Decotes amigos

jayne mansfield (1)

Carlos Emerson
Revista Palmeiras, 1962

Há um velho ditado que diz: quem vê olhos não vê coração. Hoje podemos dizer: quem vê mulher, vê mesmo é busto…

Nota-se à medida que o tempo avança, que as mulheres se preocupam cada vez mais com o aprimoramento e exibição do busto, provocando às vêzes até tumultos.

Antes eras as pernas o motivo de exibicionismo. Quanto mais era a vantagem que davam para serem “manjadas”, mais o homem ficava de pescoço torto de tanto espiar.

Mas as pernas já ficaram tão à mostra que agora já sobem pelo joelho acima e dessa forma começam se tornando desinteressantes.

Assim o busto passou a ser o motivo da atração. Isso é o “show” da atualidade.

oOo

Em parte essa questão do busto tomou vulto no cinema. O cinema italiano lançou os bustos da Lollobrigida, Lóren, Allazio e outras. Não tardou a réplica do cinema francês. E como se diz na gíria, o francês botou banca com a exibição dos bustos de Brigitte Bardot, Magali Noel e mais uma dúzia de francêsas robustecidas, tôdas impróprias para menores de 18 anos.

Os americanos não ficaram atrás. Lançaram a sua bomba atômica dos bustos: Jane Mansfield.

Jane Mansfield andou no Rio num dos carnavais passados. No baile do Teatro Municipal consentiu que as alças do seu decote vantajoso fôssem arrebentadas. Com escândalo ou sem escândalo, lá na friza onde se achava, derrubou o seu tremendamente enorme busto em cima dos foliões que pulavam como doidos festejando Momo e o Busto.

Ora, tudo isto tem contribuido para o busto entrar mesmo na ordem do dia e de tal forma que vai superando as pernas.

Mas o pobre homem continua com o pescoço torto e o pior, está ficando vesgo de tanto espiar o que vai dentro dos decotes amigos.

Há pouco tempo, houve numa das boites do Rio de Janeiro uma festa a que deram o nome de “Festa do Decote”.

Naturalmente o society não tomou parte direta nesse gênero de desfile, mas compareceu para aplaudir as girls e vedetes dos teatros musicados e rebolados que tudo fizeram para reduzir ao mínimo os decotes, ávidas que estavam de publicidade.

Segundo os jornais a festa foi boa e os decotes custaram caríssimos. Mas, na hora de ser anunciada a vencedora, houve um sururu entre as “decoteiras”. Tôdas achavam que o seu decote era o maior.

oOo

Andam as sociedades fazendo concursos internos para eleger a Miss Busto. Até que isso é mais bem vestido do que o concurso para escolha de Miss Brasil. A Miss Busto veste-se e a Miss Brasil despe-se.

A Miss Busto enfia um suéter bem justinho e agarradinho, dêsses que fazem o busto ficar pulado. Desfila na passarela. É lógico que o busto vai na frente bem armado e pulado e atrás vem a sua dona carregando o busto.

Imaginem: aplausos. Torcida organizada. Olhos esbugalhados grudados no busto que vai caminhando.

oOo

Temos que concordar que em matéria de roupa a mulher sempre arranja novidade. Simplifica cada vez mais o seu vestuário. Nas praias, pouco a pouco o bikini vai se infiltrando até chegar um momento que substituirá o maiô.

E nós, homens? Triste destino: ficar sempre de pescoço torto e vesgo, espiando o material que passa…

*****

Carlos EmersonGrafia original. Artigo de meu pai, publicado na revista Palmeira, de Campinas, SP, em janeiro de 1962. Carlos Emerson foi jornalista do “Diário do Povo”, “Gazeta de Campinas” e “Correio Popular”, todos de Campinas, em São Paulo e correspondente do “O Imparcial”, “O Paiz” e “Correio da Manhã”, no Rio de Janeiro. Colaborador das revistas “Palmeiras”, “Mensagem de Campinas” e do “Jornal de Campinas”.

3 comentários em “Decotes amigos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s