Rio-Friburgo

Todo mundo conhece a história do bode na sala, não é mesmo ? Pois é… no caso da RJ-116 foi a mesma coisa.

Conheço Nova Friburgo desde a década de 70, quando subia de vez em quando para cá pela antiga Rio-N.Friburgo, uma combinação da BR-116 com a RJ-122 e a RJ-116 (ou via Parada Modelo). Mais tarde, com o advento da ponte Rio-Niterói, passei a usar apenas a RJ-116, que diminui a distância.

A RJ-116 era o bode. Uma estrada horrível, mal-traçada, pessimamente conservada, sem nenhuma sinalização. O trecho da serra dava medo e só o pessoal mais corajoso se aventurava a viajar por ali à noite.

Buracos para todo lado, falta de muretas de proteção, o mato invadindo os acostamentos e a pista de rodagem, curvas descompensadas, tudo isso agravado pelos nevoeiros densos que se formam o ano todo e as chuvas torrenciais que caem no verão, trazendo consigo toneladas de terra.

Uma aventura mesmo!

A conservação e operação da estrada era de responsabilidade do DER (Departamento de Estradas de Rodagem) que, solenemente, fazia que nem era com ele….

Até que em 16 de março de 2001 foi assinado o contrato de concessão por 25 anos de 169 km da RJ-116, com a Concessionária Rota 116 S.A., formada pelos sócios Delta Construções S.A. e Oriente Construção Civil Ltda., para operar a rodovia, que vai de Itaboraí até Macuco e tem 4 postos de pedágio: Itaboraí, Cachoeiras de Macacu, Nova Friburgo e Cordeiro.

A tarifa básica, em cada posto de pedágio é de R$ 2,70.

O que aconteceu ? Tiraram o bode da sala, ou melhor, tiraram o DER da estrada. A nova concessionária recapeou o asfalto, pintou faixas de trânsito, colocou placas de sinalização, construiu novas muretas de proteção, instalou guard-rails, colocou tachões fluorescentes no trecho da serra, comprou reboques e ambulâncias, reformou cabines policiais, construiu sistemas de drenagem em trechos mais críticos e por aí vai.

No entanto….

Na minha opinião, fez pouco. A desculpa da concessionária e da Agetransp, agência reguladora desse tipo de serviço aqui no estado, é que com os deslizamentos constantes de barreiras provocados pelas chuvas anuais, o investimento da concessionária vem sendo aplicado em obras de contenção de encostas e recuperação da estrada.

Perfeito. A concessionária e o governo do estado não sabiam que chovia tanto aqui em Nova Friburgo. Aí fica tudo explicado. Se não chover no verão por uns dez anos, vamos ter uma estrada completamente nova!

Para mim, usuário quase diário dessa estrada, ano após ano, foi a própria história do bode. Não dá nem para comparar com as estradas privatizadas de São Paulo, que têm uma ótima infra-estrutura. Aliás, só para ficar no Estado do Rio, não dá nem para encarar a Rio-Teresópolis ou a Rio-Juiz de Fora, que dirá a Rio-São Paulo.

A rodovia continuou tão perigosa quanto antes com uma desvantagem: como o asfalto está melhor, alguns idiotas correm como loucos, provocando um grande número de acidentes. Passei a usar ônibus para chegar em Nova Friburgo com segurança e descansado.

A RJ-116, para mim, apresenta os seguintes problemas:

 

  • Pista de mão e contra-mão muito estreita em vários trechos;
  • Falta da mureta divisória, principalmente entre Itaboraí e Cachoeiras de Macacu;
  • Falta acostamento no trecho Theodoro-Ypú;
  • Falta a terceira pista na subida da serra (pelo amor de Deus, chamar aquela obra “meia-boca” que transformou um mero acostamento em “terceira faixa” é insultar o usuário da estrada. Todos os motoristas de ônibus e caminhões que entrevistei foram unânimes em afirmar que alí não cabe um veículo de médio porte. Uma solução porca e inexplicavelmente aceita sem questionamentos pela Agetransp.)
  • O asfalto do trecho da serra está ruim. A concessionária se limita a repor uma camada de asfalto, quando o correto seria proceder como as demais concessionárias que frisam o piso e aí sim, colocam o asfalto.
  • Faltam tachões fluorescentes no trecho da serra. A culpa é da pista estreita, que obriga ônibus e caminhões trafegarem em cima das faixas central e laterais.
  • A concessionária tem reboques e ambulâncias mas a estrada não tem telefones de emergência nem cobertura de celular em grande parte de sua extensão. Resultado: em caso de pane ou acidente, é preciso contar com a ajuda de outros motoristas para pedir socorro;
  • Não tem estrutura para avisar aos motoristas em caso de acidente ou desabamento da estrada na serra. Por diversas vezes, em dias de grandes temporais, indaguei no pedágio de Cachoeiras de Macacu sobre as condições da estrada. Ninguém sabia de nada… e numa das vezes a rodovia tinha sido interditada em Mury….
  • E o mais espantoso: o trecho entre as cidades de Bom Jardim e Macuco, cerca de 40 kms, não tem acostamento! Pois é… mas a praça de pedágio está lá, bem na entrada de Cordeiro.

A responsabilidade da concessionária é evidente, além do governo do estado ter abandonado a rodovia anos a fio.

E aí vem minha outra queixa: apenas no trecho Itaboraí-Nova Friburgo, cerca de 80 km, o DER-RJ instalou inacreditáveis DEZ radares e pardais, o que dá uma média de um em cada 10 km.

Quanta preocupação com a arrecada.., digo, segurança! São 6 no município de Cachoeiras de Macacu, 3 em Nova Friburgo e 1 em Itaboraí. Depois reclamam que os turistas não aparecem.

Enfim, como a concessão é longa, 25 anos prorrogáveis por mais 25, ainda tenho esperança de estar vivo quando a RJ-116 se parecer, um pouquinho só, com uma das rodovias estaduais paulistas.

Afinal, o valor do pedágio que pagamos é de primeiro mundo!

Foto: Rogério Santana

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