Retrato de Copacabana

Posto 6, Copacabana

por Carlos Emerson
Correio Popular, 1961

Copacabana é um pedaço da Guanabara que não se aperta de jeito nenhum. Talvez devido o fato de sua população viver comprimida numa estreita faixa de terra e entocada em apartamentos, a solução é sempre uma: desapertar.

O carioca de Copacabana tem fama de rico. Entretanto, o grosso de Copacabana é a classe média. Barnabés & Cia. Gente de orçamento limitado que luta para se manter no limite de suas posses.

Mas o habitante de Copacabana, habituado a viver espremido entre o mar e as montanhas sabe resolver os seus problemas sem se incomodar com a opinião dos outros

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Uma das coisas típicas de Copacabana são as festas carnavalescas. São organizadas em determinadas ruas para a criançada se divertir. Algumas dessas festas contam com meia dúzia de músicos barulhentos e outras festas com possantes “Hi-Fi”.

Disso resulta que não há preocupação para os pais que não podem comparecer aos bailes infantis das sociedades. A rua está transformada num clube ao ar livre, muito mais saudável que um recinto fechado. A rua está ornamentada e o local onde as crianças se divertem, dançam, pulam e cantam está isolado por madeiras. Há ordem e disciplina. E os adultos zelam para que os garotos tenham o seu carnaval.

Esse tipo de carnaval de rua para crianças foi iniciado pela “turma” de rapazes da rua Miguel Lemos, a qual era encabeçada pelo saudoso vereador Cristiano Lacorte.

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No interior, as festas juninas tem grande animação dado o fato de todas as casas terem quintal ou jardim onde podem armar fogueiras, queimarem fogos dos mais variados e, para alegria da garotada, fazerem subir os balões.

Mas a turma de Copacabana, nesse ponto, resolve também o seu problema. Na véspera de São João ou na noite de São Pedro, é grande o número de pessoas que vai para a praia carregando caixotes, caixas, sarrafos, madeiras, paus, jornais velhos e enfim tudo de velho e imprestável que tiver em casa e que sirva para fazer fogueira.

Pouco importa ao morador de Copacabana que o vejam carregando tudo isso nos ombros ou na cabeça. Ele vai se divertir com a família. E a criançada entra no regime da algazarra porque sabe que sua fogueira está garantida.

Vê-se então, surgindo ao longo da praia de Copacabana, fogueiras grandes e pequenas, onde são queimados fogos e soltos balões a despeito de toda a proibição policial.

Posso garantir que esses são os dias do ano em que eu e meus filhos mais nos divertimos.

Não resta dúvida que a praia toma mesmo um aspecto pitoresco. Deve, mesmo, apresentar o quadro assustador de uma série de incêndios para os passageiros dos navios que nesse momento venham entrando no Rio de Janeiro.

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Os balões juninos trazem-me a recordação de caso acontecido numa companhia seguradora européia, onde trabalhei durante muito tempo. Havia caído um balão numa fábrica segurada nessa companhia. Houve incêndio e prejuízo grande. No ano seguinte, por excesso de azar cai outro balão com incêndio e prejuízo. Recebemos então uma carta enérgica da Europa, onde perguntava aos funcionários do Brasil o que estavam fazendo que permitiam cair balões incendiários nas firmas seguradas.

Publicado no jornal Correio Popular, Campinas, SP, edição de 15 de agosto de 1961

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Carlos EmersonCarlos Emerson foi meu pai. Começou como ajudante nas redações dos jornais de Campinas e logo estava escrevendo. Gostava de lembrar que como jornalista cobria qualquer área. Trabalhou nos jornais “Diário do Povo”, onde aprendeu tudo o que sabia sobre jornalismo e contabilidade, “Gazeta de Campinas” e “Correio Popular”, todos de Campinas. Foi correspondente dos jornais “O Imparcial” e “O Paiz” e colaborador do “Correio da Manhã”, no Rio de Janeiro. Escreveu para as revista “Palmeiras” e “Mensagem de Campinas”, bem como para o “Jornal de Campinas”. Apesar de ter se afastado da imprensa para atuar na área contábil, continuou escrevendo e publicando suas crônicas até falecer.

Foto: Carlos Emerson Junior

 

4 comentários em “Retrato de Copacabana

  1. Comecei lendo achando que era seu o texto pai e tava achando super estranha essa visao de Copacabana. Depois tudo fez sentido. Engracado que vc e vovo tem o mesmo estilo de escrita.

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