Olho de Deus

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Já fui mais cético. Aliás, muito cético. Mas hoje, com o advento do Google, que sabe, entre outras coisas, a minha cor favorita, onde moro, meus telefones, gostos pessoais, meus medos, remédios, horários e até mesmo o que estou fazendo neste exato momento (digitando esse texto no Google Docs, é claro), fica difícil não acreditar em uma entidade superior a nós e ao próprio Google, criadora e responsável por toda essa humanidade tecnológica, cujo propósito, a propósito, ainda não foi compreendido ou explicado por ninguém.

Dito isto, pergunto: vocês já viram o “Olho de Deus”? Eu vi, ontem à noite e bem aqui, no paredão da Urca. Não, não estou falando da nebulosa Helix, localizada na constelação de Aquário, em uma posição de onde, idealmente, vigiaria a Terra. Infelizmente é preciso um telescópio, coisa que não tenho e, se tivesse, jamais levaria um para uma corrida. Sou humano mas ainda tenho algum juízo.

Vinha desacelerando o passo, depois de uma perna de ida e volta de 5 quilômetros, quando bem à frente surgiram duas luzes vermelhas, dançando além da mureta, em cima do mar. O céu, claro e estrelado, emoldurava e abrigava o “fenômeno”. Curioso e cauteloso, parei e saquei o smartphone para as fotos. Nesse momento as luzes se voltaram e se aproximaram, como se quisessem falar comigo. Acreditem ou não, meus queridos leitores, elas falaram e eu ouvi, claro e nítido!

– Vocês bancaram um evento caríssimo em troca de duas semanas de prazer, sem sequer saber quanto custaria, que sacrifícios fariam e o que ganhariam em troca. Esqueceram dos hospitais aos pedaços, sem remédios e médicos, da insegurança nas ruas, das guerras urbanas nas comunidades, dos assassinatos, dos roubos, da falta de saneamento básico que atinge mais da metade da população. Estão todos felizes, com a auto estima para cima, saudades dos gringos e ainda por cima agradecidos ao ex-presidente e ao ex-governador, enrolados até o pescoço com a justiça, mas que provaram definitivamente que vocês só precisam mesmo é de pão, vinho e samba.

Nesse momento percebi um ruido forte, como se o zumbido estivesse chorando, se é que a imagem é possível. As luzes, quase no meu rosto, refugaram, o barulho aumentou como um grito e o, vá lá, “Olho de Deus” se espatifou na calçada da Avenida João Luís Alves, bem na minha frente. Hipnotizado eu estava, hipnotizado permaneci.

“Desculpa, moço, o senhor se machucou?” Drone? Como assim, aquilo era um drone? Era sim e jazia estatelado no chão, aparentemente sem maiores danos materiais. Saí do transe. O dono da geringonça me explicou que estava tentando filmar uma saída clandestina de esgoto mas parece que nem o aparelho de última geração aguentou a fedentina.

Coisas do Rio, mesmo.

Foto: Carlos Emerson Junior

Reboco

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Reboco, palavra originada do árabe “rabuq”, é aquela argamassa que usamos para alisar paredes, preparando-a para receber cal ou pintura. Aliás, no caso de paredes com tijolos ou blocos, temos que percorrer quatro etapas: chapisco, emboço, reboco e a massa corrida. Mas isso é assunto para blog de construção civil e está aqui só para ilustrar o caso que aconteceu em um Dia dos Namorados.

O meio da noite se aproximava, a cachorra dormia placidamente enquanto o casal lutava para assistir na televisão um filme romântico ruim de doer, sem despencar no sofá, completamente vencidos pela mediocridade e o sono.

De repente, um barulhão enorme grita no silêncio e no escuro: alguma coisa caiu na na área externa do apartamento. Imediatamente acordaram do torpor televisivo. A vizinhança toda correu para janela.

– Caramba, será que alguém pulou aí fora?

– Como assim, suicídio?

– Sei lá!

– Não parecia gente… quem sabe um gambá que escorregou lá de cima?

– Você consegue ver alguma coisa da janela?

– Não, está muito escuro, esqueci que a luz tinha queimado e, não tem jeito, vou lá ver, olha a comoção que está provocando…

Pegou a lanterna, acendeu e foi checar o que tinha acontecido. Para alívio geral não havia corpo algum, as plantas estavam intactas e nenhum gambá pulou no seu pescoço. O piso, no entanto, estava cheio de pedaços quebrados de reboco.

