Congresso Internacional do Medo

Foto: Carlos Emerson Junior

Carlos Drummond de Andrade

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

(Publicado em Antologia Poética, Editora José Olympio, 1978)

Paradoxo de Fermi ou o sumiço das lixeiras da Urca

Charge: Alan Dunn (New Yorker)

No dia 20 de maio de 1950, a revista norte-americana “The New Yorker” publicou uma charge do cartunista Alan Dunn, colocando a culpa pelo sumiço das latas de lixo da prefeitura da cidade de Nova York em simpáticos alienígenas. Aliás, confesso que pensei algo parecido quando, em 2017, as latas de lixo laranjinhas desapareceram do dia para a noite do bairro da Urca, no Rio.

Quatro físicos do Laboratório Nacional de Los Alamos, nos Estados Unidos, vão almoçar juntos. Enrico Fermi, Emil Konopinski, Edward Teller e Herbert York comentam a crescente onda de avistamentos de OVNIs e, é claro, a charge com os felizes ETs e suas lixeiras novaiorquinas. De repente, Fermi faz uma pergunta: “onde está todo mundo”, que acabou dando origem ao famoso paradoxo, a “contradição entre a probabilidade de existência de civilizações extraterrestres e a falta de evidências para, ou contato com, tais civilizações”.

É bom lembrar que isso aconteceu em 1950 e até hoje, julho de 2018, 68 anos depois e muita tecnologia e conhecimento disponível, nada mudou. Radiotelescópios varrem estrelas, galáxias, pulsares, buracos negros, exoplanetas e estrelas de neutron à procura de sinais alienígenas. Aliás, em 1974 um deles, o de Arecibo, transmitiu enviou uma mensagem codificada com dados de nossa civilização, na direção de uma galáxia distante 25 mil anos luz, com estimadas 300 mil estrelas. Apesar de todo o esforço, continuamos escutando apenas o silêncio.

Enrico Fermi trabalhou no desenvolvimento do primeiro reator nuclear, teoria quântica e mecânica estatística. Ganhou o Nobel de Física em 1938, quando ainda morava na Itália. Emigrou para os Estados Unidos e participou do Projeto Manhattan, que fez a primeira bomba atômica. Morreu de câncer, prematuramente, em 1954. Em um de seus últimos textos deixou um alerta sobre o uso da nova arma e torcia “que o homem se tornasse suficientemente adulto para fazer bom uso dos poderes que ele adquiriu da natureza.”

Pelo que temos vivido e, principalmente, o tamanho dos arsenais nucleares, será muito mais fácil encontrar um ET do que serenidade e bom senso em humanos.

Carlos Emerson Júnior

Onda verde

Foto: Carlos Emerson Junior

Na época da Rio+20 , lá no ano de 2012, recebi a historinha abaixo por e-mail, de autor ignorado, ilustrando como a nossa sociedade consome e descarta em ritmo acelerado, sem medir ou sequer ter noção de suas consequências. Quando deixamos que a situação fugisse do controle, jamais imaginamos que o futuro chegaria tão cedo, cobrando o preço de nossa imprevidência. Rendeu até uma crônica no jornal A Voz da Serra, daqui de Nova Friburgo.

Divirtam-se!

*****

“Na fila do supermercado, o caixa diz uma senhora idosa:

– A senhora deveria trazer suas próprias sacolas para as compras, uma vez que sacos de plástico não são amigáveis ao meio ambiente.

A senhora pediu desculpas e disse:

– Não havia essa onda verde no meu tempo.

O empregado respondeu:

– Esse é exatamente o nosso problema hoje, minha senhora. Sua geração não se preocupou o suficiente com nosso meio ambiente.

A velha senhora suspira profundamente e fala:

– Você está certo, a minha nossa geração não se preocupou adequadamente com o meio ambiente. Naquela época, as garrafas de leite, refrigerante e cerveja eram retornáveis: a loja mandava de volta para a fábrica, onde eram lavadas e esterilizadas antes de cada reuso.

– Subíamos as escadas, porque não havia escadas rolantes nas lojas e nos escritórios. Caminhamos até o comércio, ao invés de usar o nosso carro de 300 cavalos de potência cada vez que precisamos ir a dois quarteirões. Mas você está certo. Nós não nos preocupávamos com o meio ambiente.

– Até então, as fraldas de bebês eram lavadas, porque não havia fraldas descartáveis. A secagem era feita por nós mesmos, não nestas máquinas bamboleantes de 220 volts. A energia solar e eólica é que realmente secavam nossas roupas. Os meninos pequenos usavam as roupas que tinham sido de seus irmãos mais velhos e não roupas sempre novas. Mas é verdade: não havia preocupação com o meio ambiente.

– Naquela época tínhamos somente uma TV ou rádio em casa, e não uma em cada quarto. Na cozinha, batíamos tudo com as mãos porque não havia máquinas elétricas, que fazem tudo por nós. Quando embalávamos algo um pouco mais frágil para o correio, usávamos jornal amassado para protegê-lo, não plastico bolha ou pellets de plástico que duram cinco séculos para começar a degradar.

– Bebíamos água diretamente da fonte, em vez de usar copos plásticos e garrafas pet que agora lotam os oceanos. Recarregávamos as canetas com tinta umas tantas vezes ao invés de comprar uma outra. Abandonamos as navalhas, ao invés de jogar fora todos os aparelhos descartáveis e poluentes só porque a lamina ficou sem corte.

– Na verdade, tivemos uma onda verde naquela época. Naqueles dias, as pessoas tomavam o bonde ou ônibus e os meninos iam em suas bicicletas ou a pé para a escola, ao invés de usar a mãe como um serviço de táxi 24 horas. Tínhamos só uma tomada em cada quarto, e não um quadro de tomadas em cada parede para alimentar uma dúzia de aparelhos. E nós não precisávamos de um GPS para receber sinais de satélites a milhas de distância no espaço, só para encontrar a pizzaria mais próxima.

– Por tudo isso, meu jovem, é risível que hoje se fale tanto em meio ambiente, mas ninguém pense em abrir mão de nada e muito menos viver um pouco como na minha época.”

Carlos Emerson Junior (2012/2018)

Ódio

Foto: Carlos Emerson Junior

No poste tinha uma palavra, “hate”, ódio em inglês. Como sei que postes não odeiam ninguém, claro fica que alguém foi lá e escreveu. Não sei se o ódio desse alguém é com a nossa língua, com o próprio poste ou a humanidade em geral. Posso estar enganado, de repente “hate” é apenas uma sigla ou sei lá, a assinatura de um artista ainda desconhecido.

Confesso, fiquei cismado. Para que serve o ódio? Seria realmente a antítese do amor? O escritor gaúcho Érico Veríssimo garantia que “o oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença.” É… Pode ser. Mas indiferença não faz ninguém escrever “hate” em um poste ou rechear as redes sociais com demonstração de ódio explícito, sem o menor pudor!

Pessoalmente e com toda a sinceridade, acho o ódio um sentimento muito ruim, negativo, desgastante, inútil mesmo. Quando você declara seu ódio, está fechando qualquer tipo de diálogo, conhecimento. Aliás, o francês Sthendal uma vez declarou que “já havia vivido o suficiente para ver que a diferença provoca o ódio.

Pois é, talvez seja por aí. O medo também é associado ao ódio e tudo isso vem do desconhecimento e, porque não, da falta de empatia e respeito entre seres ditos humanos. Perseguições de raças, religiões, culturas, comportamentos, caramba, acho que isso existe desde que o homem saiu das cavernas.

Lamentavelmente, em pleno século 21, com toda a tecnologia disponível para nos unir em todos os cantos do planeta, cada vez mais nos refugiamos em nossos cantinhos, amargurados até o pescoço, odiando tudo e todos que nós não entendemos, desconhecemos ou tememos.

Como disse acima, as redes sociais, através das figuras dos políticos, “formadores de opinião”, pastores e que tais, se presta muito bem para disseminar mensagens de ódio como um efeito manada, onde ninguém questiona o que ouve/lê/vê, exatamente porque não sabe ou quer ouvir/ler/ver. Onde foi parar nosso senso crítico, se é que já tivemos algum?

Não, meus caros, não vou me alongar mais por causa de uma palavra em inglês pintada em um poste numa rua deserta das Braunes, aqui em Nova Friburgo. Prefiro encerrar com uma frase do Jorge Luiz Borges, falando de amor, que é tudo o que nos resta, no fim das contas:

“Parece-me fácil viver sem ódio, coisa que nunca senti, mas viver sem amor acho impossível.”

Carlos Emerson Junior

O caso do andar de cima

Foto: Carlos Emerson Jr.

Como sempre e por causa do tipo de construção, os barulhos do vizinho andando no andar abaixo do seu apartamento pareciam vir dos quartos, na mansarda acima da sala. A sobrinha que estava de visita, uma típica criança de apartamento de cidade grande, logo estranhou:

– Tio, que barulho é esse?

– Barulho?

– É! A tia está lá em cima?

– Não, sua tia está aí ao lado, na cozinha…. Ah, você está falando desses passos?

– Tô! Tem gente lá em cima?

– Ninguém, querida. Aliás, isso aí é uma história muito triste. Quando estavam construindo esses chalés, um operário resolveu dormir na hora do trabalho em pleno buraco onde hoje é o porão, veja você. O pessoal da obra não notou e encheu o local de cimento, enterrando o pobre coitado vivo. Aí, todas as noites ele anda pelos quartos e corredores mas, não sei porque, tem uma predileção especial pelo nosso!

– Tia, cadê você, eu quero voltar pro Rio!

Os olhos da menina estavam arregalados e para piorar, a cachorra resolveu se posicionar no início da escada e latir furiosamente para cima.

– Júnior, eu ouvi! Que maluquice é essa Ô minha querida, seu tio é um idiota que só fala besteira. Você não vê que essa história é uma maluquice só Nunca morreu ninguém e esse barulho é normal nesse tipo de construção.

– Puxa vida, desculpe, eu só estava brincando. Olha, vamos subir e você vai ver que está tudo vazio. Não tem ninguém no andar de cima.

– Eu não quero ir lá em cima, eu quero voltar pra casa!

– Ô menina, não precisa chorar, vai, além do mais sua tia vai ficar puta da vida….

– Júnior! Olha o palavrão!

-…. Atacada comigo! Tá bom, eu vou cobrir o fantasma de porrada e ele vai embora, está bom assim?

– Vamos os três lá no segundo andar e você vai ver que isso tudo é fantasia e os barulhos vem mesmo é do apartamento de baixo.

– Será tia?

– Claro, olha só, o quarto de hóspedes está completamente vazio e aqui no nosso quarto só tem mesmo aquele baratão na cortina… Ai, que horror, aquilo é um monstro, tira já de lá.

– Mas que barata o quê,é um besouro que não faz mal pra ninguém, basta pegar com cuidado e jog….

– Você não vai colocar a mão nessa “coisa”. Virgem, ele voa!

– Gente, já está tarde, vocês vão acordar toda a vizinhança, logo tem polícia aí na porta. Faz o seguinte, desce com a menina que eu vou tirar o bicho assim que ele parar de dar rasantes na minha cabeça e pousar em algum lugar.

Não deu outra: pegou o cascudão com todo o cuidado e o soltou na varanda, fechando a porta para que ele não voltasse.

De repente, a gritaria recomeçou:

– Jesus, Maria, José, o besouro está aqui na sala, entrou voando pela janela da cozinha Desce logo, tira ele daqui!

– Eu quero voltar pro Rio, essa casa da tia é muito ruim, tem “obrário” morto e “bizorro” grandão!

– Gente, eu vou matar esse filho da pu….

– Não tio, não mata não! Aí vão ser dois fantasmas na casa. Me leva de volta pra minha mãe!

O final de semana com a sobrinha prometia.

Carlos Emerson Jr. (2014)

Inspiração, cadê você?

Foto: Carlos Emerson Jr.

Da janela do meu escritório eu vejo o Caledônia. Por cima dos telhados das casas, muito além da antena da Rádio Friburgo e, nesses dias de março, sempre enevoado e chuvoso. No outono o sol bate forte pela manhã e a rocha fica que nem ferrugem, contrastando com o céu bem azul e limpo.

Essa é a minha janela. Coloquei a escrivaninha bem ao lado dela. Meu desktop, as anotações, rascunhos, fotos, telefones, o pendrive… Enfim, é aqui que eu trabalho. Inspiração? Com essa vista? Sei não, às vezes atrapalha. Distrai sabe, a gente fica olhando, divagando, agora, por exemplo: a montanha está dentro das nuvens e só vejo a chuva caindo lá pelos lados do Cônego.

Tudo muito cinza, muito escuro. Aliás, com licença que vou baixar o vidro, está batendo um vento gelado! Mas onde eu estava? Ah sim, inspiração! Curiosamente, não conheço a montanha. Dizem que em dias claros, lá do alto podemos ver o Rio e a Baia da Guanabara. Também falam que a subida é fácil, apesar de longa. Talvez um dia…

E lá estou eu fantasiando novamente. As nuvens que rodeiam a montanha agora vem rápido em minha direção. O vento forte faz as janelas baterem e trovões já se fazem ouvir. Vai chover outra vez e eu aqui no escritório, ao lado da janela, precisando escrever um texto, qualquer um!

Inspiração? Onde foi parar você, minha cara? Olhando para a janela, só consigo mesmo é sonhar.

(2008/2018)