A suicida

A mulher, lá pela faixa dos 40 ou 50, resolveu que era hora de morrer. Impressionada com a história de uma casal que se atirou de um apartamento no rio, durante um incêndio, decidiu que ia se jogar nos ares e voar até a morte!

Avisou sua melhor amiga que, como toda boa amiga, tentou dissuadi-la: “pense na vida, no seu trabalho, nos amigos. Ah, você só pode estar de sacanagem e além do mais, como aqui na cidade os prédios só tem no máximo três ou quatro andares, você se arrisca a não morrer e ficar tetraplégica para o resto da vida.” A amiga encerra dizendo que está atrasada e precisa pegar os filhos na escola: “mais tarde eu ligo para saber o que você resolveu.”

A mulher, furiosa, bate o telefone! Enquanto se veste cuidadosamente, pensa na possibilidade de pular da ponte no rio. O problema é que estava muito frio e sua água imunda, completamente poluída. Só de pensar em se afogar naquele esgoto aberto deixou-a enjoada.

E se ela se ficasse na frente de um caminhão na avenida? Hum… não,isso era coisa de gente que atravessa a rua distraido e possivelmente nem iam achar que foi um suicídio. Um tiro na cabeça era, sem trocadilho, tiro e queda, mas cadê o revólver e cadê que ela sabia atirar? Caramba, estava ficando sem opções e imaginação. Entrar na banheira e jogar uma torradeira ligada, como nos filmes? E isso funciona mesmo, gente?

Sem pensar em desistir, rumou para a rodoviária e embarcou no primeiro ônibus para a capital. Lá sim, em algum daqueles arranha céus conseguiria realizar seu intento. Foi o ônibus sair da plataforma que começou a chover muito forte. No início da estrada funcionários da prefeitura avisam que uma barreira deslizou e o trânsito vai ficar interrompido horas a fio.

Retornaram a rodoviária para aguardar a liberação da pista. Entrou na padaria, pediu um café, pão de queijo e um copinho de água mineral. Conferiu as horas e lembrou que tinha consulta marcada no dentista. Se corresse, ainda daria para chegar na hora. Pagou o lanche com o reembolso da passagem e pegou um táxi, direto para o centro.

Depois de toda essa confusão, o melhor a fazer era deixar para morrer em um outro dia qualquer. Afinal, tinha tempo, todo o tempo do mundo pela frente…

Publicado no Recanto das Letras (01/06/2013)

2 comentários em “A suicida

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