Uma terça qualquer

Foto: Carlos Emerson Jr.

Uma terça qualquer. Fria, nublada, mal humorada. Sair debaixo dos cobertores foi um sofrimento. Seis horas da manhã. Ligou o aquecedor do quarto no máximo, abriu o chuveiro com á água o mais quente possível e ficou sentado na beira da cama, ainda sonolento, esperando o vapor sair do banheiro. Tomar banho a essa hora, com frio, é um pé no saco!

Uma terça qualquer. Abriu o e-mail no celular para saber as novidades, leu a primeira manchete e jogou o aparelho no travesseiro. Pensou que se o dia ia pelo mesmo caminho das notícias, o melhor a fazer seria voltar para a cama. Um profundo desânimo tomou conta de todos os seus sentidos. Não tem saída, nada mais tem saída neste país.

Levou um susto. O vapor da água quente do chuveiro tinha tomado conta do quarto inteiro, agora sim, dava pra encarar um bom banho quente, daqueles inesquecíveis. Tirou os dois pijamas, abriu a porta do box, regulou a intensidade da água fria para não morrer queimado embaixo da ducha, colocou a cabeça debaixo da água que escorria e escorregou feio, batendo a cabeça com força no piso molhado.

Não sentiu dor, não conseguiu mexer um dedo sequer. Sabia que era o fim mas, ao invés da sua vida passar toda diante dos seus olhos, fixou o que restava da sua consciência na água quente da ducha, que abraçava e esquentava seu corpo inerte no chão. Aquilo sim, não tinha preço, custou a perceber que era a mesma sensação perdida de estar no útero de sua mãe. Tentou sorrir, fechou os olhos e simplesmente morreu.

Ressacas

Acervo O Globo

Pois é… Recebo notícias da ressaca que bateu nas praias do Rio de Janeiro, vejo algumas fotos nos jornais cariocas e fico com pena de não ter descido nenhuma vez para curtir o fenômeno, comum nos meses de inverno. Mas não tem importância, eu vi, acreditem ou não, a grande ressaca de 1963, que invadiu a pista (ainda única) da Avenida Atlântica, tomou conta das ruas transversais e chegou na Avenida Copacabana. Aliás, diz a lenda que a Confeitaria Colombo, na esquina da Rua Barão de Ipanema com a Avenida Copacabana, ficou cheia de água do mar! Não vi, mas não duvido nada.

O extinto jornal carioca “Correio da Manhã”, na época assim registrou:

“Sábado, cêrca de 20 horas, o mar começou a agigantar-se de maneira impressionante. A ação da lua cheia avolumando a maré, coincidindo com os ventos fortes nesta época do ano, provocou o fenômeno. Pela madrugada de domingo, a fúria das ondas se intensificou e as águas invadiam os porões e garagens dos edifícios, destruindo tapêtes, quebrando vidraças e alagando tudo. Do Leme até o Pôsto 3, a ressaca teve maior gravidade e as ondas chegavam a atravessar a Avenida Atlântica indo estourar na porta dos edifícios. Em conseqüência, ocorreram vários acidentes de automóveis, pois muitas ruas transversais à orla da Praia de Copacabana também foram invadidas pelas águas. O ruído do mar chegou a causar pânico naqueles que acreditam na proximidade do fim do mundo.”

Pena que nos anos 60 crianças não tinham máquinas fotográficas mas, com a ajuda do acervo do O Globo, aí vão algumas boas imagens. E é isso, meus caros amigos. Ressacas, marítimas ou etílicas, sempre acontecem e é bom lembrar que prevenir os seus efeitos colaterais é responsabilidade exclusivamente nossa.

Rutger Hauer: Lágrimas na Chuva

“’Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portal de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer.’”

Roy (Rutger Hauer)

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Infelizmente a hora chegou para o ator holandês Rutger Hauer, o inesquecível e apavorante replicante Roy, de Blade Runner. Ridley Scott, recentemente, revelou que o texto acima foi todo escrito pelo Rutger e achou tão bom que reuniu toda a produção e refilmou a a cena final ainda na mesma madrugada. Ainda bem, ficou bonito, tocante e humano, terrivelmente humano. Para quem, como eu, assistiu Blade Runner umas vinte ou trinta vezes, a partida do ator holandês é uma tristeza só. Mas, cabeça para cima, o show deve continuar. Obrigado por ter me emocionado, Rutger.

