O Rio? Vai muito bem, obrigado

RJ17157

por Carlos Emerson
Correio da Manhã, 1955

O Rio de Janeiro ? Vai bem. Muito obrigado.

O Carioca é que não vai muito bem. Desde que soltaram essa multidão de automóveis nas ruas, o carioca passou a viver uma tragédia. Se Shakespeare fosse de 1953 por certo êle traria os Capuleto e os Montecchio para o asfalto carioca e Romeu e Julieta acabariam abraçados e despedaçados na murada do Flamengo.

Contudo temos que concordar que morre mais gente de automóvel no Rio do que no “Hamlet”, contando-se para isso desde a primeira representação dessa peça de Shakespeare no mundo…

Vive o carioca uma época de medo. Medo medroso do próprio medo. Tem medo de olhar as vitrines. De hora em hora sobem os preços.

Tem medo de andar nas ruas, porque a Prefeitura tem o hábito de deixar buracos por tôda a parte. Tem receios de tomar banho de mar. Por que? Muito simples: pelas praias escorrem coisas estranhas dos canos dos esgotos e dizem que essas coisas fazem mal para a saúde…

O carioca é que não vai muito bem…Vive cercado duma Polícia onde há os mais variados uniformes. Policial de todo jeito. Há ocasiões que parece estarmos vendo um gran-de desfile, tal quantidade variada de militares. Mas quando se precisa de um dêles… não aparecem…. E às vezes, quando aparecem épara complicar mais as coisas, sem contar quando dão de fazer assaltos e ainda tomarem niponicamente as namorados dos civis…

Não há morro que não esteja empetecado de favelas. Casinholas de todo feitio improvisadas com tábuas e zinco vão se estendendo através de Copacabana, Ipanema, Leblon e Av. Niemeyer. Como vive essa gente toda ?

O carioca que leva a vida pacata do chefe de familía não sabe explicar como essa gente vive, mas sabe de uma coisa: é que mais dia menos dias, ele acabará sendo assaltado nas ruas. Eu não sei se esses assaltos tem ligação com a gente das favelas…

O Rio de Janeiro ? Vai bem, muito obrigado. Mas o carioca… É a Cofap para atrapalhar o orçamento e a Light para cortar a luz…E já é uma multidão de gente que começa a pregar papel nas paredes anunciando uma eleição que vai haver e prometendo histórias de mil e uma noites… Sim! Mas, desta vez, o carioca já está tão escovado que vai ter medo… de seus salvadores.

O Rio de Janeiro ? Vai bem, muito obrigado.”

*****

Crônica escrita por meu pai, Carlos Emerson, jornalista, contador e auditor, publicada no antigo jornal carioca Correio da Manhã, em 28 de junho de 1955. Se você gostou, vale a pena ler Retrato de Copacabana, escrita em 1961, ainda atualíssima!

Foto: Google Imagens

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