Uma queda olímpica

A crônica é antiga, foi publicada no jornal A Voz da Serra, de Nova Friburgo, exatamente no dia 7 de setembro de 2012, mas não fala do nosso ‘Independence Day’ e sim de tombos, quedas, tropeções, escorregadas e tudo o que nos joga no chão, no sentido literal da expressão e sem direito a nenhuma medalha.

Muito pelo contrário…(Carlos Emerson Jr.)

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Uma queda olímpica

Meu sogro, talvez influenciado pelos recém-encerrados Jogos Olímpicos de Londres, esqueceu que está com 80 e muitos anos e resolveu saltar sobre um balde de água que a faxineira esqueceu na porta da cozinha do seu apartamento. O resultado da proeza foi um tornozelo fraturado, quinze dias de molho com um trambolho na perna jocosamente apelidado de robocop e, é claro, sem direito a uma medalha qualquer.

Um grande amigo nosso, médico e professor de primeira linha, gostava de alertar, com a voz grave e a expressão bem séria que, o que mata velho mesmo é um bom tombo. Um belo dia ele mesmo, também idoso, escorregou na escada de casa, quebrou uma clavícula e lá se foi para o hospital. Não é que ele sabia o que estava falando?

Minha mãe, já com quase noventa anos, saiu do boxe após o banho, ignorou o piso molhado e se esborrachou no chão! Para sua sorte, minha irmã estava por lá e correu para ajudar. Incrivelmente ela não fraturou um ossinho sequer e as sequelas foram alguns hematomas e a dignidade profundamente ferida. Imagina se a velha senhora ia aceitar que tinha caído porque não usou o tapete de borracha do banheiro?

Eu também não posso falar nada: após terminar um trabalho no notebook de uma de minhas filhas, resolvi guardar o aparelho. Como a cachorra da casa estava dormindo no corredor, fui tateando no escuro para não acorda-la. A idiotice não deu em outra: pisei em um dos brinquedos da peluda, perdi o equilíbrio e cai de cara no chão. Não me machuquei e nem quebrei o computador, mas tive que aturar dores no corpo e gozações por alguns dias. E olha que eu ainda nem era oficialmente um idoso!

Pois é, casos como esses se sucedem em todos os lugares e todo mundo tem uma ou várias histórias para contar, uma grande parte com um final bem mais triste.

Segundo o Sistema Único de Saúde – SUS, 75% dos acidentes sofridos por pessoas com mais de 65 anos acontecem dentro de casa, sendo as quedas as mais comuns. De fato, 30% dos idosos caem pelo menos uma vez por ano e 75% dentro de sua própria casa. Infelizmente, as quedas também são as maiores causadoras de óbitos, chegando a 70% na faixa etária acima de 70 anos. É importante frisar que 46% das fraturas provocadas por esse tombos acontecem durante a noite, no trajeto quarto-banheiro.

As causas dessas quedas são inúmeras, já que à medida que a idade avança, perdemos nossos reflexos e agilidade, mas em alguns casos, a imprudência também faz suas vítimas. Meu sogrão, logo depois de seu tombo olímpico, cismou que a poltrona do seu computador era mais adequada que a cadeira de rodas recomendada, se empolgou e… caiu novamente, felizmente, desta vez, sem mais nenhum dano físico!

O renomado Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia – INTO publicou o artigo “Queda de Idosos”, (que pode ser lido na internet, no endereço http://bvsms.saude.gov.br/bvs/dicas/184queda_idosos.html), abordando o assunto de forma didática e deixando uma série de sugestões e cuidados para minimizar ou até mesmo evitar os tombos.

Confira algumas:

No quarto:

  • Coloque uma lâmpada, um telefone e uma lanterna perto de sua cama;
  • Durma em uma cama na qual você consiga subir e descer facilmente (cerca de 55 a 65 cm);
  • Os armários devem ter portas leves e maçanetas grandes para facilitar a abertura, assim como iluminação interna para facilitar a localização dos pertences;
  • Dentro do seu armário, arrume as roupas em lugares de fácil acesso, de preferência evitando os locais mais altos;
  • Instale algum tipo de iluminação ao longo do caminho da sua cama ao banheiro;
  • Não deixe o chão do seu quarto bagunçado.

Na sala e corredor:

  • Organize os móveis de maneira que você tenha um caminho livre para passar sem ter que ficar desviando muito;
  • Mantenha as mesas de centro, porta revistas, descansos de pé e plantas fora da zona de tráfego;
  • Instale interruptores de luz na entrada das dependências de maneira que você não tenha que andar no escuro até que consiga ligar a luz. Interruptores que brilham no escuro podem servir de auxílio;
  • Ande somente em corredores, escadas e salas bem iluminadas;
  • Mantenha fios de telefone, elétricos e de ampliação fora das áreas de trânsito, mas nunca debaixo de tapetes;
  • Coloque nas áreas livres tapetes com as duas faces adesivas ou com a parte de baixo não deslizante;·.

Na cozinha:

  • Limpe imediatamente qualquer líquido, gordura ou comida que tenham sido derrubados no chão;
  • Armazene a comida, a louça e demais acessórios culinários em locais de fácil alcance;
  • As estantes devem estar bem presas à parede e ao chão para permitir o apoio do idoso quando necessário;
  • Não suba em cadeiras ou caixas para alcançar os armários que estão no alto;
  • A bancada da pia deve ter de 80 a 90 cm do chão para permitir uma posição mais confortável ao se trabalhar.

Na escada:

  • Não deixe malas, caixas ou qualquer tipo de bagunça nos degraus;
  • Interruptores de luz devem estar instalados tanto na parte inferior quanto na parte superior da escada. Outra opção é instalar detectores de movimento que fornecerão iluminação automaticamente;
  • A iluminação deverá permitir a visualização desde o princípio da escada até o seu fim, assim como as áreas de desembarque;
  • Remova os tapetes que estejam no início ou fim da escada;
  • Coloque tiras adesivas antiderrapantes em cada borda dos degraus;
  • Instale corrimãos por toda a extensão da escada e em ambos os lados. Eles devem estar em uma altura de 76 cm acima da escada.

No banheiro:

  • Coloque um tapete antiderrapante ao lado da banheira ou do box para sua segurança na entrada e saída;
  • Instale na parede da banheira ou do box um suporte para sabonete líquido;
  • Instale barras de apoio nas paredes do seu banheiro;
  • Mantenha algum tipo de iluminação durante as noites;
  • Use dentro da banheira ou no chão do box tiras antiderrapantes;
  • Ao tomar banho, utilize uma cadeira de plástico firme com cerca de 40 cm, caso não consiga se abaixar até o chão ou se sinta instável.

*****

Já estava colocando o ponto final na crônica quando minha irmã telefonou para contar que a mãe de uma amiga, uma senhorinha simpática e independente, foi atender o interfone do apartamento, se enroscou com o cachorrinho de estimação e caiu no chão, fraturando o fêmur. Como diziam antigamente nos filmes de suspense, o perigo está sempre à espreita e vem de onde menos se espera.

Como prevenção não custa nada, que tal dar uma checada na sua casa? A turma da terceira idade agradece.

A Voz da Serra (7/9/2012)
Fotografia: Eddie Keogh/Reuters

2 comentários em “Uma queda olímpica

  1. Verdade e olha que nesse ponto sou chato, volta e meia reclamo de deixarem a “tromba” do aspirador solta, rssss. Lavar faca na cozinha então não deixo ninguém somente eu posso. Sabe é meio que traumático, canso de ver lavarem e ficarem com a faca apontada para cima. Aprendi que faca é além de objeto de cozinha uma arma letal. Manas a parte, não deixo minha esposa subir em escada, sabe aquelas de alumínio, somente quando estou perto. Bom se eu for descrever toda minha mega atenção, vai querer me internar, rsss.
    Mas é isso, tanto que estou pensando em sair da casa que tem dois andares para um partamento, assim não há perigo na escada. Na verdade é pavor de tombo mesmo. Adorei o texto e as dicas. 🙂

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