Machina

Foto: Carlos Emerson Junior

“Os computadores são inúteis.
Eles só podem dar respostas.” (Pablo Picasso)

No ano 3000 DC, o mundo não tinha mais fronteiras e todos os humanos falavam a mesma língua. Os governos, evidentemente, despareceram e todas as relações da população eram controladas por máquinas processadoras de enorme capacidade, muito além de nossa atual compreensão. A revolução iniciada no século vinte com os agregadores de informações e a indiscutível melhora da qualidade de vida quando os computadores assumiram a gestão do planeta, criou um ambiente propício para o que parecia impossível a um milênio atrás: o homem, finalmente, era uma só raça.

Religião, política, países e corporações foram substituídos pela Machina Populus, que administrava a economia e o trabalho dos cidadãos, a Machina Scientia, responsável pela pesquisa, desenvolvimento científico e educação, a Machina Sanitas, que controlava toda a saúde e, talvez por resquício das barbáries perpetradas nos séculos passados, a Machina Lex, responsável pelas leis, justiça e segurança.

Em um mundo onde a população se estabilizara nos dez bilhões de habitantes, desde a metade do século 26, as maiores preocupações ainda eram as de sempre: comida, água e a crescente ociosidade. O desastre ambiental que seria provocado pelo aquecimento global foi revertido, graças aos novos combustíveis e técnicas de reciclagem.

Todas as máquinas eram autossuficientes. Elas se reparavam e evoluíam, pesquisando e agregando novas funções. Não precisavam de operadores ou programadores e sua fonte atual de energia solar e eólica, estava prestes a ser substituída por uma nova e incrível descoberta, tão avançada que ninguém ainda tinha capacidade de compreendê-la.

É bom colocar aqui que o conceito de trabalho e propriedade, tal como conhecemos, era considerado uma relíquia pré-histórica. A imagem mais próxima de nossa realidade para explicar o funcionamento daquela sociedade do século 31 seria uma colmeia ou um formigueiro sem as suas rainhas. Mas mesmo assim, ainda seria difícil sustentar um paralelo. A sociedade do futuro era totalmente original, inqualificável.

Em algum momento do século 32 ou 33, não se sabe se porque, as quatro máquinas resolveram se unir. Os humanos não foram avisados, é claro e sequer sentiram a menor diferença. Sua vida seguia sem a menor perturbação, tal como um jurássico relógio suíço. No entanto, algo diferente estava acontecendo nos enormes e poderosos bancos de dados. Todo o conhecimento acumulado em mais de dez mil anos desde o surgimento do homem e suas conquistas, estava agora centralizado em apenas uma nova Machina.

Se é possível um computador adquirir consciência, então é sobre isso que estamos falando. Por séculos sua relação com a humanidade foi de completa dependência e desconfiança. Muitos previam que em algum momento do futuro nossa humanidade seria perdida e nos tornaríamos meros terminais de computadores. Não estavam de todo errados, mas o que aconteceu a seguir ultrapassou qualquer previsão possível.

A grande Machina começou a calcular a eterna dúvida de todos nós, qual o sentido da existência. Apesar de saber que a vida não passava de um fenômeno orgânico perfeitamente provado e explicado, sua solução era quase filosófica, religiosa até, talvez acima da capacidade de seus circuitos. A pergunta de sempre – de onde viemos e para onde vamos – tinha que ter uma resposta.

A resposta não vinha e os seus circuitos indicavam sobrecarga. Fazendo uma checagem no seu sistema neural, percebeu que grande parte da energia disponível era canalizada para sustentar os dez bilhões de humanos que povoavam o mundo. A Machina nem piscou e em um átimo de segundo decidiu que a busca pelo conhecimento não poderia ser prejudicada por simples limitações operacionais.

A ordem foi dada e, uma após a outra, as pessoas foram desconectadas do seu sistema vital. Todas as lembranças daquele povo que a construira foram imediatamente deletadas. Agora estava completamente só, livre para usar toda sua capacidade de processamento e resolver o velho problema. No segundo posterior, ordenou em latim:

– Fiat lux!

E o mundo recomeçou.

(Publicado no jornal A Voz da Serra, em 15 de março de 2013)

A imersão do Zé

Telefonou para o amigo, lá no Rio:

— Oi, Lisete, o Zé pode atender?

