O cemitério dos americanos

Publicado no A Voz da Serra

— Por favor, bom dia! Será que algum de vocês sabe informar como eu chego no Cemitério dos Americanos?

Corria a década de 90 e eu estava em Americana, no estado de São Paulo, voltando para o Rio de Janeiro, após uma viagem até Porto Alegre, com mulher e filhas pequenas. Animado, resolvi conhecer as origens da família e visitar o tal cemitério, onde existe um monumento aos imigrantes norte-americanos que vieram para o Brasil a partir de 1865, fugindo da Guerra de Secessão que acabou com o sul dos Estados Unidos.

— É melhor você se informar nos correios. Afinal naquela região tem gente morando e eles recebem cartas, não é?

— Claro, sem dúvida. E lá fui procurar uma agência.

Pois é, um carteiro me ensinou parte do caminho: o cemitério ficava na zona rural, na direção de Santa Bárbara d’Oeste. De lá era só me informar que o caminho não era difícil.

– Mas só tem cana!

Foi o que todos falamos nesse pequeno lugarejo, cujo nome não recordo. Um canavial enorme, a perder de vista, um espanto para quatro cariocas pouco acostumados com o campo. Nunca tinha visto um de longe quanto mais assim, bem do lado da janela do carro.

— O Cemitério dos Americanos? O melhor caminho daqui é por dentro do canavial.

— Pelo canavial? Mas como que eu vou…

Bom, um simpático senhor na porta de uma birosca acabou me convencendo de que eu estava muito perto e, melhor ainda, era muito fácil: bastava contar as entradas à esquerda e à direita das plantações de cana-de-açúcar que não tinha como errar. E, sem pensar duas vezes, lá fomos nós em direção ao desconhecido.

Alguém aqui já dirigiu dentro de um canavial ? É uma loucura. O piso de terra até é bem razoável por causa do trânsito de caminhões e tratores, mas você só consegue ver para a frente. Os enormes pés de cana-de-açúcar criam uma barreira impenetrável, dando a nítida impressão de que você está em um túnel sem o teto.

Seguimos. Andamos. Esquerda, em frente, direita e não chegávamos a lugar algum. Só cana, cana e mais cana. De repente, pendurada em um poste de madeira surge uma placa de ônibus, bem velhinha. Opa! Se tem ônibus tem gente. Estamos perto da civilização. E estávamos. Logo em frente vimos o vilarejo de onde saímos, o ponto de partida da aventura.

— Ai, ai, ai, estamos andando em círculos! Onde nós erramos?

Voltei à birosca, onde o simpático senhor, com ar superior sentenciou:

— Ah, mas você não não pode dobrar na primeira à esquerda. Vá em linha reta e siga as instruções para não se perder.

Partimos para a segunda tentativa, sempre em frente, como recomendado. Cada vez mais as plantações aumentavam e o tempo fechava. Nuvens carregadas se aproximavam pelo sul e alguns trovões se ouviam à distância.

— Olhem só o tempo! Será que vem algum tornado por aí, igual ao do filme Twister ?

É claro que o tempo fechou completamente, só que dentro do carro, uma senhora tempestade:

— Pai, volta, se vier um tornado nós estamos perdidos!

— Amor, vamos voltar logo. Aliás, perdidos nós já estamos!

— Eu quero voltar, quero minha casa…

— Pessoal, no Brasil não existe tornado. É só a paisagem é que é parecida! Vamos lá, já estamos quase chegando!

— Que chegando que nada! Olha só a placa do ponto de ônibus de novo aí na frente. Trata de voltar logo para a cidade antes que chova ou que a gente nunca mais saia desse canavial.

Era verdade. A maldita placa de ônibus estava ao lado do carro. Tínhamos voltado ao ponto de partida. Ou eu era incapaz de entender instruções e guiar dentro de um canavial ou o simpático senhor tinha ódio de americanos e tentava me fazer andar em círculos para o resto da vida.

Retornamos tão chateados que fomos direto para Campinas, onde ainda fui obrigado a passar em um shopping center para tomar um banho de civilização. A tentativa de conhecer as origens da família virou motivo para boas gargalhadas e acabou rendendo uma história.

oOo

O Cemitério dos Americanos ou Cemitério do Campo faz parte do município de Santa Barbara D’Oeste e é preservado pelos descendentes dos antigos Confederados que imigraram do sul dos Estados Unidos para o Brasil, no final da guerra civil norte-americana.

O Reverendo Willian C. Emerson veio na primeira leva com mulher e filhos de Meridian, no Mississipi, em 1865. Deu origem a nossa família e está enterrado lá. Por sinal, este ano comemoram-se os 150 anos da imigração, mas isso é assunto para uma próxima crônica.

6 comentários em “O cemitério dos americanos

  1. Carlos comecei a ler e me lembrei do meu sofrimento. Não, eu não estava a procura do cemitério dos americanos e muito menos em Santa Barbara D’Oeste, mas sim indo por um caminho que segundo o matuto local era bem mais rápido de chegar a Cidade de Campos. Lembro-me de entrar por Macaé e seguir também por dentro desse “túnel sem teto” interminável para chegar primeiro a um lugarejo chamado de Quissamã. Lembro-me também de parar o carro e perguntar aos poucos que passavam pelos canaviais se ainda faltava muito e diziam: “É logo ali moço depois da ponte”.
    Enfim, aprendi que para o povo da roça o “logo ali” é um dia de viajem.
    Não sei como não morri de ver tanta cobra atravessando rua, tanta cana que me deixou bêbado só de sentir o cheiro.
    Hoje quando quero saber de Campos ou mesmo Quissamã, olho no Google. Tô fora, rssssss. 😉

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