Cinco anos no Leblon

 

Ah, o Leblon. Bairro nobre do Rio, pouso de escritores consagrados, jornalistas influentes, artistas globais, ricos novos e tradicionais, intelectuais de todos os matizes e gente descolada de uma maneira geral. Comércio charmoso, restaurantes de primeira linha (e preço idem) e botequins para ninguém botar defeito. Colégios tradicionais, teatros para todos os gostos e até mesmo um cinema de rua. Inegavelmente, um ótimo bairro.

Pois então, morei lá.

Aliás, é bom deixar bem claro que não dava para ser classificado em nenhuma das categorias acima, pelo contrário, eu era apenas um funcionário do escritório central da empresa que administrava o Porto de Santos, estudante e, ainda por cima, recém-casado! Usava ônibus para ir e vir, aprendia que morar fora da casa dos pais na companhia da mulher amada podia ser libertador mas trazia como efeito colateral, um monte de responsabilidades e, para piorar, o apartamento ficava bem longe da praia, uma lástima…

Mas nos anos 70 o Leblon ainda não era essa badalação toda, muito pelo contrário! Só ia para lá quem queria paz, um lugar para morar sem os aborrecimentos de Copacabana e Ipanema, esses sim, pontos de encontros de todas as tribos (como se dizia na época) dos, vá lá, antenados. Resumindo, o Leblon era sossegado, mais ou menos seguro e com fácil acesso. Um lugar ótimo para recém-casados, crianças e idosos, não necessariamente nessa ordem.

Ocupamos nosso minúsculo apartamento, alugado de uma família de portugueses, tão logo retornamos da Lua de Mel (ainda se chama assim?) em Teresópolis e fomos à luta, no melhor sentido da palavra, é claro. Em 1976 o Brasil era uma ditadura feroz. O general da vez era o Ernesto Geisel e o Rio de Janeiro, recém-saído da fusão imposta pelo governo militar no ano anterior, tinha que engolir um governador nomeado, o almirante Faria Lima. Tempos difíceis, meus caros.

Nossa casa vivia cheia de gente, apesar do seu tamanho. A cozinha, aliás, não permitia nada mais do que muita imaginação e criatividade para preparar algum prato, se é que algum de nós tinha noção do que preparar. O mais comum era abrir uma cerveja ou um vinho e encomendar uns salgadinhos na Cobal Leblon, bem em frente.

Ir à praia era para quem tinha disposição de encarar seis quadras ou mais de um quilômetro para chegar na areia na altura da José Linhares, o ponto mais curto em linha reta. E, é claro, fazer o mesmo trajeto de volta, já cansado, queimado pelo sol e cheio de areia. Carro? Isso era coisa de ricos, vendi o meu para casar e só iria ter outro quando minha mulher engravidou, cinco anos depois.

O Leblon foi generoso conosco. Ou talvez nós é que soubemos aproveitar a chance e iniciar harmonica e amorosamente uma jornada que já dura quarenta anos. Aprendemos que lâmpadas queimam, o banheiro não fica limpo por um milagre e pasmem, roupas precisam ser lavadas e passadas, uma surpresa completa!

Para duas pessoas que nunca moraram sós, começar a vida a dois foi uma experiência importante, marcante, eu diria. Com a ajuda da parentada e dos muitos amigos que fizemos nessa época, os cinco anos vividos no Leblon deixaram saudades e, só terminaram porque decidimos que a família estava pequena e aquele nosso apartamentinho não tinha lugar para mais ninguém. Mas aí já é outra crônica.

Ah, o Leblon, que saudades.

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