Somos bárbaros

Candido Portinari (A Criança Morta)

Mas que humanidade é essa? Será que estamos precisando de uma reedição da segunda guerra mundial para aplacar as bestas que tomaram conta de nossas mentes e almas? Reconstruir os campos de concentração para exterminar todos os que pensam diferente de nós? Trazer de volta a doença, a fome, a sede, a miséria e morte? É esse o empoderamento que tanto falam?

Não me conformo com o massacre da escola de Suzano, os oito mortos, os dez feridos, as centenas de crianças que vão carregar para sempre um trauma horrível, conhecer a morte tão cedo, na sua frente, cega e implacável. Um dos dois atiradores tinha apenas 16 anos, tão jovem quanto suas vítimas. Qual o sentido de tudo isso?

Não me venham com papo de liberação de armas, apologia à violência. Isso tudo existe há muito tempo, quando descobrimos que matar o próximo era possível, desde que em nome do Rei, do Estado, da Lei, da Ordem, da Moral, da Religião, do Partido, da Inveja, do Preconceito, da Ignorância,de tudo! Atentados à escolas ocorrem no mundo inteiro, inclusive aqui no Brasil. Tomamos alguma atitude? Que nada, ainda estamos discutindo abobrinhas, em gênero, número e grau.

Enquanto isso, crianças morrem. Até quando, Meu Deus, vamos aceitar passivamente tamanha barbaridade? Quando trouxerem de volta a segunda guerra mundial, por favor, não se esqueçam das bombas atômicas. Talvez elas deem um jeito em nossa desumanidade.

Voos do Rio

Foto: Varig

Li por acaso um “tuite” do escritor Aguinaldo Silva, reclamando que a partir de primeiro de abril,os vôos diretos do Rio para Nova York não existirão mais. Pior, a opção com escalas (o famoso e famigerado parador) começa com pulo até Brasília, quase que no caminho para trás! Aliás, uma rápida “googlada” mostrou uma matéria da Latam informando que suas rotas Rio – Miami e Rio – Orlando também serão encerradas a partir da mesma data. Seria uma brincadeira do “Dia da Mentira”?

Infelizmente, não. Segundo a American Airlines, o cancelamento da tradicional rota até Nova York (que teve origem em 1920, com hidroaviões da Pan Am, que pousavam na Baía da Guanabara), foi a queda da demanda, reflexo da crise financeira agravada pelos desmandos e roubalheiras dos dois últimos governadores do nosso combalido Estado do Rio, os notórios Sérgio Cabral e Pezão. Como a recuperação será lenta (os rombos continuam aparecendo), nosso futuro ainda é incerto.

Que pena. Uma cidade que já recebeu voos desde o dirigível alemão Hindenburg até o supersônico Concorde, não merecia mais essa perda. Para mim, fica a saudade dos vôos da Varig, pontuais, seguros e confortáveis, lembrança de uma época que o Rio ainda era a Cidade Maravilhosa.

Alegoria

Foto: Carlos Emerson Jr.

Quando alguém conta uma história, é bom ter em mente que, além da que você ouviu, existe uma versão diferente do outro lado do caso. Saber qual das duas é a verdade é o objetivo, isso se você não descobrir um terceiro lado, oculto, sombrio, esquecido, que pode provocar uma reviravolta em toda a conversa. Em tempos de redes sociais e mídias raivosas e partidárias, todo o cuidado é pouco. A palavra de ordem é desinformação, ou pior, a meia verdade, onde a brasa da sardinha é sempre puxada para um só lado (o certo, por óbvio, julgam eles).

Muita gente conhecida, querida até, está nessa aí. É pena. Talento jogado no lixo. Como uma alegoria usada no Carnaval.

Solidários, sempre.

