Cavaleiro andante

“Eu cavaleiro andante de outras eras,
caçador só de quimeras,
cruzado de outras jornadas,
cruzo o espaço, cruzo o nada,
cruzo os braços,
só quero você.”
(Ivens Cuiabano Scaff)

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Com acordes em ré menor e uma levada no estilo toada, como o pessoal mais antenado dos anos 70 tanto apreciava, começava a canção “Cavaleiro Andante”, composta quase que numa brincadeira para concorrer no II Festival Universitário da MPB, em 1970.

Quando li o poema do Ivens, imediatamente senti vontade de cantar. A música foi feita em apenas uma noite, sem precisar alterar nenhuma palavra, rima ou métrica. Pode parecer pretensão, mas diria que foi um casamento perfeito e, o mais gostoso de tudo, é que a turminha que sempre nos acompanhava adorou o resultado.

Os festivais da canção estavam na moda e logo os amigos nos convenceram que “Cavaleiro Andante” tinha que participar de algum deles. Dito e feito, fizemos a inscrição no Universitário e lá fomos nós gravar nos estúdios da TV Tupi, na Urca. Foi quando percebemos que não tínhamos a menor chance.

Enquanto aguardávamos, vimos compositores como o Gonzaguinha, Ruy Maurity, Aldir Blanc, Ivans Lins, Ronaldo Monteiro de Souza, Eduardo Gudin, César Costa Filho, Arthur Verocai, Alberto Land e Belchior, só para ficar nos mais conhecidos, entregando suas fitas com músicas maravilhosas interpretadas por Clara Nunes, Maysa, Maria Creuza, Golden Boys, Antônio Adolfo, Nana Caymi, MPB-4 e por aí vai.

Mas chegou a nossa vez de gravar e um bocado tenso, acabei errando tudo na primeira sessão. Na seguinte, talvez entusiasmado pelo interesse que técnicos de som e organizadores mostraram pela música, caprichei no violão e na interpretação. O problema é que nunca fui cantor e minha voz, um fiapo meio desafinado, desvalorizou completamente todo o nosso trabalho.

Saímos da Tupi, no entanto, realizados e felizes. Participar de um festival, naquela época, dava um status danado, mesmo não sendo classificado. Combinamos ali mesmo, enquanto esperávamos o ônibus 512, compor uma nova música para o festival do ano seguinte, convidar uma cantora famosa (ou quase), encomendar um arranjo da pesada, gravar em um estúdio profissional e ganhar o primeiro lugar, iniciando uma longa carreira como compositores de sucesso da MPB!

É claro que nada disso aconteceu.

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Mas afinal, o que é um cavaleiro andante? Segundo a onipresente Wikipédia, eram uma espécie de cavaleiros errantes, guerreiros obstinados e solitários perseguindo objetivos específicos como resolver injustiças, proteger os pobres e oprimidos, a honra das moças e defender a religião.

Bom, tem cara de literatura e deve ser mesmo. Dom Quixote, o “Cavaleiro da Triste Figura”, magistralmente criado pelo escritor espanhol Cervantes, possivelmente seria trucidado por bandidos assim que entrasse em alguma floresta ou vendido como escravo para o senhor feudal mais próximo. Não, decididamente, o mundo nunca foi um bom lugar para idealistas, românticos e ingênuos, não necessariamente nessa ordem.

O mais provável é que na confusão que reinava na Europa medieval, centenas de ex-combatentes e nobres falidos andassem para lá e para cá, vendendo sua espada para o senhor que pagasse melhor. Em outras palavras, meros mercenários. Para não me chamarem de cético, talvez um ou outro salvasse uma donzela de um dragão, mas tenho sérias dúvidas se esses seres míticos existiram em qualquer tempo de nossa história…

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Cavaleiros andantes são tão anacrônicos que acabaram virando super-heróis de histórias em quadrinhos. Como vivemos em uma era tecnológica, seus feitos não são mais cantados por menestréis e suas violas da gamba, nas noites claras de luar, ao redor de fogueiras. Hoje nos divertimos com os jogos para smartphones ou tablets, videogames, filmes em 3D e séries para a televisão.

No entanto, se pararmos para pensar, no fundo estamos sempre esperando a vinda de um desses guerreiros para nos redimir. Aliás, se não fosse um solitário ministro do Supremo, com sua toga negra e palavras afiadas, os 40 ladrões não seriam trancados nas masmorras do castelo e nós não estaríamos discutindo Lei e Ética.

Pois é, de repente, uma antiga lenda pode ter o seu momento de realidade, não é mesmo?

A Voz da Serra, Nova Friburgo

10 comentários em “Cavaleiro andante

    1. Ah, meu caro, as gravações foram feitas num gravador de rolo. A fita se perdeu por aí, depois de tantos anos. Acho que tenho uma cópia em fita K7 numa das caixas guardadas no porão do apê de Friburgo. Vamos ver se algum dia arranjo coragem (e disposição) para fazer um “trabalho arqueológico”! 🙂

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  1. Como não nos esbarramos Carlos? Simples da minha parte faltou coragem, havia música feita, grande letrada, violão afinado a quem brincava com os exercícios de Leo Brouwer, não eu que sempre fui dos teclados, mas do amigo Dergan que brincava nas cordas e outro João Ricardo. Quando todo mundo se reunia para ver o primo da amiga Oswaldo Montenegro já com fama e a menina Kátia que teve como padrinho de lançamento Roberto Carlos.
    Fora tudo isso os passa fora do Tim Maia que não queria ninguém observando a coleção de carros que tinha.
    Enfim, a música ficou pessoal, algo de dentro sem vontade de mostrar, me serve como lembranças quando tempo ainda tenho para sentar-me ao piano e de improviso criar som e música que acalma o demônio que há dentro do meu Ser.
    Carlos não fui boêmio, mas conheci nos locais que frequentava, muitos no Hotel Meridien, que era certo me encontrar ou no Café de La Paix, Regine’s ou (“Greff Bob”) não me lembro direito, ou então lá no finalzinho do Pigalle.
    Depois disso meu amigo faram tantos outros pontos até um dia abandonar essa farra noturna.
    Vi muita gente boa de frente, Cauby, Bibi Ferreira, Angela Roro, Cassia Eller, Clara Nunes, Edu Lobo, Sandra Sá, Edu da Gaita (conterrâneo que me presenteou com uma de suas gaitas) Nelson Motta, Gal Costa ainda quando morou em um apartamento no início do Vidigal, enfim… não era para que eu fosse do mundo da música mesmo a tendo como prazer.
    E pra dizer que o guerreiro não foi esquecido, seu sentimento vive e irá renascer num dia quando todos menos esperarem.
    Fica o link e o abraço dessa lembrança que me deu o prazer de ler.

    https://kambami.wordpress.com/2013/09/12/deveres-do-guerreiro/

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  2. Também adorei a história.Vivi essa época intensamente, conheci Gonzaguinha, Ivan Lins, Aldir Blanc num festival universitário, se não me engano no João Caetano. Nessa época estava grávida e meu filho quase nasceu lá ! rs Antes disso ( sou mais velha que vcs) assisti ao início da bossa nova num show na faculdade de arquitetura, ainda na Urca, chamado A Noite do Amor do Sorriso e da Flor. Ótimas lembranças …

    Curtido por 1 pessoa

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