Dias de calor

Foto: Carlos Emerson Jr.

Você mora na serra fluminense. Sua cidade é considerada a mais fria do estado. No inverno as temperaturas chegam ao zero absoluto e geadas são comuns na zona rural. Reza a lenda que até já nevou. Seu bairro fica em cima de um morro, bem na frente da montanha que separa sua cidade da baixada. Mais arejado e ventilado, impossível. No entanto, o verão veio forte e lá na sua cozinha, ao lado da janela, o velho termômetro avisa que a temperatura chegou a inacreditáveis 30º à sombra, ou melhor, dentro de sua casa.

É o fim do mundo, diriam os ambientalistas, aplaudidos de pé por cariocas calorentos, como este que vos fala. Como assim, 30º? Cadê a chuva? O frio? A geada? Foi com o maior prazer que dei adeus para o Rio e me mandei atrás de paz, segurança, sossego e um pouco de frio, não necessariamente nessa ordem, é claro. Com que direito uma onda de calor – que veio pelo mar – invade minhas montanhas, minha cidade, minha casa, meu bem-estar?

Pois é, fica registrado o meu protesto indignado contra esses dias de calor que estão assolando nossa querida Nova Friburgo. Tem quem goste, é claro. A turma que ama descer a serra para as praias fluminenses está fazendo a maior festa. Deixa estar. Qualquer hora dessas Friburgo volta a ser Friburgo e uma frente fria, daquelas que chegam aos 12, 13º estaciona por aqui durante, digamos, uma semana e tudo volta a ser como era.

Um baita frio!

A tragédia do Brasil

Foto: Andre Penner/AP Photos

Os números falam por si: 121 mortos, 205 desaparecidos, um rio morto, plantações, casas, vidas destruídas, centenas ou talvez milhares de animais de todos os tipos perdidos para sempre e um enorme desalento e desesperança com mais uma tragédia anunciada que sacudiu o nosso país em Brumadinho, Minas Gerais.

É inconcebível que o mesmo tipo de desastre tenha se repetido com a mesma empresa, no mesmo estado, quatro anos depois. O que nos leva a outra reflexão, a impunidade, a morosidade da justiça, o desinteresse das autoridades responsáveis, a certeza de que o assunto será esquecido dentro de mais uns dez dias, como bem disse o colunista Ricardo Boechat em seu editorial de hoje, na Band News.

Pois é… Torço para que desta vez estejamos todos errados e a justiça será feita, doa a quem doer, sem ver cara, cor, títulos e poder. Em algum momento, o Brasil vai ter qie dar um basta nessa postura imperial, onde uns são melhores e mais imprescindíveis do que os outros. Que esse basta seja agora!

O som do sino

Foto: Carlos Emerson Junior

Todos dos dias passava diante daquela casa com o sino na porta. Estava encantado. Ficava imaginado como seria o seu som, quem atenderia, o que diria. E seguia seu caminho. Um tarde nublada, voltando do trabalho, não resistiu: foi até o sino, puxou a corrente e… Ficou surpreso quando, ao invés da tradicional badalada, ouviu um toque eletrônico dentro da casa. Caramba, o sino então era só um enfeite? Decepcionado, saiu correndo pela rua vazia antes que alguém viesse atendê-lo. Ia falar o quê? Já fora de vista, ofegante, pensou que até mesmo os sinos agora eram feitos na China. Que coisa!

Curiosidade

Foto: Nasa

Enquanto o robô Curiosity trabalha intensamente a mais de seis anos na superfície marciana, coletando dados sobre o planeta, fazendo descobertas sensacionais, como as moléculas orgânicas em rochas com três bilhões de anos, analisando o clima, fotografando e até mesmo fazendo selfies, aqui no Brasil, bem, aqui no Brasil… Ah, deixa prá lá. Afinal, o grande Millor Fernandes já dizia que “com muita sabedoria, estudando muito, pensando muito, procurando compreender tudo e todos, um homem consegue, depois de mais ou menos quarenta anos de vida, aprender a ficar calado.” Como eu já estou indo para os setenta…

A propósito, a curiosa selfie do Curiosity é uma colagem de várias fotos tiradas pelo robozinho (uma gentileza, afinal ele tem o tamanho de um automóvel) para esconder seu braço mecânico-eletrônico-cibernético-nuclear (não é mentira, o bicho é movido por um reator atômico!) da foto. Trabalho da NASA.

