Carta aberta à Faol

Um dos muitos motivos da compra do meu apartamento no Sans Souci, no final da década de 90, era a linha que a Faol operava, ligando as Braunes à antiga Rodoviária de Integração, a cada 40 minutos. Os ônibus meio antigos, geralmente mal conservados, cumpriam o horário britanicamente, sem o menor atraso.

E não ficava só nisso: uma vez pela manhã e outra no final do dia, o ônibus subia o Alto do Sans Souci. Além disso, quando a Estácio de Sá trouxe sua Universidade para cá, criaram uma linha direta com uma ou duas viagens à noitinha, para atender alunos, funcionários e professores. Resumindo, você não precisava usar o carro para ir ao centro, evitando estacionamentos, engarrafamentos e, é claro, diminuindo a poluição atmosférica. A linha 101 estava ali para isso mesmo e funcionava bem.

O tempo passou, a Faol, uma empresa friburguense foi vendida para uma famosa empresa carioca, parece que não deu certo e passou para as mãos de um consórcio de empresas da Baixada Fluminense e do Rio. Chegou cheia de moral, colocou nas ruas 30 ônibus novos, todos climatizados mas, infelizmente, acabou com a linha das Braunes. Aliás, vamos ser justos, de uma só tacada prejudicaram também os moradores do Tingly.

Voltei a morar em Friburgo no dia 16 de novembro do ano passado. Quando fui descer para o centro, levei um susto! O pessoal do condomínio me avisou que o horário dos ônibus havia mudado e o intervalo agora era de inacreditáveis 70 minutos, uma hora e dez minutos, um verdadeiro absurdo, com danosas consequências para a população residente e trabalhadora!

Como se programar diante de uma espera de uma hora e dez minutos? Como ficam os passageiros que vem de outros bairros e precisam trocar de linha, fazer baldeação? Com certeza vão pagar duas passagens. Muita gente tem descido e subido a pé, uma maldade já que as ruas das Braunes são, basicamente, ladeiras íngremes. E nos dias de chuva, como fica? Chama um táxi? Tira o carro da garagem? Então para que servem os ônibus?

Senhores responsáveis pela Faol, fica o apelo para o modelo atual seja revisto e alterado. Agradeço antecipadamente a atenção.

Foto: Thiago Silva

Feliz 2018

Foto: Carlos Emerson Junior

O ano que termina logo mais, definitivamente foi um desastre, principalmente para quem mora no Rio. De uma forma ou outra, o bando de corruptos, incompetentes e canalhas que tomou conta do Estado nos últimos, sei lá, vinte, trinta anos, conseguiu o que parecia impossível, acabar com todos os recursos e reduzir a dignidade dos cidadãos cariocas e fluminenses a um mero nada.

No entanto, não posso reclamar. Afinal, no meio dessa crise de caráter, falta de segurança generalizada e vergonha na cara, ter conseguido me mudar definitivamente para Nova Friburgo foi um alento, um recomeço, um sonho antigo finalmente realizado. Virar o ano aqui na Serra junto com quem mais amo, não tem preço! Dois mil e dezessete, pelo menos para mim, para mim, termina muito bem.

Fica a esperança que 2018 traga novos ventos de esperança, alento, paz e serenidade a todos os brasileiros, cidadãos cansados de tantas emoções e sentimentos negativos em suas vidas. Obrigado pela companhia e vamos em frente em busca de nosso destino.

Feliz 2018!

Árvore de Natal

“Dela só nos lembramos uma vez por ano, quando nos reunimos, uns poucos, em torno da árvore para acender velinhas, distribuir presentinhos, bebericar champanha. E escutar ao rádio o sr. presidente da República discursar para pedir ao povo brasileiro que tenha paciência e esperança.

Deus nos acuda!”

Pois é, assim terminava a crônica “Árvore de Natal”, escrita pelo jornalista Vivaldo Coaracy, publicada na edição do dia 29 de dezembro de 1960, no extinto jornal carioca “Correio da Manhã”. Cinquenta e sete anos são passados e árvore de natal só a da Lagoa que, com a crise, nem foi montada. Presentinhos viraram listas intermináveis do trabalho, parentes, amigos, funcionários e assemelhados. Champanha hoje em dia se diz champanhe, mas seu lugar ao lado da árvore foi trocado pela cerveja ou o chope, bebidos em escala industrial. Finalmente, presidente que se preza não faz mais discurso no rádio e sim na televisão, em cadeia nacional, pedindo ao povo brasileiro que tenha paciência e esperança.

