Era uma vez um eucalipto

Nova Friburgo tinha uma praça com eucaliptos. Além de muito bonita, era nobre. Afinal, foi projetada e construida pelo botânico francês Auguste Glaziou, a pedido do Barão de Nova Friburgo, nos tempos do Segundo Império. A praça foi tombada em 1972, como “Patrimônio Nacional”. Seus eucaliptos tinham dupla função: sanear o pântano sobre o qual a praça foi construida e criar uma feição paisagística única.

O tempo passou, os eucaliptos fizeram cem anos de idade e, como tudo no Brasil, ninguém ligou. Até que um dia, seus galhos começaram a cair. As autoridades, esquecendo que isso é normal em todas as árvores, conseguiu um laudo de uma faculdade local recomendado a retirada das árvores. Para piorar, um órgão federal veio com um outro parecer pedindo o corte de quase todos os eucaliptos que restaram. Esse, pelo menos mostrou as caras e trouxe a reboque um projeto de reforma custando muitos milhões de reais.

As autoridades nem pestanejaram e enviaram seus batalhões de motosserras. A poda foi rasa, indiscriminada, criminosa e covarde. A população se dividiu, a maioria não ligou ou aplaudiu, afinal, Nova Friburgo já tem tantas matas… No entanto, uma minoria foi para a praça, abraçou as árvores, fez barulho e acabou atraindo a atenção da mídia, do MP e de pessoas que amam a cidade e, principalmente, a vida.

Na sua edição de hoje, o jornal A Voz da Serra traz uma declaração contundente do biólogo Cláudio Valente, da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana, após analisar, in loco, os troncos dos eucaliptos cortados: “para mim, há falta completa de critérios para cortar essas árvores. Ainda não me apareceu nada que tivesse sustância para me dizer que precisam cortar essas árvores, nem o que me mandaram por e-mail, nem o que tem aqui e nem isso aqui”.

Como estou longe, deixo esse texto como meu abraço nos eucaliptos. A Praça perdeu, talvez irremediavelmente, sua beleza. E Nova Friburgo, a cada dia que passa, se transforma numa cidade sem alma, como tantas outras deste país afora.

Que pena.

Fotos: Alessandro Rifan, Osmar Castro, Montagna Filmes e Multimídia, Girlan Girland, Scheila Santiago e grupos “Nova Friburgo, Cidade das Árvores Assassinadas” e “Abraço às Áárvores – SOS Praça Getúlio Vargas

Publicado por Carlos Emerson Junior

Escritor e Fotógrafo

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13 comentários

  1. Pena!!! Pena mesmo, meu caro Carlos Emerson… Muita falta de transparência, falhas de comunicação, por parte do Poder público, num mundo em que a informação é, hoje, uma moeda de grande valor. Me parece cada vez mais que essa situação é deliberada por parte da autoridade (ou seria autoritário?), exatamente para confundir ainda mais a opinião pública, dividindo-a e, com isso, tirando algum “partido”… Nova Friburgo, você que a conhece, sabe muito bem, não merece isso. Não merece esse tratamento. Não merece ter no seu comando, um gestor insensível que não tenha condição de entender a alma friburguense.. Mas como dizem que o Governante é reflexo da população que o elegeu (embora nem em tanta maioria assim), POBRE POVO!!! POBRE NOVA FRIBURGO!!

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    1. Perfeito, meu caro amigo. E espero que esse lamentável e desnecessário episódio da Praça coloque um pouco de bom senso na cabeça de nossos governantes. Eu sei que é pedir demais, mas não custa nada acreditar. Obrigado pelo oportuno e ótimo comentário e um abração.

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  2. Eu a partir desse massacre fiz um alerta a estupidez da solução mais fácil:
    https://cadeiranteemprimeirasviagens.wordpress.com/2015/02/05/tente-preservar-a-arvore-em-vez-de-logo-abate-la/

    Olhem esses troncos! Onde que essas árvores estão doentes? Um absurdo!

    Friburgo tinha dado um belo exemplo com os Vereadores entregando/devolvendo aos cofres públicos o montante que economizaram… Pelo jeito o Prefeito já tem destino para essa verba…

    Solidária na tristeza!

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  3. Que tristeza saber que isso está acontecendo em Friburgo, cidade tão querida. Testemunho aqui no Japão o amor e o respeito às árvores, tratadas com cuidado e carinho. Tomo a liberdade de colocar o link de um post que escrevi sobre um projeto maravilhoso de desenvolvimento sustentável e amor à natureza que presenciei, poderia servir de exemplo em tantos lugares do Brasil… Não para nós, mas para nossas crianças | Miscelânea

    http://tokyorio.com/2014/11/15/nao-para-nos-mas-para-nossas-criancas/

    Curtido por 3 pessoas

  4. Que pena e que crime maldito. Isso ocorre pela força do poder que nós damos quando vamos as urnas e elegemos fulano por ser ídolo de nosso time, ou ciclano, por dizer ser médico ou amar animais, enfim, existem centenas de contos mirabolantes que ouve-se dizer mas ninguém se dá ao trabalho para saber de fato quem é. O que ocorre? Simples é como colocarmos nossos filhos para brincar em uma piscina cheia de crocodilos.
    É com esse tipo de atitude que vamos devorando tudo a nossa volta até um dia onde começaremos a devorar com mais voracidade a nós mesmos e este dia está breve. 😦

    Curtido por 2 pessoas

    1. Sergio, se é sobre aparecer foto nos comentários… Abre uma conta no Flickr. Poste-a lá. E depois é colocar o link nos comentários em Blogues do WordPress que ela irá aparecer.

      Aprendi essa há pouco tempo com meu amigo Kambami 🙂

      Se não por esse motivo… Me desculpe pela intromissão!

      Curtido por 2 pessoas

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