Congresso Internacional do Medo

Foto: Carlos Emerson Junior

Carlos Drummond de Andrade

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

(Publicado em Antologia Poética, Editora José Olympio, 1978)

Se eu morrer antes de você

Se eu morrer antes de você, faça-me um favor:
chore o quanto quiser, mas não brigue comigo.
Se não quiser chorar, não chore.
Se não conseguir chorar, não se preocupe.
Se tiver vontade de rir, ria.

Se os amigos contarem algum fato a meu respeito,
ouça e acrescente a sua versão:
se me elogiarem demais, corrija o exagero,
se me criticarem demais, me defenda.

Se me quiserem fazer um santo, mostre que eu tinha virtudes, mas estava longe de ser o santo que imaginam.
Se lhe disserem que cometi muitos erros, mostre que errei muitas vezes, mas passei a vida inteira tentando acertar.
E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim, diga apenas uma frase:
“Foi meu amigo, acreditou em mim e sempre me quis por perto.”

Se derramar uma lágrima, eu não estarei presente para enxugá-la,
mas não faz mal, outros amigos farão isso no meu lugar.
Gostaria de dizer para você que viva como quem sabe que vai morrer um dia,
e que morra como quem soube viver direito.
Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente
e se inaugura aqui mesmo o seu começo.

Mas, se eu morrer antes de você,
creio que não vou estranhar o céu.
Ser seu amigo,
já é um pedaço dele.

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A autoria desses versos é atribuída ao Vinícius de Moraes, Padre Zezinho, Chico Xavier (psicografia) e a Mariano Osório Murilo, jornalista mexicano. No entanto, isso não tem a menor importância e gosto de pensar que todos os quatro, de uma forma ou de outra, passaram a mesma mensagem de amizade e amor.

Palavra

por Irene Gomes

“Palavra não foi feita para dividir ninguém,
palavra é uma ponte onde o amor vai e vem,
onde o amor vai e vem.

Palavra não foi feita para dominar,
destino da palavra é dialogar,
palavra não foi feita para opressão,
destino da palavra é união.

Palavra não foi feita para a vaidade,
destino da palavra é a eternidade,
palavra não foi feita p’ra cair no chão,
destino da palavra é o coração.

Palavra não foi feita para semear
a dúvida, a tristeza e o mal-estar,
destino da palavra é a construção
de um mundo mais feliz e mais irmão.

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Em tempos de tantos conflitos, os versos da canção de Irene Gomes servem como um farol de lucidez, lembrando que não custa nada parar de pensar apenas em nós mesmos, alimentando o coração com sentimentos como o ódio. Muito obrigado a Igreja Nossa Senhora do Brasil pela publicação dos versos e ao Portal Luteranos pelas informações sobre a autora.

Tenham todos um ótimo dia.

Fim

Frederic Brown

O professor Jones vinha trabalhando na teoria do tempo havia muitos anos.

– E descobri a equação-chave – ele disse um dia a sua filha.– O tempo é um campo. Esta máquina que construí pode manipular – e até inverter – esse campo.

Premindo um botão enquanto falava, acrescentou: – Isto deveria fazer com que o tempo corresse ao contrário contrário ao corresse tempo o que com fazer deveria isto: acrescentou, falava enquanto botão um premindo. Campo esse – inverter até e – manipular pode construí que máquina esta. Campo um é tempo o. – Filha sua a dia um disse ele – chave-equação a descobri e. Anos muitos havia tempo do teoria na trabalhando vinha Jones professor o.

(tradução de Luiz Roberto Guedes)

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fredric-brownEscritor norte-americano, Fredric Brown nascido a 29 de Outubro de 1906 em Cincinnati, no estado do Ohio. Estudou à noite na Universidade de Cincinnati e no Hanover College em Indiana, onde permaneceu um ano. De 1925 a 1936 foi funcionário administrativo, tendo-se tornado depois revisor de provas do Milwaukee Journal . Afiliou-se no Clube de Escritores de Ficção de Milwaukee, juntamente com Robert Bloch, que viria a editar, em 1977, uma colectânea dos seus contos. Continue lendo>>

Ana C.

“Apaixonada,
saquei minha arma,
minha alma,
minha calma,
só você não sacou nada.”

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1447440177_356883_1447440445_noticia_normalAna Cristina Cesar ou Ana C., como era conhecida, nasceu em 1952 na cidade do Rio de Janeiro. Após 1968, passou um ano em Londres, fez algumas viagens pelos arredores e, na volta, deu aulas, traduziu, fez letras, escreveu para revistas e jornais alternativos e saiu na antologia “26 Poetas Hoje”, de Heloísa Buarque. Publicou, pela Funarte, pesquisa sobre literatura e cinema, fez mestrado em comunicação, lançou seus primeiros livros em edições independentes: “Cenas de Abril” e “Correspondência Completa”. Dez anos depois voltou à Inglaterra, graduou-se em tradução literária, escreveu muitas cartas e editou “Luvas de Pelica”. Trabalhou em jornalismo, televisão e escreveu “A Teus Pés”, Editora Ática – São Paulo, 1998. Suicidou-se no dia 29 de outubro de 1983. (Projeto Releituras, Arnaldo Nogueira Jr.)

Leia mais aqui e aqui.

Foto: Acervo/Instituto Moreira Salles

A morte da diferença

por Carlos Emerson
(Revista Palmeiras, dezembro de 1953)

O título não é muito sugestivo. Poderá haver o que contar no terreno contábil ? Temos de concordar que não há muita literatura nesse setor. Caso houvesse margem para tipos interessantes dentro da contabilidade teríamos então os romancistas – criadores de personagens – metendo nos seus livros heróis contadores.

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Daniils Kharms, o absurdo

Velhas que caem

Por excesso de curiosidade uma velha meteu-se pra fora da janela, caiu e espatifou-se.
Outra velha apareceu na janela e começou a olhar para a espatifada, mas por excesso de curiosidade também se meteu pra fora da janela, caiu e se espatifou no chão.
Depois caiu uma terceira velha da janela, depois uma quarta, e depois uma quinta.
Mas, quando caiu uma sexta velha, eu fiquei entediado e fui à feira de Máltsevski, onde ouvi dizer que um cego ganhou um xale de tricô.

(Tradução: Daniela e Moissei Mountian)

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Caderno azul nº 10

Era uma vez um homem ruivo, sem olhos nem orelhas. Também não tinha cabelos, e só por convenção lhe chamávamos ruivo. Não podia falar porque não tinha boca. E nariz também não. Nem sequer tinha braços e pernas. Também não tinha barriga, nem coluna vertebral, nem mesmo entranhas. Não tinha coisa nenhuma! Por isso pergunto de quem estamos nós a falar. Desta forma é preferível nada acrescentarmos a seu respeito.

(Tradução: Sergio Moita)

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Os sonhos teus vão acabar comigo

Os sonhos teus vão acabar contigo.
O interesse pela vida austera Irá desaparecer feito fumaça.
Então Desejos e paixões irão murchar,
O mensageiro do céu não virá a correr
Nem a juventude do ardente pensar…
Para, meu amigo, de tanto sonhar,
Exime o entendimento de morrer.

(Tradução: Aurora Bernardini)

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Daniil Kharms foi um surrealista, poeta do absurdo, escritor e dramaturgo. Nasceu em 1905, em São Petersburgo, na Russia.

Em 1924, entrou para Leningrado Electrotechnicum, de onde foi expulso por “falta de atividade em atividades sociais. Após sua expulsão, ele entregou-se inteiramente à literatura. Juntou-se ao círculo de Aleksandr Tufanov, um poeta e seguidor das idéias de Velemir Khlebnikov. Em 1928, fundou a avant-garde Oberiu coletivo, ou União da Arte Real. Sua estética era centrada em torno da crença na autonomia da arte a partir de regras do mundo real e lógica, bem como o significado intrínseco de ser encontrada em objetos e palavras fora de sua função prática.

Kharms foi preso por suspeita de traição, no verão de 1941, em Leningrado e morreu em sua cela em fevereiro de 1942, provavelmente de fome e frio. Tinha apenas 37 anos. Sua obra só foi reconhecida e lançada em 1989, com o colapso do regime soviético. (Wikipédia)

Completamente desconhecido aqui no Brasil, só final de 2013 saiu, pela Editora Kalinka, a coletânea “Os sonhos teus vão acabar comigo”, com textos e poemas selecionados, “A velha”, de 1939, sua única novela, e a peça “Elizaveta Bam”, de 1928, considerada um dos marcos do teatro do absurdo. Já encomendei o meu exemplar.