A guerra é aqui

Gabriel Paiva / Agência O Globo

“É triste ficar acuado na própria cidade. O Rio está paralisando hoje, com estudantes indo embora de suas universidades, profissionais liberais cancelando compromissos, trabalhadores impedidos de deixar suas casas nas áreas de tiroteios. Não queremos sucumbir ao pânico. Não podemos. Mas, num dia como este, afloram todas as neuroses que temos sentido com a escalada de violência.” (Maria Fernanda Delmas, artigo “Hoje não importa a geografia: se você é pai ou mãe, carrega um aperto no coração“, O Globo).

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E aí me lembro que quem elegeu Pezão, Crivella, Cabral, Paes e assemelhados fomos nós mesmos. Que vergonha, acabamos com o Rio…

Cartas

Carlos Emerson Junior

Você ainda recebe alguma carta? Não, não estou falando das inevitáveis contas das concessionárias de serviços como luz, gás ou telefone. Ou as propagandas e convites para assinar a revista A, o jornal B e o canal de tevê C. Muito menos intimações judiciais, advertências do condomínio ou boletos de todos os valores. Refiro-me àquelas escritas à mão livre, pessoais, intransferíveis e, se possível, perfumadas.

Cartas eram a maneira mais fácil e talvez segura das pessoas se comunicarem, antes do advento do telegrama (lembram?), email e whatsapp, exatamente nessa ordem. Historiadores datam sua origem em 3.200 A.C., na Mesopotâmia. Sua importância era tal que, por exemplo, o mundo só tomou ciência da descoberta do Brasil quando o escrivão Pero Vaz de Caminha mandou sua famosa carta a El-Rei Dom Manuel, de Portugal, em 1º de maio de 1500.

Cartas podem ser expressas, diplomáticas, comerciais, sociais, testamento, convites, despedidas, oficiais, judiciais, ódio, anônimas ou até mesmo, sei lá porque, um mero envelope vazio. Quem nunca precisou de uma carta de apresentação? Escreveu uma carta de perddão? Chorou lendo uma carta de amor? Infelizmente cartas já foram usadas até como bombas.

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Aqui na Urca é que notei: quem mora em uma casa ou edifício que ainda tenha uma caixa de correio individual, é um felizardo. Sua correspondência, seus jornais e revistas estarão protegidas do tempo e dos curiosos. Possivelmente você fará amizade com o carteiro e ainda terá, se for cuidadoso, um belo enfeite no seu muro.

Aliás e a propósito, é sempre bom lembrar que uma caixa de correspondência é a única maneira de atravessar um muro, sem precisar abrir sua porta. Simbolicamente, é aquela passagem que nos deixa em contato com a realidade e que, desde 3.200 A.C., apenas as cartas tem autorização para entrar.

No topo do mundo

Mal acreditava, mas chegou. Suado, exausto, com dores nas pernas e nos pés, os joelhos pedindo socorro e o ar rarefeito fugindo dos pulmões. Sentia-se quebrado, cansado mas inteiro e vitorioso, afinal, pela primeira vez na sua vida, conseguira chegar no alto de uma das maiores montanhas do Brasil! Não pensou duas vezes, virou a cabeça para cima e berrou todos os palavrões que conhecia.

A adrenalina começou a diminuir e só nessa hora percebeu que as nuvens, muito baixas e espessas, começavam a cobrir a cidade abaixo sob um manto branco, deixando aparecer apenas os picos das montanhas bem à frente. Uma visão mágica, sem dúvida. Olhou para o outro lado e a paisagem era quase a mesma, mas bem longe conseguiu divisar o oceano, de onde sopravam os ventos gelados que o acolhiam lá em cima.

Enquanto tirava algumas fotos, a cabeça funcionava. O que estava assistindo ali era melhor do que a vista de uma janela de avião, uma escotilha de uma estação orbital ou até mesmo de um vale lunar, caso o nosso satélite fosse habitado. Sentiu-se no topo do mundo. Agora entendia porque os deuses gregos moravam no Monte Olimpo, inacessível a nós, reles humanos.

Pois é, os deuses. Se fosse um, ou se recebesse agora o poder de um deles, o que faria? Acabaria com o câncer, com certeza. Melhor ainda, erradicaria todas as doenças. Não existiria mais morte. Não, isso não daria certo. Então, decretaria a paz mundial. Ou o fim da pobreza e da fome. Eliminaria todos os corruptos? Ou voltaria no tempo e desta vez ficaria para sempre com a Maria do Carmo? Ah, Carminha, como doem as burradas que a gente faz na vida…

Caiu em si quando reparou que o Sol, bem à frente, começava a baixar no horizonte. Que pena, era hora de voltar e encarar o longo caminho ao lar, a cidade e a realidade. Para baixo, todo o santo ajuda, não é mesmo? Sabia que o corpo ia cobrar um preço enorme pela aventura e ainda por cima, não teve nenhuma epifania, nenhuminha sequer. Que se dane! Afinal, durante algumas horas, foi apenas feliz.

Foto: Google Imagem

Manias

Uma das primeiras crônicas publicadas no jornal friburguense A Voz da Serra, em maio de 2011, “Minhas manias preferidas” é uma bem-humorada visão das nossas esquisitices diárias e que, em sua maior parte, nem notamos. Como muito tempo já se passou, a crônica foi devidamente remixada mas, para desespero da garotada, ainda continua um textão. Divirtam-se!

