Arquivos da Categoria: Contos & Crônicas

Eu não sou Robert Mitchum

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por Carlos Emerson Junior

Ficamos frente a frente em plena avenida principal. Eu caminhava completamente distraído, pensando no dia de amanhã, mas não o suficiente para não reparar que ela vinha pela mesma calçada, pequena e linda como sempre. Toda de preto, discretamente elegante e com a mania irritante de deixar o belo rosto escondido atrás do enorme óculos escuros.

Paramos um em frente ao outro e ela ficou me olhando, aguardando meu cumprimento. Tirei o cigarro do canto da boca (um hábito que ela detestava, mas fazer o quê?), ajeitei o chapéu e respondi com meu sorriso torto e semi cerrado que, como ela gostava de provocar, me deixava com o rosto engraçado.

Eu era quase um urso do seu lado. Não, não sou alto nem corpulento, era a sua delicadeza, seu tipo mignon e aparentemente frágil que deixava essa impressão. No entanto, sabia perfeitamente que as coisas nem sempre são o que aparentam ser. Ali estava uma mulher forte, inteligente, independente e decididamente indecisa. Abraçamo-nos com carinho e saudade.

Antes que ela falasse alguma coisa, elogiei sua forma e reclamei dos óculos, que retirei carinhosamente de seu rosto com a desculpa de ver os seus olhos. Ela riu, abriu a bolsa e pegou um cigarro. Imediatamente acendi o Zippo prateado, sentindo o toque de sua mão suave segurar as minhas para o vento não apagar a chama do isqueiro.

O tempo, por sinal, não ajudava. Já era inicio da noite, estava frio e o meu surrado trench coat não era suficiente para proteger do vento. Entramos em uma livraria para nos proteger do frio. Enquanto fingia folhear um livro, raciocinava rápido: sabia que não podia desperdiçar aquele encontro ocasional. Onde íamos terminar, se é que isso tinha alguma importância, nem passou pela minha cabeça.

Falamos algumas bobagens e a convidei para tomar um drinque em um night club ali perto. Ainda era cedo e encontraríamos um ambiente mais íntimo. Como um casal demos os braços e caminhamos pela avenida principal, agora iluminada e tomada por pessoas procurando suas conduções para casa.

Sem dúvida, estávamos felizes.

Cumprimentamos o velho barman, cúmplice de outras paixões e nos sentamos na mesma mesa de sempre. Pedi seu tão apreciado whisky sour e ela meio que cínica, mostrou-se surpresa pela minha lembrança. Mandei vir um scotch puro, sem gelo e falei uma bobagem qualquer em seu ouvido. Nossos rostos ficaram tão próximos que quase fiquei perturbado. Seu perfume, ainda o de sempre, era marcante na medida certa e muito envolvente.

Ela estava à vontade e bem humorada. Esquecemos o tempo, a bebida relaxava e nós dois nos bastávamos. De repente riu e falou que alguma coisa estava diferente em mim, eu estava lembrando muito o Robert Mitchum, com sua cara amarrotada, o cigarro eternamente no canto da boca, pouquíssimas palavras, e um eterno ar de quem não está levando nada à sério. Claro que não respondi nada, era bom que ela pensasse assim.

O garçom se aproximou para trocar o pratinho das castanhas e, por um instante silenciamos. Com a cabeça baixa, ela colocou suas mãos nas minhas. Olhos nos olhos, toquei em seu pequeno queixo e trouxe seu rosto bem para perto de mim. Rocei bem de leve meu nariz em sua face e naturalmente roçamos nossos lábios, sem pressa ou ansiedade. Durou apenas uma fração de segundos e imediatamente nos beijamos profunda e intensamente, como nos velhos tempos.

*****

Cai em mim quando nos esbarramos fortemente em plena avenida principal. Já nos conhecíamos de vista ou através de amigos, nem sei mais. De vez em quando arriscava um oi, nem sempre correspondido. Ela, coitada, teve que se apoiar em mim para não cair e, para minha decepção, perguntou se eu não prestava atenção nas pessoas. Sem saber onde me enfiar de tanta vergonha, simplesmente pedi desculpas e segui meu caminho sem olhar para trás, completamente derrotado.

Decididamente, eu não sou Robert Mitchum.

Publicado no Light do A Voz da Serra, em 11/6/2011

Fábula dos dois leões

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Sérgio Porto (ou Stanislaw Ponte Preta) um dos maiores cronistas cariocas, foi o responsável pela criação, ou melhor, imortalização do FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assola o País), coletânea de absurdos que ainda hoje insistem em acompanhar nossa gente!

