Oração

Foto: Carlos Emerson Junior

Ó Cristo Ressuscitado, da morte vencedor,
por tua vida e teu amor,
mostraste a nós a face do Senhor.
Por tua Páscoa o céu à terra uniste
e o encontro com Deus a todos nós permitiste.

Por ti, Ressuscitado, os filhos da luz nascem
para a vida eterna e abrem-se para os que crêem
as portas do reino dos céus.
De ti recebemos a vida que possuis em plenitude
pois nossa morte foi redimida pela tua
e em tua ressurreição nossa vida ressurge e se ilumina.

Volta a nós, ó nossa Páscoa,
teu semblante redivivo e permita que,
sob teu constante olhar, sejamos renovados
por atitudes de ressurreição e alcancemos graça,
paz, saúde e felicidade para contigo nos revestir
de amor e imortalidade.

A ti, inefável doçura e nossa eterna vida,
o poder e a glória por todos os séculos.

Autor desconhecido

O amigo do amigo de meu pai

Foto: Revista Isto É

Mal sabia Marcelo Odebrecht que sua curiosa frase em (mais) uma delação premiada mostraria que, como muita gente boa já suspeitava, alguns ministros da suprema corte brasileira são autoritários, arrogantes, tem desmedido apego ao poder e tudo isso faz com que confundam o cargo que ora exercem com a própria instituição onde legislam. Um país onde magistrados investigam, julgam, censuram, intimam e prendem, não pode ser chamado de democrático. Pois é, o amigo do amigo de meu pai…

Contato imediato!

Foto: Carlos Emerson Jr.

De repente, no meio de uma rua deserta do Sans Souci, uma bolinha espinhuda, com jeito de já ter sido um vegetal, despencou lá do céu, bateu no boné e caiu bem minha frente, na calçada. Passado o rápido susto, me abaixei para ver o que seria aquilo.

– Leve-me ao seu líder!

A voz era imperial, autoritária, mas soava muito engraçada, era fininha, parecia aqueles discos de vinil tocados na rotação mais rápida.

– Quem falou?

– Eu, seu idiota, você está quase pisando em mim.

Não havia dúvidas, a voz aceleradinha vinha da, do, sei lá, coisa marrom cheia de pontas.

– Leve-me ao seu líder ou aguente as consequências.

Não é possível, devia ser um sonho ou alguma pegadinha de uma das tvs locais. Olhou para os lados, para cima e nada, tudo continuava deserto como sempre.

– O que quer dizer com consequências?

– Vamos acabar com seu mundo em questão de minutos. Bilhões de seres como eu despencarão em cima de toda a vida do seu planeta e a culpa terá sido toda sua.

Fiquei em dúvida. Para quem eu levaria a bolinha? Para o prefeito? Nem pensar. O governador ou presidente? No caso, como era uma ameaça a Terra, talvez o mais indicado fosse o Secretário Geral da ONU. E como eu ia chegar em minutos em Nova York? Ah, caramba, bem que eu não estava com a menor disposição de sair para andar. A noite estava gelada e, confesso, exagerei no vinho tinto. Agora aguenta, a ressaca vai me acompanhar o dia inteiro.

Ou não!

Dei um chutão na bolinha que subiu e caiu dentro de uma casa vazia, logo a frente. Fechei os olhos e fiquei esperando o apocalipse, a chuva de bolinhas pontudas. Um segundo, dez segundos, um minuto.

– O senhor está passando bem?

Levei outro susto, era o jardineiro da casa amarela, logo atrás de mim. Olhei bem em volta e o mundo prosseguia sua rotina. Agradeci a atenção e resolvi encerrar a caminhada ali mesmo, vai que a história das bolinhas fosse alguma coisa além da imaginação. Voltei, fiz festa na cachorra e mergulhei na minha cama ainda quentinha. Bolinhas falantes, só me faltava essa.

A tempestade atípica

Reprodução: redes sociais

Mais uma tempestade provoca o caos no Rio, deixando desta vez um saldo macabro de dez mortes. Nem sei se tenho alguma coisa a mais para comentar depois de assistir aqui de Nova Friburgo um filme muito antigo: desde sempre chuvas caem forte na cidade no início do ano e, infelizmente, também desde sempre os cariocas nunca estão preparados para reagir.

Minha primeira inundação carioca foi a de 9 de janeiro de 1966, há 53 anos. Tinha 15 anos e fiquei aturdido com os números e a proporção da tragédia: 250 mortos, 1.000 feridos e mais de 50 mil desabrigados. Aulas, trabalhos, transportes, tudo parou. Faltava água, a luz era racionada algumas horas durante o dia e em todos os rostos se via a mesma dúvida: como permitimos tamanha tragédia?

Quem mais sofreu foi a população pobre, moradora de favelas, mangues, beira de rios e até mesmo do mar. Não existiam sirenes, defesa civil, previsão regional do tempo, um centro de operações de crise sequer. O rosto cruel do Rio de Janeiro, a desordem urbana, tinha colocado seu rosto de vez para quem quisesse (ou não) vê-la. Um horror.

Pois é. O tempo passou, outras chuvas levaram vidas, a cidade se conformou (outra característica imperdoável) que seria sempre assim, eram as chuvas de março fechando o verão, uma glamurização absurda de uma situação perfeitamente contornável se tivéssemos juízo e um mínimo senso de civilidade. Mas como, se acreditamos piamente que todo o carioca é descolado, malandro, “experto”? Vão perguntar para os bombeiros se eles são descolados?

