O caso do andar de cima

Foto: Carlos Emerson Jr.

Como sempre e por causa do tipo de construção, os barulhos do vizinho andando no andar abaixo do seu apartamento pareciam vir dos quartos, na mansarda acima da sala. A sobrinha que estava de visita, uma típica criança de apartamento de cidade grande, logo estranhou:

– Tio, que barulho é esse?

– Barulho?

– É! A tia está lá em cima?

– Não, sua tia está aí ao lado, na cozinha…. Ah, você está falando desses passos?

– Tô! Tem gente lá em cima?

– Ninguém, querida. Aliás, isso aí é uma história muito triste. Quando estavam construindo esses chalés, um operário resolveu dormir na hora do trabalho em pleno buraco onde hoje é o porão, veja você. O pessoal da obra não notou e encheu o local de cimento, enterrando o pobre coitado vivo. Aí, todas as noites ele anda pelos quartos e corredores mas, não sei porque, tem uma predileção especial pelo nosso!

– Tia, cadê você, eu quero voltar pro Rio!

Os olhos da menina estavam arregalados e para piorar, a cachorra resolveu se posicionar no início da escada e latir furiosamente para cima.

– Júnior, eu ouvi! Que maluquice é essa Ô minha querida, seu tio é um idiota que só fala besteira. Você não vê que essa história é uma maluquice só Nunca morreu ninguém e esse barulho é normal nesse tipo de construção.

– Puxa vida, desculpe, eu só estava brincando. Olha, vamos subir e você vai ver que está tudo vazio. Não tem ninguém no andar de cima.

– Eu não quero ir lá em cima, eu quero voltar pra casa!

– Ô menina, não precisa chorar, vai, além do mais sua tia vai ficar puta da vida….

– Júnior! Olha o palavrão!

-…. Atacada comigo! Tá bom, eu vou cobrir o fantasma de porrada e ele vai embora, está bom assim?

– Vamos os três lá no segundo andar e você vai ver que isso tudo é fantasia e os barulhos vem mesmo é do apartamento de baixo.

– Será tia?

– Claro, olha só, o quarto de hóspedes está completamente vazio e aqui no nosso quarto só tem mesmo aquele baratão na cortina… Ai, que horror, aquilo é um monstro, tira já de lá.

– Mas que barata o quê,é um besouro que não faz mal pra ninguém, basta pegar com cuidado e jog….

– Você não vai colocar a mão nessa “coisa”. Virgem, ele voa!

– Gente, já está tarde, vocês vão acordar toda a vizinhança, logo tem polícia aí na porta. Faz o seguinte, desce com a menina que eu vou tirar o bicho assim que ele parar de dar rasantes na minha cabeça e pousar em algum lugar.

Não deu outra: pegou o cascudão com todo o cuidado e o soltou na varanda, fechando a porta para que ele não voltasse.

De repente, a gritaria recomeçou:

– Jesus, Maria, José, o besouro está aqui na sala, entrou voando pela janela da cozinha Desce logo, tira ele daqui!

– Eu quero voltar pro Rio, essa casa da tia é muito ruim, tem “obrário” morto e “bizorro” grandão!

– Gente, eu vou matar esse filho da pu….

– Não tio, não mata não! Aí vão ser dois fantasmas na casa. Me leva de volta pra minha mãe!

O final de semana com a sobrinha prometia.

Carlos Emerson Jr. (2014)

Publicado por Carlos Emerson Junior

Apenas um escritor (e fotógrafo).

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