Andando por aí

Mail Box
Foto: Carlos Emerson Junior

“Caminhar pela cidade é uma forma de mobilidade urbana. Caminhar pelas calçadas e ruas da cidade deixando o olhar se perder entre as frestas de céu que edifícios, casas e árvores deixam entrever. Tomar cuidado com o buraco da calçada e não perder de vista o fluxo incessante de pessoas e as milhões de oportunidades de observação do inusitado, do espontâneo e do não-programado. Chegar onde se deseja, sem deixar escapar da vista o caminho.”

Pois é, o Mobilize e O Aprendiz estão aí para nos lembrar que andar a pé é a maneira mais simples e barata de ir do ponto A até o B ou, simplesmente, passear sem rumo. Concordo e confesso, é a minha maneira favorita de me deslocar, principalmente numa cidade fotogênica, calma e com clima amigo como Nova Friburgo. Pena que as calçadas ainda não são bem cuidadas, mas a gente chega lá.

Encontrei e fotografei essa caixa de correio andando ao acaso em uma rua do Vale dos Pinheiros, um bairro residencial muito bonito, que só pode ser apreciado a pé. Aproveite os dias ensolarados na serra, coloque um tênis e caminhe. A cidade pede para ser descoberta.

Concerto

Foto: Markus Moellenberg

Do nada, sentiu-se inspirado. Foi até o porão, revirou algumas caixas e encontrou uma antiga partitura musical com um samba do Wilson das Neves para piano e, melhor ainda, uma estante para partituras, esquecida ali sabe-se lá por quem. Talvez alguma amiga de uma de suas filhas. Sacudiu a poeira, levou tudo para a sala e, carinhosamente repousou a partitura na estante, como sempre devia ser. Beleza.

Selecionou uma música no Spotify. A Sinfonia nº 1 de Gustav Mahler, a Titã, que adorava. Colocou o fone no ouvido, pegou a batuta, ou melhor, o pincel da paleta de pintura da mulher, olhou fixamente para a orquestra, digo, a coleção de bichos de pelúcia da filha mais nova, apertou o play e, aos primeiros acordes do primeiro movimento, levantou o braço, cerrou os olhos e começou a reger os seus quase 50 músicos.

As notas musicais, intrincadas, vinham de longe e provocavam uma sensação de quase arrebatamento. O que uma música bela, suave e envolvente não faz… Estava dentro de uma sala de concertos, na frente de uma plateia que ouvia sua sinfônica com um silêncio além do respeitoso. Naquele momento era só ele e Mahler, quase uma epifania.

Quando se preparava para encerrar o movimento, ouviu um ruído diferente, dissonante, alto e completamente inoportuno. Um telefone tocando! Como assim, quem seria o mal-educado que deixara o aparelho ligado no meio de um concerto? Virou-se furioso para o público e deu de cara com o quadro da Glorinha, uma paisagem rural, pendurada em cima da lareira. Como assim?

O toque continuava, insistente e só então caiu em si: ele mesmo esquecera de colocar o infeliz do celular em modo avião. Sem sequer olhar o display, atendeu ríspido:

– o que foi?
– é o senhor Carlos que está falando?
– eu.
– aqui é o Eduardo, da sua empresa telefônica, para apresentar uma enorme vantagem para os nossos queridos clientes. O senhor teria um minuto?
– não, não tenho, não quero ter e tenho raiva de quem tem. Vá pra…

Desligou desolado. Na sua frente uma estante com uma partitura de samba, um pincel de pintura, uns dez bichinhos de pelúcia e um smartphone ligado aguardavam suas ordens. Infelizmente o encanto havia passado. Sentiu-se ridículo, mais ridículo até que o eduardo da telefônica. Não, não dava mais para ficar ali. Foi até o banheiro, colocou short, camiseta, boné, calçou o tênis e saiu para dar uma corrida no parque próximo. No mínimo, ia esfriar a cabeça. No máximo, talvez conseguisse quebrar um recorde do Emil Zátopek, a “Locomotiva Humana”, um dos maiores corredores da história.

Já estava animado outra vez.

Sombras de Hiroshima

Autor desconhecido

Foi até a cozinha, abriu a geladeira e bebeu um copo d’água. Coçou a cabeça, um hábito antigo, lembrou que os cabelos escasseavam e suspirou pela enésima vez, estava ficando careca… Voltou para a sala, sentou na poltrona, pegou um antigo livro sobre filatelia do seu pai e folheando as páginas deu com um envelope já amarelado, enviado por um certo Tenente Seiji, de Nagoia, no Japão, carimbado pelo correio brasileiro em 23 de novembro de 1950.

Curioso, tirou de dentro as duas folhas escritas à mão, com uma caligrafia quase infantil, em inglês. Se aprumou no assento e começou a ler. O oficial, depois dos cumprimentos protocolares, agradecia a série de selos do Brasil que seu pai enviara e lamenta informar que a próxima edição nipônica com a efígie do Imperador Hirohito só seria liberada após o término da ocupação aliada, no ano seguinte.

Prosseguia contando sobre sua nova missão, a reconstrução da cidade de Hiroshima, um trabalho árduo, perigoso e emocionalmente doloroso mas, sem dúvida, uma obrigação de todos, principalmente depois de todos os sofrimentos e destruição que a guerra provocou. Pelo menos, ali, estava fazendo o bem.

Por essa razão, encaminhava respeitosamente três fotografias que mostravam um efeito extraordinário, possivelmente desconhecido, provocado pela explosão da nova arma, as manchas no chão, na escada, na beira da ponte, sombras de pessoas que foram atingidas e volatizadas em cheio pelo clarão da explosão, deixando apenas suas sombras para a eternidade, suas sombras em Hiroshima.

Caramba, cadê as fotos? Pegou novamente o caderno do pai e o folheou cuidadosamente. Na última página encontrou um pequeno envelope meio amarelado, colado na folha com goma arábica ou coisa parecida. Abriu com cuidado e dentro, ao invés das três, havia apenas uma fotografia velada, com uma anotação no verso.

Reconheceu imediatamente a letra caprichada e o estilo do recado: “o Serviço de Censura roubou as fotos. Fora Dutra!” Puxa vida, mas logo a carta do Tenente Seiji? Não respeitaram nem a tragédia das bombas atômicas? Xingou mentalmente do Getúlio até o Temer e ficou imaginando a raiva do pai. Ficou pensando como o Japão, arrasado em 1945, hoje é uma potência. Já o Brasil… Ah, deixa prá lá, esse país não muda nunca.

Foto: Autor desconhecido (possivelmente na cidade de Hiroshima)

Saúde!

Esse ‘causo’ aconteceu no longínquo e perdido ano de 2015, lá na ex-cidade maravilhosa.

Caminhada no final da tarde na praia, na direção do Posto Seis. Domingo, uma multidão saindo da areia na direção das estações do Metrô e pontos de ônibus e uma outra chegando para tomar um vento e ver as modas, como se falava antigamente, cruzavam animadamente o calçadão, mal dando espaço para andar. E não é figura de linguagem não!

Segurei a mão da minha mulher e lá fomos nós seguindo o fluxo que ia para o sul e desviando do contra fluxo rumo norte. Foi quando meu nariz começou a coçar. Aliás, quem tem rinite sabe o que estou falando. Sem dar tempo sequer de fungar, soltei um espirro de alívio, em alto e bom som que, como efeito colateral, assustou quem ia e vinha pela via. Minha mulher me olhou muito séria, com os olhos arregalados:

– Cara, que susto que você me deu! Precisava espirrar tão alto? Você tremeu tanto que pensei que tinha sido atingindo por uma bala perdida! Não faça mais isso, todo mundo se assustou. Só esse ano mais de 36 pessoas já foram atingidas por balas perdidas e dois casos foram aqui em Copa. Toma juízo!

Para meu espanto, uma pequena roda se abrira e as pessoas, me olhando com curiosidade, pareciam concordar com a bronca. Tá bom, espirrei alto, talvez herança dos espirros escandalosos que meu pai dava, sempre no meio da rua, que me levavam às gargalhadas. Só esqueci que isso foi há mais de 50 anos, quando o Rio ainda era uma cidade risonha e franca, sem balas perdidas, por óbvio.

Bons tempos.

Foto: Copacabana.com – Fotos Clássicas

Sem saída

Foto: Carlos Emerson Junior

O Rio de Janeiro não é uma cidade maravilhosa, é uma paisagem maravilhosa para uma cidade” (Elizabeth Bishop)

Até quando vamos nos iludir? Quantas vidas mais a cidade levará para alimentar suas mazelas, sua malandragem, sua incivilidade? Que me perdoem os cariocas – meus conterrâneos – mas grupo de extermínio agindo em pleno centro,nas barbas das tropas do Exército, é o fim do mundo. Aliás, o fim de uma cidade que um dia foi cantada como a maravilhosa. Perdeu a graça, o viço, o senso e o amor de seus filhos. Sinceramente? Não acredito mais em alguma saída.

Que pelo menos identifiquem, prendam e punam os responsáveis pelo bárbaro assassinato no Estácio, sejam eles quem forem, estejam onde estiverem, tenham o nome que for. Já toleramos facções do tráfico, milícias, corruptos, assaltantes, pivetes e canalhas de todos os estirpes, engravatados ou não. Permitir a ação impune de grupos de extermínios é acabar com o pouco de ar que ainda se respira no Rio, concordar com o assassinato de qualquer um que incomode os donos do poder. É deletar a democracia. É voltar para o tempo dos coronéis.

Meus pêsames e desculpas aos amigos e familiares de Marielle Franco. Meus pêsames à população carioca.