Isso aí, meus caros, não muda nunca…

Socorro!

Deu na Folha de SP: “Lula culpa Lava Jato por mazelas no Estado”. E disse mais, “a Lava Jato não pode fazer o que está fazendo com o Rio”, “não pode, por causa de meia dúzia que eles dizem que roubou, mas ainda não provaram, causar esse prejuízo”. Sérgio Cabral, Pezão, Eduardo Paes, Sérgio Cortes, Hudson Braga, Eduardo Cunha, Garotinho, Rosinha, Jorge Picciani, Paulo Melo, entre muitos outros, agradecem de pé! Já a população fluminense, pede encarecidamente que o ex-presidente vá vomitar sua ignorância na, ah, deixa prá lá.

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Deu no Leonardo Sakamoto: “Ver um capturado Rogério 157 aparecer como ‘troféu’ de policiais em êxtase envolvidos na operação remete às lembranças de transformação de seres humanos em souvenirs de caça ou objetos de diversão. Mas olhe novamente a foto. Perceba que há dois ‘troféus’ nela. Pois os policiais tornaram eles próprios, com seu ato, um troféu de Rogério 157, glamourizado pela selfie, transformado por eles em celebridade. O que apenas reforça o poder do traficante junto a seus subordinados ou à população. Quando policiais e bandidos tornam-se troféus uns dos outros, um Estado precisa de uma DR, depois zerar e começar de novo. Porque algo deu muito, mas muito errado.”

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Deu no Estadão: “Homem é preso por ejacular em passageira em voo de Belém a Brasília”. Um absurdo, como se não bastasse a epidemia de corruptos, agora temos uma infestação de tarados.

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Deu no O Globo: “Ataque a caminhão com seis toneladas de pernil provoca o temor de aumento de casos até o Natal”. Pois é, não está fácil para ninguém e dezembro mal começou…

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Deu no El País: “É sabido que um em cada quatro brasileiros não sabe ler e escrever ou não compreende textos simples. Além disso, o Brasil ocupa o 65º lugar entre 70 países avaliados pelo PISA, programa internacional que analisa o desempenho de alunos de 15 anos dos sistemas público e privado de ensino. A falta de escolaridade é um impedimento não só para o crescimento individual – mas também para o desenvolvimento coletivo.”

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Salve-se quem puder!

Lugar nenhum

Os dados abaixo, levantados pelo jornalista Luiz Ruffato para o seu certeiro artigo “Um país apático, rumo a lugar nenhum”, publicado na edição eletrônica do jornal espanhol El País mostram, de forma resumida, é claro, como anda (?) o nosso país na área social. Vamos lá:

“O Brasil figura entre os 10 países mais desiguais do mundo – 5% dos ricos detêm renda igual a 95% da população, segundo estudo da ONG britânica Oxfam. Além disso, enquanto os pobres gastam em impostos 32% de tudo o que recebem, os ricos despendem apenas 21%. A taxa de analfabetismo chega a 8% do total da população, enquanto o analfabetismo funcional chega a 17,1%, segundo dados do IBGE – ou seja, um em cada quatro brasileiros não sabe ler e escrever ou não compreende textos simples. Na faixa entre 15 e 17 anos, 22% dos jovens estão fora da escola, número que permanece mais ou menos o mesmo desde 2000. Enquanto isso, segundo o Atlas da Violência 2017, em 2015 foram assassinadas 59 mil pessoas, o que equivale a 28,9 mortes por 100 mil habitantes, e outras 47 mil pessoas perdem a vida no trânsito todo ano, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).”

E piora:

“Segundo o IBGE, em agosto existiam 26,3 milhões de brasileiros desempregados ou subocupados, estatística que pode ser aferida pelo aumento significativo de famílias inteiras morando nas ruas. O Brasil, que tinha em 2014 deixado o Mapa da Fome – acima de 5% da população ingerindo menos calorias que o recomendado – pode voltar e ele este ano.”

Pois é… Esses números explicam o medo nosso de todos os dias, a apatia, a desesperança. O silêncio das ruas soa como um aval ensurdecedor para políticos, bandidos (ou as duas coisas) e seus negócios escusos, seus esquemas, seu poder ilimitado. O Ruffato tem razão, estamos parados, indo para lugar nenhum…

A guerra é aqui

“É triste ficar acuado na própria cidade. O Rio está paralisando hoje, com estudantes indo embora de suas universidades, profissionais liberais cancelando compromissos, trabalhadores impedidos de deixar suas casas nas áreas de tiroteios. Não queremos sucumbir ao pânico. Não podemos. Mas, num dia como este, afloram todas as neuroses que temos sentido com a escalada de violência.” (Maria Fernanda Delmas, artigo “Hoje não importa a geografia: se você é pai ou mãe, carrega um aperto no coração“, O Globo).

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E aí me lembro que quem elegeu Pezão, Crivella, Cabral, Paes e assemelhados fomos nós mesmos. Que vergonha, acabamos com o Rio…

Foto: Gabriel Paiva (Agência O Globo)

Um lugar

Quando você andar por uma rua qualquer das Braunes (ou outro bairro qualquer), em Nova Friburgo, não se esqueça de olhar para o céu e as montanhas. Ouça o silêncio, respire o ar puro, valorize a tranquilidade. Pois é, meu caro amigo, eu sei que nem tudo o que reluz é ouro e perfeição é, quase sempre, um conceito inatingível, mas se não lutarmos pelos nossos sonhos, o que nos restará? Olhem o Rio…

Um ótimo fim de semana!

Não desvie o olhar

Foto: Carlos Emerson Junior

Está lá, escrito no poste em letras enormes: não desvie o olhar. Correto. Preste atenção, fique desperto, mantenha o foco. A dispersão leva ao caos e é isso o que essa gente quer. Você se distrai um pouquinho e zap! – te arrancam o celular das mãos. É ruim, mas os outros são piores. Superfaturam obras. Fraudam eleições. Roubam dinheiro público. Formam quadrilhas. Compram juízes. Ameaçam. Matam. Não, meu amigo, não desvie o olhar. Não sejamos cúmplices de toda essa bandalheira.

Portas abertas, portas fechadas

Foto: Carlos Emerson Junior

Um dia o cientista Alexander Graham Bell, um dos pais do telefone, disse que “quando uma porta se fecha, outra se abre. Mas muitas vezes ficamos olhando tanto tempo, tristes, para a porta fechada que nem notamos aquela que se abriu.” Pois é, estava certíssimo.

Não sei e nem consegui descobrir a origem das portas. Sabe-se que é muito antiga e foi inventada, digamos assim, para nos proteger dos nossos inimigos, animais predadores e o frio. Engraçado que, até onde me lembro, as ocas dos índios são abertas, sem portas, o que me leva a crer que só gente civilizada as utiliza…

De qualquer maneira, portas fecham, protegem e aquecem mas também nos isolam. Saber abrir portas requer sensibilidade, esperança e confiança. Uma porta aberta pode ser simplesmente a saída de casa. Mas também, se você ousar sonhar, levar a mundos distantes, caminhos desconhecidos, sonhos esquecidos.

Abrir ou fechar portas, de repente, é uma arte.

Realidade virtual

Você resolve assistir “As pontes de Toko-Ri”, um clássico de guerra de 1954. A ação se passa em um porta-aviões e seus caças a jato F9F2 Phanter, com a luxuosa participação de Willian Holden e Grace Kelly que, no ano seguinte viraria Grace de Mônaco.

Em determinado momento do filme, os jatos são liberados e, em formação, vão atacar a Coreia do Norte. Nesse momento, o aeroporto Santos Dumont, na verdade praticamente um porta aviões em terra firme, libera seus aviões pela Rota 2, aquela mesma que passa em cima dos bairros do Cosme Velho, Botafogo, Urca, Santa Tereza, Laranjeiras, Flamengo, Catete e Glória, para desespero dos moradores que não conseguem sequer ouvir seus pensamentos.

Mas ontem não, a sensação foi quase mágica. Para cada caça que decolava, tinha um Boeing ou Airbus passando em cima do telhado aqui de casa, com direito até a janelas vibrando. Um barato! Parecia que a guerra era aqui. Realidade virtual é isso e pela primeira vez não reclamei do barulho insuportável que aliás, coincidência ou não, voltou com toda a força enquanto escrevo essas linhas. Pois, é, a rota 2 ataca outra vez.

Ah sim, o filme é muito bom, ganhou um Oscar e vale conferir no site do Telecine Play.