Falam mal dos brasileiros. Que somos preguiçosos, ignorantes, violentos, desonestos, sem caráter, uns canibais mesmo. Pois é, dizem tudo isso por aí… No entanto, hoje, vendo o sofrimento do maquinista do trem, preso nas ferragens por mais de sete horas, assistindo o esforço quase sobre humano do pessoal do Corpo de Bombeiros, lutando contra o aço que insistia em manter o seu refém e a população angustiada diante de mais uma tragédia desse sombrio ano de 2019, agarrei-me ao sentimento que, apesar de nossos defeitos, somos solidários, sempre! Seja uma criança perdida em um shopping center, um idoso indeciso para atravessar uma rua, um tentativa de estupro em um bar (aconteceu ontem, no Leblon), até o colapso de uma represa em cima de cidades inteiras, se você precisar de ajuda, qualquer uma, logo aparece um de nós para socorrer, consolar, amparar, muitas vezes se expondo ao perigo e arriscando a própria vida.

Fiquei triste com a morte do maquinista do trem. Meus sentimentos para a família, os colegas e amigos. Sofremos juntos de vocês todos.. Mas tenho que deixar registrado o meu orgulho pela solidariedade, dedicação e persistência dos nossos Bombeiros, mais uma vez, os verdadeiros Heróis do Brasil. Temos que bater no peito e nos orgulhar, somos solidários!

Falando (outra vez) de calçadas

Foto: Mobilize

Aconteceu no verão de 2015, lá no Rio de Janeiro. Tomei um baita tombo no calçadão da Avenida Vieira Souto, numa caminhada acelerada com destino ao Leblon. A culpada não fugiu, ficou quietinha aguardando outro incauto no local do acidente: uma pedra portuguesa solta que, ao sair do lugar quando pisei, me jogou de frente na ciclovia. O prejuízo, ainda bem, não foi grande, joelhos, mãos e cotovelos arranhados e a vontade de esganar o responsável pelas calçadas cariocas.

Lembrei desse tombo lendo o interessante artigo do Zuenir Ventura, no jornal O Globo, de hoje, intitulado “A desordem custa caro ao Rio”, de onde pinço uma ótima observação do nosso querido escritor: “basta dizer que deixei de caminhar no calçadão por causa dos buracos e das pedras portuguesas soltas. Já tinha ouvido histórias de acidentes graves (uma senhora fraturou o fêmur), mas insistia, até o dia em que eu mesmo quase caí ao tropeçar em uma dessas pedras. O tombo, como se sabe, é o maior inimigo do idoso.”

Casos como esse estamos cansados de assistir (ou participar), em qualquer cidade do Brasil. As causas são sempre as mesmas, calçadas em péssimo estado de conservação, geralmente por descaso do proprietário do imóvel, obra porca de uma concessionária qualquer, carros indevidamente estacionados em cima delas ou imprudência do próprio pedestre, andando onde não devia (ou sem prestar atenção).

Cair ou não cair, não é nem a questão, diria Shakespeare, se hoje vivesse nas esburacadas cidades brasileiras. Mudar a maneira de ver esses tombos e tipificá-los como acidentes de trânsito, colocando responsabilidades, seria um bom começo. A legislação atual da grande maioria dos municípios brasileiros deixa a cargo do proprietário do imóvel a construção e manutenção das calçadas, mas estamos carecas de saber que isso não é o suficiente.

Falta padronização, acesso para deficientes, sinalizações horizontal e vertical e, principalmente e infelizmente, fiscalização. É inadmissível circular em uma calçada tomada por lixo e entulhos, ocupada por automóveis ou instalações urbanas completamente irregulares, perigosas e na maioria das vezes, inúteis.

É sempre bom ter em mente que somos todos, antes de qualquer coisa, pedestres. Nossas cidades nunca serão amigáveis se suas calçadas forem inseguras. Aliás, já que o poder público se preocupa em manter ruas, avenidas e rodovias em condições perfeitas para o trânsito de veículos automotores, tem a obrigação de cuidar dos caminhos dos cidadãos, as nossas calçadas. Ao contrário do que as “excelências” acreditam, cidades são para pessoas.

Ah, sim, não esqueci as calçadas de Nova Friburgo. Já estou preparando uma grande “homenagem” em um próximo artigo, cheio de fotos, é claro. Afinal, adoro filmes de horror!

Dias de calor

Foto: Carlos Emerson Jr.

