Vai passar, Nova Friburgo!

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O que você faz quando precisa escrever um texto e a inspiração, ideias, criatividade e disposição desaparecem? Já notaram que em tempos de quarentena (pra valer), ficamos mais lentos, dispersos, desligados e, por que não, preguiçosos? Se faz frio e chove, como hoje, aí degringola tudo. Se sair da cama passa a ser um suplício, imagine sentar com o notebook para trabalhar, quando a vontade mesmo é vestir um moletom bem grosso, acender a lareira, tomar um chocolate quente e voltar para baixo do moletom… na cama, é claro!

Bom, vamos lá que hoje não é dia de dormir e sim de festejar o aniversário da minha querida Nova Friburgo, uma senhora com 202 anos de idade! As comemorações foram suspensas, é claro, afinal o coronavirus que sequer foi convidado para a festa, continua aprontando por aí. Hoje é feriado municipal e sequer o sol veio trabalhar. Não sei como está o centro da cidade, mas aqui no Sans Souci o silêncio chega a doer no ouvido. Sei lá, o tempo chuvoso, a quarentena prolongada e a dúvida sobre o nosso futuro desanimam qualquer um.

Hoje não vamos ter a tradicional parada na Alberto Braune com os militares do Exército, Marinha, PM e Bombeiros, a garotada e os ex-alunos das escolas com suas bandas, os músicos da Euterpe, da Campesina e tanta gente boa e amiga que nos faz sorrir. Fico aqui imaginando como seria bom se o vírus desaparecesse por algumas horas para que todos desfilassem e nos encantassem. Pena que só em em sonho mesmo…

Parabéns, Nova Friburgo! Parabéns, friburguenses. Apesar de ter passado a vida quase toda no Rio, aprendi a amar essa cidade singular, bonita e extremamente acolhedora. Não fique triste, Nova Friburgo, estamos comemorando seu aniversário com nosso coração, aqui mesmo, do seu lado, em nossas casas aguardando a hora de retomarmos nossas vidas. Parabéns, Nova Friburgo! Acredite, tudo isso vai passar.

Sempre passa!

A crônica das bananas

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Uma jovem distraída resolve preparar uma iguaria de infância, banana cozida, servida com açúcar e canela, uma delícia. Liga para o mercadinho da rua e pede para entregarem em sua casa 5 bananas da terra, bem maduras. O atendente anota o pedido, negociam, combinam a entrega e voltam as suas atividades: ela, terminar o trabalho gráfico no computador caseiro e ele, separar as bananas, embalar e chamar o motoboy para fazer a entrega. Tudo normal, apenas mais uma compra em um dia de isolamento social.

Quinze minutos depois o interfone da jovem toca, devem ser as bananas, pensa a jovem enquanto atende a ligação:

– Sim, fui eu mesma. Dá para colocar no elevador e mandar pra cá? Que bom, obrigada.

E dito isto caminhou até o corredor, aguardou a chegada do elevador, abriu a porta e quase caiu dura para trás: ao invés das 5 bananas, o infeliz do dono do mercado tinha enviado 5 pencas com 12 frutas, ou melhor, 60 bananas! E agora? Só um batalhão para dar conta de tantas bananas cozidas.

Correu para o telefone.

– O senhor enlouqueceu? O que é que eu vou fazer com tantas bananas?
– Também estranhei, mas foi a senhora mesma que pediu as 5 pencas. Tudo bem, não vamos brigar. Deixe as bananas no elevador que já vou aí pegar, ok?
– Legal, o senhor é gente boa. Posso separar as minhas 5 bananas?
– Sem dúvida e fica como cortesia do mercado. Perdoe a confusão.
– Eu é que peço desculpas, acho que nós dois confundimos tudo. Deve ser essa quarentena.
– Nem me fale! Até já, estou saindo.

Pois é.

