Náufrago

Foto: Carlos Emerson Junior

“Quando perguntam de onde tenho ressurgido
respondo:
– Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios.”
(Mario Quintana)

Apesar de tudo, nunca perdeu a esperança de escapar da tempestade. O bote, muito avariado, lutava para vencer as ondas e correntes. A noite tenebrosa, tomada pela chuva e vento, tornava a navegação quase impossível. Sabia muito bem que o naufrágio era inevitável: o mar revolto e um buraco no casco permitiam a entrada cada vez maior de água a bordo. A qualquer momento ia afundar.

Em completo desespero, desistiu dos remos e agarrou o comando do leme com força. Tinha certeza que o litoral devia estar por perto, sua única chance era tentar chegar em terra. Enxugou o rosto com uma toalha, virou a proa para bombordo e se deixou levar, na direção das ondas. Estava absolutamente sozinho.

O mar, furioso com a sua audácia, envolveu a pequena embarcação. As ondas arrebentaram de todos os lados. De repente todo o movimento cessou e, com um estrondo, ele foi arremessado para fora do bote. Bateu com o rosto no chão e se assustou quando percebeu que estava com a cara enfiada na areia. Não, não era um sonho, fora jogado em uma praia. Imediatamente pensou: se não estou morto, certamente acabei de renascer.

Foto: Cejunior

Onça-parda

“Acordou inquieto,
no meio da noite.
Seria sede
ou um maldito inseto?”

Por algum motivo não conseguia dormir direito. Inquieto, virava de um lado para o outro da cama e o sono ia e vinha intermitente, como se alguma coisa angustiante estivesse acontecendo. Sentou-se, olhou com inveja a mulher roncando suavemente e resolveu ir ao quintal beber um pouco de água. Abriu a porta de casa e foi até a torneira da fonte. Estava escuro mas o brilho das estrelas indicava o caminho. Privilégio de quem mora na roça, pensou. O ar gelado, típico da serra, incomodamente o abraçou.

Encheu a caneca e, quando ia beber, notou o vulto escuro sentado junto à cerca. Primeiro pensou que fosse o maldito sono voltando mas, o tal vulto virou a cabeça e o olhou com dois olhos brilhantes, hipnóticos. Jesus Cristo, aquilo era uma… uma onça-parda! E das grandes! E estava vindo! Tentou gritar, mas a voz não saiu. O felino já estava tão perto que podia sentir o bafo da respiração. Em pé estava, em pé continuou. Parado. Estático, aterrorizado e segurando uma caneca com a água da fonte.

O animal se aproximou, rodeou seu corpo, cheirou suas pernas, deitou-se bem na sua frente, abaixou a cabeça e cerrou os olhos. Sem pensar, abaixou-se devagar e pousou a caneca no chão. A onça levantou a cabeça e, para sua surpresa, bebeu toda a água. Caramba! Lentamente esticou o braço e abriu a torneira da fonte. A água pura e gelada jorrou no chão. A onça foi até a bica e bebeu como se não tivesse amanhã. Satisfeita, deu a volta e foi andando na direção da cerca. Lá, pulou com agilidade e desapareceu no meio da noite.

Incrédulo, voltou atarantado para dentro da casa e foi para o quarto. Ia acordar a mulher mas estava com tanto sono que só teve tempo de pensar que talvez fosse melhor deixar essa história para o dia seguinte. Encostou a cabeça no travesseiro e dormiu. Se sonhou com onças ou com as estrelas, nunca saberemos, mas seu rosto era pura felicidade. Coisa de sonhadores, sabe?

oOo

Foto automática de trilha feita em Cordeiro, RJ, na Mata da Pena, por uma câmera da UPAm (Unidade de Policiamento Ambiental) do Parque Estadual do Desengano, na madrugada do dia 12 de agosto de 2017. (Juliana Scarini, G1)

No topo do mundo

Mal acreditava, mas chegou. Suado, exausto, com dores nas pernas e nos pés, os joelhos pedindo socorro e o ar rarefeito fugindo dos pulmões. Sentia-se quebrado, cansado mas inteiro e vitorioso, afinal, pela primeira vez na sua vida, conseguira chegar no alto de uma das maiores montanhas do Brasil! Não pensou duas vezes, virou a cabeça para cima e berrou todos os palavrões que conhecia.

