O silêncio da serra

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Foto: Carlos Emerson Junior

Pois é, depois de um longo intervalo de quase seis meses, subimos na sexta-feira para Nova Friburgo, com Filó a tiracolo (ou melhor, no colo mesmo). Morar no Rio é muito bom e coisa e tal, mas que falta faz o silêncio da serra. O céu estrelado nas noites geladas. As manhãs ensolaradas e as cores do inverno. As caminhadas pelos morros para aquecer o corpo. Decididamente, estamos com saudades.

Protesto!

“O bom protesto” é mais um artigo certeiro do Leo Aversa, no seu TontoMundo.com. Direto, na veia e ilustrado aqui no blog com uma fotografia do próprio autor. Leia sem nenhuma moderação! (Carlos Emerson Junior)

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O BOM PROTESTO
Leo Aversa

A manifestação boa é silenciosa, flui pelas ruas e avenidas como um córrego tranquilo. Nada de gritos ou qualquer algazarra. É este silêncio que será ouvido nos gabinetes dos governantes.

O bom protesto não é protesto, é manifestação. Protesto tem uma conotação negativa, parece coisa do contra, e quem é do contra não é bom. E tem que ser no domingo de manhã, na orla, de preferência num dia bonito, de sol. Na orla não atrapalha o trânsito e rende fotos bonitas, pra cima.

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Que pena

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Foto: Deive Coutinho/Jornal Carioca

Pois é, a Copa acabou, os turistas se foram, o Brasil perdeu e o Rio voltou a ser o mesmo que era.Uma senhora foi brutalmente assassinada numa tristemente famosa “saidinha de banco”, em plena luz do dia, em uma das praças mais movimentadas da Zona Sul. Quinhentos policiais entram em uma comunidade para cumprir 40 mandados de prisão de traficantes e não encontram ninguém. Minto, pegaram um distraído que possivelmente perdeu a hora de acordar e fugir. Para piorar, o próprio comando da operação admite que houve “um vazamento”…

Bandidos atacam uma UPP na zona norte, incendeiam uma viatura policial e deixam um policial baleado. Ninguém foi preso. Dentro de um ônibus frescão, na Avenida Brasil, a caminho da zona oeste, dois homens anunciam o assalto: alguém se levanta, saca a arma, mata um dos bandidos, fere o outro, acerta um passageiro e desaparece na noite. De novo, ninguém foi preso.

Que pena, a Copa acabou.

Obrigado, Rubem Alves!

Pois é, em uma semana perdemos João Ubaldo Ribeiro e Rubem Alves. Uma verdadeira tragédia para um país tão carente de escritores, de gente que nos servia de norte nesse tão difícil e complicado ofício que é trabalhar com as letras. Para mim, fica o sua obra e o seu exemplo de vida. E a certeza de que, cada vez mais, ficamos menores. Irremediavelmente menores. (Carlos Emerson Junior)

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SOBRE O MORRER
Rubem Alves (Folha de SP)

“Ninguém quer morrer. Mesmo as pessoas que querem chegar ao paraíso. Mas a morte é o destino de todos nós.” (Steve Jobs)

Odeio a ideia de morte repentina, embora todos achem que é a melhor. Discordo. Tremo ao pensar que o jaguar negro possa estar à espreita na próxima esquina. Não quero que seja súbita. Quero tempo para escrever o meu haikai.

Mallarmé tinha o sonho de escrever um livro com uma palavra só. Achei-o louco. Depois compreendi. Para escrever um livro assim, de uma palavra só, seria preciso ter-se tornado sábio, infinitamente sábio. Tão sábio que soubesse qual é a última palavra, aquela que permanece solitária depois que todas as outras se calaram. Mas isso é coisa que só a Morte ensina. Mallarmé certamente era seu discípulo.

O último haikai é isto: o esforço supremo para dizer a beleza simples da vida que se vai. Tenho terror de ser enganado. Se estiver para morrer, que me digam. Se me disserem que ainda me restam dez anos, continuarei a ser tolo, mosca agitada na teia das medíocres, mesquinhas rotinas do cotidiano. Mas se só me restam seis meses, então tudo se torna repentinamente puro e luminoso. Os não essenciais se despregam do corpo, como escamas inúteis.

A Morte me informa sobre o que realmente importa. Me daria ao luxo de escolher as pessoas com quem conversar. E poderia ficar em silêncio, se o desejasse. Perante a morte tudo é desculpável… Creio que não mais leria prosa. Com algumas exceções: Nietzsche, Camus, Guimarães Rosa. Todos eles foram aprendizes da mesma mestra. E certo que não perderia um segundo com filosofia. E me dedicaria à poesia com uma volúpia que até hoje não me permiti. Porque a poesia pertence ao clima de verdade e encanto que a Morte instaura. E ouviria mais Bach e Beethoven. Além de usar meu tempo no prazer de cuidar do meu jardim…

Curioso que a Morte nada tenha a dizer sobre si mesma. Quem sabe sobre a Morte são os vivos. A Morte, ao contrário, só fala sobre a Vida, e depois do seu olhar tudo fica com aquele ar de “ausência que se demora, uma despedida pronta a cumprir-se” (Cecília Meireles). E ela nos faz sempre a mesma pergunta: “Afinal, que é que você está esperando?” Como dizia o bruxo D. Juan ao seu aprendiz: “A morte é a única conselheira sábia que temos. Sempre que você sentir que tudo vai de mal a pior e que você está a ponto de ser aniquilado, volte-se para a sua Morte e pergunte-lhe se isso é verdade. Sua Morte lhe dirá que você está errado. Nada realmente importa fora do seu toque… Sua Morte o encarará e lhe dirá: ‘Ainda não o toquei…’”

E o feiticeiro concluiu: “Um de nós tem de mudar, e rápido. Um de nós tem de aprender que a Morte é caçadora, e está sempre à nossa esquerda. Um de nós tem de aceitar o conselho da Morte e abandonar a maldita mesquinharia que acompanha os homens que vivem suas vidas como se a Morte não os fosse tocar nunca”.

Às vezes ela chega perto demais, o susto é infinito, e até deixa no corpo marcas de sua passagem. Mas se tivermos coragem para a olharmos de frente é certo que ficaremos sábios e a vida ganhará simplicidade e a beleza de um haikai.

Benfica, a Suiça de Nova Friburgo

No domingo passado, dia 13, o final da Copa do Mundo possivelmente ofuscou o ótimo documentário produzido e realizado pelo jornalista Fernando Gabeira para a GloboNews em Benfica, a “Suiça esquecida”, vila localizada em Nova Friburgo, entre os distritos de Lumiar e São Pedro da Serra, no Rio de Janeiro.

O programa pode ser visto pela internet na página da Globosat, infelizmente apenas por quem tem conta na NET ou Sky, entre outras operadoras. Mas a boa notícia é que encontrei no site da revista SWI – Swissinfo, edição em português, uma matéria feita em 2009 pelo jornalista Alexander Thoele, sobre o mesmíssimo assunto, inclusive com as entrevistas e “causos” do patriarca da principal família suiça na região.

Vale a pena a sua leitura.(Carlos Emerson Junior)

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Foto: Leo Silveira

UMA SUIÇA QUE PAROU NO TEMPO

Um vale íngreme distante vinte minutos de Nova Friburgo concentra a maior quantidade de imigrantes helvéticos por metro quadrado da Região Serrana, quase todos membros de uma mesma família originária da região de Gruyère.

Eles viviam em condições de absoluta pobreza e casavam-se entre si por desconfiar de estranhos. Já as novas gerações procuram outros caminhos.

O convite de um dos organizadores do 6° encontro suíço-brasileiro em Nova Friburgo foi bem recebido pelos jornalistas presentes. Encontrar descendentes diretos de imigrantes helvéticos do início do século 19 e que até hoje vivem como os seus antepassados. A jovem repórter do Jornal La Gruyère tinha dificuldades para acreditar, mas os presentes confirmaram a sua existência.

No pequeno povoado de Lumiar, o 5° distrito de Nova Friburgo, na região serrana estado do Rio de Janeiro, situando-se a 28 km da sede do município, existe uma localidade chamada Benfica. Para ter acesso ao local, é preciso subir uma inclinada estrada de terra em péssimas condições atravessando um vale estreito. Suas casas são quase todas de pau-a-pique, com algumas poucas exceções construídas nos últimos anos.

Depois de o carro arrastar em cima de muitas pedras, chega a um casarão ao lado de um simples casebre e um chiqueiro. Frente ao portão, os visitantes batem palmas, como é comum no interior para anunciar a chegada. “Tô chegando”, escuta-se dos fundos. Em poucos minutos surge um senhor curvado de cabelos brancos e vivos olhos azuis. Ele se apóia em uma bengala para caminhar. Na cabeça um chapéu de palha e no corpo, uma velha camisa e calças curtas. Os pés cascudos estão descalços, ainda cheios de lama.

Luís Otílio Ouverney, 83 anos, é o patriarca de uma grande família. Casado há 60 anos com sua prima Anise Zenith Ouverney, os dois tiveram 12 filhos, quase todos ainda residentes do mesmo vale. Ele próprio também teve muitos irmãos. “Eram 13, morreram cinco e sete tão vivo”, conta. Questionado sobre suas origens, a resposta vem rápida. “A gente sabe que vem da Suíça desde que se conhece por gente.”

Poucos recursos

O guia acrescenta que os Ouverney partiram em 1819 da região do Gruyère, região de língua francesa no cantão de Friburgo, rumo ao Brasil. Pesquisadores locais, como Alberto Lima Wermelinger, explicam que eles ganharam terras localizadas em Lumiar com a promessa de serem férteis. Porém, ao avaliar a topografia do vale, os visitantes ficam em dúvida: por todos os lados altas colinas cobertas de florestas tropicais, terrenos inclinados e pedregosos, onde o plantio é extremamente penoso.

