durou apenas uma fração de segundos e imediatamente nos beijamos profunda e intensamente, como nos velhos tempos.

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Cai em mim quando nos esbarramos fortemente em plena avenida principal. Já nos conhecíamos de vista ou através de amigos, nem sei mais. De vez em quando arriscava um oi, nem sempre correspondido. Ela, coitada, teve que se apoiar em mim para não cair e, para meu desgosto perguntou se eu não prestava atenção nas pessoas, logo eu, que nunca tirava os olhos de cima dela. Sem saber onde me enfiar de tanta vergonha, simplesmente pedi desculpas e, sem olhar para trás, segui meu caminho, completamente derrotado.

Decididamente, eu não sou Robert Mitchum.

A Voz da Serra, 2011

Dia Mundial sem Carro

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Hoje, 22 de setembro é o Dia Mundial sem Carro, evento surgido em 1997, na França, com o objetivo de estimular uma reflexão sobre o uso excessivo do automóvel, além de propor às pessoas que dirigem todos os dias que revejam a dependência que criaram em relação ao automóvel. A ideia é que essas pessoas experimentem, pelo menos nesse dia, formas alternativas de mobilidade, descobrindo que é possível se locomover pela cidade sem usar o automóvel e que há vida além do para-brisa.

Desde 2006 parei de usar carro. Para me locomover uso o transporte público disponível, bicicletas ou, dependendo da distância e tempo disponível, simplesmente os pés. Não me preocupo com IPVA, seguros, estacionamentos, roubos, danos ou vistorias. Se estiver com pressa, nada que um taxi não resolva.

Para participar da data, republico mais uma vez o ótimo artigo do Massa Crítica de Porto Alegre, grupo dos ciclistas que quase foram exterminados por um maluco e seu carro, em pleno centro da capital gaúcha. A matéria é bem fundamentada, humorada e inteligente. Vale a leitura e depois, ao invés de sair com o carro, vá para o trabalho a pé. Ou de bike. Ou de busão mesmo.

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23 motivos para não ter carro

por Massa Crítica – POA

“Muitos sonham em ter um carro. Tem gente que nem tem casa própria, mas tem um ou dois carros. A publicidade nos bombardeia com mensagens de que ter um automóvel é garantia de tranqüilidade, liberdade e, o mais bizarro, prestígio e sucesso pessoal. Mas apesar da conveniência de se ter um veículo sempre à sua disposição, ter um carro tem mais desvantagens que vantagens, são elas:

1 – O grande número de carros infesta o ar com gases tóxicos, principalmente nas grandes cidades, causando inúmeras doenças respiratórias e até câncer (além de cheirar mal!) e causam necrose das folhas de árvores. Em muitas metrópoles do país, os veículos são os principais causadores da poluição atmosférica.

2 – Os automóveis estão entre os principais responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa, chegando a emitir 40% dos gases de efeito estufa nas grandes cidades.

3 – Sem carro você vai caminhar mais, evitar o sedentarismo, ser mais saudável e reduzir o riscos de doenças do coração e obesidade.

4 – O tempo que você passa dirigindo um carro é perdido. Ao andar de ônibus, trem ou metrô você pode aproveitar o tempo no trânsito para ler, estudar, escrever ou conhecer e conversar com outros seres humanos. Se você for de bicicleta ou a pé, vai estar se exercitando e conhecendo melhor a sua cidade.

5 – Você vai perder peso.

6 – Ao andar de carro você se estressa com congestionamentos, motoristas imprudentes e irresponsáveis. E isso deixa você infeliz.

7 – Ao andar de carro, você está ameaçando a vida de pessoas e outros animais que não estão em veículos motorizados.

8 – O som da cidade, é o som dos carros. A poluição sonora das cidades, é causada principalmente pelo tráfego de veículos, e pode causar insônia, estresse, depressão, perda de audição, agressividade, dores de cabeça, etc.

9 – Quando você sai à noite você fica preocupado em onde deixar seu carro, se ele está seguro, e a diversão acaba virando preocupação.

10 – O carro é uma jaula de metal, plástico e vidro que nos isola das pessoas e do mundo ao nosso redor. Quando estamos dentro de um, estamos sozinhos, e temos a tendência de enxergar todo mundo que está do lado de fora como nosso concorrente ou obstáculo no nosso caminho. O carro deixa as pessoas mais violentas.

11 – Carros são extremamente visados por assaltantes e roubos de carro costumam ser mais violentos que assaltos à pedestres, não é raro se transformarem em seqüestros.

12 – Carro mata. Dezenas de milhares de pessoas morrem todo ano em acidentes de carro. É a principal causa de morte entre jovens. Quantas pessoas que você conhece morreram assim?

13 – Você vai economizar uma grana em IPVA.

14 – Você vai economizar uma grana em seguro.

15 – Você vai economizar uma grana em gasolina.

16 – Você vai economizar uma grana em manutenção.

17 – Você vai economizar uma grana em estacionamento.

18 – Com o dinheiro que custa um carro (e mais o que você gasta com ele) você pode fazer um monte de coisas mais produtivas, como viajar mais.

19 – Carros precisam muito espaço para circular e estacionar. Por causa disto, quase todos espaços públicos de nossa cidade estão sendo cobertos e asfalto e concreto, deixando nossas cidades mais cinzas, quentes e mortas. O espaço público ocupado pelos carros pertence a todos e deveria ser um espaço de convivência e lazer.