A adrenalina começou a diminuir e só nessa hora percebeu que as nuvens, muito baixas e espessas, começavam a cobrir a cidade abaixo sob um manto branco, deixando aparecer apenas os picos das montanhas bem à frente. Uma visão mágica, sem dúvida. Olhou para o outro lado e a paisagem era quase a mesma, mas bem longe conseguiu divisar o oceano, de onde sopravam os ventos gelados que o acolhiam lá em cima.

Enquanto tirava algumas fotos, a cabeça funcionava. O que estava assistindo ali era melhor do que a vista de uma janela de avião, uma escotilha de uma estação orbital ou até mesmo de um vale lunar, caso o nosso satélite fosse habitado. Sentiu-se no topo do mundo. Agora entendia porque os deuses gregos moravam no Monte Olimpo, inacessível a nós, reles humanos.

Pois é, os deuses. Se fosse um, ou se recebesse agora o poder de um deles, o que faria? Acabaria com o câncer, com certeza. Melhor ainda, erradicaria todas as doenças. Não existiria mais morte. Não, isso não daria certo. Então, decretaria a paz mundial. Ou o fim da pobreza e da fome. Eliminaria todos os corruptos? Ou voltaria no tempo e desta vez ficaria para sempre com a Maria do Carmo? Ah, Carminha, como doem as burradas que a gente faz na vida…

Caiu em si quando reparou que o Sol, bem à frente, começava a baixar no horizonte. Que pena, era hora de voltar e encarar o longo caminho ao lar, a cidade e a realidade. Para baixo, todo o santo ajuda, não é mesmo? Sabia que o corpo ia cobrar um preço enorme pela aventura e ainda por cima, não teve nenhuma epifania, nenhuminha sequer. Que se dane! Afinal, durante algumas horas, foi apenas feliz.

Meu pai

“O cérebro é mais vasto do que o céu,
pois se os pomos lado a lado,
aquele o outro contém
fácil – e a você também.”
(Emily Dickinson)

Sai do bazar e “atropelei” um senhor que vinha cabisbaixo pela calçada, rente às lojas. Ninguém caiu, ninguém se machucou. Perguntei se estava tudo bem, se precisava de alguma ajuda. Ele se recompôs, pediu desculpas pela distração, me olhou profundamente nos olhos, deu um até logo e seguiu seu caminho. Não consegui sair dali, completamente chocado: por algum motivo fiquei com a sensação de que quase tinha derrubado no chão o meu falecido pai.

Olhei para o lado esquerdo da rua e lá longe ia ele, devagar, com as mãos no bolso e um cigarro no canto da boca. Meu Deus, um cigarro na boca? Quem ainda fazia isso? Não era possível, Papai faleceu há cinquenta e três anos e hoje ele teria mais de cem anos de idade. E como assim, ele não me reconheceu? Se bem que não tem como, afinal, eu tinha apenas 13 anos. O que ele viu, a pessoa que trombou com ele, foi um senhor meio calvo, com os cabelos e barba brancos, óculos com lentes grossas, rosto cansado, com quase 70 anos. Ele viu um velho.

Velho ou não, eu ainda corria diariamente. Disparei pelo meio da rua atrás dele, desviando de carros e pedestres que me olhavam como se fosse um maluco. Minha cabeça não parava de pensar. Se ele morreu, não envelheceu, é óbvio. Bobagem, isso só pode ser um tipo de alucinação. Projetar em alguém a última imagem que minha memória tem do meu pai. Mas por quê agora, tanto tempo depois?

Cruzei a última rua, parei para retomar o fôlego e baixar um pouco os batimentos cardíacos e lentamente me aproximei dele, por trás. Cuidadosamente, para não assustar e mantendo uma distância segura – coisa de carioca nestes tempos violentos – dei um bom dia e balbuciei alguma coisa sobre ter achado que ele era uma pessoa que eu não via há muito tempo. Ele parou, virou, me olhou e respondeu que estava tudo bem mas infelizmente, nunca tinha me visto na vida.

