Dois mil e vinte, o ano que nunca começou

Foto: Carlos Emerson

Trinta e um de dezembro de dois mil e dezenove. Toda a mídia, praticamente sem exceção, divulga as famosas previsões de astrólogos, videntes, cartomantes, tarólogos, religiosos, cientistas, analistas políticos, economistas, atores, músicos e celebridades diversas sobre o ano que está chegando. Vamos lembrar algumas?

“Para a carreira, as previsões para 2020 são muito boas. Tudo indica que no próximo ano aumentarão as oportunidades de trabalho”.
“Será um ótimo ano para colocar em projetos e planos em prática, muitas pessoas terão iniciativas.”
“O passaporte brasileiro será um dos mais cobiçados, e falando nisso, acordos bilaterais vão reduzir a necessidade de visto para vários países”.
“Sites de fofoca vão bombar: a tendência é haver traições e separações envolvendo artistas e poderosos em geral”.

Pois é, os sites de fofoca realmente estão com a bola cheia mas em compensação o mundo inteiro parou completamente por causa de um “resfriadinho” que ninguém previu. Que coisa! Janeiro e fevereiro ainda rolaram numa boa, sol, praia, carnaval, uma festa, apesar dos alertas da OMS e até mesmo do Ministério da Saúde, dando conta que havia alguma coisa estranha no ar. Literalmente.

Em março, diante do crescimento descontrolado do número de casos e mortes, os governos do planeta, impotentes, resolveram fazer a única coisa a seu alcance naquele momento: parar o mundo. E assim foi feito. O tempo foi passando, o vírus estudado, dissecado e, possivelmente transmutado reduziu a “poderosa” civilização do século XXI, quase oito bilhões de pessoas, a meros prisioneiros trancados em suas casas, tentando sobreviver da maneira o menos pior possível.

O resto é história e para ser honesto, tenho que registrar que as guerras pararam, o trânsito melhorou, o ar das cidades melhorou, a maneira de trabalhar mudou e a internet, ao contrário do que previram os filmes do James Cameron (lembram da Skynet?), salvou vidas, empregos e a educação de nossas crianças e jovens.

Pelo tempo que já vivi, não me iludo com essa de “dias melhores virão”. Moro no Estado do Rio e vi de perto o que a ganância, o desamor e a falta de vergonha na cara podem fazer. O caso dos sete hospitais de campanha usados para desviar dinheiro público em plena crise da saúde foi de uma canalhice sem igual. Roubar numa hora dessas deveria ser crime hediondo.

Mas vamos em frente e lentamente, assistindo pela janela as estações do ano passarem, apreciando as mudanças de cores das árvores da floresta que nos rodeia, os pássaros que vão e vem, as nuances dos diferentes céus de março até hoje, me dou conta que estamos no meio de setembro e o ano que não começou acaba daqui a 3 meses, com ou sem vírus, com ou sem vacinas.

Para mim, 2020 será o ano que descobri que tinha um câncer, fiz uma cirurgia e encarei uma quimioterapia em plena pandemia do Coronavírus. Não tenho a menor ideia do que virá pela frente mas, como sou brasileiro vou encarar numa boa. Afinal, se eu tivesse desistido, não estaria aqui escrevendo essa crônica!

PS: Mas decididamente, 2020 não existiu!

Carlos Emerson (setembro/2020)

Vírus Filho da Puta!

Shuterstock

Os números são terríveis: no mundo são 25.251.334 casos de Covid-19 e 846.841 mortes. O Brasil contribuiu até agora com 3.908.272 casos (15,47%) e 121.381 fatalidades (14,33%). Nosso desgovernado Estado do Rio tem 223.631 casos e 16.065 óbitos e Nova Friburgo, com 2.409 casos e 100 mortes, aparece lá embaixo mas com números preocupantes para uma cidade que não chega a ter 200 mil habitantes.

Enquanto isso assistimos, estupefatos, o afastamento de mais um governador, a prisão de dezenas de autoridades, políticos e empresários envolvidos em um revoltante e nojento caso de desvio de dinheiro da saúde, superfaturamento de hospitais, formação de quadrilhas, recebimento de propinas e diabo a quatro. Já são sete os chefes do governo fluminense presos, processados ou investigados e afastados por, digamos gentilmente, mal feitos.

Quem elegeu essa gentinha? Nós, é claro, que nos acostumamos a votar no menos pior, durante anos escolhemos representantes corruptos e inúteis para as casas legislativas, fechamos os olhos para os desmandos de pseudo autoridades desde que tenhamos carnaval, praia e futebol, não necessariamente nessa ordem; delegamos poderes da época do império a nulidades que não conseguem assinar o nome, não entendem o que ouvem e não sabem falar. Uma lástima!

Foto: Wilton Junior/ Estadão

A visão dantesca das fotos e vídeos das praias cariocas no último final de semana é de provocar engulhos. Estavam comemorando o fim da pandemia? A cura do vírus? O que esse povo tem na cabeça? Em quem essa gente confia? Acreditam mesmo nos irresponsáveis pela saúde pública? Na mídia partidária? No coelhinho da Páscoa? Ou seria no Papai Noel?

Dizem que os critérios para a flexibilização são técnicos mas como precisam atender a uma senhora com o sonoro nome de “Reeleição”, aceitam qualquer barbaridade que um aspone ou empresário buzine no ouvido da “Vossa Excelencia” da vez. Até hoje não entendo porque as eleições deste ano foram mantidas. Um desserviço para a população, quando bastava prorrogar os mandatos por uns seis meses ou até o vírus ser controlado, sei lá, usassem a criatividade!

E por falar nisso, a escolha dos prefeitos e vereadores deveria ser mais importante para o cidadão do que a do governador e até mesmo do presidente (com minúsculas, por favor). Um país continental como o nosso não pode depender de uma pequena e poderosa pseudo elite que se aboletou há anos no poder, independente de qualquer ideologia. O voto distrital seria uma boa? Talvez… Não por acaso, a turma de Brasília tem horror a essa ideia.

Desenho: Oscar Niemeyer
Vivemos um momento tão confuso que ninguém mais sabe quem manda em quem no Brasil e todo mundo, mas todo mundo mesmo é culpado por essa mixórdia, agravada pelo Coronavírus. Depois de todas as asneiras ditas e cometidas que nos levaram a uma tragédia, lembro do escritor israelense Eshkol Nevo que, em uma ótima crônica no jornal espanhol El País, afirma que “não está disposto a escutar mais ninguém dizendo que o vírus vai nos ensinar uma lição, e que vai nos fazer retornar a uma vida mais simples. O vírus é um filho da puta.”

No fundo, é isso aí mesmo: somos todos filhos da puta!

Carlos Emerson Junior (setembro/2020)

Livros em quarentena

Confesso que tenho lido e escrito muito pouco. O isolamento tem um preço que é agravado pela medicação da quimioterapia, a concentração. Segundo neurologistas do Hospital das Clínicas de São Paulo, “o isolamento pode provocar certo embotamento psicológico, frieza e distanciamento das emoções positivas”. De uma maneira grosseira, acho muito mais simples tirar uma soneca do que mergulhar nas páginas de um romance.

Mas tenho me esforçado, é claro. Minha filha mais nova nos presenteou com dois livros de autores suecos, “Um Homem Chamado Ove”, de Frederik Backman, Editora Objetiva e “O Ancião Saiu Pela Janela e Desapareceu”, do Jonas Jonasson, da Editora Record. Estou lendo o primeiro, que já nos surpreende de cara com o título do capítulo 1: “Um homem chamado Ove compra um computador que não é um computador”. Pois é!

O outro livro sueco, “O Ancião Saiu Pela Janela e Desapareceu”, está sendo lido com gosto pela minha mulher. Em sua opinião, apesar da história meio estranha ou talvez, muito escandinava, um senhor centenário que foge de um asilo só de pantufa e pijama e participa de aventuras inesperadas e até mesmo inacreditáveis, é um romance engraçado, ágil e ideal para passar as horas sem a menor preocupação.

Já “A Hora Final”, romance distópico do escritor inglês Nevil Shute, lançado em 1958 e atualmente fora de catálogo no Brasil (comprei meu exemplar, uma edição de 1974 da Companhia Editora Nacional, na internet) foi a base do aclamado filme do mesmo nome, lançado em 1959 com Gregory Peck, Ava Gardner, Fred Astaire e Anthony Perkins. Uma guerra nuclear destruiu todo o hemisfério norte e uma imensa e mortal nuvem radioativa se espalhou pelos países que restaram no hemisfério sul, entre eles, a Austrália (onde a história se desenrola), Brasil e Uruguai. Leitura pesadíssima para esses dias obscuros que estamos vivendo, mas indispensável para os fãs do filme e das e plausíveis histórias de ficção científica.

“Prazer em Queimar – Histórias de Fahrenheit 451”, editado pela Biblioteca Azul, é uma coletânea do escritor norte-americano Ray Bradbury, reunindo “dezesseis contos que deram origem ao seu romance clássico e obra-prima, Fahrenheit 451”. Acho que já li quase toda os trabalhos do autor, mas quando vi na resenha que este livro traz alguns inédito, não resisti e encomendei na mesma hora. Como ainda não li e cheio de expectativas, devo uma postagem com a devida resenha, para o bem ou para o mal.