Manias… Quem não as tem? Até onde um mero hábito mecânico pode virar um perigoso TOC? E por falar nisso, o que é mesmo um TOC? Perguntas, perguntas e mais perguntas. Será que perguntar também é uma mania? Sem brincadeira, acho que uma das coisas que nos diferenciam dos demais habitantes vivos deste planetinha são as nossas manias, saudáveis ou não. Alguém já viu um cachorro angustiado quando saiu para passear, tentando se lembrar se deixou o gás ligado? É um exagero, claro, mas do jeito que estamos tratando os nossos pets, qualquer dia eles vão acabar maníacos compulsivos por osmose!

Segundo o Wikipédia, a palavra vem do grego mania (loucura), distúrbio mental caracterizado pela mudança exacerbada de humor, com alteração comportamental dirigido, em geral, para uma determinada ideia fixa e com síndrome de quadro psicótico grave e agudo característico, embora não exclusivo (mania secundária), do Transtorno ou Distúrbio Bipolar e se caracteriza por grande agitação, loquacidade, euforia, insônia, perda do senso crítico, grandiosidade, prodigalidade, exaltação da sexualidade e heteroagressividade.

Entendeu alguma coisa? Nem eu!

Vamos de novo: o Dicionário Houaiss define mania como “hábito extra, prática repetitiva, costume esquisito, peculiar, excentricidade como por exemplo deitar-se sempre do lado direito ou gosto ou preocupação excessiva por ou com algo”.

Melhorou, não é mesmo?

A questão da mania é tão fascinante que alguém, na internet, é claro, se deu ao trabalho de elaborar uma lista com todas as manias conhecidas, de A até Z. Ali encontramos coisas interessantes e inesperadas como a “dacnomania – mania de morder alguém ou a si mesmo”, “erotografomania – desejo de escrever cartas de amor”, “nudomania – mania de ficar nu”, “sofomania – mania de saber muito”, “odaxelagnia – desejo de mordiscar carinhosamente os outros”, “rinotilexomania – mania de colocar o dedo no nariz” e a mais conhecida e que acomete a classe política em geral, a “cleptomania – mania de roubar sem necessidade”.

Mas o que importa mesmo são as nossas próprias manias, aqueles toques que não causam danos a ninguém e, por que não, facilitam nossas rotinas. E sem mais delongas, aí vão algumas das minhas manias preferidas:

  • Ler jornais de trás para diante. Eu acho que isso vem de criança mesmo. Lembro que gostava dos quadrinhos do segundo caderno do jornal carioca O Globo, que ficavam na penúltima página. Depois passei a ler a seção de esportes, sempre na última página. Hoje, bode velho e leitor compulsivo (opa!), só sei ler da última para a primeira página (mas, atenção, é só com jornais, não faço isso com livros e revistas porque ainda não estou louco);
  • Nunca piso no chão sem estar calçado. Isso não sei explicar, já que nasci e cresci em Copacabana, indo sempre à praia de pé no chão. De repente, não consegui mais andar sem um chinelo, sandália, tênis, qualquer coisa, menos pé no chão. Acho que Freud explica. Ou então Jung… Será que pisei em cocô de cachorro e fiquei traumatizado? Vai saber!
  • Minhas roupas são todas arrumadas no armário por tipo e cor. É sério! Separo as camisas em mangas compridas, curtas e sem mangas e agrupo pelas cores. Calças e bermudas também. Mas isso deve ser porque sem óculos não enxergo nada e dessa maneira consigo visualizar facilmente a peça que vou usar. Ainda bem que não sou daltônico.
  • Detesto filas. Fila de banco, restaurante, cinema, teatro, INSS, vale transporte, vale idoso, vale gáz, correios, bolsa família, eleição, o que for. Se for preciso mudo de programa, chego mais cedo ou mais tarde, enfim, faço qualquer negócio para não ser obrigado a encarar uma fila.
  • Roer as unhas. Para falar a verdade, tecnicamente eu corto as infelizes com qualquer objeto cortante que caia nas minhas mãos, ou seja, não sou um “roedor”. Ansiedade, insegurança, falta de louça para lavar? O mais curioso é que agora, já na terceira idade, não tenho mais esse hábito. O que mudou? Não tenho a mínima ideia, deve ser esquecimento mesmo!
  • Pois é. Não, não é o fim da crônica não, é mania mesmo. Podem reparar que uso e abuso do “pois é”, escrevendo e falando, principalmente quando o raciocínio, já meio baleado, custa a fechar a ideia. Tá bom, isso não é mania, é pobreza de vocabulário mesmo…

Mais algum? Sem dúvida, mas acho bom parar por aqui. Algumas manias são tão nossas que fica até difícil explicar. Aliás, não conto nem por decreto! E você, querida leitora e caríssimo leitor, qual a sua mania preferida?

Quase uma rima

Foto: Carlos Emerson Junior

“O preço da criação
nunca é alto demais.

O de se conviver
com outras pessoas
sempre é.”
(Charles Bukowski)

Por que a gente não se fala mais? Tem tanto tempo que não ouço sua voz que quase não lembro se era fina, rouca ou alta. Seus olhos, ainda são azuis? Não, eram castanhos, não é mesmo? Ou seriam pretos? Seus cabelos já estão brancos? Soltos, compridos, bonitos? Ou curtos, sóbrios e delicados, como eu gostava? Caramba, o tempo passa e sua imagem nas minhas lembranças ainda são aquelas, de tantos anos já passados. Sabe, morro de medo de perde-las também. Puxa vida, por que você foi embora? Será que você já me esqueceu? Eu ainda te amo. Muito.