Um país dos idosos

– Boa tarde, o senhor não prefere usar a fila dos idosos? Só tem uma pessoa e o senhor pode aguardar sentado.

Olhei para o lado e uma mocinha uniformizada indicava o último caixa do banco. Por uns momentos achei que não fosse comigo. Idoso? Fila especial? Sentar? Como assim? Mas não é que ela tinha razão? Eu sou idoso e agora, com uma barba branca no rosto e ralos cabelos da mesma cor na cabeça, não dá nem para disfarçar a idade. Aproveitei que a fila normal estava encrencada, aceitei a oferta e, oficialmente, assumi a terceira idade.

Vejam só, eu já era feliz e não sabia. Com dois anos de atraso descobri, ou melhor, tive que admitir que já era um vetusto, longevo, duradouro, macróbio, assazonado, matusalém, experimentado, ancião, provecto, sovado, grandevo, anoso, velhote ou coroa, como queiram. Filas exclusivas, ônibus e metrô grátis, teatro, cinema e shows com desconto, reumatismo, gota, vacinas de gripe, dores nas juntas e costas, aposentadorias e tombos ridículos, tudo isso passou a fazer parte do meu mundo.

Bom, essa alienação, digamos assim, tem uma explicação: minha filha mais nova nasceu no mesmo dia que eu e durante 30 anos a dona do aniversário foi ela. Para mim era muito conveniente já que ninguém lembrava que eu estava ficando mais velho. O problema é que ela foi morar no Canadá e, de repente, me vi no centro das atenções. Nada contra, é claro, aniversário é muito bom, a gente ganha carinhos, presentes e parabéns, mas você irremediavelmente se dá conta da idade que está fazendo.

No Brasil não brincamos em serviço e pela Lei 10.741, de 1º de outubro de 2003, todo mundo com 60 anos ou mais é considerado idoso e ponto final. Aliás, fico aqui pensando se esconder ou mentir a idade, não seria um crime. Mas brincadeiras à parte, a citada lei que criou o Estatuto do Idoso foi um avanço enorme em um país que sempre esqueceu que eles existem.

Seguindo a tendência mundial, o Brasil também está envelhecendo. Um estudo do Banco Mundial mostra que em 2050 seremos 64 milhões de idosos, 29,7% da população total, mais que o triplo do registrado em 2010. Proporcionalmente, para cada 100 jovens existirão 172 idosos. As causas são várias: queda da mortalidade infantil, aumento da expectativa de vida e uma enorme diminuição da taxa de fecundidade.

A OMS (Organização Mundial da Saúde), por sua vez, garante que no planeta existirão dois bilhões de idosos em 2050, cerca de 20% da população mundial, o que serve para lembrar que a garotada que está lendo esta crônica terá entre 60 e 70 anos, todos oficialmente idosos. É meus caros, o futuro está logo ali.

Existe um segredo para uma velhice tranquila? Afinal, não somos nenhuma Escandinávia e nossas deficiências são facilmente notáveis, até mesmo porque atingem toda a população: sistema de saúde precário, transporte público inadequado, cidades mal planejadas, isolamento social, dificuldade de trabalho e, principalmente, falta de consideração e respeito. Mas nem tudo está perdido, é claro.

Meu sogro, hoje com 85 anos, mora sozinho com a esposa, tem o seu notebook, frequenta as redes sociais, se comunica pelo Skype, está antenadíssimo com as novidades da informática e é o responsável pelas contas do condomínio onde mora. Tenho amigos, alguns até já aposentados, que trabalham animadamente, sem a menor intenção de parar para, sei lá, pescar! Um deles gosta de brincar dizendo que o que mata é falta do que fazer, para justificar sua permanência em atividade.

Talvez o segredo para uma boa velhice seja atitude! É evidente que não dá para comparar um idoso de 60 anos com um de 80, afinal o tempo é inexorável e, por mais que a medicina avance, o corpo e a cabeça não são os mesmos. Mas acho que tocar a vida fazendo o que gosta, com independência, participação, saúde e amando muito, é um bom caminho. Sei que o Brasil ainda é injusto e desigual e este talvez seja o principal motivo para não descansarmos. A nossa luta hoje por um país melhor, será a boa qualidade de vida dos idosos de amanhã.

É como diz o antigo blues do músico americano Muddy Waters e eu adoro repetir: pedras que rolam não criam limo. E aí estão os velhinhos dos Rolling Stones para confirmar.

A Voz da Serra (27/10/2012)

6 comentários em “Um país dos idosos

  1. Aqui em P. Alegre, quando vou a qualquer repartição ou Banco fico com vontade de perguntar, afinal minha senha (tenho 73 anos) é realmente preferencial ou tenho de esperar alguns de senha normal serem atendidos antes. Devia ter um dispositivo na emissão de senhas que avisasse os atendentes e/ou caixas, que nosso número é o próximo a ser chamado, mas não é isso que acontece.
    Certa vez fui a um Banco oficial, onde existe apenas um caixa para atendimento aos idosos e havia, além de mim, mais três idosos-ainda bem que havia cadeiras – e uma senhora que estava no caixa e não me parecia tão idosa para ter preferência.
    Como estava de costas para a fila impossibilitava melhor avaliação.
    Percebi uma moça andando no recinto com duas crianças com pouco mais de um ano. Um parecia dela a outra não.
    Comecei a estranhar a demora e a inquietude dos que estavam esperando à minha frente.
    Após algum tempo ela virou-se e começou a juntar uma quantidade expressiva de papéis e guardá-los em uma bolsa que até então mantinha entre ela e o balcão de atendimento.
    Despediu-se do caixa e chamou a moça que estava com as crianças e tomou em seus braços uma delas. Certamente a que usou para ter a preferência no atendimento e entregar aos cuidados de outra pessoa.

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