20 – Combustíveis derivados de petróleo são altamente poluentes e o controle sobre eles é motivo de guerra, plantações de vegetação para biocombustíveis ocupam grandes quantidades de terra, elevam o preço dos alimentos e aumentam o desmatamento. O melhor e mais eficiente combustível é arroz e feijão.

21 – Quantas horas por dia você gasta trabalhando para sustentar o seu carro? Se você não tivesse um carro, gastaria menos dinheiro, e talvez pudesse trabalhar menos. Isso é ótimo, não é?

22 – De carro você não tem o direito de errar. Um erro ou distração seu pode ser fatal, para você ou para os outros.

23 – Você não precisa de um carro para ser livre – isso é coisa que a publicidade coloca na sua cabeça. Na verdade, você é mais livre sem carro. Pense a respeito.

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Depressão

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Deprime ouvir uma autoridade ou um político reclamar que gastamos tempo e dinheiro com fiscalizações ou denúncias que nunca dão em nada.

Deprime porque é verdade.

Deprime porque as administrações públicas são caixas pretas, os processos tem falhas e a justiça é lenta e pior, desacreditada.

Deprime porque autoridades e políticos sabem que são pagos com dinheiro publico, que é sua obrigação servir e prestar contas ao cidadão mas por razões que remontam aos tempos imperiais, consideram-se acima do bem e do mal.

Deprime porque é com o nosso voto que essa gente faz o que bem entende.

Deprime porque ao invés de reagir, abaixamos a cabeça e vamos para casa reclamar da vida.

Deprime. Muito.

A pêra e a maçã

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Um monge tibetano foi até o Lama
e respeitosamente indagou
o que seria da maçã,
se todos amassem apenas a pêra.

O Lama sorriu
e sereno respondeu:
– Meu filho, honestamente,
você não tem nada para fazer?

Humanidade

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Anafilaxia
anorexia
dispepsia
apatia.

Ataxia
discalculia
apoplexia
disgrafia.

Abulia
hiperpirexia
dislexia
paralisia.

Fobia.

E a lista não se esgota.

Domingo na praia

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No último domingo, dia 15, saí de manhã para caminhar com minha mulher. Fomos do Posto 4, em Copacabana até o Posto 9, em Ipanema e voltamos, passando obrigatóriamente pelo Arpoador. Não era cedo, pelo contrário e até nos arrependemos do horário, mais de onze horas e o sol queimando sem dó.

Copacabana estava tranquila e até meio vazia. Mas em Ipanema, acelerando a marcha, levamos um susto quando fomos “ultrapassados” por três motos com policiais do batalhão de choque, completamente equipados, fardas camufladas e armados com fuzis de assalto. O que estaria acontecendo?

Logo mais adiante, na altura da Maria Quitéria, duas viaturas do choque, os motociclistas e mais uns quinze soldados prontos para o combate, conversavam com guardas municipais. Passamos ao largo e ainda comentamos que se alguém gritasse ‘pega ladrão’ ou algo do gênero, não seria um bom negócio ficar na linha de tiro dos fuzis da tropa.

Fizemos a volta no Posto 9 e retornamos para casa sem maiores transtornos. Não vimos nenhum arrastão, assalto ou violência. Mas muita, muita gente chegava nos ônibus e se dirigia para o Arpoador. Em nenhum momento achei que o pessoal aproveitaria para fazer baderna, já que o policiamento ostensivo, reforçado pela guarda municipal, parecia suficiente.

No dia seguinte, o jornalão carioca O Globo anunciava que arrastões, assaltos, furtos e atos de vandalismo foram cometidos em massa contra a população que apenas queria tomar um banho de mar. Casos de estupro não foram relatados, mas roubos de carros, bicicletas e celulares abundaram. Centenas de pessoas foram presas e o governo do estado chegou a cogitar decretar estado de sítio no Arpoador e pedir ajuda às Forças Armadas. Dos Estados Unidos, por óbvio.

Meus caros, desde que me entendo por gente (e isso já tem muito tempo), todos os verões acontece a mesma coisa. Já era tempo de alguma medida já ter sido testada e implantada para garantir o sossego dos banhistas. É bom lembrar que durante a Copa nada disso ocorreu. O que foi diferente? As pessoas não vieram para as praias? Baixou o espírito cívico nos vândalos? Ou a polícia se absteve de jogar bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo indiscriminadamente, como agora?

Muito se reclama dos grupos de baderneiros (e ladrões de ocasião) e concordo inteiramente, essa gente tem que estar atrás das grades. No entanto, as praias do Rio de Janeiro sempre foram (e serão, espero) o local de lazer mais democrático da cidade. Impedir, dificultar ou cobrar o seu acesso é, obviamente, um absurdo. Garantir a segurança do cidadão, é sempre bom lembrar, é obrigação do estado.

Há uma outra questão. Estamos em ano eleitoral e no Rio, infelizmente, restou apenas um grande jornal em circulação que, por acaso, apóia o atual governador. Estou apenas especulando, é claro, mas a quem interessa manchetes escandalosas falando de “hordas” de desordeiros vagando por Ipanema? Sei lá, mas eles sabem muito bem…

Além do mais, foi essa mesma força de segurança que acabou com as manifestações populares, identificou e prendeu “terroristas” e garantiu que todos os cariocas voltassem a ser trabalhadores, ordeiros e obedientes. É difícil acreditar que não consigam controlar meia dúzia de manés na praia.

Conta outra, vai!