Cidades deficientes

A Voz da Serra

Você sai de casa para trabalhar ou resolver algum problema no centro da cidade. Na primeira esquina dá de cara com um automóvel estacionado em cima da calçada e precisa desviar pelo meio da rua, junto do tráfego. Mais à frente evita um bueiro com a tampa quebrada, contorna alguns postes mal instalados e tenta caminhar em calçadas sem a menor conservação.

Já em seu destino, descobre que como o velho prédio não possui elevador, terá que encarar uma enorme escadaria. Acaba desistindo e resolve voltar para casa de ônibus. Ao embarcar, mais problemas: a entrada do coletivo é muito distante do solo, a roleta fica em um curral estreito e os balaústres são tão altos que mal consegue se segurar.

Pois é, não estou falando de nenhuma prova olímpica ou algum tipo de rali urbano, isso é apenas o seu cotidiano. Agora, imagine que você é um deficiente visual, cadeirante ou apenas um idoso e tente refazer todo o trajeto acima. Quase impossível, não é mesmo?

Infelizmente esse quadro tenebroso se repete em quase todas as cidades brasileiras, apesar da lei 10.098, assinada em 19 de dezembro de 2000 e do decreto 5.296, de 02 de dezembro de 2004, que estabelecem normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida.

No Brasil, de acordo com o Censo 2010 do IBGE, 45.623.910 pessoas (23,9%) tem alguma dificuldade de locomoção e as previsões para o futuro são que esse número aumente ainda mais. É sempre bom ter em mente que todos nós envelhecemos, adoecemos ou podemos sofrer algum tipo de acidente, engrossando ainda mais esta essa estatística.

Mas o que podemos fazer para melhorar as condições de acessibilidade em nossas cidades? Para começar, vamos conhecer e cumprir a lei. Em segundo, bom senso e educação. Sabem o que mais incomoda um deficiente visual? Lixo e entulhos jogados nas calçadas, que se transformam em uma armadilha. E isso, meus caros, podemos muito bem evitar, simplesmente respeitando os horários de recolhimento.

Apesar de serem obrigatórias, as rampas nas calçadas só são implantadas nas esquinas, nem sempre com o tamanho ou a inclinação adequada. Para os deficientes visuais então os obstáculos são muito maiores, principalmente orelhões, correntes e degraus. E tem mais, só mesmo com a boa vontade e desprendimento de um cidadão é possível atravessar uma rua em segurança.

Em algumas cidades brasileiras os semáforos tem um aviso sonoro para pedestres, avisando quando está fechado. Outras estão implantando as faixas guias, uma espécie de trilha com gomos altos, feitos em material resistente, indicando o início e o fim de uma calçada, uma saída para um sinal de trânsito ou uma parada de ônibus, dependendo de seu tamanho e formato. E nem falei das informações em braile em locais públicos, uma exigência muito pouco cumprida da legislação citada.

É importante lembrar que, deficientes ou não, temos os mesmos direitos garantidos pela Constituição Federal, votamos, pagamos nossos impostos e, acima de tudo, somos seres humanos.

Uma pena que são iniciativas isoladas de comunidades mais esclarecidas. O mais comum são as festas que algumas prefeituras têm a cara de pau de organizar quando suas concessionárias de ônibus compram alguns veículos com acesso para deficientes, escondendo convenientemente da população que, desde 2008, a lei prevê que todos os coletivos em uso tem que ter essa acessibilidade. Ah, a política…

Enfim, a lista é enorme e o assunto está longe de se esgotar. Quem tem ou convive com parentes e amigos que sofrem de algum tipo de deficiência física, conhece muito melhor do que eu todas as dificuldades para se locomover no dia a dia. É importante lembrar que, deficientes ou não, temos os mesmos direitos garantidos pela Constituição Federal, votamos, pagamos nossos impostos e, acima de tudo, somos seres humanos.

O que quero dizer é que as cidades tem a obrigação de oferecer condições para que todos os seus habitantes possam viver sem discriminação, com segurança e qualidade de vida. Decididamente os tempos e as pessoas mudaram e se uma cidade não se adaptar às necessidades de seus cidadãos, será inevitavelmente marcada como deficiente. Além de perder de vez o caminho para o futuro.

5 comentários em “Cidades deficientes

  1. Conheço muito bem essa problemática pois além de ter uma irmã cadeirante, tenho idosos na família que sofrem em andar por calçadas mal conservadas, condução com acesso muito alto dificultando a subida nos ônibus, roleta estreita demais impedindo que minha mãe que é obesa utilize pois além da dificuldade, existe a humilhação perante todos. É lamentável mesmo que hoje, em pleno século 21 nossas cidades ainda se encontrem assim. E a sociedade permanece passiva diante disso tudo. Esquecem que um dia ficarão idosos, esquecem que a qualquer momento um de nós pode ficar numa cadeira de rodas. E então? O que faremos não é mesmo? Essa é uma tecla que devemos bater ininterruptamente. Abraço.

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    1. Roseli, obrigado pelo seu comentário, que enriqueceu o texto do blog. Minha esperança é que, com o envelhecimento constante da população brasileira, nós mesmos acabemos influenciando mudanças que facilitem a mobilidade e o bem estar de quem necessita. Concordo com você, temos que bater na tecla sem parar. E sem cansar. Um abração.

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  2. Minha nora é cadeirante e posso dizer que não só as cidades são poucos amigáveis com quem precisa de um tipo específico de serviço urbano. Vi que a minha casa, por exemplo, não foi preparada para a questão. Nem o condomínio onde moro. As salas de cinema têm espaços, mas chegar até lá pode ser uma prova e tanto. Enfim, mais um post com a marca do bom senso.

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