O jeitinho americano

O jeitinho americano

Terminei de ler, com enorme prazer, o livro “O jeitinho americano: 99 crônicas” do norte-americano Mathew Shirts, radicado há mais de 30 anos no Brasil, cronista e colunista do Estadão. Lançado em 2010, pela Realejo Edições, tem prefácio do escritor Mario Prata e mostra, com muita ginga e bom humor como um gringo, depois de um certo tempo e apesar de todas as diferenças culturais, acaba “ficando” brasileiro.

Para quem aprecia o gênero, é um prato cheio! O texto flui gostoso e, como comprei a versão para o Kindle, foi minha leitura favorita nas longas viagens do Rio para Nova Friburgo. Mas como não tenho a menor pretensão de fazer crítica literária, vale a pena ler a análise do escritor Reinaldo Moraes. De minha parte, assino embaixo!

Quando Matt começou a escrever suas cronicas semanais no Estadão, em 1994, fiquei de orelha em pé, e por um duplo motivo. Primeiro, porque tive de me curvar ao fato de que, mesmo tendo aprendido depois de adulto essa tralha de língua complicada que é o português, inda mais na informalíssima versão brasuca, o grigo batia um bolão em seus textos leves, divertidos e cheios de ideias sobre a cultura brasileira, dos grandes temas à miudeza do cotidiano, que davam um baile nas teses e publicações destinadas à corriola universitária, da qual, aliás, Matthew Shirts, o popular Mateus, é oriundo.

Depois, porque me deu um ciúme danado de ver acessíveis a todos os leitores do jornal Estadão aquelas histórias e reflexões deliciosas que ele desfiava diante dos amigos durante nossas prolongadas tertulias boemicas. Os causos do Mateus envolviam basicamente sua infância e adolecência no States, com muito surf, Hendrix e Monk, e a por vezes inacreditável saga de sua adaptação à Terra Brasilis. Isso, desde meados dos anos 70, quando ele aportou nestas plagas aos 16 anos para passar um ano em Dourados, no Mato Grosso (hoje, o do Sul), como intercambistado American Field Service (AFS), um programa internacional que abria as portas do mundo para os teens americanos e as dos Estados Unidos pra molecada do mundo todo, ou quase.

Agora, com as crônicas finalmente – e finamente – selecionadas e editadas em livro, somos convidados à mesa do cronista para os debates lúdicos e sempre instigantes que ele trava em torno de temas que vão desde a antiga importância do casco retornável da cerveja nas relações econômico-afetivas entre os brasileiros até a iminente substituição do livro de papel pelos leitores eletrônicos – passando por um sempre animado bate-bola com alguns dos nomes mais importantes da cultura contemporânea, a começar por Richard Morse, seu professor na Califórnia e grande amigo, um autêntico WASP da costa leste que se interessou pela América Latina depois de assistir Carmem Miranda ao vivo. “Nunca tinha visto uma mulher se mexer daquele jeito”, confessou-lhe o mestre, instigando-o a vir pela terceira vez ao Brasil, como aspirante a brasilianista. É o que Matt nos conta em uma das crônicas memoráveis deste livro.

O mais bacana de tudo, porém, é que, além de termos à mesa os interlocutores prediletos do autor, caras do naipe de Hunter Thompson, Antonio Pedro Tota, Jorge Caldeira, Roberto DaMatta, Mario Prata, José Miguel Wisnik e o cineasta Quentin Tarantino – além de Morse, é claro -, somos seduzidos aqui a vivenciar nosso país como ele é em seus melhores momentos, lugares e ângulos. O Brasil de Matthew Shirts é o lugar onde, infelizmente, nem todos estamos o tempo todo. Mas é, com certeza, onde todos merecemos estar, de preferência na companhia deste adorável gringo da pá virada.”

O Rio? Vai muito bem, obrigado

RJ17157

por Carlos Emerson
Correio da Manhã, 1955

O Rio de Janeiro ? Vai bem. Muito obrigado.

O Carioca é que não vai muito bem. Desde que soltaram essa multidão de automóveis nas ruas, o carioca passou a viver uma tragédia. Se Shakespeare fosse de 1953 por certo êle traria os Capuleto e os Montecchio para o asfalto carioca e Romeu e Julieta acabariam abraçados e despedaçados na murada do Flamengo.

Contudo temos que concordar que morre mais gente de automóvel no Rio do que no “Hamlet”, contando-se para isso desde a primeira representação dessa peça de Shakespeare no mundo…

Vive o carioca uma época de medo. Medo medroso do próprio medo. Tem medo de olhar as vitrines. De hora em hora sobem os preços.

Tem medo de andar nas ruas, porque a Prefeitura tem o hábito de deixar buracos por tôda a parte. Tem receios de tomar banho de mar. Por que? Muito simples: pelas praias escorrem coisas estranhas dos canos dos esgotos e dizem que essas coisas fazem mal para a saúde…

O carioca é que não vai muito bem…Vive cercado duma Polícia onde há os mais variados uniformes. Policial de todo jeito. Há ocasiões que parece estarmos vendo um gran-de desfile, tal quantidade variada de militares. Mas quando se precisa de um dêles… não aparecem…. E às vezes, quando aparecem épara complicar mais as coisas, sem contar quando dão de fazer assaltos e ainda tomarem niponicamente as namorados dos civis…

Não há morro que não esteja empetecado de favelas. Casinholas de todo feitio improvisadas com tábuas e zinco vão se estendendo através de Copacabana, Ipanema, Leblon e Av. Niemeyer. Como vive essa gente toda ?

