Viagem para o Brasil

Um Chevette zerinho, 30 dias de férias, muita disposição e, é claro, uma mistura de coragem e loucura na cabeça. Foi assim que resolvemos viajar para o Brasil ou, para ser mais exato, sair do Rio de Janeiro, atravessar Minas Gerais, conhecer Brasília, entrar em Goiás e avançar por Mato Grosso adentro até Cuiabá, com direito a uma esticada no Pantanal pela temida Transpantaneira.

A tripulação era composta por um piloto, eu mesmo e minha mulher, excelente motorista e péssima navegadora! De quebra iam duas passageiras animadíssimas para conhecer o Brasil, minhas filhas, com dez e nove anos que, para desespero dos avós, nem ligaram para os alertas sobre a duração do, digamos, passeio e sequer tinham noção do que veriam e viveriam.

O ano era 1991. Collor confiscou todas as poupanças, eu me demiti de um emprego que durara exatos vinte anos e minha mulher foi obrigada a adiar seu sonho de abrir uma clínica médica. Para piorar faltava tudo, de fósforos até a gasolina, que era racionada e não podia ser vendida aos domingos e feriados. Em resumo, não havia ocasião menos adequada para pegar o carro e conhecer metade do Brasil, com duas crianças a tiracolo.

Pois é, o que a gente não faz na vida, não é mesmo? Com todos esses percalços e pela falta de maiores informações sobre as condições das estradas, postos de gasolina e hotéis, tivemos que planejar o roteiro com minúcias, para evitar contratempos. Agora, imaginem esse trabalho sem internet e GPS! O máximo de modernidade, na época, era um guia rodoviário da revista Quatro Rodas e olhe lá.

Saindo do Rio, fizemos um estirão de quase 800 quilômetros até Três Marias, revezando-nos ao volante e ouvindo durante não sei quantas horas a clássica pergunta: – ainda falta muito? Hospedamo-nos num hotelzinho simpático à beira da represa, conhecemos a usina hidrelétrica, comemos um peixe delicioso no jantar e o tonto que vos tecla esqueceu completamente de encher o tanque de gasolina. Dançamos, o dia seguinte era um domingo!

O gerente do hotel fez umas ligações, deu as coordenadas e lá fomos nós, que nem bandidos em fuga, comprar o combustível proibido na casa de um funcionário de um posto, em um bairro afastado da cidade. Vê lá se isso é exemplo que um pai passa para as filhas! Mas a viagem tinha que seguir e Brasília, a próxima parada, estava apenas a uns 400 quilômetros de distância, meras cinco horas na estrada, uma moleza.

Aprendi e daí para a frente, não deixei mais o tanque esvaziar uma gota sequer. A capital federal é sempre uma visão impactante, ainda mais depois que você rodou por tanto tempo por estradas e cidadezinhas típicas do interior mineiro. De repente a gente dá de cara com um lugar moderno, vias amplas, monumentos arrojados, executivos e políticos para todos os lados, enfim, que me desculpem os brasilienses, parece um oásis no lugar errado. Era mais ou menos como Dubai, uma joia no meio do deserto.

Depois alguns dias retomamos o rumo do interior e mergulhamos em Goiás e suas extensas plantações de soja, estradas com longas e tediosas retas, caminhões imensos com três e até quatro reboques, pouquíssimo movimento e os vilarejos cada vez mais espaçados. Para onde quer que olhássemos, a paisagem era sempre a mesma: soja, soja e mais soja.

Dois dias depois atravessamos a divisa com Mato Grosso e chegamos em Rondonópolis, sãos e salvos. Dali para Cuiabá era um pulo e o ânimo da tropa, a essa altura completamente para baixo de tanto ver soja e treminhões, melhorou muito. A primeira parte da odisseia (um exagero, é claro) estava terminando, 2.300 quilômetros e muitos “causos” para contar depois.

Falar que o Brasil é grande é clichê mas rodar, quilômetro após quilômetro nessa imensidão é uma experiência notável. Afinal, saímos de uma região da região da Mata Atlântica, cruzamos o Cerrado e ainda por cima visitamos uma parte do Pantanal de Mato Grosso. Convivemos com pessoas de hábitos e culturas bem distintos e tivemos a oportunidade de conhecer, no local, a originalidade e delícias das cozinhas mineira, goiana, mato grossense e pantaneira.

O que aprendemos, todos os quatro, numa jornada dessas, não tem preço, apesar da brincadeira sair cara! Quase um mês juntos, dentro um automóvel, cruzando estados enormes, com locais completamente diferentes dos de nossa zona de conforto, sempre deixa alguma marca e acaba ensinando que um pouco de tolerância, bom humor e disposição são essenciais para viver bem.

O mais importante é ter noção do que é o Brasil e como é importante que as características de cada região permaneçam originais. Queremos e devemos crescer, mas sem abrir mão de nossas tradições. Se realmente investíssemos em educação, saúde, transportes e saneamento básico, certamente seríamos um povo próspero e muito feliz. Solidariedade, trabalho e esperança é o que não falta nesse interiorzão!

O poeta português Fernando Pessoa escreveu que “navegar é preciso, viver não é preciso”. Sempre é importante conhecer novos lugares, não deixar de encarar a estrada, seja ela qual for. Viajar pelo Brasil é se surpreender a cada momento com paisagens inimagináveis e descobrir que, além da língua, temos as mesmas preocupações, sonhos e a certeza que, no final das contas, somos todos brasileiros da gema.

oOo

Ah sim, voltamos para o Rio de Janeiro pelo mesmo caminho, mas sem passar por Brasília. O Chevetinho se comportou muito bem e o único problema foi um espelho retrovisor que caiu, ainda em Cuiabá. Imediatamente começamos a planejar a próxima viagem, uma esticada até Porto Alegre, passando pelas serras catarinense e gaúcha e retornando pelo litoral para rever Florianópolis.

Mas essa, para variar, vai ficar para uma próxima crônica.

A Voz da Serra, 18 de agosto de 2012

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