Inspiração, cadê você?

Foto: Carlos Emerson Jr.

Da janela do meu escritório eu vejo o Caledônia. Por cima dos telhados das casas, muito além da antena da Rádio Friburgo e, nesses dias de março, sempre enevoado e chuvoso. No outono o sol bate forte pela manhã e a rocha fica que nem ferrugem, contrastando com o céu bem azul e limpo.

Essa é a minha janela. Coloquei a escrivaninha bem ao lado dela. Meu desktop, as anotações, rascunhos, fotos, telefones, o pendrive… Enfim, é aqui que eu trabalho. Inspiração? Com essa vista? Sei não, às vezes atrapalha. Distrai sabe, a gente fica olhando, divagando, agora, por exemplo: a montanha está dentro das nuvens e só vejo a chuva caindo lá pelos lados do Cônego.

Tudo muito cinza, muito escuro. Aliás, com licença que vou baixar o vidro, está batendo um vento gelado! Mas onde eu estava? Ah sim, inspiração! Curiosamente, não conheço a montanha. Dizem que em dias claros, lá do alto podemos ver o Rio e a Baia da Guanabara. Também falam que a subida é fácil, apesar de longa. Talvez um dia…

E lá estou eu fantasiando novamente. As nuvens que rodeiam a montanha agora vem rápido em minha direção. O vento forte faz as janelas baterem e trovões já se fazem ouvir. Vai chover outra vez e eu aqui no escritório, ao lado da janela, precisando escrever um texto, qualquer um!

Inspiração? Onde foi parar você, minha cara? Olhando para a janela, só consigo mesmo é sonhar.

(2008/2018)

Guerras justas?

Foto: Carlos Emerson Jr.

O que seria uma guerra justa? Uma guerra religiosa? Racial? De defesa? Ou de expansão? Civil? Revolucionária? De libertação? Vingança? Retaliação? Segurança? A única saída? A guerra que vai acabar com todas as guerras? Não, decididamente não sei o que é uma guerra justa.

Guerras são imorais, aéticas, selvagens, a barbárie levada ao seu paroxismo. Guerras servem para dominar, exterminar, subjugar e escravizar. Só nos séculos 20 e 21, quase 90 milhões de pessoas morreram em conflitos que vão desde as duas guerras mundiais, até os brutais massacres em nome de sei lá o quê.

A guerra é a falência do ser humano. Se nos consideramos “animais racionais”, matamo-nos com uma fúria não encontrada sequer nos grandes predadores “irracionais”. Chegamos a tal ponto de “sofisticação”, que temos um arsenal nuclear capaz de destruir toda a vida no planeta, pelo menos umas quatro vezes.

O escritor português José Saramago afirmou que “é mais fácil mobilizar os homens para a guerra que para a paz”. De fato, basta ver que a História mostra que os breves intervalos de paz serviram para a preparação das guerras futuras. Aliás, todas as guerras foram declaradas em nome da paz, uma blasfêmia inominável.

Não, a verdade é que não existe guerra justa ou santa. É tudo guerra, trazendo morte, sofrimento e miséria para ambos os lados. Sem vitoriosos, sem honra, sem glória, sem heróis. A guerra é a morte do diálogo, do amor, da empatia, da humanidade. Guerra é nossa maldição, para todo o sempre.

Um amigo

Foto: Carlos Emerson Jr.

A caminhada na manhã de hoje, uma segunda feira, mostrou Friburgo ensolarada mas ainda com o resto do frio da madrugada e completamente vazia. Do Sans Souci até o Bairro Ypú, passando pelo Alto das Braunes, Santa Elisa e Catarcione, ônibus, carros e pessoas transitando eram raridades. Parecia um domingo mal colocado, como se o calendário tivesse enlouquecido.

Andei trechos enormes sem cruzar com ninguém. Quase não vi bicicletas, o que é uma pena, a cidade está ótima para elas. Na Praça Marcílio Dias, no Paissandú, reapareceu a civilização, mas muito distante do habitual. Algumas lojas se preparando para abrir, rodinhas em algumas bancas de jornais e um ou outro gato pingado naqueles botequins que nunca fecham.

