Guarita

Olhou para o relógio e impaciente viu que ainda faltavam uns vinte minutos para sair da guarita. A madrugada se arrastava úmida, silenciosa e solitária e a enorme avenida à sua frente compreensivelmente permanecia totalmente deserta.

Sentiu vontade de fumar, mas acender um cigarro não era possível, pelo menos não enquanto estivesse de guarda. Trocou as pernas e encostou o surrado fuzil M1 na parede, com respeito. Aquelas armas remanescentes da Guerra da Coreia tinham o péssimo hábito de disparar apenas com uma leve pancada!

Suspirou, tentando colocar os pensamentos em ordem para não dormir, mas só conseguia visualizar uma cama quentinha. Credo, que sono… Repentinamente despertou!

Um veículo escuro, com todos os faróis apagados, entrou na avenida lentamente pela contramão, exatamente em sua direção. Rapidamente pegou o fuzil, liberou a trava e o apoiou na seteira. O automóvel ainda se aproximava. E agora, acionava logo o alarme geral ou simplesmente esperava? Qual era a do cara?

Lembrou os avisos do comando, cuidado com atentados, afinal, estavam em 1969. Gritou o primeiro alerta e repetiu bem alto! O cabo resmungou alguma coisa de dentro do alojamento, querendo saber o que estava acontecendo. A adrenalina foi lá em cima.

Quando o carro acelerou com força para cima da guarita, nem pensou: mirou no vulto do motorista e apertou o gatilho. Por um instante não viu nada, o barulho e a fumaça da arma encheram o pequeno ambiente. O cheiro da pólvora era quase insuportável.

O veículo bateu nos obstáculos de cimento a poucos metros do muro e nessa hora começou a correria. A guarnição do quartel saiu aos gritos e tomou conta da situação. Os dois ocupantes aparentemente não estavam feridos e a polícia foi chamada. Na verdade, nunca saberia quem eram e o que pretendiam com aquela loucura.

Sentia-se péssimo. Como não podia deixar o posto, avisou ao oficial de dia que tinha disparado e possivelmente acertado o motorista. Só quando examinou a arma é que percebeu que o projétil tinha falhado, derretendo dentro do cano. Nesse momento a tensão despencou. Apesar de ter certeza que não erraria aquele tiro por nada, ficou aliviado, não acertou ninguém.

Pela primeira vez não reclamou do velho fuzil.

Palavração
(Conto publicado na III Coletânea Scriptus – Palavração, Editora Novitas, 2010)

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