Legado

Foto: Carlos Emerson Jr.

Essa palavrinha aí do título, muito usada nos últimos meses para justificar o mega investimento feito pelos governos estadual, federal e municipal na cidade do Rio de Janeiro nos últimos dois anos, tem vários significados, segundo o dicionário Caldas Aulete: “qualquer coisa, conhecimento ou bens materiais ou culturais, que se transmite às gerações seguintes”; “quantia ou bem predeterminados que alguém deixa por testamento” e por aí vai.

Pois muito bem, legado é isso, alguma coisa que você deixa em beneficio de terceiros. Geralmente é uma coisa boa mas pode ser um verdadeiro “presente de grego” se faltar um pequeno detalhe que é exatamente o tema dessa crônica e foi ignorado por todas as autoridades envolvidas nos dois eventos, a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos: uma boa e velha dose de sinceridade.

– Eu acredito que nós teremos uns Jogos Olímpicos que vai ter uma qualidade totalmente diferente e que vai ser capaz de deixar um legado tanto… porque geralmente as pessoas pensam: ‘Ah, o legado é só depois’. Não, vai deixar um legado antes, durante e depois. (Dilma Rousseff, ex-presidente do Brasil);

– O Jogos vão deixar um legado para o Rio de Janeiro de novas instalações esportivas para os atletas e para a população. A Olimpíada vai deixar um legado de transporte até para as proximas gerações. Em apenas sete anos, o número de pessoas com acesso a transporte público aumentou muito, de 16% em 2009 para 63% agora. Esses Jogos vão deixar o maior legado desde Barcelona 1992 (Thomas Bach, presidente do COI).

O legado acabou sendo o descalabro, o caos que estamos vivendo na cidade e no estado do Rio de Janeiro. A violência, contida por tropas de elite do exército, marinha e da força nacional, desandou de vez com a sua retirada. A bandidagem, evidentemente reprimida durante dois longos meses, voltou para as ruas com força total e, para agravar o quadro, o governo do estado decretou falência.

Nessas horas, concordo com o desabafo da jovem Daiene Mendes, correspondente do jornal britânico The Guardian, no seu ótimo artigo “Jogos Olímpicos do Rio: A visão das favelas“: espero que os jogos olímpicos acabem logo. Porque de legado, eu só vejo repressão, militarização e guerra. Está na hora de acabar.

Pois é, a cidade do Rio de Janeiro é grande, espraiada, como gostam de dizer os urbanistas e completamente desigual. Turistas do mundo inteiro flanando na Barra e na zona sul e as comunidades da zona norte e oeste sendo barbarizadas pela bandidagem de sempre. Normal, diriam os cínicos. Porque seria diferente durante um evento internacional?

O que mais dói é que, no fundo, tínhamos a esperança que o Rio se transformasse, de uma vez por todas, na Cidade Maravilhosa da marchinha. Afinal, a presidente, o governador e o prefeito garantiram isso. Abrimos mão de mais de 40 bilhões de reais, que deveriam ter sido destinados para a saúde, educação e transportes e foram torrados num evento caríssimo, eleitoreiro, que durou duas semanas.

A festa acabou, meu irmão. Descobrimos que continuamos pobres, quem ganhou, faturou muito e quem perdeu, quase todos nós, já era. Meu pai dizia que só ia acreditar que o Brasil estava mudando no dia que um político prometesse e deixasse algum legado efetivamente útil para a população. Que pena, ainda não foi desta vez.

Publicado por Carlos Emerson Junior

Sou carioca, escritor, fotógrafo nas horas vagas, casado. Moro em Nova Friburgo, na Serra Fluminense.

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