Olho de Deus

Foto: Carlos Emerson Junior

Já fui mais cético. Aliás, muito cético. Mas a gente envelhece, os tempos mudam, o Google (que entre outras coisas sabe a minha cor favorita, onde moro, meus telefones, gostos pessoais, medos, remédios e, quem sabe, o dia de amanhã) aparece e fica difícil não acreditar que exista uma entidade superior até mesmo ao próprio Google, criadora e responsável por toda essa humanidade, cujo propósito, a propósito, ainda não foi bem compreendido por ninguém.

Dito isto, entro no assunto da crônica e pergunto singelamente: vocês já viram o “Olho de Deus”? Pois é, eu vi, na sexta-feira à noite mesmo e bem aqui na mureta da Urca. Não, não estou falando da nebulosa Hélix, localizada na constelação de Aquário e nem de alguma Epifânia, estava simplesmente fazendo minha corrida diária, coisa simples, meros seis quilômetros em duas voltas pela orla.

Vinha desacelerando o passo, depois de um baita escorregão numa pedra portuguesa solta quando, bem à frente, bem acima do mar, duas luzes vermelhas surgiram do nada, dançando de forma descompassada. O céu, claro e estrelado, emoldurava e abrigava o “fenômeno”. Curioso e cauteloso, parei e, é claro, saquei o smartphone. As luzes se aproximaram como se quisessem falar comigo. E, acreditem ou não, meus queridos leitores, ouvi uma voz grave, forte e nítida:

– Vocês bancaram eventos caríssimos sem sequer questionar sua necessidade, esqueceram os hospitais sem remédios e médicos, a insegurança das guerras urbanas nas ruas, os assassinatos, os roubos, as balas perdidas, a falta de saneamento básico e as escolas. Vocês dividiram-se lados opostos, defendendo pseudo-líderes, meros bandidos, gente autoritária, populista, criminosos  enrolados com a justiça até o pescoço. Vocês provaram definitivamente que só ligam mesmo é para carnaval, futebol e o tal do big brother. Caramba, onde foi que eu errei?

Nesse momento ouvi um ruido forte, como se o zumbido estivesse chorando, se é que a imagem é possível. As luzes, quase no meu rosto, refugaram, o barulho aumentou como um grito e o “Olho de Deus”, imponente, caiu na calçada da Avenida João Luís Alves, bem na minha frente. Em pânico eu estava, em pânico continuei!

Ouvi as vozes ao longe. Desculpa, moço, o senhor se machucou? O drone bateu na sua cabeça? Como assim, aquilo era um drone? Era sim e jazia estatelado no chão, aparentemente sem danos materiais mas, sem dúvida, apagado. Saí do transe. O dono da geringonça me explicou que estava tentando filmar uma saída clandestina de esgoto mas parece que nem o aparelho aguentou a fedentina. Coisas do Rio, mesmo.

Publicado por Carlos Emerson Junior

Sou carioca, escritor, fotógrafo nas horas vagas, casado. Moro em Nova Friburgo, na Serra Fluminense.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: