Bom dia

Caiu para o lado, como se tivesse levado um soco muito forte no pescoço. Estava atordoado mas ainda conseguia enxergar. Seus ouvidos zumbiam! Havia alguma coisa quente, viscosa, escorrendo por baixo da cabeça pendida. Tentou se virar para ver o que era mas em vão: seu corpo estava imóvel. Os olhos ainda se mexiam, dava prá ver o painel do carro, o volante, as chaves… Um gosto forte de sangue inundou sua boca.

Lembrou-se do celular no bolso da camisa. Isso, ligaria para o trabalho avisando que não ia chegar. Mas estava tão cansado. Frio. Muito frio. A cabeça vazia, uma sensação de abandono. Não sentia dor ou medo. Apenas uma vontade enorme de ir embora, de fechar os olhos e dormir.

*****

— Porra, cê tá maluco ? Precisava atirar no cara ?
— Ele ia dá um teco na gente.
— Não, seu merda, ele tava soltando o cinto, sujou tudo, vambora, larga isso aí e se manda!
— Mas e o carro do babaca ? Não foi uma encomenda?
— Se manda, mané, corre antes que os homis cheguem aí.

*****

Cinco e trinta da manhã, uma esquina qualquer da cidade do Rio de Janeiro. O dia mal começou…
 

Conto publicado na I Coletânea Scriptus, Balaio de Ideias, 2009

Palavras desconexas (ou não)

A internet caiu. Checou o pequeno ícone da rede, na barra de ferramentas, onde um “x” vermelho confirmava a ausência de sinal. Suspirou profundamente, pegou um cigarro e se levantou para fumar na janela. Nesse momento olhou o monitor do notebook e ficou pasmo ao ver o que estava digitando no editor de textos.

Frases e palavras desconexas, sequências alfanuméricas sem o menor sentido, nenhuma paginação, um caos completo! De novo, ficou chocado. Não se lembrava de ter escrito nada daquilo e pior, sabia muito bem que tinha sentado no computador simplesmente para colocar um mero post no blog, coisa boba mesmo.

Muito estranho. Teria cochilado? Seria aquilo uma mensagem em código, um pedido de socorro em um lapso de insanidade, para ele mesmo? Ainda bem que não acreditava em sobrenatural, senão já ia pensar um monte de bobagens. No entanto, era impossível não notar um grupo de números repetidos em vários pontos daquela algaravia:

01110011 01101111 01101101 01101111 01110011 00100000 01100101 01110011 01100011 01110010 01100001 01110110 01101111 01110011 .

O que seria aquilo? Teria algum significado? E por que havia escrito? Tentou salvar o texto mas percebeu que o notebook havia congelado. Foi até a mesinha da sala, pegou o celular e tirou algumas fotos. Reiniciou o laptop e, como esperava, perdeu o trabalho. Não tinha importância. Abriu novamente o editor de texto e digitou, cuidadosamente, todo o conteúdo que fotografara no celular.

Teclou enter e publicou, não só no blog mas como em todas as redes sociais que participava. Logo, mas logo mesmo, alguém indagou porque usara um código binário para destacar sua mensagem, quando poderia muito bem ter escrito em português: “somos escravos”. Então era isso! Sim, somos escravos, nascemos para isso, estava careca de saber. A questão ainda era, porque fez esse texto?

Ficou ali sentado, olhando a tela, pensando no que viria a seguir.

Nova Friburgo, 2009
Revisto em julho/2017

Ondas

Ondas

I

Uma tarde atípica, sem dúvida. O vento sudoeste, muito frio, espantou turistas, namorados e corredores. O mar batido dava medo e nem o pessoal do surf deu as caras. Sentado em um banco tomado pela areia, virou de costas para o calçadão e limitou-se a esperar o fim do dia. Sem querer lembrou-se dos versos do Manoel Bandeira, aquele que diz “nas ondas da praia, nas ondas do mar, quero ser feliz, quero me afogar”. Sorriu levemente com o canto da boca e chegou a desejar que uma onda bem grande, rápida e sem deixar qualquer vestígio, o levasse embora dali.