Falando de flores

Foto: Carlos Emerson Junior

Sou um completo analfabeto quando o assunto são flores mas sei muito bem que, como “modelos” para fotos, são imbatíveis! Flores são tão bonitas que nem precisam fazer pose. Nunca reclamam da nossa demora para “acertar” a câmera, não se mexem e algumas até nos presenteiam com um perfume gostoso e elegante. Decididamente, fotografar flores é Zen e se for em Nova Friburgo é o próprio Nirvana!

Foto: Carlos Emerson Junior

Prelúdio de Chopin

Um dos maiores arrependimentos que até hoje carrego no coração foi não ter estudado piano, como minha irmã muito acertadamente fez. E nem tenho como justificar que não fui estimulado, já que ela mesma muitas vezes me ensinava alguns acordes e até mesmo a entender algumas partituras.

Lembro que às vezes ficava quieto, acompanhando seus estudos no teclado. Logo depois, assumia o piano e tentava, de maneira tosca, é claro, repetir o que ouvia. O pior é que de vez em quando acertava e, feliz da vida, me via literalmente “assassinando” uma obra de arte de Beethoven ou Rachmaninoff. Isso sim, era um baita desrespeito.

Felizmente para a música, desisti de ser um pianista autodidata (eufemismo para “tocar de ouvido”) mas aprendi que Música Clássica era um assunto muito sério, além de profundamente belo. Ouvir Tchaikovsky, Bach, Brahms, Schubert, Wagner, Liszt, Debussy, Mahler e Mozart era como descobrir um mundo inteiramente novo.

Meu compositor preferido, no entanto, sempre foi o polonês Fryderyk Franciszek Chopin, um gênio que morreu com apenas 39 anos de idade mas deixou uma obra grandiosa, 264 trabalhos entre prelúdios, noturnos, valsas, mazurcas, sonatas, estudos, concertos e ainda 20 músicas para voz e piano, em sua língua natal.

Arthur Rubinstein, um dos maiores intérpretes de Chopin, escreveu o seguinte depoimento:

“Chopin fez uma revolução na música tradicional para piano e criou uma nova arte do teclado. Era um gênio de enlevo universal. Sua música conquista as mais distintas audiências. Quando as primeiras notas de Chopin soam por entre o salão de concerto, há um feliz suspiro de reconhecimento. Todos os homens e mulheres do mundo conhecem sua música. Eles amam isso. Eles são movidos por isso. No entanto, não é uma “música romântica”, no sentido byroniano. Não conta histórias ou quadros pintados. É expressiva e pessoal, mas ainda assim um arte pura. Mesmo nesta era atômica abstrata, onde a emoção não está na moda, Chopin perdura. Sua música é a linguagem universal da comunicação humana. Quando eu toco Chopin eu sei que falo diretamente para os corações das pessoas!”

E é com o próprio Rubinstein ao piano que fica o vídeo com o Prelúdio Opus 28, número 20, uma pequena obra-prima:

Momento de reflexão

Uma data importante para o nosso futuro: o próximo dia primeiro de agosto será conhecido como o “Dia de Sobrecarga da Terra”, marcando o triste e patético momento que o consumo de nossos recursos naturais (alimentos, água, fibras, madeira, terra e emissões de carbono) supera o volume que o planeta é capaz de renovar. Para piorar, faltam cinco meses para 2018 terminar. Desde 1970, quando a data começou a ser “comemorada”, foi a primeira vez que chegamos ao ápice da irresponsabilidade tão cedo!

Pois é… Enquanto isso não enxergamos o problema, brigamos uns com os outros, consumimos sem limites, sujamos nossos rios e mares, devastamos a terra e acreditamos piamente que nossas vidinhas são eternas. Meus pêsames, terráqueos.

