Eu não pago IPVA

A Voz da Serra (2013)

Minha irmã foi uma das primeiras a reclamar: – “o IPVA está pela hora da morte!” Coitada, com dois carros na garagem, estava justamente furiosa com o valor do imposto criado no final da década de 60 pelos militares para renovar nossas estradas, com o pomposo nome de Taxa Rodoviária Única. Rebatizado em 85 como IPVA, ninguém viu melhora alguma, é verdade, mas isso é outra história.

Antes de prosseguir, é bom deixar bem claro que não vou pagar o tal do IPVA, DPVAT, licenciamento, vistoria, seguro, multas ou qualquer outro tributo dessa natureza por um simples motivo: não tenho carro desde 2005 e Nova Friburgo foi uma das maiores responsáveis. Morando em uma cidade onde o clima é ameno, não chove em boa parte do ano, o visual é maravilhoso e, pelo menos do ponto de vista de quem morou ( e ainda mora) no Rio de Janeiro, tudo é pertinho, ficou fácil tomar essa decisão.

Na realidade, sempre usei transporte público, mesmo quando cheguei a ter três carros na garagem! O caso carioca é exemplar e mesmo longe da perfeição, lá você tem ônibus, metrô, trem e barcas para qualquer lugar. No entanto, depois de alguns anos gastando uma fortuna com gasolina, estacionamentos e remédios para manter a saúde e a sanidade em engarrafamentos intermináveis, resolvi dar um basta e vendi o automóvel. Aliás, sequer renovei minha carteira de habilitação.

De cara senti uma enorme diferença no bolso. Melhor ainda foi redescobrir que é possível andar a pé pela cidade! Conheci pessoas que cada vez mais consideram que morar longe do trabalho e guiar em congestionamentos como os de São Paulo, batendo nos 300 quilômetros diários, é um completo estorvo. Minha mulher, um ano após, aderiu e hoje somos um feliz casal sem carro.

Bob Lutz, ex-vice-presidente de BMW, Ford, Chrysler e General Motors, garante que a queda do interesse por automóveis é uma tendência mundial: “a sedução do carro não faz mais sentido e dirigir será um lazer excluído das cidades, como andar a cavalo.” Os depoimentos a seguir, recolhidos em publicações recentes, mostram que esse fenômeno veio para ficar:

“Eu sou mais feliz desde que parei de guiar. Eu sou mais leve, não tenho de me preocupar onde parar o carro, não penso em multas. Na hora do congestionamento falo no celular e ouço música”. (Raí, ex-jogador de futebol, Diário de São Paulo)”

“Claro que numa metrópole muitas pessoas não podem viver sem o carro. Moram longe. O trabalho exige. Ou um parente idoso precisa ser constantemente deslocado. Mas cheguei à conclusão que: 1) estou bem servido de ônibus e metrôs 2) um táxi eventual fica mais barato que um estacionamento 3) não pagar IPVA e seguro automobilístico é uma delícia 4) estou caminhando mais, com mais saúde e menos stress 5) o metrô me dá a chance de almoçar na Pompeia e tomar um café na avenida Paulista. Hoje, sou um feliz sem carro.” (Dagomir Marquezi, jornalista)

“Fui deixando o carro aos poucos, mais parado no estacionamento do que andando. Acostumei-me a fazer a maior parte das coisas de que preciso a pé e descobri que é possível, sim, viver sem carro. Em último caso, pego um táxi ou chamo a ambulância. Tenho 35 mil motoristas à minha disposição em São Paulo, sem falar em ônibus, metrô…” (Ricardo Kotscho, jornalista).

“Não quero mais carro. É uma encrenca. O trânsito vai ficar cada vez mais uma loucura. Estou super feliz. Atendo a meus clientes sem carro e não tenho estresse” (Mônica Nobre, designer de interiores).

Gostaram? No entanto, é bom ter em mente que o transporte público, coração desse estilo de vida, ainda tem que melhorar muito. Precisamos de ônibus, trens e metrôs confortáveis, pontuais e baratos, circulando as 24 horas do dia, táxis com tarifas mais acessíveis, ciclovias e ciclofaixas corretamente implantadas. Se em Nova Friburgo é possível se deslocar para o trabalho simplesmente andando, que o seja em calçadas bem conservadas, praças arborizadas e vias limpas, sinalizadas e seguras.

Decididamente, não haverá lugar para automóveis nas cidades do futuro.

5 comentários em “Eu não pago IPVA

  1. Carlos, identificação total com sua postagem. Até hoje sou cobrada pelo fato de ainda não ter um carro. Nunca senti vontade de dirigir e com o passar dos anos, fui ficando cada vez mais distante dessa possibilidade. São Paulo não aguenta mais nenhum carro nas ruas e quer saber? Não me faz falta mesmo! Vou onde quero e preciso, utilizo metrô que é muito bom e rápido, sou bem servido pelos ônibus ( pelo menos na minha região), trem funciona e me leva onde quero. Pra que ficar estressada na direção se posso ir e voltar de ônibus, sentada confortavelmente lendo um livro e ouvindo música? Acredito que essa seja a tendência de todos mesmo. Ah! E não me esqueço também de caminhar muito. Areja a mente, fortalece as pernas e ainda serve de momento de criação para meus textos. Abraço!

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    1. Sou o primeiro a reconhecer que ainda temos muito o que cobrar por um sistema de transporte público de qualidade. Mas o que existe aí, principalmente em SP e no Rio já dá para atender com algum conforto e rapidez. Enquanto isso, ando a pé! É “di grátis”, faz bem prá saúde e, como você bem lembrou, inspira. Um abração, Roseli.

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  2. Bem, eu nem me aventuro a pegar um ônibus mesmo indicando que tem acessibilidade. E é para não me estressar com pessoal reclamando da demora ao embarcar… Uso táxi! Que também me estressa um pouco com alguns motoristas. Mas usando muito mais um empresa, há um certo alívio.

    Bom seria se o Táxi para Cadeirante não fosse tão caro 😦
    😀 Eu até fiz um certo pedido:
    https://cadeiranteemprimeirasviagens.wordpress.com/2012/04/07/politicos-e-empresarios-colaborem-na-corrida-pois-taxi-para-cadeirantes-e-muito-caro/
    🙂

    Enfim, pelo o que tenho lido… virou tendência meio que desestimular carros particulares nas metrópoles… O que será bom até para o ar que respiramos 🙂

    Mas confesso que tem hora em que desejaria muito ter um carro… Como nas horas em que o taxista passa direto…

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    1. Pois é, Valéria. Fico triste quando vejo que a prefeitura do Rio não tem coragem de exigir das empresas de ônibus a adoção dos veículos com piso baixo, que não tem o infame elevador usado na grande maioria dos coletivos com chassis de caminhão que imperam no Rio. Algumas poucas empresas, como a São Silvestre, usam esses carros em algumas linhas, mas é só. Nem o Ministério Público mostra interesse, uma lástima mesmo. Já quanto aos táxis, só tenho usado os aplicativos 99Taxis ou o EasyTaxi, principalmente quando saio com meus sogros nonagenários. É só avisar que é cadeirante que logo aparece um. Até quando nossas cidades serão deficientes, minha amiga? Um abração.

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