II

1963. Uma onda se formou lá pelos lados das Ilhas Cagarras, passou por cima dos canhões do Forte de Copacabana e explodiu com força na Avenida Atlântica, ainda com uma só pista. Pela manhã fui ver o estrago. Tinha areia até na Avenida Copacabana. A Biblioteca Thomas Jefferson, perto do Copacabana Palace agonizava, invadida pelas águas. Foi o mais perto que já vi de um maremoto. Mas, naquela época, não tinha como saber isso.

III

Praia de Copacabana, Posto 5. Uma manhã cinza. Ventava. Passei por baixo da primeira onda, muito grande. Quando emergi para respirar, um outra, maior ainda, desabou na minha cabeça. Fui empurrado até o fundo. A correnteza, que me puxava para o mar, desta vez se inverteu. Subi o mais rápido possível, respirei e deixei o corpo seguir. Ainda levei mais duas caixotadas, mas o mar acabou me jogando na areia. Estava tossindo a água que engolira quando um rapaz veio correndo saber se estava tudo bem. Tirando meu orgulho, estava sim.

IV

O pequeno veleiro cortava a Baia da Guanabara, perto da Praia do Flamengo, quando o instrutor avisou, onda à frente. Virei a proa em sua direção, subimos e descemos, prontos para encarar a próxima. Mas não veio nenhuma outra. O mar voltou a ficar liso e o vento manso. Acho que aquela onda foi só uma brincadeira. Do tipo, acorda aí, marujo!

V

Que pena… Nunca mais velejei.

Foto: Carlos Emerson Jr.

Guarita

Guarita

Olhou para o relógio e impaciente viu que ainda faltavam uns vinte minutos para sair da guarita. A madrugada se arrastava úmida, silenciosa e solitária e a enorme avenida à sua frente compreensivelmente permanecia totalmente deserta.

Sentiu vontade de fumar, mas acender um cigarro não era possível, pelo menos não enquanto estivesse de guarda. Trocou as pernas e encostou o surrado fuzil M1 na parede, com respeito. Aquelas armas remanescentes da Guerra da Coreia tinham o péssimo hábito de disparar apenas com uma leve pancada!

Suspirou, tentando colocar os pensamentos em ordem para não dormir, mas só conseguia visualizar uma cama quentinha. Credo, que sono… Repentinamente despertou!

Um veículo escuro, com todos os faróis apagados, entrou na avenida lentamente pela contramão, exatamente em sua direção. Rapidamente pegou o fuzil, liberou a trava e o apoiou na seteira. O automóvel ainda se aproximava. E agora, acionava logo o alarme geral ou simplesmente esperava? Qual era a do cara?

Lembrou os avisos do comando, cuidado com atentados, afinal, estavam em 1969. Gritou o primeiro alerta e repetiu bem alto! O cabo resmungou alguma coisa de dentro do alojamento, querendo saber o que estava acontecendo. A adrenalina foi lá em cima.

Quando o carro acelerou com força para cima da guarita, nem pensou: mirou no vulto do motorista e apertou o gatilho. Por um instante não viu nada, o barulho e a fumaça da arma encheram o pequeno ambiente. O cheiro da pólvora era quase insuportável.

O veículo bateu nos obstáculos de cimento a poucos metros do muro e nessa hora começou a correria. A guarnição do quartel saiu aos gritos e tomou conta da situação. Os dois ocupantes aparentemente não estavam feridos e a polícia foi chamada. Na verdade, nunca saberia quem eram e o que pretendiam com aquela loucura.

Sentia-se péssimo. Como não podia deixar o posto, avisou ao oficial de dia que tinha disparado e possivelmente acertado o motorista. Só quando examinou a arma é que percebeu que o projétil tinha falhado, derretendo dentro do cano. Nesse momento a tensão despencou. Apesar de ter certeza que não erraria aquele tiro por nada, ficou aliviado, não acertou ninguém.

Pela primeira vez não reclamou do velho fuzil.

