Arame farpado

Foto: Carlos Emerson Junior

– Muito bem, turma, pergunta! Arame farpado lembra?

– …

– Vamos lá gente, todo mundo aqui sabe o que um arame farpado. Ou não?

– Trincheira da Primeira Guerra Mundial!

Espanto total.

– Caramba, a Primeira Guerra terminou em 1918, há exatos 99 anos e possivelmente ninguém mais sabe o que é uma trincheira. Mas o exemplo é bom, os rolos de arame farpado ficavam entre os buracos que abrigavam os soldados, dificultando o avanço dos inimigos. Outro!

– Campo de prisioneiros. Vi naquele filme do Spielberg, “A Lista de Schindler”.

– Perfeito, continuem.

– É um tipo de ferro usado para cercar pastos de vacas.

– Muito bem, quem mais?

– Música do Barão Vermelho. Sei que fala algo como beijos de sabor enferrujado machucam a boca feito arame farpado.

– … Ô menina, vou ter que acreditar em você, nunca ouvi isso.

– Existe sim, quer que eu cante?

– Não, deixa prá lá. Alguém mais?

– Arame farpado, difícil de ser comido e fácil de cercar gado.

– Gracinha, né?

– Não, senhor, tá no Google!

– Tá bom! O arame farpado foi inventado em 1873, nos Estados Unidos, para cercar e proteger o gado, impedindo sua fuga e dificultando o roubo. Foi utilizado militarmente pela primeira vez em 1888, pelo exército britânico, para proteger as tropas que ficavam nas trincheiras dos ataques dos soldados inimigos. Hoje em dia pode ser encontrado em presídios, prédios, fábricas, áreas de segurança, campos de refugiados, depósitos, armazéns, fronteiras e por aí vai. Aqui na cidade do Rio de Janeiro é muito comum ao redor de casas, edifícios e condomínios. Hoje, eu acordei e vi meu prédio todo cercado com arame farpado. Senti-me o próprio gado…

– Amém.

Quase um blues

O computador toca uma balada de Miles Davis. Na verdade, quase um blues, o que não faz a menor diferença, vindo de quem vem. Fosse uma valsa, um xote, um funk, um rock ou uma ópera completa, com libreto e tudo, seria sempre um Miles Davis. Mas o assunto de hoje não é jazz, nem o fantástico músico e compositor americano que deixou como legado uma obra extensa, genial e inspiradora. Não, infelizmente, sou obrigado a ficar no plano terreno e lembrar que o Brasil virou uma “tragédia mexicana” de péssimo gosto.

O nosso legado é triste, lamentável, indigno até. Regredimos, sem o menor exagero, uns bons 50 anos e não estou falando só de políticos. Perdemos o rumo na economia, educação e saúde. Falimos. A pesquisa científica definha, as artes agonizam, o esporte patina, a cultura se perde.

Somos todos corruptos? Não, claro. Mas nosso silêncio acaba por nos tornar cúmplices de toda essa corja que assaltou os cofres públicos, fraudou eleições, vendeu a constituição, inventou e superfaturou obras, em sua grande maioria inúteis e tratou os brasileiros como um bando de babacas.

Pois é. No fundo somos mesmos otários, discutindo pelas redes sociais que fulano, beltrano e sicrano são isso e os outros são aquilo, como se não soubéssemos que todos eles, todos mesmo, não passam de um bando de ladrões, merecedores de todo o nosso desprezo e vergonha.

O blues surgiu no final do século 19, com o canto dos escravos que colhiam algodão nas fazendas norte americanas. Segundo o escritor e historiador britânico Paul Oliver, “o blues é um estado de espírito e a música que dá voz a ele. O blues é o lamento dos oprimidos, o grito de independência, a paixão dos lascivos, a raiva dos frustrados e a gargalhada do fatalista. É a agonia da indecisão, o desespero dos desempregados, a angústia dos destituídos e o humor seco do cínico“.

