ONU em Nova Friburgo

Gostaria muito de saber de onde saiu essa ideia de que se o número de mortos em um desastre natural passar de mil ou cinco mil pessoas, a ONU interviria automaticamente, assumindo o controle da cidade, estado ou país afetado. Ouvi essa afirmação várias vezes ao longo do ano que passou e, inclusive, que o verdadeiro número de mortos em Nova Friburgo teria sido muito maior do que o oficialmente anunciado, exatamente para evitar essa ação.

Já conversei com amigos, pesquisei e a resposta sempre tem sido a mesma: a ONU não atua em nenhum evento deste tipo, com qualquer número de mortos, a não ser que sua ajuda seja solicitada pelos governos interessados. A intervenção unilateral em qualquer país só pode ser decidida pelo Conselho de Segurança, como foi por ocasião da Guerra do Golfo, em 1990 e o apoio militar aos rebeldes que derrubaram o Kadafi, na Líbia, em 2011.

De quebra, aí vão alguns exemplos: o acidente nuclear de Chernobil, na extinta URSS, provocou a evacuação de 200 mil pessoas, a morte estimada de 4 mil e a contaminação de enormes áreas da Ucrânia, Bielorússia e Rússia. O governo soviético escondeu o máximo que pode e só permitiu a entrada da comunidade científica internacional quando perdeu o controle da situação.

No Brasil tivemos, em 1967, a tragédia da Serra das Araras, perto de Paracambi, no Estado do Rio, que resultou na morte de 1.700 pessoas, naquele que é considerado o nosso maior acidente natural. Eu mesmo, como um sobrevivente (estava em um ônibus da Cometa, indo para São Paulo), posso garantir que só vi tropas do exército e bombeiros trabalhando no resgate.

Ano passado o Japão perdeu mais de dez mil cidadãos em um terremoto, seguido de uma tsunami e, como desgraça pouca é bobagem, um sem número de contaminados com o vazamento em reatores nucleares. Em nenhum momento o governo japonês sequer falou em socorro da ONU…

Enfim, continuo com a dúvida. Se existe mesmo essa regra, por que não foi aplicada no Sudão, país africano onde já foram massacradas mais de dois milhões de pessoas por razões puramente étnicas? E onde estão os capacetes azuis para impedir mais mortes na Síria, por exemplo, onde já perderam a vida mais de cinco mil pessoas?

Sei não, será que essa história não é mais uma lenda urbana? Cartas para o Blog!

3 comentários em “ONU em Nova Friburgo

  1. Carlos, como é difícil a gente saber a verdade. Realmente eu mesmo ouvi esta explicação até de um medico daqui de Teresópolis. Talvez esta seja a história que o povo adotou para explicar o que aconteceu. Porque eu mesmo vi algumas áreas atingidas pelas chuvas aqui em Teresópolis que me levam a concordar com a “informação” de que o número de mortos foi superior ao divulgado. Muito superior. Já levei quatro pessoas que vieram me visitar para um “tour” por estas áreas, numa tentativa de racionalizar aquilo. Como que testando “Olhe para isso e diga que eu estou errado.” Demorei a acreditar que pudesse haver tamanha diferença entre os dados oficiais e o que os meus olhos viram. Enfim, eu não sei qual é o motivo, mas tenho convicção pessoal de que os números oficiais estão absolutamente errados, senão forjados. A questão é por que???

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    1. Meu caro Fred, a questão é muito interessante. No desastre da Serra das Araras, em 1967, o balanço final do governo apontou 1.700 mortos mas só foi possível resgatar 300 corpos. Nesse mesmo ano, no mês de março, a cidade paulista de Caraguatatuba passou por uma situação semelhante à da região serrana no ano passado. Oficialmente foram 438 mortos mas, quem estava lá garante que o número real é muito mais alto…

      Também tenho a sensação de que perdemos muito mais do que os 920 mortos. Hoje, em pleno século 21, temos muito mais tecnologia, pessoal e recursos para efetuar resgates do que há 45 anos. Os exames de DNA praticamente resolvem problemas de identificação.

      A explicação que me parece mais plausível, é que alguém deve ter vendido para o governo estadual, já marcado com as tragédias de Angra dos Reis e do Morro do Bumba, em Niterói, que “permitir” mais do que mil mortos seria um desastre completo para o futuro político do governador, vice e demais envolvidos com o desastre. Talvez tenha surgido aí essa história da ONU…

      É meio “teoria da conspiração” mas, como se trata de política brasileira, tudo é possível, não é mesmo?

      Um grande abraço.

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    2. Em relação a intervenção a ONU, concordo inteiramente com vc Carlos, e acho, pendendo mais pra certeza, de que os mortos e desaparecidos são muito maior que os números divulgados. E aquela história do coronel ficar preso por barreiras justamente nas horas em que os níveis de chuva tinham alcançado os inimagináveis 220mm, não me desce mesmo! Quantas vidas teriam sido polpadas se tivesse sido dado um alerta sequer né? Mas…essa nossa “teoria da conspiração friburguense” está meio sem crédito.

      Abraços.

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