As cidades exterminadas

Foto: Carlos Emerson Jr.

Uma observação para os “jornalistas profissionais” e “colunistas especializados” do Globo: desde ontem, o jornalão carioca e o Portal G1 noticiam continuamente que o governo federal vai extinguir mais de 1.000 cidades que não preencham requisitos mínimos financeiros, densidade populacional e por aí vai. Aliás, a foto do post foi feita com uma matéria da edição impressa de hoje, dia 6 de novembro, na página 20.

O site Brasil Escola, explica de maneira didática e simples a diferença entre município e cidade:

Por cidade, entende-se o espaço urbano de um município delimitado por um perímetro urbano. Para ser considerada cidade, é preciso ter um número mínimo de habitantes e uma infraestrutura que atenda minimamente as condições dessa população, mesmo que essa cidade seja dependente de outras que se localizem próximas a ela.”

Por município, entende-se o espaço territorial político dentro de um estado ou unidade federativa, é o espaço administrado por uma prefeitura. O município possui a sua zona rural e a zona urbanizada. Um mesmo município pode ter várias cidades, também chamadas de distritos, de forma que o nome do município será o mesmo da cidade principal ou do distrito sede, e é nesse distrito que se encontra a administração ou prefeitura.”

Extinguir 1.254 cidades só com armas nucleares, bombardeios aéreos de saturação, barragens de artilharia, mega operações de engenharia de demolição e por aí vai. E ainda nem falei dos refugiados. Onde vamos abrigar os dois, três, quatro mil moradores das cidades “exterminadas”? No Projac? Pois é. E aí vem o diretor de jornalismo do Globo garantir que eles são sérios. Estou morrendo de rir.

Vendeu a alma e não foi ao teatro

Foto: Carlos Emerson Jr.

Platéia e palco vazios. Uma sensação de abandono e desesperança ocupam os lugares esquecidos, coxias às escuras, camarins desertos, bilheterias fechadas. Ninguém vai aparecer para apresentar um espetáculo que ninguém assistirá. Infelizmente acabou, c’est fini.

Este post é dedicado a alguns colunistas da imprensa (eles sabem quem são) que, por motivos diversos, perderam todo o sentido, todo o conteúdo, toda a alma e, é claro, toda a honestidade. Meus sentimentos.

O caso das senhas expostas

Google Imagens

E não é que de repente, do nada, o Google abriu uma janela pedindo para que eu revise 111 sites que acesso com uma senha que foi exposta. Não satisfeito, abre uma aba listando todos os infelizes, sugerindo que eu comece imediatamente. Caramba, deve ser grave, pensei com meus botões (apesar de estar vestindo uma blusa de moletom, sem nenhum botão…). Missão dada é missão cumprida, pensei lembrando os tempos de exército. Sem procrastinar, soldado!

Devo ter acessado a grande maioria dos sites citados na época que a internet era conectada pelo telefone, um serviço tão ruim, lento, inseguro e instável que fiz questão de apagar do meu banco de memórias. Pois é… E aí o Google resolve reativar antigas e obscuras sensações. Eu, heim! Mas voltando à vaca fria (isso existe?), cerca de 80% dos locais onde as senhas foram acessadas, não existem mais, talvez apenas nas centrais de dados da gigantesca buscadora.

Salvei a listagem e resolvi deixar a pesquisa para um fim de semana chuvoso e frio. A ideia é entrar nos sites que ainda existem e, se for o caso, cancelar minha conta. Um trabalhão só, mas vale a troca, os jogos do Botafogo não tem sido motivo para nenhuma emoção ou torcida. Aliás, talvez o Google, que tudo vê e tudo sabe (e olha que não é nenhuma divindade), esteja me dando uma oportunidade de “melhorar” meu humor e me “divertir” um pouco.

Pelo menos na cabeça dos seus processadores.

Um crime bárbaro

Redes Sociais

A cena é dantesca, brutal, violenta. O indivíduo vai de bicicleta até a casa da ex-companheira, num condomínio em Mury, aqui em Nova Friburgo, discutir qualquer coisa sobre dinheiro. Não se entendem, ele puxa uma tesoura e a atinge em um braço e nas nádegas. Ela corre para dentro de casa, pedindo socorro para uma amiga que a estava visitando. As duas se escondem dentro de um dos banheiros. O “coisa ruim” não se afoba: tranca a porta por fora e, aproveitando que essa parte da residência tem muito acabamento em madeira, provoca um incêndio. Isto feito, rouba o carro da ex e foge em direção à Lumiar.

