A hora das chuvas

 

A crônica abaixo foi publicada no jornal friburguense A Voz da Serra, na edição de 31 de março de 2011. A foto, feita por mim mesmo alguns dias depois da tragédia, mostra uma parede da Capela de Santo Antônio, na Praça do Suspiro, duramente atingida pelos desabamentos. Nova Friburgo voltou ao normal, embora algumas cicatrizes ainda estejam expostas. Mas, cinco anos depois, fico com a incômoda sensação de que não aproveitamos a oportunidade para reconstruir uma cidade completamente nova. Pois é, 12 de janeiro é uma data para nunca se esquecer. (Carlos Emerson Junior)

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Vamos definir chuva ? Bom, segundo o Wikipédia, chuva não passa “de um fenômeno meteorológico que consiste na precipitação de gotas de água no estado líquido sobre a superfície da Terra”.

A chuva está aí desde que o planeta começou a esfriar. Alimenta os rios, irriga as plantações, suporta a vida. Quanto mais chuva, mais exuberante a natureza. Basta dar uma olhada lá pelos lados da Amazônia, que só tem duas estações no ano: chuva e muita chuva!

O homem convive com a chuva a mais ou menos uns 300 mil anos, tempo mais do que suficiente para conhecê-la muito bem. Aliás, essa convivência já deve ter sido gravada em nossos DNAs.

No entanto….

No dia 22 de janeiro de 1967 tive minha primeira experiência com a chuva em seu estado bruto. Estava indo para São Paulo de ônibus quando, por volta das 23:30 horas, uma tromba d’água destruiu tudo que estava em sua frente na subida da Serra das Araras. Uma árvore enorme despencou da encosta ao lado e funcionou como uma barreira, desviando do nosso veículo toda a lama que descia pelo que restou da estrada.

Ao amanhecer, fomos resgatados por militares do exército e até hoje guardo a terrível visão de gente morta para todos os lados, ônibus semienterrados, uma devastação completa.

Quarenta anos se passaram e no dia 5 de janeiro de 2007, subindo a serra para Nova Friburgo, a chuva resolveu me mostrar novamente seu poder, desabando impiedosamente. Na altura de Mury, também por volta das 23 horas, fomos obrigados a parar devido a quedas de várias barreiras, tendo uma delas (em frente a entrada da AABB) atingido um ônibus da 1001 que ia para São Paulo.

Desta vez não esperamos ajuda. Com uma lanterna de mão, formamos um um grupo e, com a ajuda de funcionários da rodovia e da empresa de luz, conseguimos chegar encharcados mas inteiros na Rodoviária Sul, onde um taxista nos deixou em casa.

As onzes mortes, o grande número de desabrigados e a destruição da cidade me deixou com a plena convicção de que, pelo menos em Friburgo, isso não se repetiria nunca mais. Afinal, as chuvas não vão parar, mas os rios seriam dragados, bueiros limpos, pessoas em áreas de risco removidas, um sistema de alarme instalado.

No dia 12 de janeiro de 2011 dormia tranquilamente, no Rio de Janeiro. Tinha uma passagem comprada para Friburgo na hora do almoço e absolutamente nada para fazer pela manhã . Fui despertado por uma ligação de minha mulher, assustada, pedindo para ligar a TV. Mal acordado, custei para entender o que estava acontecendo. As notícias, vagas e genéricas, falavam em 9 mortes e citavam os bombeiros da Cristina Ziede. Fui ao telefone e tentei falar com o condomínio da minha casa. Inútil. Procurei amigos, conhecidos e até lojas, sem sucesso. Todos os telefones estavam mudos.

Aos poucos, pelas redes sociais, foram chegando relatos esparsos e um quadro de horror foi se delineando. As poucas vítimas das primeiras horas chegaram a quase 500 mortos, só em Nova Friburgo.
Uma tragédia nunca antes vista.

Não fizemos o dever de casa, apesar do aviso deixado apenas três anos antes. Continuamos morando irregularmente, sujando e assoreando os rios, tratando a natureza como se fossemos superiores às intempéries.

O clima mudou, isso é fato. Um pequeno aumento da temperatura já é suficiente para alterar regimes de chuvas, formando grandes e contínuas tempestades e também, ao contrário, provocando longos períodos de estiagem, esvaziando os mananciais e destruindo as lavouras, além dos incêndios florestais, um perigo sempre presente.

Nas primeiras horas o friburguense, ainda atordoado, mostrou união, solidariedade, seriedade, disposição e desapego. Graças a isso e, claro, a enorme generosidade de todos os brasileiros, salvamos vidas, bens, animais e evitamos uma destruição ainda maior.

Daqui para a frente será apenas por nossa conta. As chuvas continuarão seu ciclo e, de vez em quando, trovejarão mais forte. Temos a obrigação de nos preparar para sobreviver, respeitando a natureza.

Simples assim.

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