A Voz da Serra

Existe um tipo raro de carioca que não gosta de carnaval e eu mesmo sou um bom exemplo. Enquanto a preocupação da maioria dos meus conterrâneos é, não necessariamente nessa ordem, sair em todos os blocos possíveis, participar dos desfiles no Sambódromo e mandar a patroa e a filharada para uma praia distante, de preferência na Austrália, simplesmente me contento ficando aqui na serra, bem escondido do resto do mundo.

Está bom, escondido é um exagero, até porque costumo me mandar para São Pedro da Serra, um dos lugares com o Carnaval mais animado que conheço. Além do mais, não dá para ficar indiferente aos quase cinco dias de folia, o maior feriadão do ano. Para o bem ou para o mal, Carnaval é um bom negócio e essencial para o turismo de cidades como o Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Cabo Frio e, porque não, Nova Friburgo.

De fato, já foi nosso o título de segundo Carnaval mais importante do Estado do Rio. Em 1872 a Sociedade Musical Campesina solicitou à Câmara de Vereadores uma autorização para realizar dois bailes carnavalescos, nos dias 11 e 13 de fevereiro, no Edifício do Senado, na Rua do Senado, atual Avenida Alberto Braune.

Em 1900 dois salões dividiam os foliões de Nova Friburgo, o da Banda Campesina, também conhecido como Baile dos Pobres e o do Hotel Engert, o Baile dos Ricos, uai. Na Praça XV, atual Getúlio Vargas, acontecia o desfile de automóveis conversíveis, o Corso, onde “belas e gentis senhoritas exibiam seus charmes, atirando confetes e serpentinas no público presente”.

A primeira escola de samba friburguense, a Alunos do Samba, foi fundada em 1946 e no ano seguinte era realizado o primeiro concurso de escolas de samba de Nova Friburgo, em frente ao Clube de Xadrez, na Avenida Galdino do Vale Filho. Em 1956 os desfiles foram transferidos para a Avenida Alberto Braune, onde estão até hoje.

O Carnaval varia de cidade para cidade e o de Nova Friburgo é nitidamente influenciado pelo do Rio de Janeiro. Aliás, o formato atual lembra muito os antigos desfiles na Avenida Rio Branco, abertos ao público. Os bailes nos clubes de nossa cidade e os blocos, organizados ou não, completam o quadro básico.

Mas os tempos mudaram e o Carnaval, principalmente nos grandes centros, virou um negócio muito sério, envolvendo televisão, patrocínios caríssimos, subvenções, tecnologia, sambódromos, turismo e um enorme contingente de profissionais que vivem exclusivamente disso. A era romântica da escola que dependia apenas da comunidade, ficou definitivamente para trás.

Nova Friburgo não acompanhou essa, sem trocadilho, globalização e se manteve bem popular, fiel às suas origens. Os desfiles continuam gratuitos e as escolas se esmeram para oferecer um espetáculo digno e empolgante, assim como os blocos que abrem os trabalhos na sexta-feira ou saem pelos bairros nos demais dias da festa.

No ano passado, ainda sob o impacto da tragédia de janeiro, não organizamos o nosso Carnaval. Ninguém tinha motivo para festejar coisa alguma e precisávamos reconstruir nossas vidas. Durante todo o ano, em meio a instabilidade política que praticamente paralisou a cidade, chegou a ser aventada a hipótese de não realizar a edição de 2012.

Pois é, sei que é estranho um sujeito que não gosta de carnaval dar esse tipo de palpite, mas sou completamente a favor da realização da festa. Precisamos de toda a ajuda possível e concordo que a visão da cidade, com suas encostas desprotegidas, ruas enlameadas toda a vez que chove e um enorme aspecto de abandono, desanima qualquer um.

E não estou falando só em turistas, não. O aspecto de Nova Friburgo no Ano Novo foi deprimente: as ruas completamente vazias, tudo fechado, quase uma cidade fantasma. Será que isso faz bem para nossa auto-estima? Claro que não e só de imaginar como ficaria a cidade no feriadão, sem qualquer evento, chego a me arrepiar!

Precisamos movimentar a economia e mostrar para quem nos visita que ainda somos a mesma cidade bela e hospitaleira de sempre. Nosso Carnaval é animado e tenho certeza que todos os que estão diretamente envolvidos com a sua organização, vão fazer o máximo para levar alegria e diversão principalmente aos friburguenses.

É isso, meus amigos. Sem medo algum, vamos colocar os blocos nas ruas, rindo de nós mesmos. Mostrar para nossas crianças que elas ainda podem brincar e acreditar que, realmente, dias melhores virão. E para nós, friburguenses ou não, basta passar uma tinta branca no rosto e amarrar uma bola vermelha no nariz. Garanto que 2012 vai ficar conhecido como o ano que o povo de Nova Friburgo inundou as ruas da cidade de palhaços.

Que venha o carnaval!

Publicado por Carlos Emerson Junior

Sou carioca, escritor, fotógrafo nas horas vagas, casado. Moro em Nova Friburgo, na Serra Fluminense.

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