Eu sei, a memória prega peças, ainda mais quando envelhecemos. Olhando com calma, notei claramente que sim, era muito parecido, mas talvez não fosse meu pai. Seus olhos eram verdes ou azuis? Ele parecia mais alto. Mais magro, com certeza e estava absurdamente vivo. A razão tomou de volta o seu lugar. Nos despedimos e cada um foi para seu lado. Não tive coragem de perguntar sequer o seu nome.

Quando cheguei em casa, desabei: abracei minha mulher e chorei em seu colo como se o mundo fosse acabar amanhã. Como um menino de treze anos de idade que perdeu o seu pai.

Arame farpado

– Muito bem, turma, pergunta! Arame farpado lembra?

– …

– Vamos lá gente, todo mundo aqui sabe o que um arame farpado. Ou não?

– Trincheira da Primeira Guerra Mundial!

Espanto total.

– Caramba, a Primeira Guerra terminou em 1918, há exatos 99 anos e possivelmente ninguém mais sabe o que é uma trincheira. Mas o exemplo é bom, os rolos de arame farpado ficavam entre os buracos que abrigavam os soldados, dificultando o avanço dos inimigos. Outro!

– Campo de prisioneiros. Vi naquele filme do Spielberg, “A Lista de Schindler”.

– Perfeito, continuem.

– É um tipo de ferro usado para cercar pastos de vacas.

– Muito bem, quem mais?

– Música do Barão Vermelho. Sei que fala algo como beijos de sabor enferrujado machucam a boca feito arame farpado.

– … Ô menina, vou ter que acreditar em você, nunca ouvi isso.

– Existe sim, quer que eu cante?

– Não, deixa prá lá. Alguém mais?

– Arame farpado, difícil de ser comido e fácil de cercar gado.

– Gracinha, né?

– Não, senhor, tá no Google!

– Tá bom! O arame farpado foi inventado em 1873, nos Estados Unidos, para cercar e proteger o gado, impedindo sua fuga e dificultando o roubo. Foi utilizado militarmente pela primeira vez em 1888, pelo exército britânico, para proteger as tropas que ficavam nas trincheiras dos ataques dos soldados inimigos. Hoje em dia pode ser encontrado em presídios, prédios, fábricas, áreas de segurança, campos de refugiados, depósitos, armazéns, fronteiras e por aí vai. Aqui na cidade do Rio de Janeiro é muito comum ao redor de casas, edifícios e condomínios. Hoje, eu acordei e vi meu prédio todo cercado com arame farpado. Senti-me o próprio gado…

– Amém.

Bom dia

Caiu para o lado, como se tivesse levado um soco muito forte no pescoço. Estava atordoado mas ainda conseguia enxergar. Seus ouvidos zumbiam! Havia alguma coisa quente, viscosa, escorrendo por baixo da cabeça pendida. Tentou se virar para ver o que era mas em vão: seu corpo estava imóvel. Os olhos ainda se mexiam, dava prá ver o painel do carro, o volante, as chaves… Um gosto forte de sangue inundou sua boca.

Lembrou-se do celular no bolso da camisa. Isso, ligaria para o trabalho avisando que não ia chegar. Mas estava tão cansado. Frio. Muito frio. A cabeça vazia, uma sensação de abandono. Não sentia dor ou medo. Apenas uma vontade enorme de ir embora, de fechar os olhos e dormir.

*****

— Porra, cê tá maluco ? Precisava atirar no cara ?
— Ele ia dá um teco na gente.
— Não, seu merda, ele tava soltando o cinto, sujou tudo, vambora, larga isso aí e se manda!
— Mas e o carro do babaca ? Não foi uma encomenda?
— Se manda, mané, corre antes que os homis cheguem aí.

*****

Cinco e trinta da manhã, uma esquina qualquer da cidade do Rio de Janeiro. O dia mal começou…

Conto publicado na I Coletânea Scriptus, Balaio de Ideias, 2009

Palavras desconexas (ou não)

A internet caiu. Checou o pequeno ícone da rede, na barra de ferramentas, onde um “x” vermelho confirmava a ausência de sinal. Suspirou profundamente, pegou um cigarro e se levantou para fumar na janela. Nesse momento olhou o monitor do notebook e ficou pasmo ao ver o que estava digitando no editor de textos.

