Homem na cozinha (remix)

Lugar de homem não é na cozinha! Não, não estou fazendo gracinha, imaginem. Essa era uma das frases preferidas de minha mãe e, acredito, de quase todas as mulheres do século passado. Apesar de trabalhar em uma repartição federal no centro da cidade, ela acreditava que homem na cozinha significava, no mínimo, um desastre de proporções épicas.

Está bom, tínhamos empregada e cozinheira, um luxo na época para uma família de classe média muito média mesmo. O mais curioso é que elas também pensavam da mesma forma: na cozinha homem só podia entrar para beber água e olhe lá! Ah, os velhos anos 50!

Por mais que me esforce, não consigo lembrar meu pai preparando alguma coisa na cozinha que não fosse um Martini seco, sua grande paixão culinária ou abrindo uma cervejinha bem gelada, isso quando a geladeira, como todas as da época, conseguiam sobreviver ao calor do verão carioca. E olha que ele morou sozinho durante muitos anos! Mas justiça seja feita, lavava pratos tão bem ou melhor que uma mulher, sem nenhuma conotação machista, por favor.

Meus tios e tias paulistas, mato-grossenses e gaúchos seguiam a mesma cartilha, com uma pequena diferença: a turma do interior pescava ou caçava o almoço, limpava, preparava, juntava amigos e parentes para devorar o bicho e depois iam todos dormir, enquanto minhas tias se encarregavam de limpar a bagunça e deixar preparado o almoço do dia seguinte. Pensando bem, isso não mudou muito e, vamos combinar que fazer um churrasco ou uma peixada uma vez por semana não pode ser considerado “entrar na cozinha”!

Eu nunca soube cozinhar sequer um mero ovo, confesso! Como tinha tudo na mão, acreditava piamente que um bom bife com fritas, arroz e feijão nascia na cozinha. Literalmente, é claro. Como poderia imaginar que teria que ir ao açougue, comprar a carne, temperar e ainda por cima usar aquele negócio chamado fogão?

Pois é, mas como dizia o ditado, “o mundo gira e a Lusitana roda”, um dia a gente acaba caindo na real e é obrigado a aprender o caminho das pedras, ou melhor, da cozinha. Aí, horrorizado, me dei conta que não sabia cozinhar, lavar, passar e limpar a casa, exatamente nesta ordem!

Só me restava tomar vergonha na cara e mandar a tal da herança cultural às favas: resolvi aprender os famosos serviços domésticos. Afinal, se uma mulher consegue fazer tudo aquilo, porque um homem também não seria capaz? Brincadeira, moças!

Homemnacozinha.jpgMinha primeira providência foi pedir para minha irmã, cozinheira de mão cheia, a receita das receitas, isto é, qual panela usar, a ordem das operações, como saber se a temperatura está certa e por aí vai. Minha grande dificuldade era, por exemplo, saber se preparo o arroz antes, depois ou ao mesmo tempo que a farofa. Podem achar graça, mas para um analfabeto funcional culinário, isso é muito importante.

Já a segunda foi mais prática: comprei um micro-ondas, uma das maiores invenções do homem depois da roda e do smartphone! Meus caros, o bicho serve para qualquer coisa, da pipoca ao o sorvete empedrado, da comida congelada até o que sobrou do jantar da véspera. Com ele, você jamais passará fome, a não ser que a luz acabe. Aí não tem jeito, o remédio é ir para o fogão ou procurar um restaurante.

Outra ótima aquisição foi a panela de fazer arroz, totalmente eletrônica. Depois de algum tempo preparando arroz de saquinho, resolvi investir na modernidade e não me arrependo. Seu funcionamento é sensacional e permite combinações facílimas com legumes, brócolis, funghi e por aí vai. Uma beleza e todo mundo acha que meu arroz é ótimo!

Enfim, levou algum tempo, mas nós homens finalmente estamos descobrindo para que serve uma cozinha. Pessoalmente gosto muito, me divirto cozinhando. Aliás, vale até forçar uma analogia: cozinhar é como escrever uma crônica. É sério, você tem que pensar em um prato (ou tema), escolher os ingredientes (pesquisar o assunto), ir para o fogão (escrever), arrumar os pratos para servir (revisar o texto), chamar os amigos para a refeição (publicar) e ficar na expectativa se seus convidados (leitores) gostaram.

Bom apetite, ou melhor, leitura!

A Voz da Serra, 18/2/2012

6 comentários em “Homem na cozinha (remix)

    1. Não sou bom de churrasco, Mariel. Meu cunhado é se encarrega desse “setor”. Mas sei temperar carne, frango e por aí vai, o que já é um começo. Meu objetivo, agora, é encarar um peixe: limpar, temperar, cozinhar. A vantagem de ficar na cozinha é que a gente nunca tem fome e ainda tem direito a um vinho antecipado! rsrs Um abração.

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  1. Emerson que delícia de texto! Dou meus parabéns pois sua história lembra um pouco a da minha família. Só com um diferencial: meu pai amava cozinhar e era um excelente mestre cuca. Assim como meu irmão. Sou uma boa cozinheira pois amo essa arte. Sou a cozinheira oficial de casa nos finais de semana. Adoro! Gosto tanto que fiz dois textos falando sobre o assunto. Se quiser conhecer ficarei feliz em te ver por lá. Espero que goste:
    http://remisson.com.br/2013/06/03/usina-de-transformacao/

    http://sacudindoasideias.wordpress.com/2013/05/05/cozinha-laboratorio-de-lembrancas-e-magia/

    Adorei seu final comparando o ato de cozinhar com o de escrever uma crônica. Taí algo que gostaria de ter escrito!
    Bjs e Bon Apetit!

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