A glória é efêmera

Quando um general da Roma Antiga retornava vitorioso, era homenageado publicamente desfilando com suas legiões pelas ruas da cidade. Nesse dia, ele usava uma coroa de louro e vestia-se com uma toga bordada de roxo e ouro. Em uma quadriga, carruagem com quatro cavalos, desarmado, vinha a frente dos soldados, prisioneiros e despojos de suas batalhas. Entretanto, durante toda a cerimônia, na mesma carruagem e bem atrás do general, um escravo sussurrava em seus ouvidos o tempo todo: “olhe para trás. Lembre-se de que és um homem e toda a glória é efêmera”.

Pois é! A historinha é de Roma mas reparem, serve muito bem para o Brasil.

Voos do Rio

Foto: Varig

Li por acaso um “tuite” do escritor Aguinaldo Silva, reclamando que a partir de primeiro de abril,os vôos diretos do Rio para Nova York não existirão mais. Pior, a opção com escalas (o famoso e famigerado parador) começa com pulo até Brasília, quase que no caminho para trás! Aliás, uma rápida “googlada” mostrou uma matéria da Latam informando que suas rotas Rio – Miami e Rio – Orlando também serão encerradas a partir da mesma data. Seria uma brincadeira do “Dia da Mentira”?

Infelizmente, não. Segundo a American Airlines, o cancelamento da tradicional rota até Nova York (que teve origem em 1920, com hidroaviões da Pan Am, que pousavam na Baía da Guanabara), foi a queda da demanda, reflexo da crise financeira agravada pelos desmandos e roubalheiras dos dois últimos governadores do nosso combalido Estado do Rio, os notórios Sérgio Cabral e Pezão. Como a recuperação será lenta (os rombos continuam aparecendo), nosso futuro ainda é incerto.

Que pena. Uma cidade que já recebeu voos desde o dirigível alemão Hindenburg até o supersônico Concorde, não merecia mais essa perda. Para mim, fica a saudade dos vôos da Varig, pontuais, seguros e confortáveis, lembrança de uma época que o Rio ainda era a Cidade Maravilhosa.

Alegoria

Foto: Carlos Emerson Jr.

Quando alguém conta uma história, é bom ter em mente que, além da que você ouviu, existe uma versão diferente do outro lado do caso. Saber qual das duas é a verdade é o objetivo, isso se você não descobrir um terceiro lado, oculto, sombrio, esquecido, que pode provocar uma reviravolta em toda a conversa. Em tempos de redes sociais e mídias raivosas e partidárias, todo o cuidado é pouco. A palavra de ordem é desinformação, ou pior, a meia verdade, onde a brasa da sardinha é sempre puxada para um só lado (o certo, por óbvio, julgam eles).

Muita gente conhecida, querida até, está nessa aí. É pena. Talento jogado no lixo. Como uma alegoria usada no Carnaval.

Solidários, sempre.

Falam mal dos brasileiros. Que somos preguiçosos, ignorantes, violentos, desonestos, sem caráter, uns canibais mesmo. Pois é, dizem tudo isso por aí… No entanto, hoje, vendo o sofrimento do maquinista do trem, preso nas ferragens por mais de sete horas, assistindo o esforço quase sobre humano do pessoal do Corpo de Bombeiros, lutando contra o aço que insistia em manter o seu refém e a população angustiada diante de mais uma tragédia desse sombrio ano de 2019, agarrei-me ao sentimento que, apesar de nossos defeitos, somos solidários, sempre! Seja uma criança perdida em um shopping center, um idoso indeciso para atravessar uma rua, um tentativa de estupro em um bar (aconteceu ontem, no Leblon), até o colapso de uma represa em cima de cidades inteiras, se você precisar de ajuda, qualquer uma, logo aparece um de nós para socorrer, consolar, amparar, muitas vezes se expondo ao perigo e arriscando a própria vida.

Fiquei triste com a morte do maquinista do trem. Meus sentimentos para a família, os colegas e amigos. Sofremos juntos de vocês todos.. Mas tenho que deixar registrado o meu orgulho pela solidariedade, dedicação e persistência dos nossos Bombeiros, mais uma vez, os verdadeiros Heróis do Brasil. Temos que bater no peito e nos orgulhar, somos solidários!

Dias de calor

Foto: Carlos Emerson Jr.

Você mora na serra fluminense. Sua cidade é considerada a mais fria do estado. No inverno as temperaturas chegam ao zero absoluto e geadas são comuns na zona rural. Reza a lenda que até já nevou. Seu bairro fica em cima de um morro, bem na frente da montanha que separa sua cidade da baixada. Mais arejado e ventilado, impossível. No entanto, o verão veio forte e lá na sua cozinha, ao lado da janela, o velho termômetro avisa que a temperatura chegou a inacreditáveis 30º à sombra, ou melhor, dentro de sua casa.

É o fim do mundo, diriam os ambientalistas, aplaudidos de pé por cariocas calorentos, como este que vos fala. Como assim, 30º? Cadê a chuva? O frio? A geada? Foi com o maior prazer que dei adeus para o Rio e me mandei atrás de paz, segurança, sossego e um pouco de frio, não necessariamente nessa ordem, é claro. Com que direito uma onda de calor – que veio pelo mar – invade minhas montanhas, minha cidade, minha casa, meu bem-estar?

Pois é, fica registrado o meu protesto indignado contra esses dias de calor que estão assolando nossa querida Nova Friburgo. Tem quem goste, é claro. A turma que ama descer a serra para as praias fluminenses está fazendo a maior festa. Deixa estar. Qualquer hora dessas Friburgo volta a ser Friburgo e uma frente fria, daquelas que chegam aos 12, 13º estaciona por aqui durante, digamos, uma semana e tudo volta a ser como era.