Você mora na serra fluminense. Sua cidade é considerada a mais fria do estado. No inverno as temperaturas chegam ao zero absoluto e geadas são comuns na zona rural. Reza a lenda que até já nevou. Seu bairro fica em cima de um morro, bem na frente da montanha que separa sua cidade da baixada. Mais arejado e ventilado, impossível. No entanto, o verão veio forte e lá na sua cozinha, ao lado da janela, o velho termômetro avisa que a temperatura chegou a inacreditáveis 30º à sombra, ou melhor, dentro de sua casa.

É o fim do mundo, diriam os ambientalistas, aplaudidos de pé por cariocas calorentos, como este que vos fala. Como assim, 30º? Cadê a chuva? O frio? A geada? Foi com o maior prazer que dei adeus para o Rio e me mandei atrás de paz, segurança, sossego e um pouco de frio, não necessariamente nessa ordem, é claro. Com que direito uma onda de calor – que veio pelo mar – invade minhas montanhas, minha cidade, minha casa, meu bem-estar?

Pois é, fica registrado o meu protesto indignado contra esses dias de calor que estão assolando nossa querida Nova Friburgo. Tem quem goste, é claro. A turma que ama descer a serra para as praias fluminenses está fazendo a maior festa. Deixa estar. Qualquer hora dessas Friburgo volta a ser Friburgo e uma frente fria, daquelas que chegam aos 12, 13º estaciona por aqui durante, digamos, uma semana e tudo volta a ser como era.

Um baita frio!

Ano: 2050

Foto: Nattanam726/Shutterstock

Em 2050 a população do planeta chegará ao espantoso número de 9.6 bilhões de pessoas. A expectativa de vida média será de 76 anos. A Índia será o país mais populoso do mundo, enquanto a Europa registrará um decréscimo demográfico de 14%.

Em 2050, 7.2 bilhões de pessoas (75%) viverão em cidades, com as preocupações de sempre: saúde, transporte, educação, segurança e gerenciamento de emergências. Cidades pequenas e médias serão engolidas por cidades cada vez maiores, as megacidades. Dois terços dessas grandes cidades estarão localizadas em países subdesenvolvidos.

Em 2050, 3 bilhões de pessoas viverão em situação de pobreza, morando em locais sem água potável, saneamento, eletricidade, saúde e educação. Cidades imensas degradadas, possivelmente sem governo de fato. Convivendo com epidemias, violência e miséria. E, como atualmente, migrando de um lugar para outro em busca de esperança de vida.

Em 2050, mais de 65 milhões de idosos representarão quase 29% da população brasileira. Como a taxa de fecundidade vem caindo desde 1970, o índice de filhos por mulher chegará a 1,50 e, já em 2030, o Brasil irremediavelmente será um país velho.

Em 2050 terei 100 anos de idade, possivelmente não estarei por aqui, mas não é por isso que vou virar para o lado e fazer de conta que o futuro não é comigo. É bom lembrar que o quadro acima não leva em conta nenhuma anormalidade, como um desastre climático, uma guerra nuclear, uma pandemia letal ou um apocalipse espacial.

Todos os números citados, com exceção do meu centenário, são divulgados exaustivamente pela ONU, Unesco, IBGE e derivados (no presente, por óbvio). Não se trata de futurologia, é claro. É um assunto sério, envolvendo nossos descendentes e, principalmente, o futuro do planeta.

Lembrem-se, só faltam 31 anos para 2050…

A tragédia do Brasil

Foto: Andre Penner/AP Photos

Os números falam por si: 121 mortos, 205 desaparecidos, um rio morto, plantações, casas, vidas destruídas, centenas ou talvez milhares de animais de todos os tipos perdidos para sempre e um enorme desalento e desesperança com mais uma tragédia anunciada que sacudiu o nosso país em Brumadinho, Minas Gerais.

É inconcebível que o mesmo tipo de desastre tenha se repetido com a mesma empresa, no mesmo estado, quatro anos depois. O que nos leva a outra reflexão, a impunidade, a morosidade da justiça, o desinteresse das autoridades responsáveis, a certeza de que o assunto será esquecido dentro de mais uns dez dias, como bem disse o colunista Ricardo Boechat em seu editorial de hoje, na Band News.

