Sombras de Hiroshima

Autor desconhecido

Foi até a cozinha, abriu a geladeira e bebeu um copo d’água. Coçou a cabeça, um hábito antigo, lembrou que os cabelos escasseavam e suspirou pela enésima vez, estava ficando careca… Voltou para a sala, sentou na poltrona, pegou um antigo livro sobre filatelia do seu pai e folheando as páginas deu com um envelope já amarelado, enviado por um certo Tenente Seiji, de Nagoia, no Japão, carimbado pelo correio brasileiro em 23 de novembro de 1950.

Curioso, tirou de dentro as duas folhas escritas à mão, com uma caligrafia quase infantil, em inglês. Se aprumou no assento e começou a ler. O oficial, depois dos cumprimentos protocolares, agradecia a série de selos do Brasil que seu pai enviara e lamenta informar que a próxima edição nipônica com a efígie do Imperador Hirohito só seria liberada após o término da ocupação aliada, no ano seguinte.

Prosseguia contando sobre sua nova missão, a reconstrução da cidade de Hiroshima, um trabalho árduo, perigoso e emocionalmente doloroso mas, sem dúvida, uma obrigação de todos, principalmente depois de todos os sofrimentos e destruição que a guerra provocou. Pelo menos, ali, estava fazendo o bem.

Por essa razão, encaminhava respeitosamente três fotografias que mostravam um efeito extraordinário, possivelmente desconhecido, provocado pela explosão da nova arma, as manchas no chão, na escada, na beira da ponte, sombras de pessoas que foram atingidas e volatizadas em cheio pelo clarão da explosão, deixando apenas suas sombras para a eternidade, suas sombras em Hiroshima.

Caramba, cadê as fotos? Pegou novamente o caderno do pai e o folheou cuidadosamente. Na última página encontrou um pequeno envelope meio amarelado, colado na folha com goma arábica ou coisa parecida. Abriu com cuidado e dentro, ao invés das três, havia apenas uma fotografia velada, com uma anotação no verso.

Reconheceu imediatamente a letra caprichada e o estilo do recado: “o Serviço de Censura roubou as fotos. Fora Dutra!” Puxa vida, mas logo a carta do Tenente Seiji? Não respeitaram nem a tragédia das bombas atômicas? Xingou mentalmente do Getúlio até o Temer e ficou imaginando a raiva do pai. Ficou pensando como o Japão, arrasado em 1945, hoje é uma potência. Já o Brasil… Ah, deixa prá lá, esse país não muda nunca.

Foto: Autor desconhecido (possivelmente na cidade de Hiroshima)

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