Embaixo de algumas bananeiras e jabuticabeiras cobrindo o córrego que passa atrás da sua casa, Luís Ouverney explica que costumava plantar inhame, milho, café e mandioca em uma pequena superfície plana ao lado de uma das colinas. “Era lá no alto do morro. A gente tinha de subi na mata, trabaiá a terra e descia carregando o plantio na tuia”, descreve apontando para um balaio de taquara. Para os suíços presentes, o termo “tuia” vem provavelmente do “patois”, um dialeto do francês.

O trabalho era feito apenas com enxada, enxadão, machado e foice. Instrumentos como arados não serviam para as terras de Benfica. “Lá para os lado de Lumiar existia. Mas aqui é muito alto e muita pedra. Onde tem pedra, o arado não vale nada”. Para complementar a alimentação, a família criava uma dezena de cabeças de gado – das quais Luís ainda mantém seis, todos infestados de berna – e alguns porcos e galinhas. O excesso da produção, sobretudo de inhame, era vendido aos comerciantes locais de Lumiar apesar do difícil transporte. “Num tinha estrada. Ia tudo no lombo do burro”

“Gente estranha”

Outra lembrança do passado suíço também pode ser encontrada em alguns utensílios usados pelos Ouverney. O ferro de fazer “brechi”, uma espécie de biscoito típico suíço, é um deles. Porém um fato trágico provocou a sua perda. “Tinha uma prima que não deixava a gente casà com primo. Ela casou com gente estranha e foi para o Espírito Santo. Nasceu sete filhos aleijado. Além disso, levou o ferro de fazer brechi com ela.”

Mas Luís se apressa a explicar que a maior parte dos Ouverney sempre ficou no vale. Quando casavam, construíam eles mesmo uma casa de pau-a-pique ao lado dos parentes. A tradição dizia que um terço da produção, a “terça”, era para os pais ou os donos tradicionais das terras plantadas. Questionado sobre tempo de penúria, o idoso retruca. “Naquele tempo colhia muito, muito milho, muito feijon, muita batata-doce. A gente nunca passou fome. Só quando ia trabaiá longe é que não ia comido.”

Humor camponês

A simplicidade das palavras do descendente de suíços se explica pelo isolamento da comunidade em Lumiar. “Ninguém de nóis foi pra escola. Num sabemu de nada. A nossa vida sempre foi apanhá e trabaiá”, conta. Por isso suas palavras são diretas. O queijo coalho preparado pela esposa se chama simplesmente “queijo”, assim como as vacas também nunca tiveram um nome. Elas sempre foram simplesmente animais.

Porém o humor afiado demonstra a perspicácia do camponês. “Cê pode come a banana se ela não fizé mal na barriga”, diz ao jovem suíço pouco depois dele ter devorado uma banana tirada do pé.

Em uma região sem hospitais ou postos de saúde, falar de doença também soa estranho nos ouvidos de Luís. Ele explica ter ficado doente apenas duas vezes. “Uma vez fiquei quatro anos sem pode andá e depois dois anos. Agora tenhu de segurá o cacete”, diz com a bengala de bambu na mão. Hoje vive graças à aposentadoria de trabalhador rural, que garante uma renda mensal de 465 reais.

Sua esposa Anise aproveita a conversa na cozinha para servir o café, extremamente açucarado para o gosto dos jornalistas suíços, queijo coalho e biscoitos. Ela também explica que a casa onde vivem tem apenas 10 anos. Ela foi construída com ajuda dos familiares para substituir a tradicional de pau-a-pique. Hoje, além do tradicional fogão à lenha, já dispõe de micro-ondas, televisão e geladeira. A região foi eletrificada há apenas vinte anos.

Modernidade

Esquecida durante um século e meio após a sua colonização por suíços, Lumiar começou a se tornar conhecida em meados dos anos 1970 como ponto de encontro para “hippies” e amantes da natureza. Em poucas décadas, a popularização do turismo ecológico e melhoras na infra-estrutura, tornou o local conhecido em todo o país. As mudanças são consideráveis.

Luís Ouverney conta que as autoridades já não permitem mais o corte das árvores nas encostas de Benfica. Também alguns dos seus 38 netos não precisam mais da agricultura para sobreviver. “Uma filha é professora na escola”, lembra orgulhoso. Outros membros da família Ouverney – seriam 240 na contagem do patriarca – estariam trabalhando como explicam taxistas de Lumiar, como donos de pousadas, restaurantes ou até funcionários do governo municipal em Nova Friburgo.

Também uma das tradições do vale já saiu das suas fronteiras. A Festa de Benfica encerra a temporada de festas juninas em toda a região. Em 2009, foram três dias de forró de 18 a 20 de setembro, o que mostra que a população, apesar dos cabelos loiros, já se adaptou bem à cultura brasileira.

Alexander Thoele, Nova Friburgo, Swissinfo