Dias frios

foto: carlos emerson jr.

Crônica publicada no jornal A Voz da Serra, de Nova Friburgo, no dia 1º de junho de 2012.

Será que pega mal um carioca escrever um artigo sobre o frio, logo nós que vestimos os casacos quando a temperatura no Rio cai abaixo dos 19º? Bom, no meu caso específico acho que posso dar palpite sim, afinal moro em Nova Friburgo tem uns dez anos e aqui, meus queridos, quem não se acostumar com o clima da serra está perdido!

Quando comprei o apartamento no Sans Souci, o velho hotel tinha acabado de fechar e os poucos vizinhos estavam espalhados no meio de uma enorme mata. A estreia no inverno foi premiada e experimentamos de cara várias noites com o termômetro gritando zero grau! Certa vez o frio foi tanto que pela manhã fugimos de volta para o calor do Rio, questionando seriamente se tínhamos mesmo feito um bom negócio vindo para cá!

Mas como não somos de desistir e sabemos muito bem que, parafraseando Euclides da Cunha, o friburguense é, antes de tudo um forte, levantamos a cabeça, compramos edredons, moletons, meiões, luvas, gorros, cachecóis, aquecedores e hoje achamos até graça do aperto daqueles dias.

Sempre fui fascinado pela região serrana e pelo frio em particular, talvez por ter nascido e morado a vida inteira em uma cidade praiana, onde o calor nos verões beira ao insuportável. Minha primeira experiência com uma temperatura realmente baixa, mas muito baixa mesma, foi em Campos do Jordão, no interior de São Paulo, quando encaramos dois graus negativos. Minhas filhas, duas pirralhinhas na época, corriam felizes do interior do hotel calafetado para um jardim em frente, onde um relógio digital mostrava inexorável a queda da temperatura.

Na manhã seguinte, outra surpresa: nosso velho Passat completamente coberto por uma fina camada de gelo, não deu a partida de jeito algum! O coitado, movido a álcool e ainda por cima com injeção de gasolina manual (um botão no painel), não suportou a madrugada glacial e só lá pelo meio-dia, quando o sol deu as caras, pudemos sair para passear. Mas ninguém esquentou a cabeça, afinal, para uma família carioca, aquilo era pura diversão!

Frio mesmo, daquele de doer o corpo e a alma, sentimos em Montevidéu, a bela e organizada capital do Uruguai, onde tive o desprazer de conhecer o Minuano, vento polar que atravessa o sul do continente e chega até o Paraná. Cortante, quando bate no rosto parece que vai arrancar sua pele. Nem me lembro da temperatura oficial, mas a sensação térmica era uns trinta graus negativos, o horror! Voltamos correndo para o hotel para não virarmos picolés!

Em Atlanta, nos Estados Unidos, foi a mesma coisa. Vínhamos alegres depois de um ótimo voo pela extinta Varig quando, na hora de pousar, o comandante informou solene:

– Senhores passageiros, vamos aterrissar no aeroporto internacional de Atlanta. O tempo está ensolarado e firme. A Varig agradece a preferência e deseja um bom dia. Ah sim, já ia me esquecendo, a temperatura no momento é…. Menos dois graus!

A comoção foi geral, claro, afinal saímos do Rio debaixo de um solão de 40 graus! Ninguém a bordo, a não ser os norte-americanos, estava preparado para tamanho choque térmico. A sorte é que íamos para New Orleans e permanecemos no quentinho do enorme aeroporto, aguardando o traslado. Mas por via dúvidas, comprei um casaco de couro, estilo do James Dean, tão bom que me acompanhou durante anos nessas viagens enregeladas.

Portugal foi outro local improvável onde morri de frio. Não em Lisboa, claro, uma cidade ótima para caminhar, com um clima que lembra um pouco o da nossa cidade. O problema apareceu quando fomos para as cidades medievais, com seus calabouços, catedrais e mosteiros sempre à sombra, escuros e gelados. O Mosteiro de Batalha e a vila de Óbidos, lindos patrimônios da humanidade, foram os campeões e fico pensando como seus moradores suportavam tanto frio e umidade. Mas sem dúvida, valeram todos os casacos e acessórios que pudemos colocar!

Mas vamos voltar para Nova Friburgo e seu gostoso frio seco. Parece e é uma bobagem, mas um dos meus motivos de orgulho, assunto de todas as conversas com meus conterrâneos era a lareira aqui de casa! Meu maior prazer era puxar “casualmente” o assunto, sempre associando seu uso a um bom vinho, fondue e ótima companhia, não necessariamente nessa ordem.

Pois sim! Quem tem lareira aqui em Nova Friburgo sabe muito bem que a realidade não é rosa, azul ou dourada: é negra, da cor da fuligem! Para começar, uma lareira esquenta a sala e apenas ela. Os quartos, no andar de cima, ficam congelados, o que nos obriga a dormir no chão, à sua volta. Nada contra, mas o fogo geralmente apaga durante a noite e a gente acaba acordando batendo os dentes de tanto frio.

Antes de usar a lareira, temos que acendê-la, o que se para uns é moleza, para mim era um pesadelo. Não havia caixa de fósforos que aguentasse, lenha, jornais, madeira, álcool, gel, pinhas secas ou xingamentos. Uma vez acesa, começava o ritual para não deixá-la apagar. E, como bem diz o ditado “tudo que está ruim pode piorar”, ainda tem o dia seguinte, ou seja, limpar a lareira, o que significa meter a mão na fuligem, cinzas e carvão, ficar imundo, fedorento e estragar todo o clima romântico da véspera.

Depois de algumas tentativas malsucedidas e um baita entupimento da chaminé que encheu o apartamento de fumaça numa madrugada gelada de julho, tomei vergonha na cara e assumi que não sei e nem tenho cacoete para operar uma lareira. Comprei aquecedores de óleo e vivemos felizes para sempre. Ah, a tecnologia!

Hoje convivo em paz com o inverno e, como bom friburguense que me considero, adoro a estação. Os dias muito claros, o céu azul contrastando com o verde das matas, chegando a emocionar de tão bonito e a temperatura baixa, principalmente nas noites estreladas, lembram que moramos em uma cidade especial, regida por um frio gostoso e amigável, intenso o suficiente para amenizar o verão e tornar único o nosso inverno.

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