A crônica abaixo foi tirada do livro “Primo Altamirando e Elas”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1961:

Fábula dos Dois Leões

Diz que eram dois leões que fugiram do Jardim Zoológico. Na hora da fuga cada um tomou um rumo, para despistar os perseguidores. Um dos leões foi para as matas da Tijuca e outro foi para o centro da cidade. Procuraram os leões de todo jeito mas ninguém encontrou. Tinham sumido, que nem o leite.

Vai daí, depois de uma semana, para surpresa geral, o leão que voltou foi justamente o que fugira para as matas da Tijuca. Voltou magro, faminto e alquebrado. Foi preciso pedir a um deputado do PTB que arranjasse vaga para ele no Jardim Zoológico outra vez, porque ninguém via vantagem em reintegrar um leão tão carcomido assim. E, como deputado do PTB arranja sempre colocação para quem não interessa colocar, o leão foi reconduzido à sua jaula.

Passaram-se oito meses e ninguém mais se lembrava do leão que fugira para o centro da cidade quando, lá um dia, o bruto foi recapturado. Voltou para o Jardim Zoológico gordo, sadio, vendendo saúde. Apresentava aquele ar próspero do Augusto Frederico Schmidt que, para certas coisas, também é leão.

Mal ficaram juntos de novo, o leão que fugira para as florestas da Tijuca disse pro coleguinha: — Puxa, rapaz, como é que você conseguiu ficar na cidade esse tempo todo e ainda voltar com essa saúde? Eu, que fugi para as matas da Tijuca, tive que pedir arreglo, porque quase não encontrava o que comer, como é então que você… vá, diz como foi.

O outro leão então explicou: — Eu meti os peitos e fui me esconder numa repartição pública. Cada dia eu comia um funcionário e ninguém dava por falta dele.

— E por que voltou pra cá? Tinham acabado os funcionários?

— Nada disso. O que não acaba no Brasil é funcionário público. É que eu cometi um erro gravíssimo. Comi o diretor, idem um chefe de seção, funcionários diversos, ninguém dava por falta. No dia em que eu comi o cara que servia o cafezinho… me apanharam.

O Rio? Vai muito bem, obrigado

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por Carlos Emerson (Correio da Manhã, 1955)

O Rio de Janeiro ? Vai bem. Muito obrigado.

O Carioca é que não vai muito bem. Desde que soltaram essa multidão de automóveis nas ruas, o carioca passou a viver uma tragédia. Se Shakespeare fosse de 1953 por certo êle traria os Capuleto e os Montecchio para o asfalto carioca e Romeu e Julieta acabariam abraçados e despedaçados na murada do Flamengo.

Contudo temos que concordar que morre mais gente de automóvel no Rio do que no “Hamlet”, contando-se para isso desde a primeira representação dessa peça de Shakespeare no mundo…

Vive o carioca uma época de medo. Medo medroso do próprio medo. Tem medo de olhar as vitrines. De hora em hora sobem os preços.

Tem medo de andar nas ruas, porque a Prefeitura tem o hábito de deixar buracos por tôda a parte. Tem receios de tomar banho de mar. Por que? Muito simples: pelas praias escorrem coisas estranhas dos canos dos esgotos e dizem que essas coisas fazem mal para a saúde…

O carioca é que não vai muito bem…Vive cercado duma Polícia onde há os mais variados uniformes. Policial de todo jeito. Há ocasiões que parece estarmos vendo um gran-de desfile, tal quantidade variada de militares. Mas quando se precisa de um dêles… não aparecem…. E às vezes, quando aparecem épara complicar mais as coisas, sem contar quando dão de fazer assaltos e ainda tomarem niponicamente as namorados dos civis…

Não há morro que não esteja empetecado de favelas. Casinholas de todo feitio improvisadas com tábuas e zinco vão se estendendo através de Copacabana, Ipanema, Leblon e Av. Niemeyer. Como vive essa gente toda ?

O carioca que leva a vida pacata do chefe de familía não sabe explicar como essa gente vive, mas sabe de uma coisa: é que mais dia menos dias, ele acabará sendo assaltado nas ruas. Eu não sei se esses assaltos tem ligação com a gente das favelas…

O Rio de Janeiro ? Vai bem, muito obrigado. Mas o carioca… É a Cofap para atrapalhar o orçamento e a Light para cortar a luz…E já é uma multidão de gente que começa a pregar papel nas paredes anunciando uma eleição que vai haver e prometendo histórias de mil e uma noites… Sim! Mas, desta vez, o carioca já está tão escovado que vai ter medo… de seus salvadores.

O Rio de Janeiro ? Vai bem, muito obrigado.”