O carioca que leva a vida pacata do chefe de familía não sabe explicar como essa gente vive, mas sabe de uma coisa: é que mais dia menos dias, ele acabará sendo assaltado nas ruas. Eu não sei se esses assaltos tem ligação com a gente das favelas…

O Rio de Janeiro ? Vai bem, muito obrigado. Mas o carioca… É a Cofap para atrapalhar o orçamento e a Light para cortar a luz…E já é uma multidão de gente que começa a pregar papel nas paredes anunciando uma eleição que vai haver e prometendo histórias de mil e uma noites… Sim! Mas, desta vez, o carioca já está tão escovado que vai ter medo… de seus salvadores.

O Rio de Janeiro ? Vai bem, muito obrigado.”

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Crônica escrita por meu pai, Carlos Emerson, jornalista, contador e auditor, publicada no antigo jornal carioca Correio da Manhã, em 28 de junho de 1955. Se você gostou, vale a pena ler Retrato de Copacabana, escrita em 1961, ainda atualíssima!

Foto: Google Imagens

Retrato de Copacabana

Posto 6, Copacabana

por Carlos Emerson
Correio Popular, 1961

Copacabana é um pedaço da Guanabara que não se aperta de jeito nenhum. Talvez devido o fato de sua população viver comprimida numa estreita faixa de terra e entocada em apartamentos, a solução é sempre uma: desapertar.

O carioca de Copacabana tem fama de rico. Entretanto, o grosso de Copacabana é a classe média. Barnabés & Cia. Gente de orçamento limitado que luta para se manter no limite de suas posses.

Mas o habitante de Copacabana, habituado a viver espremido entre o mar e as montanhas sabe resolver os seus problemas sem se incomodar com a opinião dos outros

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Uma das coisas típicas de Copacabana são as festas carnavalescas. São organizadas em determinadas ruas para a criançada se divertir. Algumas dessas festas contam com meia dúzia de músicos barulhentos e outras festas com possantes “Hi-Fi”.

Disso resulta que não há preocupação para os pais que não podem comparecer aos bailes infantis das sociedades. A rua está transformada num clube ao ar livre, muito mais saudável que um recinto fechado. A rua está ornamentada e o local onde as crianças se divertem, dançam, pulam e cantam está isolado por madeiras. Há ordem e disciplina. E os adultos zelam para que os garotos tenham o seu carnaval.

Esse tipo de carnaval de rua para crianças foi iniciado pela “turma” de rapazes da rua Miguel Lemos, a qual era encabeçada pelo saudoso vereador Cristiano Lacorte.

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No interior, as festas juninas tem grande animação dado o fato de todas as casas terem quintal ou jardim onde podem armar fogueiras, queimarem fogos dos mais variados e, para alegria da garotada, fazerem subir os balões.

Mas a turma de Copacabana, nesse ponto, resolve também o seu problema. Na véspera de São João ou na noite de São Pedro, é grande o número de pessoas que vai para a praia carregando caixotes, caixas, sarrafos, madeiras, paus, jornais velhos e enfim tudo de velho e imprestável que tiver em casa e que sirva para fazer fogueira.

Pouco importa ao morador de Copacabana que o vejam carregando tudo isso nos ombros ou na cabeça. Ele vai se divertir com a família. E a criançada entra no regime da algazarra porque sabe que sua fogueira está garantida.

Vê-se então, surgindo ao longo da praia de Copacabana, fogueiras grandes e pequenas, onde são queimados fogos e soltos balões a despeito de toda a proibição policial.

Posso garantir que esses são os dias do ano em que eu e meus filhos mais nos divertimos.

Não resta dúvida que a praia toma mesmo um aspecto pitoresco. Deve, mesmo, apresentar o quadro assustador de uma série de incêndios para os passageiros dos navios que nesse momento venham entrando no Rio de Janeiro.

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Os balões juninos trazem-me a recordação de caso acontecido numa companhia seguradora européia, onde trabalhei durante muito tempo. Havia caído um balão numa fábrica segurada nessa companhia. Houve incêndio e prejuízo grande. No ano seguinte, por excesso de azar cai outro balão com incêndio e prejuízo. Recebemos então uma carta enérgica da Europa, onde perguntava aos funcionários do Brasil o que estavam fazendo que permitiam cair balões incendiários nas firmas seguradas.

Publicado no jornal Correio Popular, Campinas, SP, edição de 15 de agosto de 1961

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Carlos EmersonCarlos Emerson foi meu pai. Começou como ajudante nas redações dos jornais de Campinas e logo estava escrevendo. Gostava de lembrar que como jornalista cobria qualquer área. Trabalhou nos jornais “Diário do Povo”, onde aprendeu tudo o que sabia sobre jornalismo e contabilidade, “Gazeta de Campinas” e “Correio Popular”, todos de Campinas. Foi correspondente dos jornais “O Imparcial” e “O Paiz” e colaborador do “Correio da Manhã”, no Rio de Janeiro. Escreveu para as revista “Palmeiras” e “Mensagem de Campinas”, bem como para o “Jornal de Campinas”. Apesar de ter se afastado da imprensa para atuar na área contábil, continuou escrevendo e publicando suas crônicas até falecer.

Foto: Carlos Emerson Junior