A Voz da Serra

– Não foi por causa de uma Fiat Elba que aquele presidente foi afastado?

– Hum… Na verdade foi um problema com corrupção, falta de apoio no Congresso Nacional e…

– Não, não, a acusação que vingou mesmo, o motivo técnico para a cassação foi a Fiat Elba!

– Bom… É, tem razão, mas isso foi apenas um detalhe, a coisa era maior.

– Tinha uma Fiat Elba, é o que importa.

– Mas importa como, foi uma comoção nacional, esqueceu?

– Importa prá mim! Prova que existiu uma praga em cima dos donos desse carro.

– Ah, para com isso. Onde já se viu “praga de automóvel”?

– Existe sim. Eu mesmo nunca acreditei nessas coisas e olha que já tive latas velhas até da Lada, você lembra, não é mesmo?

– Lembro sim, mas aí não foi praga e sim burrice…

– Foi mesmo, confesso. Mas garanto que o único carro de que me desfiz com prazer foi a Fiat Elba. Aliás, minto, com prazer não, apavorado.

– Caramba!

– O pior é que foi meu primeiro carro zero quilômetro. Comprei logo que foi lançado, no final da década de 80. Era uma bela perua prata, com tudo o que tinha direito. E o motor não era essa coisa tosca de 1000 cilindradas não, era um bom e forte 1.5 a gasolina.

– Mas…

– Espera e ouve: ela nunca deu um defeito sequer. Valente, andava rápido e macio. Quebrava o maior galho, já que minhas filhas ainda eram pequenas e qualquer saída era aquela tralha para transportar. Em resumo, era o veículo ideal. Mas meu amigo, o bicho pegou.

– Tô ouvindo.

– Logo de cara, com uns dois dias de uso, minha mulher estacionou na garagem da clínica, como habitual. Uma meia hora depois apareceu o responsável pelo estacionamento, apavorado. Um advogado foi manobrar um Opalão e entrou em cheio na lateral da Elba. Tá bom, o homem arcou com todas as despesas e ficou novinho. Mas já era um aviso.

– Pera lá, acidentes acontecem e outra coisa, você não faz seguro?

– Claro que faço, pô! Mas a história ainda não acabou. Um mês depois, de novo minha mulher tranquila no ambulatório e entra o mesmo zelador do mesmo estacionamento. Acontece de novo, só que desta vez não foi um advogado e sim um engenheiro.

– Oquié isso, sô?

– Pois é! A seguradora bancou o conserto e nós começamos a ficar com um pé atrás… Uns quinze dias mais tarde fomos passear no interior de São Paulo e aí foi comigo: numa rua tranquila de uma cidadezinha, em plena reta, bati com a roda dianteira do lado direito na única pedra do meio-fio que estava desalinhada, sei lá porque motivo. Perdi o pneu, a roda e ainda tive que consertar a suspensão daquele lado. Não chovia, não tinha ninguém na rua ou algum carro perto e juro que não dormi ao volante, até porque a Elba estava cheia de crianças fazendo a maior algazarra.

– Tô pasmo…

– Tem mais. Depois de morrer numa roda, pneu e oficina voltamos para Nova Friburgo por Petrópolis para almoçar num restaurante do tipo alemão, cujo nome já nem me recordo. Era um dia de semana e o local estava completamente vazio. Bem na entrada havia uma vaga enorme, acho que dava para uns cinco veículos, sem exagero.

– E…

– E… enfiei a lateral da desgraçada da perua no único poste que tinha na calçada. Levei um baita susto, custei a entender o que tinha acertado. Puxa vida, até hoje fico me perguntando o que aquele poste foi fazer ali! O para-lama da parte traseira afundou, tal o impacto.

– A maior barbeirada, cara, não sabe colocar o carro numa vaga?

– Muito engraçado! No final de semana seguinte meu cunhado precisou do carro para levar alguma coisa para algum lugar, sei lá.

– Você contou essas histórias para ele?

– Sem dúvida. No dia seguinte ele aparece lá em casa com uma cara horrorosa, agradecendo a gentileza e contando mais uma de amargar.

– Bateu?

– Pior, quase morreu! Quando chegava em casa, um ônibus colou na traseira da Fiat. Ele achou estranho, já que só tinham os dois na rua. E continuaram assim, em alta velocidade até o final da rua, quando ele conseguiu escapar um pouco do maluco e virou para a direita de qualquer maneira. Subiu na calçada, cantou pneu, foi um escândalo, mas escapou do maníaco do ônibus. Depois de terminar de tremer, foi me devolver a bomba, digo a Elba.

– E aí?

– Aí? Ficamos com medo, acabamos vendendo a infeliz e juramos nunca mais sequer olhar para uma outra. Logo depois, em 90, 91, sei lá, o presidente cai por causa dessa perua. Vê se pode!

– Mas o problema do presidente não foi esse…

– Não interessa. Quem mandou se meter com uma Fiat Elba?

Publicado por Carlos Emerson Junior

Sou carioca, escritor, fotógrafo nas horas vagas, casado. Moro em Nova Friburgo, na Serra Fluminense.

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