Quarenta e cinco dias depois

Gravura: Schnabel de Rome

Segunda-feira, 20 de abril de 2020, 11:37 horas, 28º dia da quarentena decretada pela Prefeitura de Nova Friburgo, 45º de retiro desde minha internação em um hospital no Rio de Janeiro, no dia 7 de março. Nesse período, estive na rua nos dias 13, 21, 23 e 31 de março, todos por motivo de saúde. Ah, sim, quando não faz frio ou chove, caminho no bosque do condomínio, seguindo expressas ordens médicas. Resumindo tudo isso, 45 dias recolhido e apenas 4 saídas de casa. Quarentena, uai!

Mas vamos ao que interessa, quem inventou a quarentena e por que razão? Os italianos, é claro. Segundo os britânicos da BBC, “quando a peste negra se espalhou pela Europa durante o século 14, Veneza aplicou uma regra em que navios tinham que ancorar por 40 dias antes que a tripulação e passageiros pudessem desembarcar. O período de espera foi denominado ”quarantino”,que deriva da palavra em italiano para o número 40”.

A Wikipédia entra no circuito e nos lembra que “apesar de a quarentena ser considerada pelos historiadores modernos como uma das primeiras contribuições fundamentais à prática da saúde pública, não tinha sua devida importância reconhecida”. A gravura que ilustra o texto, de autoria do Dr. Schnabel de Rome, mostra a roupa que os “médicos” da época usavam para “tratar” dos leprosos e das vítimas da Peste Negra. Devia matar os pacientes de susto!

Na Idade Média muita gente boa foi “salva” na fogueira, li-te-ral-ment-te, já que os curandeiros acreditavam que as doenças eram provocadas por demônios que se apoderavam nosso corpo e alma. E aí, só com fogo, não é? Barbaridade! Outros eram colocados em cavernas ou coisa parecida e proibidos de lá saírem, para não contaminarem as populações das cidades com seus males.

Ainda bem que o mundo evoluiu, a abordagem médica mudou e vacinas, antibióticos, novos medicamentos, terapias e muita tecnologia salvam vidas, sem fogueiras, leprosários, maldições e isolamentos. Opa, eu disse isolamento? É, meus caros, existe uma diferença entre quarentena e isolamento (e ainda o distanciamento social) mas, como estamos no Brasil, misturaram tudo e uma boa parte da população (e “autoridades”), acaba fazendo o que lhe dá na cabeça, o que “ouvem por aí”.

Para falar a verdade, estou sendo injusto: gente sem noção existe em qualquer lugar do mundo, não importa a cor, nacionalidade, sexo, dinheiro e sequer educação. Países de primeiro mundo erraram feio enquanto outros, nem tão de primeira assim, mas completamente autoritários, trataram de fechar suas fronteiras, imprensa e recolher cidadãos recalcitrantes. Ou alguém acredita que a Coreia do Norte, por exemplo, não teve nenhum caso sequer da doença? A Arábia Saudita? Ah, me poupem!

Na verdade, a humanidade ficou (ou ainda está) perdida, sem saber de onde essa desgraça saiu, incapaz de conseguir uma vacina sequer ou mesmo entender até onde a doença pode ir. Seria o fim do mundo? Pois é… Eu mesmo, nascido no início da década de 50, que sempre acreditei que nos exterminaríamos com armas nucleares e fogo (olha ele ai outra vez), fico aqui pensando se vamos perder a guerra para um inimigo simples e pequeno, formados por uma cápsula proteica envolvendo seu material genético.

Falam em guerra bacteriológica e nações apontam o dedo para outras, responsabilizando-as pela origem e disseminação do vírus. Para mim essa teoria é furada e por um motivo forte: qual a razão para tirar vidas de eventuais consumidores de nossos produtos e serviços? Hoje em dia um iPhone, por exemplo, é projetado e vendido por uma empresa norte-americana e fabricado… na China. Todos sairiam perdendo, não é mesmo?

