Vira-latas

A Voz da Serra

Logo que me mudei para Nova Friburgo, chamou minha atenção a grande quantidade de cachorros de ruas, os populares vira-latas. Geralmente dóceis e silenciosos, passam a maior parte do tempo dormindo, invariavelmente perto de concentrações de bípedes, perdão, humanos, como taxistas, comerciantes e até no prédio da prefeitura.

Conversando com amigos, aprendi que aqui existe o chamado “cachorro comunitário”, que nada mais é do que um ou vários cães “adotados” por moradores de uma rua, que se encarregam de sua alimentação, água, banho e cuidados veterinários. Muito bom mesmo!

Pertinho aqui de casa moram três dessas figuras, um mestiço de pastor belga, completamente negro e muito bonito e outros dois que lembram um labrador de pequeno porte. São educados, não perturbam ninguém e dificilmente são vistos latindo. Em vários pontos das ruas próximos, encontramos potinhos com água fresca e ração.

Passei a fotografar os vira-latas com regularidade, em pontos diferentes de nossa cidade. No entanto, a que seria a melhor foto não foi feita por falta de equipamento, vejam só. Estava caminhando por qualquer motivo na Alberto Braune, quando ouvi uma gritaria quase na esquina da rua Augusto Cardoso. Corri para lá. A polícia desconfiou de dois “elementos” que tinham embarcado em um ônibus da Faol, entrou no coletivo e prendeu os dois que, por sinal estavam armados.

Enquanto os ladrões eram retirados do ônibus, formou-se uma multidão do lado oposto da avenida, ao lado da banca de jornal, para aplaudir a operação e vaiar os dois manés. O curioso dessa história é que de um lado da banca estavam os humanos e do outro cerca de vinte cachorros vira-latas, sem entender nada o que acontecia mas intrigados com toda aquela confusão. Caramba, seria a foto perfeita!

Enfim, vida que segue. Vira-lata é a denominação dada a cães e gatos sem raça definida, os SRD, segundo os mais politicamente corretos (humanos, não os cachorros, por favor). O termo vira-lata deriva do fato de muito desses animais, quando abandonados, serem comumente vistos andando famintos pelas ruas revirando latas e sacos de lixos, a procura de alimento.

Seria o vira-latas o legítimo cachorro brasileiro? De uma certa maneira, temos algumas afinidades, seja na miscigenação, o “jeitinho”, disposição para enfrentar diversidades e a resistência. Não à toa a expressão de efeito “complexo de vira-latas”, criada pelo escritor Nélson Rodrigues para definir o complexo de inferioridade do brasileiro diante do mundo, ficou famosa, apesar de equivocada.

Os cachorros vira-latas são boas praças, independentes e inteligentes. Nós também, só precisamos acreditar nisso.

oOo

Vira-latas são felizes? Acho que sim, pelo menos se considerarmos seu ponto de vista. Quantas vezes não sonhamos em sair por aí sem destino, sem ordens, sem chefes, lenços ou documentos? O escritor americano Jack Kerouac, autor do consagrado livro “On The Road” (Pé na Estrada), afirmava que “há sempre uma estrada em qualquer lugar, para qualquer pessoa, em qualquer circunstância.” E não é que ele tem razão?

O conceito de felicidade varia de um para outro. Com a idade, acabamos aprendendo que a felicidade não se mede, ela simplesmente existe. Felicidade é um estado de espírito e, se nos lembrarmos o quanto a vida é efêmera e preciosa, deixaríamos sentimentos como rancor, inveja e ódio para trás.

É sempre bom lembrar que para os vira-latas, felicidade é um pouco de água fresca para beber, sobras de comida para forrar o estômago, sombra para dormir e a solidariedade dos amigos.

(A Voz da Serra, Nova Friburgo, setembro de 2011)

2 comentários em “Vira-latas

    1. Eu tenho um, ou melhor, uma: a Filó, daschund muito mal criada por minha filha, que foi para o Canadá! Agora, três anos depois, a canina está uma verdadeira lady, Em compensação, precisa fazer um regime urgente: come de tudo sem o menor critério, basta ver alguém mastigando qualquer coisa. Uma figuraça! Mas falando sério, Filó é isso tudo que você falou, companheira, amorosa e dedicada. Descobri que quem tem um cachorro nunca está só.

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