Os vizinhos, desesperados, tentam entrar na casa em chamas para soltar as duas mulheres. Mas o fogo lambe a madeira e parte do telhado cai, provocando queimaduras em até 90% do corpo delas. Os bombeiros rapidamente chegam, resgatam as duas ainda com vida e somente após duas horas de luta conseguem apagar as chamas. Com 90% do corpo queimado uma delas é removida para o hospital de queimados de Nilópolis e a outra vai para o hospital da Unimed. Seu estado de saúde é desesperador.

Nervoso e cheio de ódio, o criminoso provoca um acidente na estrada. A polícia, já devidamente ciente e tendo iniciado as buscas, prende e leva o indivíduo para a Delegacia de Friburgo, onde ele confessa o crime bárbaro. A tragédia tem seu desfecho na quarta e na quinta-feira, quando as vítimas não resistem e morrem, para consternação geral da nossa cidade.

E agora?

Pois é, a pena para feminicídio vai de 12 a 30 anos, podendo ser aumentada em 1/3 até a metade se o crime for cometido durante cumprimento de medida protetiva de urgência o que, aparentemente, não era o caso. E aí, como estamos no Brasil e a justiça permite (e incentiva) todo o tipo de recursos, corre o risco do advogado desse “coisa ruim” entrar com todos tipos de recursos, inclusive laudos comprovando que o cliente é louco varrido. Não, isso não podemos permitir.

Lembro que em outros tempos crimes violentes como esses eram punidos com penas de esquartejamento, forca, guilhotina, fuzilamento e cadeira elétrica, entre os mais “populares”. Hoje somos civilizados e vamos acreditar que esse celerado possa ser reabilitado. Aplaudir quando a lei fizer a progressão de sua pena para o regime semi-aberto. Entender que ele tem direito a saídas da prisão no dia dos pais, natal, ano novo e assemelhados. Sorrir felizes e recebê-lo de braços abertos quando a justiça finalmente suspender sua pena e mandá-lo de volta ao seio da sociedade. Ou, bárbaros que somos, comemorar quando os outros presidiários, revoltados, fizerem justiça com as próprias mãos.

Que Deus me perdoe.

Esta crônica é dedicada à Alessandra Vaz e Daniela Mousinho. Que seu sacrifício não tenha sido em vão.

Vamos pintar a casa?

Divulgação

Pensar em pintar sua casa é uma coisa, decidir (prá valer) é que são elas. Começa pela necessidade, sempre vai ter alguém garantindo que dá para segurar por mais uns dois ou três anos.

– Olha só, o branco só está ligeiramente amarelado e tem umas manchas cinza na parte inferior das paredes. Ninguém nota.

– Como ninguém nota, isso é fungo, se espalha que é uma desgraça!

– Exagero seu, essa pintura ainda aguenta uns bons 5 anos, vai por mim.

Pois sim!

Superada essa fase, aparecem os palpiteiros das cores, cheios de certezas e modernidades.

– Ah, a sala ficaria linda num tom fúcsia almiscarado, contrastando com as paredes roxo claro tipo sexta-feira santa do quarto do casal e um verde tempestade tropical em alto mar no escritório. Vai ficar chiquérrimo.

– Jamais, só faltou colocar sancas douradas! Prefiro um tom mais neutro, tipo um azul clarinho, mesclando com um rosa amor no quarto de vocês e creme de abacate na área de trabalho.

– Pô, estamos falando de cores, não de sobremesa! A cozinha ficaria marrom escura, presumo…

Só pode ser piada. E de muito mau gosto. Mas com determinação a gente ultrapassa essa loucura e mergulha de cabeça na pior de todas, quem vai fazer o serviço.

– Bom, o mais lógico, prático e barato sou eu mesmo. Posso não ter muita experiência, mas tenho tempo e disposição. Só preciso de uma escada que não caia, brocha (sem risinhos), pincéis, espátula, massa de correr, gesso, capacete, avental, cinto de segurançajornais velhos e cerveja à vontade.

– Você está maluco? Olha a sua idade, tenha juízo. E já te conheço, essa pintura só vai acabar no dia do Juízo Final. Isso é desculpa para encher o bucho de cerveja. Não, vamos contratar um profissional.

– Mas quem?

– Tem o Jorge Soldador…

– Acho que não. Ele é bom com fogões, geladeiras, máquinas de lavar e assemelhados. Nunca soube que ele pintava. Mentira, soube sim, foi o próprio Jorge que reformou sua oficina. Ficou uma porcaria, não é mesmo?

