Domingo na praia

No último domingo, dia 15, saí de manhã para caminhar com minha mulher. Fomos do Posto 4, em Copacabana até o Posto 9, em Ipanema e voltamos, passando obrigatóriamente pelo Arpoador. Não era cedo, pelo contrário e até nos arrependemos do horário, mais de onze horas e o sol queimando sem dó.

Copacabana estava tranquila e até meio vazia. Mas em Ipanema, acelerando a marcha, levamos um susto quando fomos “ultrapassados” por três motos com policiais do batalhão de choque, completamente equipados, fardas camufladas e armados com fuzis de assalto. O que estaria acontecendo?

Logo mais adiante, na altura da Maria Quitéria, duas viaturas do choque, os motociclistas e mais uns quinze soldados prontos para o combate, conversavam com guardas municipais. Passamos ao largo e ainda comentamos que se alguém gritasse ‘pega ladrão’ ou algo do gênero, não seria um bom negócio ficar na linha de tiro dos fuzis da tropa.

Fizemos a volta no Posto 9 e retornamos para casa sem maiores transtornos. Não vimos nenhum arrastão, assalto ou violência. Mas muita, muita gente chegava nos ônibus e se dirigia para o Arpoador. Em nenhum momento achei que o pessoal aproveitaria para fazer baderna, já que o policiamento ostensivo, reforçado pela guarda municipal, parecia suficiente.

No dia seguinte, o jornalão carioca O Globo anunciava que arrastões, assaltos, furtos e atos de vandalismo foram cometidos em massa contra a população que apenas queria tomar um banho de mar. Casos de estupro não foram relatados, mas roubos de carros, bicicletas e celulares abundaram. Centenas de pessoas foram presas e o governo do estado chegou a cogitar decretar estado de sítio no Arpoador e pedir ajuda às Forças Armadas. Dos Estados Unidos, por óbvio.

Meus caros, desde que me entendo por gente (e isso já tem muito tempo), todos os verões acontece a mesma coisa. Já era tempo de alguma medida já ter sido testada e implantada para garantir o sossego dos banhistas. É bom lembrar que durante a Copa nada disso ocorreu. O que foi diferente? As pessoas não vieram para as praias? Baixou o espírito cívico nos vândalos? Ou a polícia se absteve de jogar bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo indiscriminadamente, como agora?

Muito se reclama dos grupos de baderneiros (e ladrões de ocasião) e concordo inteiramente, essa gente tem que estar atrás das grades. No entanto, as praias do Rio de Janeiro sempre foram (e serão, espero) o local de lazer mais democrático da cidade. Impedir, dificultar ou cobrar o seu acesso é, obviamente, um absurdo. Garantir a segurança do cidadão, é sempre bom lembrar, é obrigação do estado.

Há uma outra questão. Estamos em ano eleitoral e no Rio, infelizmente, restou apenas um grande jornal em circulação que, por acaso, apóia o atual governador. Estou apenas especulando, é claro, mas a quem interessa manchetes escandalosas falando de “hordas” de desordeiros vagando por Ipanema? Sei lá, mas eles sabem muito bem…

Além do mais, foi essa mesma força de segurança que acabou com as manifestações populares, identificou e prendeu “terroristas” e garantiu que todos os cariocas voltassem a ser trabalhadores, ordeiros e obedientes. É difícil acreditar que não consigam controlar meia dúzia de manés na praia.

Conta outra, vai!

Foto: Carlos Emerson Jr.

2 comentários em “Domingo na praia

  1. José Vicente da Silva Filho, ex-Secretário Nacional de Segurança, ao jornal O Globo, de hoje: “o uso de bombas de gás lacrimogêneo no meio da multidão, foi imprudência da PM. – E tinha criança lá. É um absurdo. É uma questão de treinamento. Em hipótese alguma deve-se jogar uma bomba num local como aquele. Foi uma ação completamente desastrada. O treinamento recomenda que toda liberação de bombas seja feita por um oficial. A primeira preocupação da PM é proteger as pessoas, não é prender bandidos.”

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