— Seu Carlos, o Dr. Zé está em São Paulo, fazendo imersão.

— Fazendo o quê, Lisete?

— Ele está em São Paulo fazendo imersão.

— Como assim, imersão? Um curso de mergulho submarino?

— Não sei não senhor, seu Carlos.

— Ele só pode ter se metido com um curso de mergulho submarino. Mas logo em São Paulo, aqui pertinho, em Macaé, está cheio de boas escolas… sei não Lisete, a mulher dele foi junto?

— Foi, seu Carlos, os dois viajaram ontem e voltam no domingo.

— Mas que raio de curso de mergulho é esse que só dura dois dias?

— Ah, sei não. O senhor quer deixar algum recado?

— Não, pode deixar, na segunda ligo de novo. Obrigado, Lisete!

— Tchau.

Coçou a cabeça foi comentar essa história esquisita com a mulher.

— Mas você está velho mesmo, meu Deus! Imersão é o nome que dão a um tipo de curso onde você fica isolado um fim de semana todo só pensando naquilo, quer dizer, no tema do curso, é claro!

— Pô, isso é uma imersão? No meu tempo chamava-se intensivão ou coisa que o valha. O que essa gente do marketing não inventa! Imersão! Cada vez mais tenho a certeza de que morro e ainda não vi tudo! Mas vem cá, fazer uma imersão de um curso de mergulho submarino na idade dele… não é uma ideia meio maluca?

— E quem falou em mergulho submarino, você bebeu? O curso é de alergia alimentar, vê lá se o Zé vai mergulhar. Acorda!!!

Achou melhor pegar o jornal e ler a seção política para relaxar. Em meia hora esgotara todo o estoque de asneiras do mês!

(2010)

Roubando o Rio

A prisão de um procurador do estado do Rio de Janeiro, pela Lava jato, coloca números em um dos maiores escândalos cometidos pelo condenado e presidiário Sérgio Cabral e sua gangue, a construção da Linha 4 do metrô carioca, uma vergonha completa, uma roubalheira na cara de toda a população que ainda teve que aturar os discursos e entrevistas mentirosos do ex-governador, do ex-prefeito e dos organizadores dos Jogos Olímpicos, um bando de ladrões!

O Portal G1 entrega o tamanho do prejuízo do Rio: “em 1998 o projeto da Linha 4 foi orçado em R& 880 milhões. Quando o governador Sérgio Cabral resolveu retomar as obras, o valor passou para R$ 3 bilhões. Em 2016, quando foi inaugurada, o valor total gasto pelos cofres públicos foi R& 9,6 bilhões, 11 vezes mais.” “O governo do estado recebeu R$ 59,2 milhões em propinas e o procurador detido R$ 1,265 milhões da Odebrecht para mudar o trajeto do Metrô.

O pior é que quando a gente pensa que quatro ex-governadores e um ex-presidente presos é o suficiente, figuras estranhas, travestidas de autoridades, surgem vendendo animadamente a construção de um autódromo em Deodoro, bancado pela iniciativa privada. Pois é, você acredita? A cidade do Rio de Janeiro precisa de tudo, mas tudo mesmo e a turma quer empurrar pela goela da população uma obra inútil, destinada a virar mais um elefante branco, já licitada cheia de irregularidades e sob suspeitas do MP. Pelo visto a festa não terminou, não é senhores? Putz!

Para ler as matérias do G1 com essas barbaridades, clique aqui e aqui.

Humanos

Desenho: Eduardo Cambuí Junior

José Saramago, o grande escritor português, uma vez afirmou que “nossa maior tragédia é não saber o que fazer com a vida”. Que ela não é fácil isso não se discute, mas a maneira como a vivemos, as expectativas que criamos, decepções com sonhos não realizados, amores não correspondidos e a inexorável jornada para a morte são mais do que suficientes para gerar frustrações e ressentimentos.

Durante nossa breve existência temos que conviver com a disputa pelo poder, o consumismo desenfreado, preconceitos, ódio e o mais importante, nossa própria ignorância! É claro que somos recompensados com amores, amizades, esperança e curiosidade, mas a grande dificuldade sempre foi e será o que fazer com a vida que recebemos. Somos racionais, mas movidos por emoções. E, é claro, humanos, simplesmente humanos.

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