Três contos curtos

Dia de eleição

Saiu para votar desanimado, só por obrigação. Na esquina da zona eleitoral viu um botequim aberto, servindo cerveja. Lembrou da Lei Seca, que proibia a venda de bebidas alcoólicas durante a votação. Uma bobagem, claro, políticos sempre fizeram muito pior e todos os dias. Parou na porta do estabelecimento, examinou o lugar, entrou, foi até o balcão e pediu uma long neck e um pastel. De queijo.

Pagou, tirou a tampinha da garrafa e foi votar. Com a mão esquerda segurava a bebida e com a direita comia o salgado. Na porta da seção eleitoral, bem ao lado, um polícia o olhou com a cara feia e sentenciou: termina de comer aí fora e depois entra. Ia discutir, criar um caso, chamar o juiz, o padre, o papa e o presidente, não necessariamente nessa ordem mas, pensou bem, deu um até logo para a autoridade e tomou o rumo de casa. Depois justificava a ausência.

A rosa do Rio

Parou no sinal para atravessar a avenida e, sem mais nem menos, veio à sua cabeça o verso “pensem nas crianças mudas telepáticas”, do Vinícius de Moraes. Ficou cismado e puxou o seguinte: “pensem nas meninas cegas inexatas”. Nossa, aí veio o resto com música e tudo, “pensem nas mulheres rotas alteradas, pensem nas feridas como rosas cálidas”.

Caramba, o povo já estava do outro lado da rua e ele parado debaixo do sol, suando como um estivador, com a “Rosa de Hiroshima” na cabeça. Aí se tocou que era isso, o sol, o calor, a luz quase branca que tomava conta do centro da cidade. Dava até para imaginar, que mané imaginar nada, sentir mesmo, como os japoneses receberam os no corpo os primeiros efeitos da bomba atômica.

Pois é, um exagero, claro, mas se servia de consolo, a Rosa do Rio era apenas isso, calor tropical. Não matava ninguém, pelo menos não na hora. Olhou o relógio, percebeu que estava atrasadíssimo para a audiência e atravessou a Rio Branco no meio de carros, motos e ônibus. Isso sim, um perigo!

Voo noturno

“É claro que posso contar o que aconteceu ontem à noite, senhor. Saímos da empresa para o Santos Dumont por volta das oito da noite. Eu, o motorista Joel e, é claro, o Dr. Alfonso e a secretária, Dona Morena. O chefe ia para uma reunião em São Paulo e, curiosamente, resolveu viajar pela ponte aérea. Sim? Não, ele sempre vai de jatinho mas ontem, sei lá, disse que estava com vontade de ver gente e dispensou a aeronave e o piloto. Comprei sua passagem no balcão da empresa aérea para o voo das nove da noite. Enquanto isso o Dr. Alfonso e D. Morena tomavam um café. Juntei-me a eles e avisei o pessoal para aguardá-lo em Congonhas. Por volta das oito e trinta o chefe foi para o embarque, esperamos o avião decolar e voltamos para o escritório. D. Morena foi para casa e eu fiquei por lá mesmo, aguardando notícias. Eram umas dez e meia quando o Rubão me ligou, nervoso, querendo saber porque o Dr. Alfonso não tinha viajado. Como assim, bebeu, Rubão? Imediatamente liguei para o celular do chefe mas nada, ligação fora do alcance. O restante o senhor já sabe, policial: o avião pousou normalmente e todos os passageiros saíram, menos o Dr. Alfonso. A polícia paulista revirou a aeronave, interrogou a tripulação, checou as câmeras do aeroporto e nada, o homem sumiu. Aqui, no Rio, também nada anormal foi encontrado e as câmeras do Santos Dumont mostram que ele embarcou naquele voo. Embarcaram 90 pessoas e exatas 90 pessoas desembarcaram, menos o Dr. Alfonso. Até hoje, dois dias depois, nenhum sinal, pedido de resgate, nada. Vimos os vídeos do desembarque diversas vezes, de várias formas e em nenhum deles não havia uma pessoa sequer parecida com o chefe. O que mais intriga é que ele não tinha inimigos, sequer seu cargo era considerado vital na empresa. Não passava de uma pessoa comum, de meia idade, cara de avô, discretíssimo e de pouquíssimas palavras. Fico lembrando que ele chegava a passar desapercebido no local de trabalho. Sei não, policial, de repente, para uma pessoa assim, deve ser fácil desaparecer, não é mesmo? Caramba, nem consigo imaginar como sua família está sofrendo.”

oOo

Saiu da delegacia exausto e arrasado, mas ainda tinha esperanças. Até então, jamais passaria por sua cabeça que aquela noite no Santos Dumont foi a última vez que viu o Dr. Alfonso.

Imagem: Nishant Choksi

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s