Lamentos, paixão, raiva, agonia, desespero, grito de independência. Que nada… Infelizmente, por aqui, ainda não passamos da ilusão e todo o sofrimento sequer é quase um blues. Na verdade, não é nada mesmo. Um dia, quem sabe, a gente acorda, consegue se unir, botar essa canalhada para correr e construir um novo Brasil, desta vez prá valer. É isso, nossa única reação é sonhar.

Desenho: Jano

A cidade engana

foto: carlos emerson jr.

Vista assim, de longe, a cidade engana. Ou melhor, esse ângulo exuberante irremediavelmente nos leva para longe da realidade. Cidades podem ser maravilhosas em prosa e versos, em fotos e filmes. No entanto, será que resistem a um olhar bem atento? Um avião em baixa altitude sobrevoando quatro bairros residenciais antes de pousar, rugindo suas turbinas sem o menor pudor. As águas imundas e fétidas da enseada tão bonita. A crescente e desamparada população de rua, usando barcos abandonados e barracas nas praias para morar. A insegurança sempre presente, em qualquer lugar e a qualquer hora. Os ladrões que tomaram o poder e levaram tudo o que quiseram e puderam. Ah, meus caros, a cidade engana e como. E nós, reféns de lembranças de tempos melhores, apenas olhamos e murmuramos: pois é…

Canal do Mangue

foto: Carlos Emerson Junior

As cidades tem seus recantos e encantos, mesmo quando cabem apenas na lente de um smartphone. Ou até mesmo quando você erra a regulagem, treme ou pisca e a imagem mostra alguma coisa que você não viu, mas algum dia imaginou. Pois é, essas árvores (sempre elas) estão na Avenida Francisco Bicalho, no centro do Rio, margeando o mal afamado e mal cheiroso Canal do Mangue. A luz da tarde de outono ajuda a compor ou talvez sonhar com uma cidade civilizada.

Bobagem, não é mesmo?

O teatro morto

foto: carlos emerson junior
“Então sonhei um sonho tão bom: sonhei assim: na vida nós somos artistas de uma peça de teatro absurdo escrita por um Deus absurdo. Nós somos todos os participantes desse teatro: na verdade nunca morreremos quando acontece a morte. Só morremos como artistas. Isso seria a eternidade?” (Clarice Lispector)

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Foi a primeira vez que viu a porta da rua do antigo teatro aberta. Curioso, olhou para dentro. Uma jovem sorridente, sentada numa mesinha bem a frente sorriu e o convidou a entrar. Subiu a pequena rampa, na semiobscuridade, passou pelo que restou do antigo hall e entrou na grande sala onde ficava a plateia. Os olhos, sem querer, marejaram.

Quantos anos se passaram… As paredes descascadas, tomadas pela umidade, os tijolos aparentes. O palco desapareceu. A coxia, absurdamente desnuda, isolada por tijolos e pedras para evitar que incautos por ali transitem. O piso original, de pedras brancas, agora é cinza escuro, cheio de pó, cheio de nada. Nenhuma luz, os lustres e refletores sumiram. Apenas o sol clareia um pouco, pelos buracos das paredes.

Meu Deus, o que fizemos? Como deixamos que uma sala que brilhou nos tempos que foi de um hotel, depois um cassino e por último uma rede de televisão, chegasse a esse ponto? Ruínas, esquecidas, condenadas a uma morte lenta e inexorável. E os artistas, roteiristas, diretores, funcionários, toda essa gente que ali atuou? O que será de sua memória?

Não creio, Clarice, teatros também morrem.

Manhã de domingo

Praia Vermelha, Urca
foto: Carlos Emerson Junior

Apesar das previsões desastradas do tempo, o domingo amanheceu bonito, céu azul e temperatura outonal na medida certa: nem muito quente, nem muito frio. A mulher foi à missa, a cachorra toma sol na porta de casa e eu, bom, ao invés de correr até o Parque do Flamengo ou simplesmente dar uma caminhada pela orla da Urca, estou digitando este texto, enquanto aguardo a visita da assistência técnica da operadora de internet. Desde ontem estou fora do ar.