Pois é… Torço para que desta vez estejamos todos errados e a justiça será feita, doa a quem doer, sem ver cara, cor, títulos e poder. Em algum momento, o Brasil vai ter qie dar um basta nessa postura imperial, onde uns são melhores e mais imprescindíveis do que os outros. Que esse basta seja agora!

Onze de Janeiro

Foto: Carlos Emerson Jr.

No dia onze de janeiro de 2011, a bela e acolhedora Capela de Santo Antônio, na Praça do Suspiro, amanheceu assim, bem como grande parte da cidade de Nova Friburgo. A tragédia que, oficialmente levou 918 pessoas, deixou mais de 30 mil desabrigados e uma centena de desaparecidos nas cidades da nossa Região Serrana, precisa ser recordada. O que aconteceu naquele dia, um desastre ambiental de proporções épicas, mudou Nova Friburgo para sempre. Acredito que estamos mais preparados, atentos, cuidadosos, mas o caminho ainda é longo e viver nas montanhas tem um preço óbvio, tempestades, cheias e desabamentos. Não faz mal, moramos aqui e aqui continuaremos. É a nosso lar.

Carlos Emerson Jr. (2019)

Pequenas distrações

Gil Elvgren (Belle Ringer 1941)

Atire a primeira pedra: quem nunca foi para o trabalho com o controle remoto da TV ou o telefone sem fio na bolsa? Ou colocou o leite no copo e jogou a caixa de leite, cheiinha, na lata de lixo? Se arrumou toda para um evento social e se mandou com as sandálias havaianas?

Pôs a água para ferver, esqueceu da vida e a água evaporou. Repetiu a operação e esqueceu novamente! Saiu de casa correndo, debaixo da maior chuva e não conseguiu abrir a porta do carro. Viu que pegou a chave do marido, voltou para casa e retornou com a chave do carro do filho. E tome chuva!

Foi fazer o exercício diário na praia com a camiseta do lado do avesso. Preparou um café na Bialetti sem água no recipiente próprio. E pior, no supermercado, ao invés do açúcar, comprou sabão em pó. Saiu de carro e voltou de ônibus. Duas vezes. Revirou a casa inteira atrás do celular, que só foi localizado na manhã seguinte, dentro da geladeira.

Entrou na fila do banco: quando chegou no caixa descobriu que não tinha levado o dinheiro que ia depositar. Resolveu tomar uma chuveirada e esqueceu de tirar os óculos. Trinta anos de casados depois, pergunta para o marido qual o dia do seu aniversário. Deixa a carteira com dinheiro e documentos no médico. No dentista. No oculista. No restaurante. No açougue. Na padaria.

Salta do ônibus no ponto errado. E piora, porque aí descobre que embarcou no ônibus errado. Reclama do troco quando pagou com o cartão de débito. Ou o de crédito. Deixa o filho esperando no colégio. Deixa a filha esperando na academia. Deixa o marido de castigo na porta do shopping. Sai de casa com a câmera fotográfica compacta ao invés do celular.

Bateu a porta de casa, deixando as chaves do lado de dentro. Bateu a porta do carro, deixando as chaves do lado de dentro. Bateu a porta do trabalho, deixando as chaves do lado de dentro. Tocou a campainha de casa, com as chaves nas mãos. Tentou abrir a porta da casa do vizinho com suas chaves. Duas ou três vezes.

Coloca uma meia de cada cor, atravessa a rua sem olhar o semáforo, para na banca de jornal para folhear uma revista, gosta de um artigo e leva sem pagar. Usa os óculos do marido e entra em pânico porque não está enxergando nada. Está sempre em dúvida se já tomou a medicação diária para a memória.

É como diz uma amiga, não está fácil para ninguém.

Carlos Emerson Jr. (Junho/2015)

Atiradores

Foto: Carlos Emerson Jr.

