E o desapego, como fica?

 

Desapego. Substantivo masculino, nos dicionários significa falta de apego, afeição, desamor, desinteresse, indiferença. Desprendimento diante das coisas superficiais, das vaidades em detrimento de fatos importantes e que fazem sentido a vida. Saber dividir e compartilhar.

Pois é, mas… sei lá, essa definição é muito econômica! O budismo ensina que “quem a tudo renuncia jubiloso, alcança, já agora, a mais alta paz do espírito; mas quem espera vantagem das suas obras, é escravizado pelos seus desejos”. É aquela velha questão, o problema não é ter uma Ferrari na garagem e sim achar que precisa de uma!

Vivemos tempos onde o único objetivo parece ser o consumo, fonte de prazer disponível em cada shopping do bairro ou nas lojas eletrônicas da internet, convenientemente parcelado em 12 vezes sem juros. E piorou depois que o Steve Jobs nos convenceu que seus gadgets são essenciais, mesmo que ninguém realmente precise deles.

Pois é, aqui estou eu tentando falar de desapego mas é bom vocês saberem que já tive três carros na garagem, uma coleção com mais de mil bolachões de vinil nas estantes, aparelhos de som de todos os tipos, montanhas de livros e o péssimo hábito de trocar de celular a cada lançamento, o que deixava a coitada da minha mulher preocupadíssima, esperando virar a bola da vez.

Nem tanto e como gosto de falar, um dia a gente aprende que não dá para nos medir pelos bens materiais a que nos apegamos. Saber viver com o que temos, sem entrar nessa paranoia que a sociedade e a economia ocidental literalmente nos vende diariamente já é um bom começo. Não somos monges ou ascetas mas é importante ter em mente o que realmente vale.

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Se conhecemos o caminho para praticar o desapego material, o mesmo não podemos afirmar do desapego ao poder. Para começar, basta um olhar mais atento para o nosso quadro político e perceber que, apesar do regime democrático, ignoramos ou permitimos a criação de mecanismos que perpetuam os nomes e grupos de sempre. Políticos desapegados existem, sem dúvida, mas são tão poucos que chegam a ser considerados figuras excêntricas.

O poder é inebriante, contagia e vicia. Aliás, sejamos sinceros, qualquer poder, não apenas o político! De novo a filosofia oriental ensina que todos nós somos líderes: se não temos uma empresa, temos uma família. Se não temos uma família, temos a nossa própria vida e, em última instância, o relacionamento com nós mesmos. O segredo é como fazemos isso.

Desapego ao poder não é se afastar do fato e sim reconhecer que temos o nosso momento e apenas ele. O grande lance é saber a hora de seguir em frente sem prejudicar ninguém Afirmar, como os políticos adoram, que já fez muito pela população não passa de bravata populista e conversa fiada! Solidariedade não é moeda de troca ou ação marqueteira, é obrigação de qualquer ser humano.

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E o lado emocional, fica de fora? Para o Dalai Lama, amor requer desapego, saber que não possuímos ou somos propriedade de outrem. O verdadeiro amor não é apenas um jogo a ser jogado ou uma relação que pode ser contratada em uma escritura de posse. Paixão, respeito, amizade e muita cumplicidade são os ingredientes de uma relação estável e feliz.

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Conversando com uma amiga comentei que com a idade a gente fica naturalmente mais desapegado, mas aí bateu a dúvida, será que não são as coisas que não querem mais se apegar a nós? É, confesso que muito vivi e sei muito bem que, ao contrário dos faraós e nobres do Egito antigo, não vou levar ouro, vinhos, joias e escravas nuas para uma sepultura numa pirâmide qualquer, pelo contrário.

Quer um conselho? Desapegue-se!

Antes de sair correndo para comprar um carro novo, pense bem se vale a pena trocar de carro. Aliás, será que você realmente precisa de um carro? E aquele closet cheio de roupas e sapatos, sem uso há pelo menos um bom par de anos, que tal doar para quem necessita? As estantes de sua casa estão abarrotadas de livros, juntando mofo e poeira? Biblioteca neles! A namorada ou namorado controla até a hora do seu banho? Hummm… Desapego nela. Ou nele!

Desapego de verdade é doar uma parte de seu tempo e ler um livro para um cego ou passear com um idoso. Participar de um mutirão de limpeza, como fez o pessoal lá de Nova Friburgo, depois das chuvas de 2011. Manter a capacidade de se indignar com injustiças e não ter medo de defender quem está sofrendo com elas.

Desapego é simplesmente uma questão de humanidade, é ubuntu, como ensinam os africanos. Desapego pode ser até pescar na companhia de uma garça. Desapego é o caminho para a felicidade.

A Voz da Serra, 15/6/2012

Foto: Carlos Emerson Junior

3 comentários em “E o desapego, como fica?

  1. Devemos estar bem conectados, isso me deu até um pouco de medo. Ando em primeiro lugar me desapegando mesmo das coisas materiais até por que eu e minha esposa pretendemos ou melhor estamos estudando um tempinho lá fora. E fui eu fazendo minha visita pelos blogs como sempre o faço e abusado, adoro comentar como o faço em seu espaço e num papinho meio filosófico estava eu escrevendo noutro espaço a outro blog que indicava um livro de estudos sobre o “EU”, aproveitei para entrar com o conhecimento que tenho sobre a cultura Bantu e mostrei rapidamente uma concepção que foi desinteressada por nós civilizações modernas e globalizadas. Lá os tribais como são chamados sabem o que é uma tríade e dizem que a primeira parte do “EU” é a matéria, veículo para dar sustentação, a outra é a parte das experimentações, das dores, doenças, alegrias, sofrimentos e aprendizados, a terceira essa não participa com julgo e apenas guarda tudo que vivenciamos, aprendemos para num futuro ao abandonar as outras duas partes voltar e unir-se a outras duas diferentes e dar continuidade a evolução, daí citei apenas 3 palavras, Ubuntu que nos une em laços mesmo sendo cada um de nós um universo diferente e um dos cumprimentos mas interessantes que já estudei Sawabona e a resposta Shikoba que em uma tradução literal ocidentalizada para entendimento significaria, Sawabona/ você é importante para mim e o outro indivíduo responde Shikoba/ então eu existo para você.
    Mas voltando ao desapego, creio que com a idade e a vivencia por termos nós experimentado quase tudo começamos a perceber que carregamos bagagens demais para coisas tão simples. Creio que seja a “hora/ordem” natural das coisas/vida.
    Carlos adorei como sempre vir ao espaço e ler, espero não ter dito besteiras mas adoro deixar minha visão sobre o assunto, mesmo quando não consigo expressar-me bem. Abraços! 🙂

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    1. Obrigado pelo ótimo comentário, meu caro amigo. Na crônica “Ubuntu, Nova Friburgo”, publicada em 2011 no A Voz da Serra (http://avozdaserra.com.br/noticias/ubuntu-nova-friburgo), tem uma historinha exemplar:

      “Um antropólogo estava estudando usos e costumes de uma tribo e propôs uma brincadeira para as crianças. Comprou doces e guloseimas e colocou tudo num cesto debaixo de uma árvore. Aí ele chamou as crianças e combinou que quando dissesse “já!”, elas deveriam sair correndo até o cesto e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro.

      As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse “já!”, instantaneamente todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto. Chegando lá, distribuíram os doces entre si e comeram felizes.

      O antropólogo, curioso, perguntou por que elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces. Elas simplesmente responderam: “Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?”.

      Estamos precisando urgentemente de Ubuntu aqui Brasil, Kambami! Um abração.

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