Fora do ar é exagero, claro. Os onipresentes smartphones nunca dormem, Android e IOS se encarregam de registrar e transmitir para algo ou alguém tudo o que fazemos, falamos, comemos e, se bobear, pensamos nas 24 horas do dia. É engraçado, falamos em privacidade e pagamos (caro) para expô-la… No entanto, o que seria de nossa vida, hoje, sem esses aparelhinhos tão úteis?

Mas divago, como sempre. E não, não li o jornal de hoje, não liguei a TV, nem naveguei na internet pelo celular. Afinal, tenho que ser coerente, se estou fora do ar, que seja fora do ar mesmo. De qualquer maneira, as notícias não devem ser nada diferentes das de ontem. Terrorismo em Londres, corrupção no Brasil, crise no Estado do Rio…

Não, uma manhã de domingo tem que ser diferente do resto da semana. Fico pensando se não teria sido mais sábio agendar o técnico para a segunda-feira. Enfim, agora já era. Ou não, sei lá. De qualquer maneira, nesse espaço de tempo já varri o quintal, lavei e guardei a louça de ontem, coloquei a cachorra para tomar sol, escrevi esse texto e dei uma mexida em outros dois que aguardam ideias melhores para sua conclusão.

De tardinha, se for possível, saio para ver as modas. É isso aí, gíria da década de 60. Hoje é domingo, gente, relevem e aproveitem. A foto foi feita ontem, sábado pela manhã, na Praia Vermelha. É verdade, a areia completamente vazia e só uma turma de nadadores dentro da água. Já na calçada, que multidão! Reflexos do outono. Ah, sim, antes de colocar o ponto final, o técnico da Net chegou, trocou o roteador, voltei ao ar e este post foi publicado. Tudo nos trinques!

Uma ótima semana para todos nós.

Rojão

Rojão (ro.jão): fogo de artifício formado por tubo de papelão com pólvora, pavio e punho; foguete; ritmo de vida intenso e agitado; tipo de baião; toque arrastado ou rasgado de viola; passo de cavalo (ou outro animal) quando cavalgado. Segundo o Dicionário Aulete, Rojão é isso tudo aí.

Rojão rima com arranjão, feijão, fujão, gajão, intrujão, marmanjão, mijão, rabujão, requeijão, rijão e varejão. É sinônimo de casca grossa, foguete, descompostura, repreensão, rojo, fogos, fogos de artifício. Rojão em inglês é rocket.

Rojão também é um prato regional. No norte de Portugal, nacos de carne de porco fritos em banha chamam-se rojões. Mais corretamente, rojões à moda do Minho. Rojão é sobrenome de famílias vindas lá da terrinha.

Rojão é uma dança nordestina, de ritmo acelerado. Quem toca e canta, procura narrar suas façanhas ou de algum personagem famoso, exaltando sua valentia. Pode durar horas. É tocado com a viola, o tan-tan e a pandeireta.

Rojão, meu caro amigo, está nos versos do Chico Buarque, aquele que diz “que a coisa aqui tá preta, muita mutreta pra levar a situação, que a gente vai levando de teimoso e de pirraça, e a gente vai tomando que, também, sem a cachaça, ninguém segura esse rojão”.

Rojão, segundo o Regulamento para a Fiscalização de Produtos Controlados (R-105), não pode ser vendido para menores de 18 anos e sua queima depende de licença da autoridade competente, com local e hora previamente designados, nos casos de festa pública ou em qualquer lugar, dentro do perímetro urbano.

Rojão faz mal para os animais. Eles sofrem com o barulho da explosão, entram em pânico. Alguns fogem, outros choram, a maioria se esconde. Podem se mutilar, tentando escapar. Se estiverem juntos, podem brigar. Convulsões e trauma psicológico são esperados.

Rojão mata. Mais de 1300 pessoas já se feriram manuseando ou apenas assistindo queima de fogos. Dados do Ministério da Saúde. Até 2011, foram mais de 120 óbitos. Seis mil pessoas foram internadas com ferimentos graves. Um rojão matou 242 jovens em uma boate de Santa Maria. Um jornalista morreu em 2014 durante uma manifestação no Rio.

A propósito, seria o Brasil um imenso rojão?