– Que tal o Luís Pinguinha?

– Tá doida? Ele bebe mais que o pinguço de Curitiba. Cobra caro, suja tudo, é fofoqueiro e ainda corre o risco de despencar de uma das janelas daqui de casa. O cara vê tudo em dobro.

– Tem razão. Bom, posso falar com uma amiga arquiteta e pedir uma indicação, mas com certeza vai sair mais caro, ela só trabalha com empresas.

– Se é por isso, então vamos entrar em contato com a Odebrexi. Com essa história de lava-jato, o movimento deve ter caído e de repente a gente consegue um preço bom.

– Com ou sem propina?

A guerra do Rio

Foto: Redes Sociais

A guerra entre facções criminosas nas favelas do Chapadão e da Pedreira, na zona norte do Rio, além da óbvia demonstração da insegurança beirando o caos que tomou conta da cidade do Rio reforça a sensação de que a idéia de jumento de construir um autódromo na antiga e história área de exercícios de tiros reais do Exército, em Deodoro, no meio do caminho da batalha. Os depoimentos, fotos e vídeos mostrando balas traçantes cruzando a noite de um morro ao outro, ônibus incendiados em plena via pública, moradores aterrorizados procurando abrigo em unidades hospitalares e, infelizmente, os feridos e mortos ainda não contabilizados, estão disponíveis em toda a internet.

Minha irrestrita solidariedade aos meus conterrâneos cariocas. Nossa cidade não merecia ter chegado a tal situação de abandono. Minha solidariedade também e, principalmente, com os moradores das comunidades que foram esquecidas pelas autoridades desonestas, incompetentes e corruptas que infestam e são responsáveis por quase vinte anos da roubalheira generalizada e sem limites que quebrou o Rio. Elas são tão ou mais criminosas do que esses traficantes de merda que oprimem moradores e trabalhadores.

E a propósito, vão construir autódromo na… Deixa prá lá.

Foto: G1

Meus pêsames, ministra

O texto abaixo é uma transcrição fiel da petição a um processo movido contra o INSS, que foi esquecido no Supremo Tribunal Federal, com certeza porque não trata dos interesses do bandido “preso” em Curitiba ou de seus asseclas. Lamentável, um insulto a todos os brasileiros que sustentam os luxos e extravagâncias desses togados, um insulto aos profissionais do Direito que batalham 24 horas pelos seus clientes, um insulto à nossa Democracia e, principalmente, total falta de empatia e humanidade. A justiça não é cega.

“SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
Exma. Sra. Dra. Ministra Rosa Weber

Processo nº: REX 586068
Recorrente: INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIALRecorrido: HILÁRIA ANTUNES CARDOSO E OUTRO

Os amicus curiae, por sua procuradora, vêm, mais uma vez, dizer e requerer o que segue:

  1. Este processo aguarda julgamento no STF desde maio de 2008; há 11 (onze) anos, a parte aguarda o pronunciamento da Corte.
  2. Interveio no feito, e desde maio de 2012 suplica o julgamento deste RE, cujo objeto tem reflexos no processo 96.1000026-6, que tramita, suspenso, na 2ª Vara Federal de Rio Grande/RS.
  3. No entanto, o STF não cumpriu, até hoje, o dever de prestar jurisdição de forma célere. A sociedade está cansada de um Judiciário caríssimo e que, encastelado, desconsidera os que esperam pela “efetividade” e pelo cumprimento das promessas constitucionais. Esse desprezo pelo outro, que Vossa Excelência encarna tão bem, ao fazer dormir um processo por 11 anos, encontrou agora a morte de um dos que esperam. É com lástima que vimos aos autos juntar a cópia de atestado de óbito de Celmar Lopes Falcão, e dar-lhe os parabéns. Parabéns, Ministra, pela demora! Informamos também que as pompas fúnebres foram singelas, sem as lagostas e os vinhos finos que os nossos impostos suportam.

Lílian Velleda Soares OAB/RS54.875
Maria Emília Valli Bütow OAB/RS 89.172″

Originais aqui e aqui.

Cancelando uma assinatura

Foto: Congresso em Foco

Por uma série de motivos que nem preciso explicar, resolvi pedir o cancelamento da assinatura da edição digital do O Globo, um direito meu, uai. Pois muito bem. O primeiro obstáculo foi encontrar no site onde ou como fazer tal solicitação. Procura daqui, assunta dali, revira o Portal do Assinante e nada, nem um telefone sequer. Fui até a seção “ajuda” para ver se havia alguma dica e bingo, descobri um link que levava a um aviso que o pedido só seria possível por telefone, um do Rio de Janeiro e um 0800. Muito aqui entre nós, uma solução antipática, contrariando a orientação do Procon.

Liguei, tive que explicar o porquê da desistência da assinatura, citar uns três ou quatro artigos, colunistas ou editoriais que tinham me incomodado, ouvir detalhes de uma oferta para pagar R$ 1,60 durante três meses, confirmar todos os meus dados pessoais, informar meu telefone celular (eles já tinham o fixo) para só então ter meu pedido aceito e recebido um protocolo. Ah, sim, a mocinha avisou que o processo estava em andamento e em até 20 dias eu receberia uma ligação do jornal confirmando o cancelamento. Caramba, o Procon sabe disso?

Uns quinze dias depois o telefone fixo toca. Era uma funcionária do jornal querendo saber toda a história de novo, porque eu queria cancelar a assinatura, o que eu não gostava, que era um absurdo ficar sem o Globo e disparou um falatório atordoante, de onde, às vezes, ouvia coisas como “temos 97 colunistas”, “somos o melhor jornal do Rio e do Brasil”.

Mandei a moça parar e disse que aquilo que ela estava fazendo era assédio e que se não mudasse sua postura, eu ia gravar o restante da ligação e dar queixa dela e do jornal no órgão de defesa do consumidor mais próximo. Nossa, a jovem ficou furiosa e, para manter minha sanidade, avisei que esperava que aquela fosse a última ligação para mim. E bati o telefone, sem dó!

Ontem o fixo tocou novamente. Era outra pessoa querendo conversar comigo sobre minha assinatura. Respirei fundo pedi desculpas e dispensei, claro, paciência tem limites. Sou de uma geração que cresceu sem a presença do O Globo em casa. Meu pai lia o Correio da Manhã e o Jornal do Brasil. Várias vezes comentava que o jornal do Roberto Marinho não passava de uma Tribuna da Imprensa (que ele odiava) com roupa de noite. Vale registrar que a oferta de jornais nos anos 50 era grande, para todos os gostos, ideologias e até times de futebol.

A linha editorial do jornal mudou radicalmente após a morte do seu fundador, o Roberto Marinho. Nos últimos anos, gente com opiniões estranhas ou desconhecedores da realidade do Rio foram importados de sabe-se lá de onde e com qual critério. O pior mesmo, no entanto, são alguns editoriais, na linha do quanto pior,melhor ou apontando o dedo acusador para o desafeto da vez. Mas isso nem seria um problema. Já questionar meu direito de encerrar minha assinatura, é sim! Enfim, vida que segue, a assinatura está cancelada.

Ou não?

Incêndios serranos

Foto: Nova Friburgo AM 660 kHz

São 20:45 horas da terça-feira, dia 17 de setembro e ainda vejo focos de fogo na encosta do Pico do Caledônia. É o segundo incêndio por lá em três dias, destruindo a flora e a fauna, sujando o ar de Nova Friburgo e o principal, nos deixando cheios de vergonha por mais uma tragédia anunciada todos os invernos.

Enquanto todo mundo condói-se com as queimadas amazônicas, nossa preocupação, além do evidente custo ambiental, é a proximidade dos incêndios com casas, residências e mesmo bairros inteiros. Não quero nem pensar em ver aqui os desastres que acontecem na Califórnia, Espanha e Portugal, entre outros. Acordar no meio da noite com fogo para todos os lados é um pesadelo completo.

Segundo o jornal A Voz da Serra, de hoje, “em 2019, de janeiro até agosto foram registrados 530 focos de incêndio. É o maior registro da história, desde que a região passou a ser monitorada em 2014”. E tem mais sobre o final de semana: “as chamas eram vistas de diferentes pontos da cidade. O cheiro de fumaça esteve presente durante boa parte do sábado e domingo. Muitas casas ficaram sujas por conta das cinzas levadas pelo vento. O céu azul ficou enevoado por conta da fumaça. Ao todo, o fogo destruiu 200 mil metros quadrados de vegetação”.

As causas todos nós estamos carecas de saber: falta de chuvas, baixa umidade do ar, calor e, principalmente, irresponsáveis ou criminosos sem a menor empatia com a cidade, seus moradores, suas florestas, seus animais, seus rios, nascentes e lagos. O que ameniza um pouco o sofrimento é que os bombeiros estão melhor aparelhados e o número de voluntários cresceu, além de um providencial helicóptero de plantão.

Que maneira de começar a primavera!