Na Avenida, aí sim, muita gente aproveitando o sol para se exercitar. Um casal de namorados em um banco à margem do Bengalas, idosos para lá e pra cá, além da turma que sempre traz o cachorro para andar. Voltando para casa, subindo as Braunes, a mesma solidão do início da jornada diária: ninguém nas ladeiras ou na Estácio (não teve aula).

Para não dizer que não conheci ninguém, aí em cima está o amiguinho que não quis conversa comigo na petshop, mas posou como um modelo aqui para o Blog. Gente boa, até a gatinha da loja gosta dele. Em tempos estranhos, difíceis mesmo, uma imagem simpática não tem contraindicação. E se você sorrir, melhor ainda.

Boa semana.

O petróleo é nosso. E daí?

Foto: Edison Luiz

De toda essa confusão que a greve dos caminhoneiros está provocando – incluindo aí a merecida desmoralização do governo federal – dois pontos me deixam profundamente triste e, se é que isso é possível, cada vez mais desanimado com o futuro do Brasil. Estou falando da nossa completa dependência do petróleo e do transporte rodoviário, como se ainda vivêssemos em pleno século passado.

Amigos, não vivi 50 anos no século XX para ser testemunha da nossa incapacidade de sair dos anos 60, 80, sei lá! Enquanto aí fora se produz realidade virtual, fontes alternativas de energia, as cidades são devolvidas às pessoas, a ciência avança em todas as frentes, a saúde é realmente para todos, continuamos na mesma vidinha, vivendo de lembranças e glórias que nunca chegaram à população.

Desculpem o mau humor, mas o Brasil está um saco!

Cedro do Líbano

Foto: Carlos Emerson Jr.

A caminhada-treino de hoje teve um propósito, um destino. Fui até os jardins do Country Clube para ver o Cedro do Líbano, recém-plantado no último dia 5 de maio pelo pessoal da colônia libanesa de Nova Friburgo. Gostei. Uma placa de metal identifica a muda, que está devidamente protegida de seres irracionais e racionais por uma gaiola de ferro. Uma cartaz maior, com os versos do Salmo 92.13 e 15, chama a atenção para o pequeno broto.

Fico aqui, pensando, quanto tempo leva para um Cedro do Líbano crescer. O Google, consultado, não se faz de rogado e informa que é uma árvore grandiosa, de crescimento bem lento, podendo atingir 40 metros de altura e 14 metros de diâmetro no tronco. É o símbolo do Líbano e é citado mais de 70 vezes na Bíblia. Também é chamado de o Cedro de Deus.

Será que algum dia o verei lindo, bonito, imponente, único em nossa cidade? Possivelmente não, mas não importa. Saber que estamos criando um ser vivo que vai durar séculos é, definitivamente, um legado da festa dos nossos 200 anos. Cabe a nós, friburguenses da gema, adoção e coração cuidar, proteger e amar o nosso Cedro do Líbano.

Como o nosso futuro, não é mesmo?

Foto: Carlos Emerson Jr.

Feliz aniversário, Nova Friburgo

Fotos: Carlos Emerson Jr.

Parabéns, Nova Friburgo, você merece. Não é todo o dia que uma cidade faz duzentos anos, recebendo de braços abertos, como um porto seguro, forasteiros em busca de qualidade de vida, clima generoso, ar puro e, principalmente, andar em suas ruas sem medo. Já nos conhecemos há mais de vinte anos, não é mesmo? Ah, naqueles dias você flertava com os turistas, seduzindo-os com seus encantos, suas matas, seu povo generoso e simpático. Pois é, fui uma de suas vítimas, Nova Friburgo e aqui estou, pronto para aplaudir, comemorar, cobrar, consertar, ajudar você se levantar novamente, graciosa e encantada.

Feliz 200 anos!

Publicado no site Transparência Nova Friburgo.