Frases e palavras desconexas, sequências alfanuméricas sem o menor sentido, nenhuma paginação, um caos completo! De novo, ficou chocado. Não se lembrava de ter escrito nada daquilo e pior, sabia muito bem que tinha sentado no computador simplesmente para colocar um mero post no blog, coisa boba mesmo.

Muito estranho. Teria cochilado? Seria aquilo uma mensagem em código, um pedido de socorro em um lapso de insanidade, para ele mesmo? Ainda bem que não acreditava em sobrenatural, senão já ia pensar um monte de bobagens. No entanto, era impossível não notar um grupo de números repetidos em vários pontos daquela algaravia:

01110011 01101111 01101101 01101111 01110011 00100000 01100101 01110011 01100011 01110010 01100001 01110110 01101111 01110011 .

O que seria aquilo? Teria algum significado? E por que havia escrito? Tentou salvar o texto mas percebeu que o notebook havia congelado. Foi até a mesinha da sala, pegou o celular e tirou algumas fotos. Reiniciou o laptop e, como esperava, perdeu o trabalho. Não tinha importância. Abriu novamente o editor de texto e digitou, cuidadosamente, todo o conteúdo que fotografara no celular.

Teclou enter e publicou, não só no blog mas como em todas as redes sociais que participava. Logo, mas logo mesmo, alguém indagou porque usara um código binário para destacar sua mensagem, quando poderia muito bem ter escrito em português: “somos escravos”. Então era isso! Sim, somos escravos, nascemos para isso, estava careca de saber. A questão ainda era, porque fez esse texto?

Ficou ali sentado, olhando a tela, pensando no que viria a seguir.

Nova Friburgo, 2009
Revisto em julho/2017

Figueiredo com Copacabana

Atravessou a Avenida Copacabana apesar do sinal fechado, fora da faixa de pedestres, desviando de carros, ônibus e caminhões a medida que avançavam. Chegou, sabe-se lá como, do outro lado, subiu na calçada, parou, respirou fundo e foi atropelado sem dó por uma bicicleta de entregas, caindo junto com o ciclista pesadamente no chão. Pensa que o entregador ajudou? Que nada, xingou o coitado de tudo o que é nome, arrumou a magrela e seguiu em frente. Os pedestres, nem um pouco solidários, olhavam de lado, certamente considerando um absurdo um sujeito cruzar a avenida daquela forma e não prestar a atenção em uma reles bicicleta.

Revoltado, dolorido e humilhado, lembrou que tinha horário na clínica e estava atrasado. Levantou e foi correndo até a esquina da Figueiredo de Magalhães. Já tinha colocado o pé no asfalto para repetir a façanha de minutos atrás, mas o juízo falou mais alto e resolveu esperar o sinal verde. Ficou ali, quieto, olhando para os carros que não paravam de passar. De repente, o sinal abriu. Checou a ciclovia e, pela faixa de pedestres, disparou para o outro lado da rua. Nem chegou na metade. Foi atingido em cheio por uma viatura de uma repartição do governo do estado que, achando-se uma autoridade, resolveu passar no sinal fechado. Deu sorte! Logo atrás vinha uma ambulância dos bombeiros que parou para prestar os primeiros socorros. Tirando a perna quebrada e a consulta perdida, até que ficou barato. Decididamente não era seu dia.

Fazer o quê, não é mesmo?

Ondas

I

Uma tarde atípica, sem dúvida. O vento sudoeste, muito frio, espantou turistas, namorados e corredores. O mar batido dava medo e nem o pessoal do surf deu as caras. Sentado em um banco tomado pela areia, virou de costas para o calçadão e limitou-se a esperar o fim do dia. Sem querer lembrou-se dos versos do Manoel Bandeira, aquele que diz “nas ondas da praia, nas ondas do mar, quero ser feliz, quero me afogar”. Sorriu levemente com o canto da boca e chegou a desejar que uma onda bem grande, rápida e sem deixar qualquer vestígio, o levasse embora dali.