A vizinha do andar de cima, assustada, mostrava seu prejuízo, a persiana do quarto quebrada. A lanterna, na verdade uma lanterninha de led do tamanho de uma canetinha, mal iluminava a fachada do prédio. De qualquer maneira, ficou claro que não fora um atentado terrorista e sim um reboco mal colocado (é assim mesmo que se fala?).

Foi isso, foi aquilo, cadê o síndico, cadê a polícia, ainda bem que não machucou ninguém, o reboco transformou o fim de noite num convescote. Sem conclusão alguma, trancaram a casa e foram dormir, desta vez na cama mesmo. Ainda teve tempo para encerrar a aventura com a pergunta que não queria calar, desde que o incidente começou:

– Já imaginou se fosse um suicida? Sabe como é, Dia dos Namorados, a pessoa solitária, deprimida, uma ótima data para morrer e a gente ia passar a noite na delegacia prestando depoimentos. A mulher sequer respondeu. A essa altura, dormia o sono dos justos.

Saltos mortais

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Foi uma festa bonita, sem dúvida. De bom gosto, emocionante em alguns momentos, visualmente deslumbrante em outros, enfática nas horas certas. Deixou sua mensagem. Trouxe de volta uma Gisele resplandescente. O Hino Nacional delicadamente interpretado por Paulinho e um quarteto de cordas. A coreografia sem limites da Débora Colker. Até o 14 Bis voou. Gostei.

Mas como bem dizia o filósofo Neném Prancha, “o importante é o principal, o resto é secundário”, o maravilhoso show de abertura dos jogos do Rio foi apenas isso, uma festa, o aperitivo de um evento com enorme alcance e importância. Acreditar que nossa vida mudou depois do espetáculo da sexta-feira, soa como o antigo sonho hippie de que o mundo, após o Festival de Woodstock, não seria mais o mesmo…

Os atletas, principais astros e razão de ser dos jogos, já estão aí, mostrando para que vieram. Medalhas estão saindo, recordes começam a ser derrubados. Alguns quebraram a perna, outros fraturaram costelas e até mesmo a coluna cervical. Estão dando, literalmente, o sangue. Até agora, dia 8, o Brasil só conseguiu uma isolada medalha de prata. É pouco, eu sei, afinal estamos competindo em casa mas, que bom, ainda tem muita disputa pela frente.

A foto que ilustra esse texto, a gigantesca instalação do artista francês JR em cima de um edifício no Morro da Viúva, no bairro do Flamengo, mostrando um atleta saltando um obstáculo, talvez seja a mais representativa das dificuldades que os cariocas enfrentam no seu dia a dia, antes, durante e, é claro, depois dos jogos. Afinal, em setembro, será a nossa vez de saltar diariamente sobre os obstáculos de sempre. E, principalmente, curar a ressaca e pagar a conta da festa.

Texto e foto: Carlos Emerson Junior

Folhas de inverno

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As folhas caem das amendoeiras. Muitas, muitas folhas. Amarelas, marrons, vermelhas, esverdeadas. O outono passou, elas não notaram e permaneceram vistosas até meados de julho, quando os ventos mudaram trazendo o frio do mar. Os garis, coitados, não dão vazão. As calçadas também não e acabamos nos atrapalhando para circular. Mas tudo tem um lado bom, é hora de se renovar. No verão, as amendoeiras e suas enormes sombras, vão nos proteger do sol que castiga o Rio naquela estação.

Foto: Carlos Emerson Junior

Miniconto: porta

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Acordou bruscamente, um tanto desassossegado, com uma vaga impressão de que estava sendo observado. Na escuridão do quarto, muito escuro, viu a mulher dormindo profundamente ao seu lado e no chão, em um tapetinho, a cachorra sequer se mexia. O sono era tanto que definiu logo que tivera algum sonho e fechou os olhos para dormir novamente.

Dessa vez percebeu uma respiração distante, quase um suspiro, bem diferente dos roncos da mulher e da cachorra. Apoiou-se nos braços e levantou um pouco o tronco. Nada mudara, entretanto. Conferiu as horas e sentiu vontade de ir ao banheiro. Suspirou profundamente, sentou-se na beira da cama e o coração disparou: era capaz de jurar que havia alguém parado na porta do quarto.