Teorias da conspiração à parte (afinal, a imaginação ainda é nossa), quem garante que não estamos sob “ataque” da Natureza, uma reação biológica ou sei lá o quê aos nossos desmandos, destruição desenfreada do meio ambiente, êxodo de milhões de pessoas para megacidades, poluição dos oceanos, rios, lagos, nascentes, acreditando que a água, elemento vital para a vida, vai se regenerar e nos servir eternamente…

Ou será que voltamos ao começo da civilização e os antigos monstros, demônios, duendes, vampiros e assemelhados retornaram em forma de vírus para nos possuir?

E depois? O quê, você quer saber mesmo o que vem depois da pandemia? Tá bom, eu conto: 1/3 da população mundial que sobreviver vai ficar curada, não me pergunte como. O restante vai se transformar em zumbis, devorando tudo o que vier pela frente. Quando não restar mais nada, comerão uns aos outros e é isso. Da raça humana só sobrarão alguns monumentos, tipo a Torre Eiffel, que não farão o menor sentido para alienígenas.

– Fala sério, cara, alienígenas! Está bom, vou tentar, mas tenha em mente que será puro achismo. Primeiro, a economia mundial vai, ou melhor, está tomando um baque danado e sua recuperação pode ser bem lenta. Lembre-se que no início do século XX, a Gripe Espanhola provocou uma recessão que desembarcou na Segunda Guerra Mundial. O The New York Times de hoje mostra três pontos, que valem para todo o mundo: 1) o que acontecerá com o Covid-19? Desenvolveremos uma vacina ou ele sofrerá uma mutação e ficará menos grave? 2) Ainda não é possível determinar quantas pessoas não tiveram nenhum contato com o vírus e 3) na falta de uma vacina ou tratamento pode levar a uma nova crise se todos saírem do isolamento. (https://www.nytimes.com/2020/04/18/health/coronavirus-america-future.html) Mas pode piorar… E se não contivermos o vírus?

Para encerrar, a humanidade vem sendo assolada por pestes desde seu surgimento e a cada evento uma quantidade enorme de vidas são perdidas. Evoluímos a cada episódio mas, infelizmente, as doenças também. O que me revolta é constatar que com tantos recursos, conhecimentos e profissionais altamente habilitados, não sejamos capazes de cuidar da saúde das quase 8 bilhões de pessoas que povoam este planeta.

Pois é, meus caros. Se não mudarmos, se continuarmos passivos, ignorantes, sem esperança ou simplesmente sem vergonha na cara, a próxima pandemia pode ser a última.

Carlos Emerson Jr. (abril /2020)

Feliz Páscoa

Nos fará bem olhar o crucifixo em silêncio e ver quem é o nosso Senhor: é Aquele que não aponta o dedo contra ninguém, mas abre os braços para todos”
(Papa Francisco)

Que as palavras do Papa Francisco sejam um norte para uma humanidade que, com exceções, sempre busca um culpado para suas frustrações, medos e desespero. O mundo não será mais o mesmo depois dessa doença que está levando tantas vidas e seremos os responsáveis pelas mudanças, espero que para o bem de todos nós. Chega de guerras, preconceitos, fome, ignorância. Lembremos que somos todos um só povo, somos todos irmãos. Com fé e esperança no coração, podemos construir um mundo mais justo e em paz.

Feliz Páscoa!

Gratidão

Foto: Carlos Emerson Jr.

“Só há felicidade se não exigirmos nada do amanhã e aceitarmos do hoje, com gratidão, o que nos trouxer. A hora mágica chega sempre”. (Hermann Hesse)

E é com o coração cheio de amor e gratidão e lágrimas que insistem em descer dos meus olhos que agradeço aos Dr. Sérgio Polo, cirurgião e gastroenterologista aqui de Nova Friburgo que diagnosticou minha doença e deu um norte para minha cura.

Agradeço ao Dr. Flávio Sabino, cirurgião oncologista e sua equipe, que tirou minhas dúvidas e medos, me operou e cuidou de mim durante toda a hospitalização.

Agradeço aos médicos, equipes de enfermagem e de serviços de saúde do Hospital Quinta D’Or, no Rio de Janeiro, sempre atenciosos, eficientes e carinhosos. Ao pessoal do CTI, que “hospedou” esse velho paciente por sete dias, um obrigado especial: vocês foram demais.

Agradeço aos amigos e vizinhos que colocaram meu nome nos cultos Católicos, Evangélicos, Messiânicos, Presbiterianos e Espíritas. O tempo todo me consolava sabendo que Ele estava perto de mim. Da mesma forma, agradeço a preocupação e alegria quando de meu retorno. Valeu muito!

Agradeço a minha família, especialmente minha querida irmã Regina e meu cunhado Pedro, que me acompanharam nesta jornada e ainda me deram abrigo, amor e alimento em sua casa antes que eu fosse liberado para voltar para Nova Friburgo.

Agradeço a minhas filhas Mariana e Denise por toda a ajuda, orações, companhia e amizade por esse pai que tanto adora vocês!

Agradeço a Fafá, grande paixão amor de minha vida, presente em todas as horas boas e ruins que vivemos juntos no mês de março, carinhosa e cuidadosa ao extremo. Não tenho como pagar essa dívida a não ser com muito amor.

Finalmente, agradeço a Deus pela benção, proteção, força e serenidade que me permitiram passar por essa provação. Obrigado, Senhor.

Com gratidão,
Carlos Emerson Jr.

Ponto de vista

Foto: Bettmann/Getty Images

Fico imaginando como seria essa quarentena a uns 60, 70 anos atrás. Hoje dá para tirar de letra: o cidadão (de posses, é claro) tem a internet e com ela pode trabalhar em casa em seu home office, a televisão e seus inúmeros canais a cabo, streaming e suas séries e filmes, o smartphone com os aplicativos de comunicação, jogos, bancos, compras, consultas médicas e tudo mais que você imaginar.

Nos anos 50 não tinha nada disso. Telefones (isso mesmo, aquele que chamamos de “fixo”) era coisa de gente rica ou de grandes empresas. Os orelhões ainda não tinham sido inventados e a gente era obrigado a procurar uma agência da extinta Cia. Telefônica Brasileira, a CTB, encarar filas, pedir a ligação e voltar (ou esperar ali mesmo) umas duas horas para que a comunicação fosse estabelecida.

Televisão? Os aparelhos até já existiam, com imagem em preto e branco, é claro. O problema era a falta de programação das pouquíssimas estações que existiam. Na maior parte do dia a imagem era apenas um chuvisco e só à noitinha alguns programas, desenhos e filmes eram transmitidos precariamente. No máximo umas três horas diárias. Ah, sim, os receptores de TV eram caríssimos.

O rádio dava show. Muitas estações, muita informação, músicas, programas de auditório e noticiários. Pena que a maioria dos transmissores não tinha grande potência e seu alcance, geralmente, era restrito. Mas, quem podia, se virava com os bons aparelhos de ondas curtas, podendo curtir e se informar com os programas em português da Voz da América, BBC, Rádio de Moscou, Deustche Welle alemão, Radio France e tantas outras. Minha mãe contava que acompanhou toda segunda guerra mundial pelas ondas da BBC inglesa. E lá em Cuiabá, no Mato Grosso, nos anos 40!

Hoje, se o dia estiver quente, basta ligar o ar-condicionado de seu Home Office e pronto, temperatura de montanha para trabalhar e curtir o dia trancado em casa. Nos anos 50? Bom, como até mesmo os ventiladores de teto ainda não tinham sido inventados, você tinha que se virar com uns aparelhos grandes, pesados e com motores barulhentos e pouca potência, ou seja, ia continuar a sentir calor, só que com um fundo nada musical.

Computadores? Notebooks? Tablets? Tá de brincadeira, não é? Máquina de escrever manual (as elétricas surgiram bem depois) e olhe lá. E isso significava trocar a fita de impressão, limpar periodicamente os tipos, lidar com papel-carbono (nem gosto de lembrar) e corrigir um erro significava teclar tudo outra vez, com muita atenção, perdendo um tempo danado.

Grande parte dos trabalhos era feita em livros ou cadernos pautados, com caneta tinteiro (o quê, você nunca viu nenhuma? Acredita que tenho até hoje uma Parker 51 e uma Montblanc? É, tô velho mesmo…), mata-borrão, lápis, gilete para apontar o lápis, borracha para apagar os erros escritos com lápis e por aí vai. Confesso que tinha a maior admiração por quem escrevia à mão seus livros, artigos para jornais e revistas, trabalhos financeiros e de contabilidade e por aí vai. Para mim, isso seria impossível já que nunca consegui ter uma letra legível.

Uma grande mudança foi a invenção do delivery service e, é claro, os motoboys. Você tem fome e o almoço na geladeira é sobra de dois dias atrás. Sem problemas. Basta pegar o smartphone, abrir um aplicativo, escolher o prato e voilá! Em pouquíssimo tempo sua refeição é entregue em casa, quentinha e fresquinha. E essa oportuna modernidade serve para quase tudo ou, como o pessoal fala, tem aplicativo para tudo o que você imaginar. Já nos anos 50…

Claro que ficar fechado em casa, sem prazo visível para sair, não é nada agradável, especialmente se a causa é uma pandemia. A devastação que a Gripe Espanhola fez a partir de 1918, matando entre 17 e 50 milhões de pessoas e infectando um quarto da população do planeta na época, é o grande alerta para os dias de hoje. Mais uma vez estamos em vantagem: temos conhecimento científico mais avançado, equipamentos, hospitais, medicamentos, profissionais da área bem preparados e, principalmente, comunicação instantânea com qualquer lugar do mundo. Tentem imaginar como era combater uma doença a mais de 100 anos atrás.

Acho que ninguém duvida que a paralisação da economia vai provocar efeitos colaterais terríveis. Mas, enquanto não descobrirem uma maneira de parar ou tornar o vírus inócuo, temos que confiar que as medidas duras que estão sendo tomadas podem e possivelmente estão salvando vidas. Só espero que, passada a crise, não se esqueçam que outros vírus podem surgir e que levem a sério a prevenção contra essas catástrofes.

Pois é… Tomara que nossos políticos algum dia mudem e pensem da mesma maneira. Boa quarentena, meus queridos leitores.

oOo

PS: a foto que ilustra este texto foi tirada na Espanha, por ocasião da Gripe Espanhola, em 1919.

Conselhos do Barão

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“Quem inventou o trabalho não tinha o que fazer. (Barão de Itararé)”

Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, jornalista, escritor e humorista, o Barão de Itararé, era um pândego mesmo. Imagino o que ele não aprontaria nesses dias sombrios! Algumas de suas tiradas são geniais, como “o Brasil é feito por nós. Está na hora de desatar esses nós.” Ou “de onde menos se espera, daí é que não sai nada” e a famosa “não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar”.

O Barão realmente era terrível! De minha parte, isolado em casa na serra fluminense, vou dividindo minha quarentena com meus textos, já nascidos ou não, livros ainda não lidos e longos papos com a família pelos Skypes e Zooms da vida. Sem ter como saber com essa história toda vai terminar, um trabalho, seja ele qual for, além de produtivo, pode ser uma terapia, até mesmo um passatempo.

Sorria, apesar de tudo, da quarentena e das contas a pagar! “Se você tem dívida, não se preocupe, porque as preocupações não pagam as dívidas. Nesse caso, o melhor é deixar que o credor se preocupe por você.” Conselho do Barão de Itararé, é claro.

Quarentena

Foto: Reuters

“- Vocês acham que estou brincando? Pois fiquem sabendo que só vão sair do quartel quando o Alto Comando desistir da estupidez de aceitar as exigências de um grupelho de terroristas. Vamos resistir até o fim, lutar como homens pelo Brasil, mesmo que fiquemos aqui o resto da vida. Quero só ver quem acha engraçado quando eu falo de quarentena, bando de mocorongos”.

Pois é, a “quarentena” do sargento, na verdade uma prontidão com armamento de combate, barricadas, arame farpado e metralhadoras antiaéreas durante o sequestro do embaixador americano no Rio de Janeiro em 1969, durou exatamente uma semana, muitos momentos de tensão, a mobilização de toda a pequena tropa e oficialidade do Quartel General e um medo enorme quando anunciaram que a Divisão Blindada estava vindo de Deodoro para nos varrer completamente do mapa.

Passou, é claro. O embaixador foi solto e no domingo seguinte fomos desmobilizados e voltamos para casa, com a sensação que defender a pátria é muito mais complicado do que nos ensinam. Quem tinha razão, no final das contas? Enfim, essa foi a minha quarentena de uma semana, com uniforme de combate, capacete de aço, granadas ofensivas de mão e o bom, confiável mas infelizmente ultrapassado fuzil Springfield a tiracolo.

O tempo passou, escreveram uma nova Constituição, governos vieram e se foram, as eternas crises de sempre continuaram presentes e, para meu espanto, 51 anos depois, durante uma cirurgia para tirar um câncer do intestino, voltei da anestesia no meio de uma nova quarentena, desta vez sem armas, sem prazo para terminar, contra um inimigo quase invisível. Ninguém sai de casa, lojas e fábricas paradas, fronteiras e divisas fechadas.

O pior é o medo. Enquanto em 1969 meu pavor era levar um tiro ou ser cortado ao meio por uma rajada de metralhadora de um tanque Sherman hoje, na condição de “grupo de risco”, ou seja, imunocomprometido, idoso, hipertenso e tratando um câncer, não passo de um alvo certeiro e possivelmente fatal do vírus chinês que assola nosso sofrido planetinha. Que saudade dos blindados!

Resta algum futuro? Sinceramente, espero que sim, embora acredite que existe uma possibilidade que, daqui para a frente, tudo seja diferente. Para melhor ou pior não dá para saber, pelo menos, agora. A discussão sobre a validade da quarentena é estéril. Achatar a curva de atuação do vírus pode significar sua explosão mais adiante, com resultados catastróficos diante das economias já combalidas pela sua paralisação.

E qual é a saída? Bom, para a doença a solução tem que vir da comunidade científica, como uma vacina ou medicamento capaz de, pelo menos, minimizar os danos de um contágio e sua morbidade. A boa notícia é que cientistas, médicos, laboratórios e universidades de todos os países pesquisam febrilmente em busca da cura. Torço para que seja apenas uma questão de tempo.

Mas como ficaria a economia mundial? Aí é outra história e bem complicada. Tudo leva a crer que a atividade econômica mundial vai parar ou quase isso, a medida que a quarentena se expanda e perdure, o que significa uma baita recessão. Quebra de empresas, desemprego em massa, miséria. E piora muito se o vírus chinês ainda estiver dando as caras por aí.

Não é bom sequer imaginar o tamanho da desgraça, afinal o vírus chinês tem potencial para provocar uma crise planetária sem precedentes, deixando os sobreviventes em uma situação só vista em filmes de ficção científica ou de apocalipse. As medidas sanitárias até agora tomadas são as possíveis, pelo menos enquanto não se vislumbra uma cura a curto ou médio prazo.

E aí me lembro da bronca da quarentena do sargento da guarda, em um quartel do Exército nos anos 60. O que aconteceu foi muito grave e quase provocou uma ruptura sangrenta no Brasil, apesar da completa falta de informações à sociedade civil. No entanto, aquela crise vista com os olhos atuais não passou de uma, com todo respeito, quartelada e ainda bem que ficou só nisso. Acredito que hoje, com toda a overdose de informações que temos (trazendo como efeito colateral muita desinformação intencional ou não), temos a obrigação de colaborar como pudermos, nem que seja para nos manter vivos. Agir como uma sociedade civilizada e organizada é essencial.