De longe, muito longe mesmo, com toda a maldita neve na encosta, conseguiu enxergar: tinha um tedesco escondido no meio de uma moita, com um fuzil de mira telescópica. Não havia como errar, a farda verde e o capacete esquisito eram inconfundíveis. O problema agora era outro, qualquer movimento brusco que fizesse, ia levar um tiro no meio dos olhos, no mínimo. Esses atiradores alemães não perdoavam. Só tinha uma chance, meio louca, com tudo para não funcionar, mas não ia entregar sua alma nessa moleza não. Respirou fundo e, tentando se mexer o mínimo possível, puxou a bazuca das mãos do Adriano, coitado, que já havia levado uma bala do filho da puta lá da moita. Como pensava, a arma estava pronta para atirar, não fosse o Adriano seu operador. Com muito cuidado apoiou a arma na beira do fox hole, apontou para a maldita moita, apoiou bem firme o corpo no chão e apertou o gatilho. O disparo empurrou seu corpo para trás, o alemão percebeu, mirou com seu fuzil e nem deu tempo para pensar, a carga explodiu em cheio na moita, reduzindo tudo a pó, carne queimada e ossos quebrados. Respirou profundamente, sentindo-se vivo.

Acordou suando em bicas, apavorado! Caramba, tinha dormido no abrigo! Ainda bem que o sargento não viu, não tinha ninguém perto. Ninguém não, no buraco logo à frente, no meio da neve, dois brasileiros entocados espreitavam. Um já tinha ido, ganhou um balaço bem no meio dos olhos. Mas o outro estava quieto, imóvel, como se estivesse morto. Ou congelado. Que frio, caramba. Essa guerra nunca vai terminar e vamos acabar todos enterrados nesses buracos na neve. Alemães, italianos, americanos, brasileiros, ingleses, o diabo. É, até ele vai congelar no fox hole. Com o canto do olho percebeu quando um tubo verde-escuro surgiu no chão, à sua frente: caramba, é uma bazuca, o filho da puta tem uma bazuca! Automaticamente encostou o rosto na mira telescópica do fuzil, pressionou o gatilho mas só viu, por um décimo de segundo, o projétil ser expelido em sua direção. Não deu tempo sequer de falar “fudeu, morri”.

Acordou suando em bicas, tremendo apavorado. Por alguns segundos, desorientado, não sabia se estava em um fox hole na Itália ou em sua própria cama, no Rio. Foi um pesadelo, claro, mas de onde viera essa história? Olhou para sua mulher, dormindo pesadamente ao seu lado. Ela tinha razão, precisava relaxar, ter uma vida mais saudável, ganhar na loteria, não sabia. O problema é que não havia conexão alguma entre o sonho e seus problemas. Não, não sabia mesmo o que fazer. Aliás, não tinha a menor ideia do que estava fazendo na Itália. De qualquer modo, tinha um tedesco na moita logo à frente. Isso era fácil, bastava um tiro da bazuca para liberar o caminho. Silenciosamente, carregou a arma e esticou o pescoço para situar melhor o alvo. Só ouviu o companheiro gritar: Adriano, se abaixa! Sentiu uma martelada na cabeça e imediatamente, o mundo se apagou.

Acordou suando em bicas, trêmulo, apavorado, taquicárdico. Desta vez chamou a mulher, quase chorando, pedindo ajuda. Não ia dormir de novo. Aliás, se pudesse, não dormia nunca mais. Tinha medo. Olhou para o escuro do quarto e teve certeza que na próxima, era ele quem ia embora.

Carlos Emerson Jr.
Dezembro de 2018

Fuzil

Foto: Robert Capa

Aí você prepara a pipoca no micro-ondas, liga a TV, senta na velha e aconchegante poltrona, aproveita que a patroa não está em casa e coloca os pés na mesinha de centro de estimação e quase tem um “treco” quando a apresentadora do programa de entrevistas afirma para o governador recém-eleito que um homem com um fuzil nas mãos, em plena via pública, não pode ser considerado uma ameaça, um risco à segurança de terceiros.

Mas piora. Para tentar justificar a sandice, a emissora chama uma “cientista política” que candidamente explica que “as políticas de seguranças estimulam a compra de mais fuzis pela bandidagem, para combater os fuzis das forças de segurança.” (Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=1ZK58NlOPXM). Decididamente essa gente não tem a menor noção do que é um fuzil, além de “desconhecer” a Lei 13.497/2017, que qualifica a posse desse tipo de armamento como crime hediondo.