Por um segundo achou que ainda estivesse dormindo e fez uma força enorme para acordar. Gelou por dentro. Um vulto escuro, imóvel e indistinguível, como se fosse uma sombra, parecia olhar fixamente para ele. Estranhamente a mulher e a cachorra continuavam em seu sono profundo. Tentou falar alguma coisa mas não conseguiu… Pelo canto dos olhos notou que estava se adaptando à escuridão e a sombra, ou o que quer que fosse, rapidamente ia sumindo. De fato, como se fosse um pesadêlo, simplesmente desapareceu.

Assustado, exausto, suado, esticou o corpo na cama e cerrou os olhos. Sabia que não ia conseguir voltar a dormir tão fácil. Fora um sonho, é claro, nada mais do que isso. Por via das dúvidas, resolveu que não ia sair da cama por nada até amanhecer. Ah, sim, claro, jurou para si mesmo que nunca mais ia beber antes de dormir. O uisque estava bom e tinha exagerado. Foi isso. Uisque paraguaio. Virou-se para o lado e adormeceu.

Nem chegou a pegar no sono: do lado de fora do quarto, atrás da porta, ouviu uma risadinha…

A sala escura

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Na fortaleza, plantada em uma rocha que avançava para dentro do mar, havia uma sala peculiar, escavada no subsolo, abaixo do nivel da água. Por esse motivo, quando a maré subia, a sala inundava, algumas vezes, diziam, completamente.

A sala não tinha janelas e qualquer tipo de iluminação. O acesso era feito por um alçapão de madeira no seu teto, que só abria por fora. Existia uma porta de ferro, muito grande e pesada que, garantiam, jamais fora usada, ninguém sabia explicar porquê.

O interior da sala era sufocante, quente, úmido, fedorento e aterrorizante. O tempo todo você ouvia o barulho das ondas quebrando em algum lugar. O piso de pedra estava sempre encharcado e não havia um lugar seco sequer para dormir. Contavam que nas noites de mar alto, os escravos rebeldes, que ali ficavam de castigo, gritavam implorando para sair da sala, enquanto a água subia e ia levando, um por um, para suas profundezas.

E essa era a parte mais assustadora da sala: na manhã seguinte, quando abriam o alçapão, não havia ninguém mais lá dentro. Os corpos sumiam, como se a sala não quisesse devolver seus mortos. Alguma passagem, fenda ou falha, tragava tudo o que estivesse lá dentro. E ficava a espreita, aguardando novos infelizes.

Um dia aboliram a escravidão. A fortaleza ganhou canhões potentes, outros ocupantes, as ideias mudaram, o mundo se modernizou e nunca mais se ouviu falar da sala escura e sem porta até que, muito anos depois, um movimento anormal de gente entrando, circulando e saindo dos corredores da fortaleza chamou a atenção do povo do lugar.

Contavam – e sempre tem quem veja e conte – que alguns jovens, garotos quase, estavam sendo levados e jogados na infame sala escura, todos os dias, todas as noites. E, da mesma forma que antigamente, quando abriam o alçapão, não havia mais ninguém.

Certa vez, um dos guardas da fortaleza tomou coragem e perguntou para um superior se era verdade que a sala estava sendo usada. O homem olhou para os lados e bem sério mandou o guarda esquecer tudo o que ouvia, via e sentia. Para sempre. Explicou que as pessoas que iam para a sala eram os inimigos, não mereciam a menor compaixão.

O guarda ficou calado e obedeceu. A partir daquele dia deixou de ouvir os gritos pedindo socorro, não viu os corpos deformados por surras e torturas, deixou de sentir pena pelos que iam ser arremessados pelo buraco do alçapão. Saia de perto quando as pessoas conversavam sobre a sala.

Hoje, a fortaleza virou um museu. As pessoas vão lá para passear, estudar ou simplesmente tomar um café. A sala foi reformada, suas paredes pintadas e impermeabilizadas, a fenda do mar selada e até mesmo uma iluminação azul, bem fraca, foi instalada. Ao fundo, construiram um pequeno altar e colocaram a imagem de uma santa.

Ficou bonito. Pena que ninguém mais se lembre de todos os que entraram e sumiram naquela sala escura sem porta da fortaleza. Pena mesmo. Hoje,todo mundo acabou ficando como o guarda. Nada ouve, não vê, não sente e, principalmente, não fala.

A sala escura da fortaleza ainda está lá.

Sempre.