Pouco caso é muito pouco

Quando terminei de escrever a crônica “A cidade deficiente”, publicada no jornal A Voz da Serra, em 13/4/2012, acreditava que “as cidades tem a obrigação de oferecer condições para que todos os seus habitantes possam viver sem discriminação, com segurança e qualidade de vida. Decididamente os tempos e as pessoas mudaram e se uma cidade não se adaptar às necessidades de seus cidadãos, será inevitavelmente marcada como deficiente.

E vai perder de vez o caminho para o futuro.”

Pois é, fui dar uma de otimista e quebrei a cara. Em um curtíssimo intervalo de uma semana, dois casos absurdos chamaram a atenção, pela enésima vez, da opinião pública e me envergonharam profundamente.

No mais recente, na madrugada da última segunda-feira, uma portadora de osteogenese imperfeita, doença rara também conhecida como “ossos de vidro”, foi obrigada a se arrastar pelos 15 degraus da escada de embarque de um avião da Gol, já que nem o aeroporto de Foz do Iguaçu ou companhia aérea possuiam uma plataforma elevada ou um veículo com elevador, para embarcá-la com segurança.

A opção oferecida foi carrega-la no colo, uma situação de enorme risco para os portadores dessa doença e, é claro, uma humilhação. Cabe esclarecer que a empresa que administra o aeroporto é a Infraero. Leia mais no G1.

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deficienteexamedesangueO outro caso, em plena Copacabana, aqui no Rio, foi denunciado pelo jornalista Ancelmo Góis, no O Globo do dia 27 de novembro, apesar de ter ocorrido um ano antes. Um cadeirante foi fazer um simples exame de sangue na unidade do antigo Labs D’Or, hoje Fleury Medicina e Saúde e, como o prédio não tem rampa de acesso ou elevador, foi obrigado a também se arrastar pela escada até o segundo andar para fazer o procedimento. Pior, teve que repetir o trajeto para sair do prédio. Matéria aqui.

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Acho que todo mundo tem uma história para contar ou já presenciou alguma barbaridade do gênero. Até meu sogro, um simpático e ativo senhor com 91 anos de idade, portador da doença de Paget, foi obrigado a aguardar um táxi por quase uma hora, em pé, no Shopping Rio Sul, em Botafogo, apesar dos protestos indignados de minha mulher.

Fico com a péssima impressão de que o brasileiro realmente acredita que ele nunca vai ficar doente ou até mesmo envelhecer e que as leis só valem para os outros. Dá mais tristeza ainda constatar que uma de nossas melhores qualidades, a solidariedade, virou artigo raro, ítem de museu ou colecionador mesmo. Não vejo mais indignação ou revolta. Viramos um povo assustado, “ordeiro e obediente”, como gostam de frisar nossos governantes.

Que pena.

Fotos: Divulgação

7 comentários em “Pouco caso é muito pouco

  1. Carlos,
    Infelizmente, o Mundo vive no individualismo…
    E não é um problema brasileiro! São raros os países onde pensam nos outros, onde consideram uma obrigação criar condições para que T O D O S possam viver livremente…
    Obrigada por nos fazer refletir.

    Curtido por 1 pessoa

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