Muita calma nessa hora, gente!

Conversa de escritor. Ou será de torcedor?

Pois é, meus amigos, acabei de perceber que é praticamente impossível escrever um artigo, crônica, conto, post para o blog, o que quer que seja, ouvindo pelo rádio uma transmissão de um jogo de futebol com o meu Botafogo. O problema é que a cada ataque do time adversário, as ideias fecham os olhos e brotam aos borbotões, sem o menor nexo, sentido ou lógica quando meu time contra-ataca. O pensamento voa, possivelmente para um estádio distante, a criatividade desaparece a cada berro do locutor da partida (é, descobri que o pessoal do rádio ainda narra um jogo como se estivesse nos anos 60…), a gente se desespera quando o inimigo faz um gol, uma sensação de impotência toma conta de nossa mente e nossa alma e a única reação nem um pouco racional é xingar a mãe e toda a geração dos alemães, perdão, da torcida adversária. Noventa minutos de sofrimento depois a produção se resume a uma tela em branco no editor de textos. Perdi a inspiração, o trabalho, meu tempo e o jogo foi muito ruim.

Partida

Foto: Carlos Emerson Jr.

O tempo passa, a gente não liga e um belo dia, quando percebemos, estamos iguais ao teatro da foto, ruinas quem nem de longe lembram que ali brilhou nas décadas de 30 e 40, o Cassino da Urca, uma das joias do Rio de Janeiro. E aí finalmente entendemos que a hora de ir embora chegou ou está próxima e nos sentimos como nos versos do poeta, “porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade…” Obrigado, Oswaldo Montenegro.

De volta para o passado

Quantas vezes já ouvimos (ou lemos) que as viagens no tempo são possíveis apenas nos romances ou filmes de ficção científica? Sempre, não é mesmo? Mas, será que essa afirmativa corresponde à realidade?

Imagine a seguinte cena: Aeroporto de Haneda, em Tokyo, no Japão. Depois de comemorar a passagem do ano, embarcamos no voo NH106, da All Nipon Airways, com destino a Los Angeles, nos Estados Unidos. O avião, um Boeing 777, decola após a meia-noite, com mais de vinte minutos de atraso. A tripulação e os passageiros se desejam um Feliz Ano Novo e depois de nove horas e cinquenta minutos de voo, aterrissamos no Aeroporto Internacional de Los Angeles, exatamente às 16:32 horas do dia 31 de dezembro de 2019.

Pois é…. Voltamos ao passado e graças aos fusos horários (confira a jornada no print do site FlightRadar24 abaixo), podemos comemorar a chegada de 2020 pela segunda vez. Foi ou não foi uma viagem no tempo?

Por favor, não soltem fogos

Thomas Lloyd Busterbrown

Vou pedir um grande favor: neste final de ano, não solte fogos. Muito obrigado. Aqui em Nova Friburgo a Lei Municipal 4561/17 proíbe todos os que causam poluição sonora em locais fechados e ambientes abertos, em áreas públicas e locais privados. Já o decreto 329, de 3 de dezembro de 2018, bane a queima e o manejo de fogos de artifícios e pirotécnicos que façam barulho.

Foi a resposta da Câmara de Vereadores e da Prefeitura à pressão da nossa população contrária ao uso desses artefatos. Animais domésticos e silvestres, bebês e crianças pequenas, idosos, autistas, pessoas doentes ou com necessidades especiais sofrem. E não é só, tem quem saia queimado, atingido por esses verdadeiros mísseis, incêndios são provocados, ainda mais em nossa cidade, cercada de Mata Atlântica por todos os lados. E mais, a fumaça desprendida do uso dos fogos é tóxica, podendo desencadear crises em asmáticos, por exemplo, além de encher o ar de produtos cancerígenos como enxofre e arsênico, entre outros.