Um baita frio!

A tragédia do Brasil

Foto: Andre Penner/AP Photos

Os números falam por si: 121 mortos, 205 desaparecidos, um rio morto, plantações, casas, vidas destruídas, centenas ou talvez milhares de animais de todos os tipos perdidos para sempre e um enorme desalento e desesperança com mais uma tragédia anunciada que sacudiu o nosso país em Brumadinho, Minas Gerais.

É inconcebível que o mesmo tipo de desastre tenha se repetido com a mesma empresa, no mesmo estado, quatro anos depois. O que nos leva a outra reflexão, a impunidade, a morosidade da justiça, o desinteresse das autoridades responsáveis, a certeza de que o assunto será esquecido dentro de mais uns dez dias, como bem disse o colunista Ricardo Boechat em seu editorial de hoje, na Band News.

Pois é… Torço para que desta vez estejamos todos errados e a justiça será feita, doa a quem doer, sem ver cara, cor, títulos e poder. Em algum momento, o Brasil vai ter qie dar um basta nessa postura imperial, onde uns são melhores e mais imprescindíveis do que os outros. Que esse basta seja agora!

O som do sino

Foto: Carlos Emerson Junior

Todos dos dias passava diante daquela casa com o sino na porta. Estava encantado. Ficava imaginado como seria o seu som, quem atenderia, o que diria. E seguia seu caminho. Um tarde nublada, voltando do trabalho, não resistiu: foi até o sino, puxou a corrente e… Ficou surpreso quando, ao invés da tradicional badalada, ouviu um toque eletrônico dentro da casa. Caramba, o sino então era só um enfeite? Decepcionado, saiu correndo pela rua vazia antes que alguém viesse atendê-lo. Ia falar o quê? Já fora de vista, ofegante, pensou que até mesmo os sinos agora eram feitos na China. Que coisa!

Curiosidade

Foto: Nasa

Enquanto o robô Curiosity trabalha intensamente a mais de seis anos na superfície marciana, coletando dados sobre o planeta, fazendo descobertas sensacionais, como as moléculas orgânicas em rochas com três bilhões de anos, analisando o clima, fotografando e até mesmo fazendo selfies, aqui no Brasil, bem, aqui no Brasil… Ah, deixa prá lá. Afinal, o grande Millor Fernandes já dizia que “com muita sabedoria, estudando muito, pensando muito, procurando compreender tudo e todos, um homem consegue, depois de mais ou menos quarenta anos de vida, aprender a ficar calado.” Como eu já estou indo para os setenta…

A propósito, a curiosa selfie do Curiosity é uma colagem de várias fotos tiradas pelo robozinho (uma gentileza, afinal ele tem o tamanho de um automóvel) para esconder seu braço mecânico-eletrônico-cibernético-nuclear (não é mentira, o bicho é movido por um reator atômico!) da foto. Trabalho da NASA.

Falando de flores

Foto: Carlos Emerson Junior

Sou um completo analfabeto quando o assunto são flores mas sei muito bem que, como “modelos” para fotos, são imbatíveis! Flores são tão bonitas que nem precisam fazer pose. Nunca reclamam da nossa demora para “acertar” a câmera, não se mexem e algumas até nos presenteiam com um perfume gostoso e elegante. Decididamente, fotografar flores é Zen e se for em Nova Friburgo é o próprio Nirvana!

Foto: Carlos Emerson Junior

Prelúdio de Chopin

Um dos maiores arrependimentos que até hoje carrego no coração foi não ter estudado piano, como minha irmã muito acertadamente fez. E nem tenho como justificar que não fui estimulado, já que ela mesma muitas vezes me ensinava alguns acordes e até mesmo a entender algumas partituras.

Lembro que às vezes ficava quieto, acompanhando seus estudos no teclado. Logo depois, assumia o piano e tentava, de maneira tosca, é claro, repetir o que ouvia. O pior é que de vez em quando acertava e, feliz da vida, me via literalmente “assassinando” uma obra de arte de Beethoven ou Rachmaninoff. Isso sim, era um baita desrespeito.

Felizmente para a música, desisti de ser um pianista autodidata (eufemismo para “tocar de ouvido”) mas aprendi que Música Clássica era um assunto muito sério, além de profundamente belo. Ouvir Tchaikovsky, Bach, Brahms, Schubert, Wagner, Liszt, Debussy, Mahler e Mozart era como descobrir um mundo inteiramente novo.

Meu compositor preferido, no entanto, sempre foi o polonês Fryderyk Franciszek Chopin, um gênio que morreu com apenas 39 anos de idade mas deixou uma obra grandiosa, 264 trabalhos entre prelúdios, noturnos, valsas, mazurcas, sonatas, estudos, concertos e ainda 20 músicas para voz e piano, em sua língua natal.

Arthur Rubinstein, um dos maiores intérpretes de Chopin, escreveu o seguinte depoimento:

“Chopin fez uma revolução na música tradicional para piano e criou uma nova arte do teclado. Era um gênio de enlevo universal. Sua música conquista as mais distintas audiências. Quando as primeiras notas de Chopin soam por entre o salão de concerto, há um feliz suspiro de reconhecimento. Todos os homens e mulheres do mundo conhecem sua música. Eles amam isso. Eles são movidos por isso. No entanto, não é uma “música romântica”, no sentido byroniano. Não conta histórias ou quadros pintados. É expressiva e pessoal, mas ainda assim um arte pura. Mesmo nesta era atômica abstrata, onde a emoção não está na moda, Chopin perdura. Sua música é a linguagem universal da comunicação humana. Quando eu toco Chopin eu sei que falo diretamente para os corações das pessoas!”

E é com o próprio Rubinstein ao piano que fica o vídeo com o Prelúdio Opus 28, número 20, uma pequena obra-prima: