Silveirinha

Da coluna “Crônicas do Rio”, da revista Palmeiras, Campinas, mais um texto escrito por meu pai. Carlos Emerson foi jornalista do “Diário do Povo”, “Gazeta de Campinas” e “Correio Popular”, todos de Campinas, em SP e correspondente do “O Imparcial”, “O Paiz”, no Rio de Janeiro. Escreveu para as revistas “Palmeiras” e “Mensagem de Campinas”, bem como para o “Jornal de Campinas” e o extinto “Correio da Manhã”, aqui no Rio.

Malandro_by_lipew

Carlos Emerson
Revista Palmeiras, 1957

Esta história contaram-me como sendo verdadeira. Eu vou reconta-la, com as devidas reservas. Mas, como se trata dum fato aliás interessante, acho que merece ser transmitido para diante, sem abusar do “quem conta um conto, aumenta um ponto”.

O Silveirinha é o herói. Rapaz de mais de trinta anos capaz de tudo para subir na vida, era realmente o tipo exato do sujeito chaleira. Desprezava os companheiros de trabalho e cuidava só dos chefes. À custa disso, foi subindo na vida. Contavam dele coisas incríveis na sua bajulice.

Imaginem que o Silveirinha conseguiu se tornar sócio de uma conceituada firma. Como? Ninguém soube explicar. Foi assim, tudo de repente. E logo após os primeiros balanços o Silveirinha entrou no lucro e saiu nadando em dinheiro. O seu sócio, o dono da casa comercial, segundo diziam, era um homem de gênio violento. Impulsivo mesmo. Várias vezes andou às voltas com a polícia, processos, etc., porque tinha o hábito de quebrar a cara dos outros. Silveirinha, malandro como era, conseguiu ajeitar-se com o gênio do seu sócio, visto possuir um temperamento esplêndido, onde prevalecia uma passividade sem conta.

Como sócio da casa comercial e babá dos cachorrinhos da esposa do sócio, Silveirinha foi imaginando coisas. Achou que devia ser o dono de tudo! E assim pensou, foi pondo em prática o seu plano. Movimentou a maioria dos empregados a seu favor e procurou convencer a esposa do sócio de que a casa comercial deveria passar para seu nome. Qando julgou que havia chegado o momento o exato, cinicamente procurou o sócio e foi tratando de demiti-lo…

Mas, ele não contava com a reação. O seu sócio não era homem para se deixar embrulhar com facilidade. Vai daí procurar ver tudo direitinho e analisar os fatos examinando-os pessoalmente. Descobriu então a víbora que tinha dentro do escritório e que conseguira até infiltrar-se em sua casa, através dos cachorrinhos da esposa. Estourou de raiva! Chamou os advogados e procurou se desfazer do sócio indesejável.

Silveirinha não se aborreceu com a derrota. No final das contas tinha perdido a batalha de ser dono do negócio, mas deixava a firma com uma boa porção de dinheiro nos bolsos.

Feito o destrato, Silveirinha foi pago de todos os seus haveres. No dia em que esvaziava as suas gavetas e se aprontava para ir embora, o seu ex-sócio o chamou em seu gabinete. Silveirinha entrou meio receoso, pois o diabo do homem andava por demais delicado e super-educado, coisa que não era do seu feitio. Uma vez lá dentro, eis que o homem levanta-se da cadeira e diz:

– Silveirinha! Você foi um patife comigo! Você sai de minha casa com dinheiro nos bolsos graças a essas leis que protegem ladrões, mas vai levar uma recordação para o resto da vida. Ora se vai! Vou quebrar todos os seus dentes!

E assim falando, segurou o Silveirinha pelo pescoço, encostando-o à parede. Quando ia desferir um violento soco, eis que o nosso amigo, rápido e ágil como um gato, desvencilhou-se dos seus poderosos pulsos e pulando para a outra extremidade da sala fez, com um gesto, ficar perplexo o chefe da firma: é que o Silveirinha arrancou da boca a dentadura. Colocou-a nas mãos grandes e ossudas de seu ex-sócio e foi dizendo:

– Não se canse, meu velho, não fique cansado dando socos nos meus dentes. Pode quebrar como quiser a minha dentadura, até pisar mesmo!

E foi saindo todo sorridente, enquanto o impulsivo e violento dono da firma olhava surpreso a dentadura salivosa e nojenta que o Silveirinha largara em suas mãos…

 

Crônica publicada na revista Palmeiras, Campinas, SP, edição de dezembro de 1957

3 comentários em “Silveirinha

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