Palavração
(Conto publicado na III Coletânea Scriptus – Palavração, Editora Novitas, 2010)

O melhor tinto da casa

Foto: Carlos Emerson Jr.

Chovia torrencialmente. Sentado no antigo restaurante alemão, de frente para a porta, observava a rua sendo lenta e consistentemente tomada pela água que descia do morro próximo. Agora nenhum pedestre se atrevia sequer a caminhar embaixo da marquise. Os automóveis começavam a rarear. Aquela tempestade prometia.

Reparou, desolado, que a garrafa do vinho tinto estava quase vazia. Virou para trás procurando o pessoal da casa e notou que estava só. Como sempre, nem sequer notara que as horas passaram e o domingo terminava. Daqui a pouco o alemão traria a conta, eles fechariam as portas do estabelecimento e iriam embora.

Uma sequência de trovões interrompeu seu pensamento e levou a luz de todo o quarteirão. O proprietário veio espiar e os dois ficaram olhando a chuva cair e os brilhos dos relâmpagos iluminarem o interior do restaurante, provocando um efeito estranho de alguma coisa muito antiga.

Considerou que pedir a conta, no escuro, seria uma asneira. Sair para caminhar até sua casa, outra maior ainda. Lembrou da grande chuva de 2011 e da enxurrada que levou ruas, casas, carros, pessoas e animais, destruindo quase toda a cidade. Não morrera simplesmente porque não era sua hora.

Suspirou profundamente, chamou o alemão e pediu para trocar as taças, de preferência as de cristal da Riedel, abrir o melhor tinto da casa e vir lhe fazer companhia. Ainda tinham algum tempo antes da chegada do fim do mundo.

Três contos curtos

Três contos curtos

Dia de eleição

Saiu para votar desanimado, só por obrigação. Na esquina da zona eleitoral viu um botequim aberto, servindo cerveja. Lembrou da Lei Seca, que proibia a venda de bebidas alcoólicas durante a votação. Uma bobagem, claro, políticos sempre fizeram muito pior e todos os dias. Parou na porta do estabelecimento, examinou o lugar, entrou, foi até o balcão e pediu uma long neck e um pastel. De queijo.

Pagou, tirou a tampinha da garrafa e foi votar. Com a mão esquerda segurava a bebida e com a direita comia o salgado. Na porta da seção eleitoral, bem ao lado, um polícia o olhou com a cara feia e sentenciou: termina de comer aí fora e depois entra. Ia discutir, criar um caso, chamar o juiz, o padre, o papa e o presidente, não necessariamente nessa ordem mas, pensou bem, deu um até logo para a autoridade e tomou o rumo de casa. Depois justificava a ausência.

A rosa do Rio

Parou no sinal para atravessar a avenida e, sem mais nem menos, veio à sua cabeça o verso “pensem nas crianças mudas telepáticas”, do Vinícius de Moraes. Ficou cismado e puxou o seguinte: “pensem nas meninas cegas inexatas”. Nossa, aí veio o resto com música e tudo, “pensem nas mulheres rotas alteradas, pensem nas feridas como rosas cálidas”.

Caramba, o povo já estava do outro lado da rua e ele parado debaixo do sol, suando como um estivador, com a “Rosa de Hiroshima” na cabeça. Aí se tocou que era isso, o sol, o calor, a luz quase branca que tomava conta do centro da cidade. Dava até para imaginar, que mané imaginar nada, sentir mesmo, como os japoneses receberam os no corpo os primeiros efeitos da bomba atômica.

Pois é, um exagero, claro, mas se servia de consolo, a Rosa do Rio era apenas isso, calor tropical. Não matava ninguém, pelo menos não na hora. Olhou o relógio, percebeu que estava atrasadíssimo para a audiência e atravessou a Rio Branco no meio de carros, motos e ônibus. Isso sim, um perigo!