II

1963. Uma onda se formou lá pelos lados das Ilhas Cagarras, passou por cima dos canhões do Forte de Copacabana e explodiu com força na Avenida Atlântica, ainda com uma só pista. Pela manhã fui ver o estrago. Tinha areia até na Avenida Copacabana. A Biblioteca Thomas Jefferson, perto do Copacabana Palace agonizava, invadida pelas águas. Foi o mais perto que já vi de um maremoto. Mas, naquela época, não tinha como saber isso.

III

Praia de Copacabana, Posto 5. Uma manhã cinza. Ventava. Passei por baixo da primeira onda, muito grande. Quando emergi para respirar, um outra, maior ainda, desabou na minha cabeça. Fui empurrado até o fundo. A correnteza, que me puxava para o mar, desta vez se inverteu. Subi o mais rápido possível, respirei e deixei o corpo seguir. Ainda levei mais duas caixotadas, mas o mar acabou me jogando na areia. Estava tossindo a água que engolira quando um rapaz veio correndo saber se estava tudo bem. Tirando meu orgulho, estava sim.

IV

O pequeno veleiro cortava a Baia da Guanabara, perto da Praia do Flamengo, quando o instrutor avisou, onda à frente. Virei a proa em sua direção, subimos e descemos, prontos para encarar a próxima. Mas não veio nenhuma outra. O mar voltou a ficar liso e o vento manso. Acho que aquela onda foi só uma brincadeira. Do tipo, acorda aí, marujo!

V

Que pena… Nunca mais velejei.

Foto: Cejunior

Guarita

Olhou para o relógio e impaciente viu que ainda faltavam uns vinte minutos para sair da guarita. A madrugada se arrastava úmida, silenciosa e solitária e a enorme avenida à sua frente compreensivelmente permanecia totalmente deserta.

Sentiu vontade de fumar, mas acender um cigarro não era possível, pelo menos não enquanto estivesse de guarda. Trocou as pernas e encostou o surrado fuzil M1 na parede, com respeito. Aquelas armas remanescentes da Guerra da Coreia tinham o péssimo hábito de disparar apenas com uma leve pancada!

Suspirou, tentando colocar os pensamentos em ordem para não dormir, mas só conseguia visualizar uma cama quentinha. Credo, que sono… Repentinamente despertou!

Um veículo escuro, com todos os faróis apagados, entrou na avenida lentamente pela contramão, exatamente em sua direção. Rapidamente pegou o fuzil, liberou a trava e o apoiou na seteira. O automóvel ainda se aproximava. E agora, acionava logo o alarme geral ou simplesmente esperava? Qual era a do cara?

Lembrou os avisos do comando, cuidado com atentados, afinal, estavam em 1969. Gritou o primeiro alerta e repetiu bem alto! O cabo resmungou alguma coisa de dentro do alojamento, querendo saber o que estava acontecendo. A adrenalina foi lá em cima.

Quando o carro acelerou com força para cima da guarita, nem pensou: mirou no vulto do motorista e apertou o gatilho. Por um instante não viu nada, o barulho e a fumaça da arma encheram o pequeno ambiente. O cheiro da pólvora era quase insuportável.

O veículo bateu nos obstáculos de cimento a poucos metros do muro e nessa hora começou a correria. A guarnição do quartel saiu aos gritos e tomou conta da situação. Os dois ocupantes aparentemente não estavam feridos e a polícia foi chamada. Na verdade, nunca saberia quem eram e o que pretendiam com aquela loucura.

Sentia-se péssimo. Como não podia deixar o posto, avisou ao oficial de dia que tinha disparado e possivelmente acertado o motorista. Só quando examinou a arma é que percebeu que o projétil tinha falhado, derretendo dentro do cano. Nesse momento a tensão despencou. Apesar de ter certeza que não erraria aquele tiro por nada, ficou aliviado, não acertou ninguém.

Pela primeira vez não reclamou do velho fuzil.

Palavração

Publicado na III Coletânea Scriptus, Editora Novitas, 2010