Quando estava no Exército o uso de um fuzil era cercado de muito treinamento, conhecimento profundo de toda a sua estrutura (desmontar, limpar e remontar) e responsabilidade pela arma e cada cartucho de munição usado. Após seu uso eram todos recolhidos a um paiol, devidamente trancado e guardado. Fuzis são armas de guerra, feitos para matar o inimigo. Seu emprego é controlado, sua operação restrita e, principalmente, seu porte jamais deve ser visto como atividade “sem riscos”, até mesmo (e principalmente) por militares. Por favor, não repitam qualquer bobagem que ouvirem por aí, principalmente se vocês forem da grande mídia.

Pega muito mal.

oOo

A foto que ilustra o post é de autoria do renomado fotógrafo húngaro Robert Capa (Endre Ernő Friedmann). Foi tirada em Córdoba, em setembro de 1936, em plena Guerra Civil Espanhola.

Os homens ocos

 

T.S.Eliot (1925)

 

I

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam – se o fazem – não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

– Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui elas recebem
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam a pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos esquivos à fala
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um gemido.

(Tradução: Ivan Junqueira
Arte: Owen Freeman)

O som do sino

Foto: Carlos Emerson Junior

Todos dos dias passava diante daquela casa com o sino na porta. Estava encantado. Ficava imaginado como seria o seu som, quem atenderia, o que diria. E seguia seu caminho. Um tarde nublada, voltando do trabalho, não resistiu: foi até o sino, puxou a corrente e… Ficou surpreso quando, ao invés da tradicional badalada, ouviu um toque eletrônico dentro da casa. Caramba, o sino então era só um enfeite? Decepcionado, saiu correndo pela rua vazia antes que alguém viesse atendê-lo. Ia falar o quê? Já fora de vista, ofegante, pensou que até mesmo os sinos agora eram feitos na China. Que coisa!

Curiosidade

Foto: Nasa

Enquanto o robô Curiosity trabalha intensamente a mais de seis anos na superfície marciana, coletando dados sobre o planeta, fazendo descobertas sensacionais, como as moléculas orgânicas em rochas com três bilhões de anos, analisando o clima, fotografando e até mesmo fazendo selfies, aqui no Brasil, bem, aqui no Brasil… Ah, deixa prá lá. Afinal, o grande Millor Fernandes já dizia que “com muita sabedoria, estudando muito, pensando muito, procurando compreender tudo e todos, um homem consegue, depois de mais ou menos quarenta anos de vida, aprender a ficar calado.” Como eu já estou indo para os setenta…

A propósito, a curiosa selfie do Curiosity é uma colagem de várias fotos tiradas pelo robozinho (uma gentileza, afinal ele tem o tamanho de um automóvel) para esconder seu braço mecânico-eletrônico-cibernético-nuclear (não é mentira, o bicho é movido por um reator atômico!) da foto. Trabalho da NASA.

Falando de flores

Foto: Carlos Emerson Junior

Sou um completo analfabeto quando o assunto são flores mas sei muito bem que, como “modelos” para fotos, são imbatíveis! Flores são tão bonitas que nem precisam fazer pose. Nunca reclamam da nossa demora para “acertar” a câmera, não se mexem e algumas até nos presenteiam com um perfume gostoso e elegante. Decididamente, fotografar flores é Zen e se for em Nova Friburgo é o próprio Nirvana!

Foto: Carlos Emerson Junior

Réquiem pra uma árvore

Foto: Carlos Emerson Junior

A árvore jaz morta na calçada,
com a base de seu tronco quebrada.
Não sei se foi o vento,
um veículo, até mesmo um raio.
Será que ela estava doente?
Teria sido vítima de uma violência gratuita?

Em uma cidade cercada pela Mata Atlântica,
mas onde, que ironia, poucas ruas são arborizadas,
a visão da árvore morta na calçada dói.
Muito!

*****

Sábado, dia 13 de outubro. Rua Dr. Barcellos, quase esquina com a rua Sara Braune, aqui nas Braunes, Nova Friburgo.