Voo noturno

“É claro que posso contar o que aconteceu ontem à noite, senhor. Saímos da empresa para o Santos Dumont por volta das oito da noite. Eu, o motorista Joel e, é claro, o Dr. Alfonso e a secretária, Dona Morena. O chefe ia para uma reunião em São Paulo e, curiosamente, resolveu viajar pela ponte aérea. Sim? Não, ele sempre vai de jatinho mas ontem, sei lá, disse que estava com vontade de ver gente e dispensou a aeronave e o piloto. Comprei sua passagem no balcão da empresa aérea para o voo das nove da noite. Enquanto isso o Dr. Alfonso e D. Morena tomavam um café. Juntei-me a eles e avisei o pessoal para aguardá-lo em Congonhas. Por volta das oito e trinta o chefe foi para o embarque, esperamos o avião decolar e voltamos para o escritório. D. Morena foi para casa e eu fiquei por lá mesmo, aguardando notícias. Eram umas dez e meia quando o Rubão me ligou, nervoso, querendo saber porque o Dr. Alfonso não tinha viajado. Como assim, bebeu, Rubão? Imediatamente liguei para o celular do chefe mas nada, ligação fora do alcance. O restante o senhor já sabe, policial: o avião pousou normalmente e todos os passageiros saíram, menos o Dr. Alfonso. A polícia paulista revirou a aeronave, interrogou a tripulação, checou as câmeras do aeroporto e nada, o homem sumiu. Aqui, no Rio, também nada anormal foi encontrado e as câmeras do Santos Dumont mostram que ele embarcou naquele voo. Embarcaram 90 pessoas e exatas 90 pessoas desembarcaram, menos o Dr. Alfonso. Até hoje, dois dias depois, nenhum sinal, pedido de resgate, nada. Vimos os vídeos do desembarque diversas vezes, de várias formas e em nenhum deles não havia uma pessoa sequer parecida com o chefe. O que mais intriga é que ele não tinha inimigos, sequer seu cargo era considerado vital na empresa. Não passava de uma pessoa comum, de meia idade, cara de avô, discretíssimo e de pouquíssimas palavras. Fico lembrando que ele chegava a passar desapercebido no local de trabalho. Sei não, policial, de repente, para uma pessoa assim, deve ser fácil desaparecer, não é mesmo? Caramba, nem consigo imaginar como sua família está sofrendo.”

oOo

Saiu da delegacia exausto e arrasado, mas ainda tinha esperanças. Até então, jamais passaria por sua cabeça que aquela noite no Santos Dumont foi a última vez que viu o Dr. Alfonso.

Imagem: Nishant Choksi

 

Um lindo dia

Um lindo dia

Caminhava tranquilamente pelo badalado Boulevard Olímpico, no centro do Rio. Absolutamente nada para fazer, nada para se preocupar e, até mesmo, nada a temer. O dia lindo, explodindo de azul, até permitia que ele contemplasse, admirado, os armazéns, sobrados e igrejas que a antiga Perimetral escondera durante tantos anos. Mas o melhor de tudo era a sensação de liberdade, poder circular pra cá e pra lá como uma pessoa qualquer.

Os últimos três anos, trancado no presídio, foram a gota d’água. Sabia que não teria outra oportunidade de mudar de vida, de cidade ou até mesmo de país. Além do mais estava ficando velho e muito manjado. O importante agora era ficar longe das confusões, dos cambalachos. Como sobreviveria depois de tanto tempo aprontando era uma incógnita mas, enfim, a gente acaba dando um jeito.

Perto do Armazém da Utopia foi abordado por uma patrulha da polícia: – olha só quem está aqui, o famoso Zé das Couves. Cidadão, parado, abra as pernas e levante os braços, vamos revistar. Não acreditou no que estava acontecendo, só podia ser um pesadelo. Caramba, tinha acabado de receber a condicional e saído da prisão não tinha nem um dia, tentou explicar, mas foi abruptamente cortado:

– Cidadão, entender eu entendo, mas não importa. Assaltaram um grupo de turistas aqui na região, o prefeito ligou furioso, a imprensa está caindo em cima e o delegado mandou pegar os suspeitos de sempre. Resumindo, você perdeu. Entra na viatura e não enche o saco!

O dia bonito, de repente, acabou.