Apenas um jogo

JoseMedeirosIMS

Overmundo

Meus pais não assistiram ao “Maracanazo” de 1950 por minha culpa. Minha mãe, grávida de sete meses bem que tentou, mas a aventura que foi a ida a um estádio ainda inacabado como o Maracanã, para ver o Brasil vencer o Paraguai, em pé e junto com duzentas mil pessoas, fez prevalecer o bom senso e os dois, ainda que relutantes, ouviram a final fatídica pelo rádio.

O que aconteceu, depois que o juiz encerrou a partida, já foi contado em verso e prosa mas prefiro as palavras de meu pai: “não se ouvia um pio em Copacabana. Ninguém foi para as ruas. Os bondes e os ônibus tinham parado para acompanhar o jogo e parado ficaram. O Distrito Federal parecia que estava completamente abandonado. Ninguém saiu às ruas, nem para chorar.”

O resto é uma história trágica que nem mesmo o tempo e cinco campeonatos mundiais conseguiram tirar do nosso imaginário. Quem viveu aquilo jamais se esqueceu.

Talvez por ter ouvido tantas vezes essa narrativa, não tive como associar o que aconteceu ontem, no Mineirão, com o desastre de 1950. Não tem nada a ver um com o outro. Naquela vez estávamos em uma final, com um bom time, cheio de gente que virou lenda e tive a oportunidade de conhecer mais tarde, como o grande Ademir “Queixada”, o lendário Zizinho, Nilton Santos, do meu Botafogo, Bigode, lá do Flamengo, o vascaíno Danilo e tantos outros nomes que todos respeitavam e amavam.

Por outro lado, a seleção de 2014 não passa de monte de jogadores comuns – alguns fraquíssimos – sem nenhuma organização tática e técnica. E nem estou falando do lado emocional… Temo que a goleada acachapante, juntamente com a desorganização dos todos os campeonatos, desdo o nacional até os locais, tire ou diminua o interesse da população pelo futebol.

Talvez seja a hora de repensar se devemos nos apegar a apenas um esporte, endeusando até mesmo cartolas que fazem o que bem entendem às custas de tanta e cega devoção. É como eu sempre digo, quem ganha mesmo com o futebol são os dirigentes, jogadores, apostadores, empresários e, é claro, os políticos. E nós… bom, pagamos a conta e nos contentamos com migalhas, no máximo o pão nosso de cada dia e um empatezinho no final de semana.

Finalizo fazendo minhas as palavras do jornalista espanhol Juan Arias, em sua coluna de hoje no jornal El País:

“O Brasil tem de recordar as palavras de Bernard Shaw: “Desgraçados os povos que necessitam de heróis”. Referia-se aos que continuam depositando sua fé em seus caudilhos mais do que na força e criatividade de seus povos, dos não heróis, ou melhor, dos heróis anônimos, os que se forjam na luta dura do cotidiano, os que sustentam nas suas costas, com seu trabalho, o peso da nação.

Hoje o Brasil está descobrindo a si mesmo como uma sociedade mais exigente, que despertou há pouco mais de um ano exigindo uma vida melhor para todos. Essa sociedade é cada vez mais madura porque se tornou mais crítica e rebelde, cada vez mais forte porque começa a crer na eficácia do trabalho realizado com a soma da criatividade de todos.”

Futebol, meus caros, é apenas mais um esporte que não pode nunca ser confundido com o Brasil. Por mais que seja (ainda) a nossa cara.

Foto: José Medeiros (Instituto Moreira Salles)

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