Essa segunda tempestade de 2019 como sempre deixou um número enorme de desabrigados, destruiu ruas, casas, praças, escolas, inundou hospitais, fábricas e, entre outras desgraças, derrubou um novo trecho da caríssima ciclovia que o Eduardo Paes fez na Av. Niemeyer, pode ser chamada de tudo menos de “atípica”, como teve a cara de pau de afirmar o atual prefeito, Sua Excelência (?) o Bispo Marcelo Crivella.

É claro que a culpa não é só dele. O problema se agrava quando o estado (e a sociedade) não veem o crescimento urbano desordenado, a ocupação irregular do solo, a destruição de matas e o despejo do lixo nos rios, arroios e mananciais. Algum prefeito tomou alguma medida concreta nos últimos, sei lá, 50 anos? É evidente que não! Prefeito gosta é de inaugurar praças, parques, aparelhos de ginśtica, tudo perfumaria. Obras de saneamento, de retificação dos cursos dos rios, contenção de encostas e sistemas de alerta e prevenção de enchentes e desabamentos nem pensar. Ninguém vê. Não dá voto!

E isso, infelizmente, vale para qualquer cidade, inclusive minha querida Nova Friburgo, outra vítima dessa política canalha, que troca votos por brinquedos, como se todos os eleitores fossem aculturados ou débeis mentais. Não, meus caros, a tragédia “atípica” só vai ter fim quando mudarmos nossa mentalidade, cobrarmos, participarmos e, principalmente, pararmos de acreditar que nosso futuro é um carguinho na prefeitura da vez.

Hoje, somos todos irresponsáveis!

E o futuro, gente?

Pintura: Diego Rivera (1932)

Caramba, o que está acontecendo com o Brasil? Ou melhor, com os brasileiros? Quanta energia jogada fora! No domingo o pau comeu entre a turma que acha que o 31 de março de 1964 foi um golpe e os que acreditam em uma revolução redentora. Na segunda começou o mimimi sobre o nazismo: é de esquerda ou direita? Gente, vamos baixar o facho. Estamos olhando para trás, para fatos ocorridos no Século 20, há exatos 55 e 86 anos! Vocês não tem um prato para lavar ou uma calça para passar em casa? Jornalistas, analistas, sociólogos, políticos, filósofos, professores, militares, todo mundo olhando para o passado. Acabou, gente, o tempo passou na janela e os brasileiros do Século 21 não viram (e tem raiva de quem viu). Lembrem-se que viagens no tempo ainda são fisicamente impossíveis e nosso caminho, aliás, o de toda a humanidade, é para a frente, buscando um futuro melhor. É válido e obrigatório conhecer nossa história, admitir os erros e lutar por tempos melhores. Mas do jeito que estamos, daqui a pouco vamos nos odiar por causa, sei lá, da Guerra do Paraguai, que este ano completa 155 anos. Bom senso, meus amigos e calma, muita calma nessa hora. Ainda dá tempo de pensar no futuro do Brasil.

A glória é efêmera

Quando um general da Roma Antiga retornava vitorioso, era homenageado publicamente desfilando com suas legiões pelas ruas da cidade. Nesse dia, ele usava uma coroa de louro e vestia-se com uma toga bordada de roxo e ouro. Em uma quadriga, carruagem com quatro cavalos, desarmado, vinha a frente dos soldados, prisioneiros e despojos de suas batalhas. Entretanto, durante toda a cerimônia, na mesma carruagem e bem atrás do general, um escravo sussurrava em seus ouvidos o tempo todo: “olhe para trás. Lembre-se de que és um homem e toda a glória é efêmera”.

Pois é! A historinha é de Roma mas reparem, serve muito bem para o Brasil.

Morro de vergonha

Arte: Brian Stauffer

Morri de vergonha quando vi a prisão do quinto ex-governador do Estado do Rio, todos por corrupção. Cinco! Deve ser um recorde mundial, digno (na verdade, indigno) de constar no Guiness. Mas eles não estão sozinhos. Dois ex-presidentes, uma penca de deputados da Alerj, prefeitos, ministros, secretários, assessores, vereadores, empresários, caramba, a lista não tem fim! Senti vergonha, sim. De ser brasileiro e carioca. Não levamos eleições a sério, nem hoje, nem nunca. Eleição é tratada como um jogo de futebol, uma obrigação chata que, para quem mora no Rio, acaba atrapalhando a praia.

Votamos mal porque um parente pediu, um vizinho recomendou, um amigo avalizou. Votamos mal porque o candidato nos dá telhas para o telhado de casa, promete uma assessoria para nossos filhos, contratos milionários e certos para nossas empresas nas licitações das prefeituras. Votamos mal porque, talvez, sejamos tão corruptos quanto os canalhas que acabaram com a economia do nosso Estado do Rio, com a Segurança Pública, com a Educação e a Saúde. Vocês já perceberam como nossas cidades estão quase todas na miséria?

Pois é… Cinco governadores! Morro de vergonha.

Lixo em Lumiar

Foto: Saint Clair Mello

Confesso que fiquei arrepiado quando soube o motivo da revolta dos moradores de Lumiar, bucólico e simpático distrito de Nova Friburgo: a implantação de um lixão! Como assim? Querem matar o que ainda resta de turismo em nossa cidade? Nem foi preciso chegar, o jornal local A Voz da Serra reproduziu declarações de diretores da concessionária de lixo, a EBMA, garantindo que a intenção é a construção de um “ecoponto, local de entrega voluntária de resíduos recicláveis e para armazenamento temporário de resíduos domiciliares”.

Sei lá. Mais uma vez a falta transparência entre os órgãos da administração municipal e os moradores traz dúvidas e incertezas. O que tenho certeza mesmo é que uma obra dessas, da maneira como for feita e utilizada, pode produzir danos irreparáveis no meio ambiente e no turismo de Nova Friburgo. Acho bom ficarmos todos com olhos e ouvidos bem abertos.