O petróleo é nosso. E daí?

Foto: Edison Luiz

De toda essa confusão que a greve dos caminhoneiros está provocando – incluindo aí a merecida desmoralização do governo federal – dois pontos me deixam profundamente triste e, se é que isso é possível, cada vez mais desanimado com o futuro do Brasil. Estou falando da nossa completa dependência do petróleo e do transporte rodoviário, como se ainda vivêssemos em pleno século passado.

Amigos, não vivi 50 anos no século XX para ser testemunha da nossa incapacidade de sair dos anos 60, 80, sei lá! Enquanto aí fora se produz realidade virtual, fontes alternativas de energia, as cidades são devolvidas às pessoas, a ciência avança em todas as frentes e a saúde é realmente para todos, continuamos na mesma vidinha de todo o sempre, vivendo de lembranças e glórias que nunca chegaram à população.

Desculpem o mau humor, mas o Brasil está um saco!

Sem saída

Foto: Carlos Emerson Jr.

O Rio de Janeiro não é uma cidade maravilhosa, é uma paisagem maravilhosa para uma cidade” (Elizabeth Bishop)

Até quando vamos nos iludir? Quantas vidas mais a cidade levará para alimentar suas mazelas, sua malandragem, sua incivilidade? Que me perdoem os cariocas – meus conterrâneos – mas grupo de extermínio agindo em pleno centro,nas barbas das tropas do Exército, é o fim do mundo. Aliás, o fim de uma cidade que um dia foi cantada como a maravilhosa. Perdeu a graça, o viço, o senso e o amor de seus filhos. Sinceramente? Não acredito mais em alguma saída.

Que pelo menos identifiquem, prendam e punam os responsáveis pelo bárbaro assassinato no Estácio, sejam eles quem forem, estejam onde estiverem, tenham o nome que for. Já toleramos facções do tráfico, milícias, corruptos, assaltantes, pivetes e canalhas de todos os estirpes, engravatados ou não. Permitir a ação impune de grupos de extermínios é acabar com o pouco de ar que ainda se respira no Rio, concordar com o assassinato de qualquer um que incomode os donos do poder. É deletar a democracia. É voltar para o tempo dos coronéis.

Meus pêsames e desculpas aos amigos e familiares de Marielle Franco. Meus pêsames à população carioca.

A matança dos macacos

Foto: Carlos Emerson Jr.

Deu no O Globo: “chega a 131 o número de primatas mortos desde o início do ano – média de 5,24 animais por dia. Desses, 32 apenas na cidade do Rio”. O que assusta é que 69% (90 macacos) morreram espancados ou envenenados, uma matança absurda, provocada por uma população ignorante que acredita que os macacos são os responsáveis pela proliferação da febre amarela.

Segundo os veterinários do Instituto Jorge Vaistman, “há casos de espancamento com múltiplas fraturas, de animais com vísceras estouradas por conta de chutes, casos de envenenamento causados pela ingestão de chumbinho disfarçado em bananas… Entre as vítimas há três exemplares de mico-leão-dourado, espécie que corre risco de extinção” (El País).

Caramba, o transmissor da febre amarela é o mosquito! Os macacos são vítimas que nem nós e ainda tem mais, servem como um alerta da doença. Matar, trucidar, exterminar esses animais só vai nos prejudicar. Cadê a fiscalização? Cadê a consciência cívica? Matar um macaco pode dar um ano de cadeia, seus infelizes! Ibama nessa gente.

Agora, se vocês fazem mesmo questão de punir alguém, porque não vão atrás dos canalhas que, por omissão, má-fé, desonestidade e corrupção permitiram o ressurgimento de uma doença erradicada há mais de cem anos? Ah, mas é claro, ninguém se preocupa com saneamento básico, saúde para todos, higiene, educação, qualidade de vida. Viajar de avião, ter televisão, automóvel, isso pode, não é mesmo? Agora, água e esgoto tratado, morar decentemente, deixa prá lá…

Uma vergonha!