Oração

Que eu me torne em todos os momentos, agora e para sempre,
um protetor para os sem proteção,
um guia para aqueles que perderam o seu caminho,
um navio para os que têm oceanos a cruzar,
uma ponte para aqueles com rios para atravessar,
um santuário para aqueles em perigo,
uma lâmpada para aqueles sem luz,
um lugar de refúgio para aqueles que não têm abrigo,
e um servo para todos que precisam.

(Shantideva)

Um lugar

Foto: Carlos Emerson Junior

Quando você andar por uma rua qualquer das Braunes (ou outro bairro qualquer), em Nova Friburgo, não se esqueça de olhar para o céu e as montanhas. Ouça o silêncio, respire o ar puro, valorize a tranquilidade. Pois é, meu caro amigo, eu sei que nem tudo o que reluz é ouro e perfeição é, quase sempre, um conceito inatingível, mas se não lutarmos pelos nossos sonhos, o que nos restará? Olhem o Rio…

Um ótimo fim de semana!

O soldado

O soldado de prontidão,
fardado e armado,
talvez um pouco enfadado,
tirou do ombro o fuzil, com muito cuidado.

Na areia da praia lhe sorria,
uma moça bonita, exibida.
Naquele instante, teve certeza:
era o grande amor de sua vida.

Arame farpado

Foto: Carlos Emerson Junior

– Muito bem, turma, pergunta! Arame farpado lembra?

– …

– Vamos lá gente, todo mundo aqui sabe o que um arame farpado. Ou não?

– Trincheira da Primeira Guerra Mundial!

Espanto total.

– Caramba, a Primeira Guerra terminou em 1918, há exatos 99 anos e possivelmente ninguém mais sabe o que é uma trincheira. Mas o exemplo é bom, os rolos de arame farpado ficavam entre os buracos que abrigavam os soldados, dificultando o avanço dos inimigos. Outro!

– Campo de prisioneiros. Vi naquele filme do Spielberg, “A Lista de Schindler”.

– Perfeito, continuem.

– É um tipo de ferro usado para cercar pastos de vacas.

– Muito bem, quem mais?

– Música do Barão Vermelho. Sei que fala algo como beijos de sabor enferrujado machucam a boca feito arame farpado.

– … Ô menina, vou ter que acreditar em você, nunca ouvi isso.

– Existe sim, quer que eu cante?

– Não, deixa prá lá. Alguém mais?

– Arame farpado, difícil de ser comido e fácil de cercar gado.

– Gracinha, né?

– Não, senhor, tá no Google!

– Tá bom! O arame farpado foi inventado em 1873, nos Estados Unidos, para cercar e proteger o gado, impedindo sua fuga e dificultando o roubo. Foi utilizado militarmente pela primeira vez em 1888, pelo exército britânico, para proteger as tropas que ficavam nas trincheiras dos ataques dos soldados inimigos. Hoje em dia pode ser encontrado em presídios, prédios, fábricas, áreas de segurança, campos de refugiados, depósitos, armazéns, fronteiras e por aí vai. Aqui na cidade do Rio de Janeiro é muito comum ao redor de casas, edifícios e condomínios. Hoje, eu acordei e vi meu prédio todo cercado com arame farpado. Senti-me o próprio gado…

– Amém.

Proibido

É proibido
estacionar,
parar,
olhar.

É proibido
conversar,
cantar,
fumar.

É proibido
pensar,
julgar,
protestar.

É proibido
amar,
dançar,
cantar.

É proibido
chorar,
reclamar,
desertar.

Só não é proibido
morrer.

Quase um blues

O computador toca uma balada de Miles Davis. Na verdade, quase um blues, o que não faz a menor diferença, vindo de quem vem. Fosse uma valsa, um xote, um funk, um rock ou uma ópera completa, com libreto e tudo, seria sempre um Miles Davis. Mas o assunto de hoje não é jazz, nem o fantástico músico e compositor americano que deixou como legado uma obra extensa, genial e inspiradora. Não, infelizmente, sou obrigado a ficar no plano terreno e lembrar que o Brasil virou uma “tragédia mexicana” de péssimo gosto.

O nosso legado é triste, lamentável, indigno até. Regredimos, sem o menor exagero, uns bons 50 anos e não estou falando só de políticos. Perdemos o rumo na economia, educação e saúde. Falimos. A pesquisa científica definha, as artes agonizam, o esporte patina, a cultura se perde.

Somos todos corruptos? Não, claro. Mas nosso silêncio acaba por nos tornar cúmplices de toda essa corja que assaltou os cofres públicos, fraudou eleições, vendeu a constituição, inventou e superfaturou obras, em sua grande maioria inúteis e tratou os brasileiros como um bando de babacas.

Pois é. No fundo somos mesmos otários, discutindo pelas redes sociais que fulano, beltrano e sicrano são isso e os outros são aquilo, como se não soubéssemos que todos eles, todos mesmo, não passam de um bando de ladrões, merecedores de todo o nosso desprezo e vergonha.

O blues surgiu no final do século 19, com o canto dos escravos que colhiam algodão nas fazendas norte americanas. Segundo o escritor e historiador britânico Paul Oliver, “o blues é um estado de espírito e a música que dá voz a ele. O blues é o lamento dos oprimidos, o grito de independência, a paixão dos lascivos, a raiva dos frustrados e a gargalhada do fatalista. É a agonia da indecisão, o desespero dos desempregados, a angústia dos destituídos e o humor seco do cínico“.

Lamentos, paixão, raiva, agonia, desespero, grito de independência. Que nada… Infelizmente, por aqui, ainda não passamos da ilusão e todo o sofrimento sequer é quase um blues. Na verdade, não é nada mesmo. Um dia, quem sabe, a gente acorda, consegue se unir, botar essa canalhada para correr e construir um novo Brasil, desta vez prá valer. É isso, nossa única reação é sonhar.

Desenho: Jano

Bom dia

Caiu para o lado, como se tivesse levado um soco muito forte no pescoço. Estava atordoado mas ainda conseguia enxergar. Seus ouvidos zumbiam! Havia alguma coisa quente, viscosa, escorrendo por baixo da cabeça pendida. Tentou se virar para ver o que era mas em vão: seu corpo estava imóvel. Os olhos ainda se mexiam, dava prá ver o painel do carro, o volante, as chaves… Um gosto forte de sangue inundou sua boca.

Lembrou-se do celular no bolso da camisa. Isso, ligaria para o trabalho avisando que não ia chegar. Mas estava tão cansado. Frio. Muito frio. A cabeça vazia, uma sensação de abandono. Não sentia dor ou medo. Apenas uma vontade enorme de ir embora, de fechar os olhos e dormir.

*****

— Porra, cê tá maluco ? Precisava atirar no cara ?
— Ele ia dá um teco na gente.
— Não, seu merda, ele tava soltando o cinto, sujou tudo, vambora, larga isso aí e se manda!
— Mas e o carro do babaca ? Não foi uma encomenda?
— Se manda, mané, corre antes que os homis cheguem aí.

*****

Cinco e trinta da manhã, uma esquina qualquer da cidade do Rio de Janeiro. O dia mal começou…
 

Conto publicado na I Coletânea Scriptus, Balaio de Ideias, 2009