“O Bom Pastor”, do britânico C.S.Forester, lançado em 1955 nos Estados Unidos e na Inglaterra e em 2020 no Brasil, pela Editora Record, narra a saga do comandante de um contratorpedeiro americano em um comboio de navios cruzando o Atlântico norte, levando tropas, mantimentos, combustível, armas, remédios e alimentos em plena Segunda Guerra Mundial. O ano é 1942 e os submarinos alemães, em grande número e atacando como matilhas de lobos são mortíferos. Para piorar, essa é a primeira missão do comandante do comboio…

Comprei o e-book na Amazon por impulso, logo após assistir na internet ao badalado e inédito longa metragem “Greyhound”, com o Tom Hanks, baseado nessa história. O filme, muito bom, por sinal, capricha no ambiente soturno, hostil, frio e cruel, mostrando como angustiantes e terríveis eram essas viagens. Vai ser a leitura seguinte ao livro do “Ove”.

*****

Pois é, livros e filmes são ótima companhia para esses dias (meses, anos, séculos, vai saber…) de quarentena do Covid-19, principalmente se levamos o isolamento à sério, saindo de casa o estritamente necessário e possível. Aliás, estou sendo injusto, livros são os nossos amigos para qualquer hora e o melhor, não tem nenhum efeito colateral. Palavra de quem adora ler!

Carlos Emerson Junior (agosto/2020)

Bicho Pau, o filme

Vocês conhecem o Bicho Pau? Pois é, eu já tinha até feito um post sobre ele no ano passado, o Bicho Pau, um curioso inseto, considerado um mestre da mimetização, além de ser um dos maiores do mundo, podendo atingir até 60 centímetros) claro. Depois disso já cruzei com outros exemplares simplesmente completamente imóveis, andando em árvores (dificílimo de ver e fotografar, o danado muda de cor ou procura um tronco apropriado e simplesmente desaparece) e esse aí do filme, que entrou (possivelmente por engano) na varanda, olhou para mim, não gostou do viu e seguiu seu caminho em direção ao telhado. Bom viagem, meu caro.

A propósito, o Bicho Pau é um inseto do bem, não passa doenças, não ataca e, na dúvida, some de nossa vista. Existem cerca de 3.000 espécies ao redor do planeta e mais de 220 aqui no Brasil, principalmente na região Amazônica e na Mata Atlântica, por acaso exatamente onde atualmente moro. Mais informações sobre o simpático e original bichinho podem ser obtidas aqui e acolá. O filmete foi feito hoje mesmo (dia 29/8/2020), por volta do meio dia.

Os Estatutos do Homem

(Ato Institucional Permanente)

por Thiago de Mello
Santiago do Chile, 1964

Artigo I.
Fica decretado que agora vale a verdade.
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II.
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III.
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV.
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único:
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V.
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI.
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII.
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII.
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX.
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.

Artigo X.
Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.

Artigo XI.
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo.
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII.
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII.
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade.
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

*****

Amadeu Thiago de Mello é um poeta e tradutor brasileiro. É um dos poetas mais influentes e respeitados no país, reconhecido como um ícone da literatura regional. Tem obras traduzidas para mais de trinta idiomas.

Casa de Marimbondos

Foto: Carlos Emerson Jr.

“Marimbondo furibundo
Vai mordendo meio mundo
Cuidado com o marimbondo
Que esse bicho morde fundo!”
(Vinícius de Moraes, 1970)

 

– Não brinca aí, menino, não está vendo a casa de marimbondos? Pois é, não vi mesmo; quando a gente é criança não presta atenção nessas coisas, não sabe que pode ser perigoso, acredita que tudo é implicância de gente grande. Dei sorte na vida (ou tive juízo) e consegui manter sempre uma distância cautelosa desses insetos. Afinal, como já diziam os antigos, o seguro morreu de velho…

Ferroada de marimbondo dói pra burro. Lembro de uma de minhas idas à parasidíaca Ilha Grande, no litoral sul do Estado do Rio, para acompanhar uma vistoria da Marinha do Brasil a um enorme terreno de propriedade da empresa onde trabalhava na época, ainda tomado pela Mata Atlântica. Lá pelas tantos, floresta adentro, o mateiro passou, o pessoal da Marinha foi atrás e eu dei de cara com um bando de marimbondos. O resultado final desse encontro foi o mateiro tirando o ferrão da minha mão com um facão, aplicando a seiva de uma planta nativa na ferida, garantindo que daria para guiar de volta ao Rio antes que a mão virasse um balão.

Deu para voltar para casa e sim, a mão inchou muito!

Que ninguém nos ouça, mas pessoalmente tenho muito mais medo de mosquitos do que de abelhas, vespas e cia., predadores naturais dos transmissores da dengue e outras pestes. E já que estamos falando em pestes, o famigerado Covid-19 também é de aterrorizar qualquer pessoa que tenha um mínimo de sanidade mental, o que não é o caso das hordas de idiotas que vagam alegre e irresponsavelmente por aí, em pétrea aglomeração e inabalável convicção de que podem superar a doença.

Cuidado com os marimbondos, pessoal!

Hospital de Campanha

Foto: Portal Multiplix

 

“Só agora, depois de meses de pandemia, aprendi que Hospital de Campanha foi feito para arrecadar dinheiro para campanha eleitoral.”
(Redes Sociais)

 

No início de abril, o governador do Estado do Rio anunciou, com pompa e circunstância, que estava implantando sete hospitais de campanha para ajudar no combate ao Covid-19 nas cidades do Rio, São Gonçalo, Duque de Caxias, Campos, Casimiro de Abreu, Nova Iguaçu e Nova Friburgo, a um custo de 770 milhões de reais, através de um contrato emergencial, sem licitação, com uma notória OS cujo nome todos conhecemos.

Pois muito bem (ou melhor, muito mal), hoje, dia 2 de agosto, 4 meses depois, apenas duas unidades entregues (Maracanã e São Gonçalo) e já desativadas e as cinco restantes… Ninguém sabe, ninguém viu. O secretário de saúde que assinou os contratos está preso junto com os dirigentes da empresa responsável (?) pela construção e gestão das unidades, o governador devidamente acuado no Palácio Guanabara e nós, simples cidadãos contribuintes e votantes, morrendo de vergonha com mais um escândalo!

O pior de tudo é ouvir o atual secretário de saúde tentar nos convencer que os hospitais não serão ativados porque o Covid-19 já está devidamente controlado e seus índices de infecções e falecimento em plena queda. Aí fico em dúvida se estou sendo chamado de burro, idiota ou cego! De qualquer maneira, fico com a esperança que os eleitores não se esqueçam dessa pajelança estadual e deem o troco nas eleições de novembro. É o mínimo que podemos fazer.

A propósito, não sei quem é o autor da frase que abre o texto, mas deixo meus cumprimentos e assino embaixo: parabéns!

Adeus, FIló

Adeus, minha amiga. Ou melhor, até algum dia, quando eu me for e te encontrar me esperando, alegre, disposta e saudável, pulando alegre, como você fez tantas e tantas vezes nesses dez anos que convivemos juntos. Adeus, minha amiga. Se você, por um acaso, conhecer meus pais, dê um sorriso para eles e se for possível, diga que estou morrendo de saudades. Adeus, minha amiga, perdoe meus momentos de mau humor, minha insegurança, minhas dúvidas. Adeus, minha amiga, obrigado pela companhia, pelos passeios, brincadeiras e carinhos. Fique com Deus e tenha certeza que estou sentindo muito sua falta.

Adeus, Filó.

Monólito

Foto: Carlos Emerson Junior

Tudo aconteceu numa rua deserta, em um bairro residencial, sem veículos ou pessoas circulando. De um lado ficavam as casas, grandes, com muros altos cobertos de heras e do outro uma ribanceira coberta de plantas e muitas árvores. Em alguns trechos, o mato meio que se abria e viam-se as montanhas que cercavam a cidade ao longe.

Até o dia que alguém por ali passou e, ao invés dos morros, deu de cara com um objeto retangular, preto, enigmático e assustador, como que vigiando o local, como se fosse o monólito do filme famoso dos anos 60 ou um deus julgando a sua criação.

A aparição tinha tudo para ganhar o mundo: televisão, rádio, imprensa, blogs, políticos, religiosos, militares, cientistas, artistas, escritores e poetas, crentes e céticos, todos com disposição e posição tomada para defender ou execrar o evento se encaminharam para a rua outrora vazia quando uma criança, atendendo um jornalista qualquer, se espantou com tamanho alvoroço por causa de uma simples caixa d’água.

Caixa d’água? Impossível! Blasfêmia! Mentira! Que alívio! Eu sabia! Que coisa! Comunistas! Fascistas! Hipócritas! Corruptos! O presidente se calou, o governador lamentou e o prefeito mandou multar o responsável pelo desatino, colocar uma caixa d’água em local não permitido. Do dia para a noite todos queriam saber quem era esse vilão que tantas expectativas criara.

O “monólito” foi derrubado, o povo se dispersou e a rua, como sempre, voltou a ter paz, solidão e silêncio. A paisagem ainda está lá, as montanhas abraçando a cidade. As árvores, plantas e a ribanceira também. Os pais da criança que provocou todo o alvoroço, assustados se mudaram para bem longe, a vida seguiu seu rumo e nossa história aqui terminou. Aliás, sequer começou… Afinal, nada existia e nada mudou.