*****

Crônica escrita por meu pai, Carlos Emerson, jornalista, contador e auditor, publicada no antigo jornal carioca Correio da Manhã, em 28 de junho de 1955. Se você gostou, vale a pena ler Retrato de Copacabana, escrita em 1961, ainda atualíssima!

Foto: Google Imagens

Os invisíveis

Os invisíveis

por Carlos Emerson Junior (A Voz da Serra, Caderno Light, 20/4/2013)

A cena é quase diária em um ponto conhecidíssimo do Rio: a esquina da rua Bolívar com a Avenida Copacabana, em frente ao Cine Roxy. Anoitece e o morador de rua para seu carrinho em frente a uma loja já fechada e cuidadosamente se prepara para dormir. O que chama a atenção, no entanto, são seus fiéis companheiros, um vira-latas caramelo e dois gatos, um branco e o outro cinza, todos bem cuidados, limpos e aparentemente saudáveis. Nunca faltam os potinhos com ração e água e, principalmente, o cobertor vinho, a caminha dos bichos.

Não sei se esse senhor é um catador de lixo, um simples mendigo, um dependente de drogas ou algum idoso abandonado à própria sorte. A população de rua da capital fluminense é muito variada e já chega a quase cinco mil pessoas, segundo a própria prefeitura. Na verdade, trata-se de uma parcela da sociedade que ninguém quer ver e daí vem um de seus apelidos, “os invisíveis”.

Reflexo da exclusão social, cada vez mais as ruas são usadas como moradia, sem que o Estado, seja em que nível for, consiga ou tenha interesse em procurar uma solução para o problema. Não fosse a atuação de algumas igrejas, organizações não governamentais e uma meia dúzia de abnegados, a situação seria de completo descalabro. Os políticos só se interessam por essa camada social nas vésperas de eleições, quando prometem medidas, em sua maioria higienizantes ou excludentes, que jamais serão algum tipo de solução.

Sejamos honestos: temos uma enorme dificuldade em lidar com essa realidade, ainda mais quando nos damos conta que a maioria dessa gente não está nas ruas por vontade própria e sim por problemas como desemprego, perda da autoestima, drogas e doenças mentais. O mínimo que poderíamos fazer é colocar o assunto em pauta, cobrando uma postura séria das autoridades e ajudando da melhor maneira que pudermos.

Moradores de rua existem em qualquer lugar. Em Paris cansei de ver filas de mendigos esperando o sopão em uma praça perto da Gare Saint Lazare. Com doze mil desassistidos, segundo estatísticas extraoficiais, também são “invisíveis” para os turistas que frequentam o circuito Champs Elysée (onde, é bom frisar, são proibidos de entrar). No entanto, basta uma caminhada casual pelos arredores para perceber que as coisas nunca são o que aparentam. Vi mendigos em Madrid, Barcelona e viciados esmolando em Amsterdam. E olha que são cidades do Primeiro Mundo…

Meus caros amigos, como pode o Rio de Janeiro, onde estão gastando bilhões de reais para realização de dois eventos internacionais, não ter nenhuma política palpável ou realista para essa questão? Será que somos um bando de incompetentes ou alienados que não consegue dar uma vida decente para apenas cinco mil moradores de rua? Um Maracanã de um bilhão de reais vale mais do que esses seres que perambulam sem futuro pelas nossas ruas e dormem embaixo de nossas marquises?

A beleza dessa fotografia é o momento de solidariedade de um cidadão esquecido pela sociedade, cuidando de animais abandonados nas ruas. O gato aconchegado no cachorro, lembra que espécies diferentes podem conviver harmoniosamente, ao contrário do que acontece conosco, eternamente presos aos nossos preconceitos e crenças.

*****

Fico aqui pensando que tipo de gente é essa que acha natural jogar na rua, maltratar ou matar um cachorro, um gato ou qualquer outro animal de estimação… Pois é, Albert Schwweitzer, Nobel da Paz de 1952, dizia que “quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante.” Compaixão talvez seja o mais nobre sentimento que um ser humano pode ter. Seja por quem for.

Foto: Fatima Emerson

Um conto Zen

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O agora

Um guerreiro japonês foi capturado pelos seus inimigos e jogado na prisão. Naquela noite ele sentiu-se incapaz de dormir pois sabia que no dia seguinte ele iria ser interrogado, torturado e executado.

Então as palavras de seu mestre Zen surgiram em sua mente: “O “amanhã” não é real. É uma ilusão. A única realidade é “AGORA. O verdadeiro sofrimento é viver ignorando este Dharma”.

Em meio ao seu terror subitamente compreendeu o sentido destas palavras, ficou em paz e dormiu tranqüilamente.

Fonte: 178 contos Zen