Segundo o jornal A Voz da Serra, a Prefeitura de Nova Friburgo vai colocar guardas municipais e agentes da secretaria de Posturas na passagem de ano, para aplicar a lei e enquadrar os recalcitrantes. Aliás, pede também a colaboração da população fotografando ou filmando quem estiver cometendo esse desumano ilícito: basta se dirigir à Ouvidoria Municipal, no Centro.

É isso, queridos amigos. Os fogos ainda resistem por causa de megacidades, como o Rio de Janeiro e São Paulo, que gastam fortunas em pólvora e incentivam o seu uso indiscriminadamente. Lembrem-se a data é de alegria e muita festa, mas também de solidariedade, empatia e cuidado com o próximo, seja ele um recém-nascido, um autista, idoso, cachorro ou gato. Afinal, como bem disse o Papa Francisco, “a compaixão também é a linguagem de Deus.”

Por favor, não soltem fogos.

Tudo bem no ano que vem.

Pintura: Marie Lamoureaux

E não é que estamos chegando ao fim de 2019? Mas por favor, não se preocupem, não vou fazer nenhuma retrospectiva, isso é com a imprensa, que precisa vender jornal numa época do ano em que ninguém está interessado no passado. Enfim, claro que não vou entrar nesse erro e minha ideia é (ou era) falar do futuro, de 2020, o ano que completarei, se a vida permitir, 70 anos de idade, uma eternidade!

Brincadeiras à parte, nem preciso ser vidente para saber o que 2020 promete: um verão abrasador no Rio de Janeiro, chuvas de verão apavorantes aqui em Nova Friburgo, incêndios na Amazônia e no Cerrado no inverno, acompanhados de acusações de “personalidades” internacionais, prisões de políticos e empresários envolvidos em corrupção, sua imediata soltura pelo “Supremo”, confusões rumorosas de artistas “famosos” e, infelizmente, o choque diário com a violência nossa de cada dia.

No futebol não tem erro, o Flamengo deve ganhar tudo de novo, o VAR será mais um motivo para discussões intermináveis e o meu querido e sofrido Botafogo, se as mudanças internas não derem resultado, continuará a disputar para não ser rebaixado. Que coisa! Sinto muito, mas não acredito que a seleção brasileira de Tite traga a Copa lá do Catar. Aliás, fico com a sensação que essa previsão é óbvia demais…

No resto do mundo seguem as guerras e os atentados de sempre. China, Rússia e Estados Unidos continuarão se ameaçando mutuamente, sem a menor intenção de destruir o inimigo, é claro, vê lá se eles são bestas de perder mercados de milhões de pessoas. O problema são os menores, Coréia do Norte, Estado Islâmico, Boko Haram e similares em sua cruzada louca tentando destruir o planeta. Desses a gente não ser livra nunca…

E as promessas de fim de ano? Ah, um barato! Deixar de fumar, retomar a dieta com seriedade, dar um descanso para a bebida (depois do dia 6, é claro), voltar para a academia, cuidar da saúde, juntar dinheiro para viajar, controlar a impulsividade, procurar e ser gentil com os parentes, cultivar as amizades, ajudar os necessitados, procurar um marido, um emprego e sair da casa dos pais, não necessariamente nessa ordem. Pois é!

Mas piora, caros amigos. Ano que vem tem eleições municipais e aí não tem jeito, volta o “nós” contra “eles”, esquerda contra direita, centro contra todo mundo, discussões, inimizades, assédio de cabos eleitorais, regularizar nossa situação eleitoral, ouvir promessas impossíveis, pesquisas de opinião, ligações de telemarketing, fila de votação e a desgraça final, não encontrar um único nome decente para votar. Enfim, como é nosso “dever cívico”, vamos todos às urnas. E seja o que Deus quiser, afinal não garantem que ele é brasileiro?

Feliz Ano Novo!

Pirralhos

Foto: Little Rascals (1932)

Você sabe o que é pirralho? Palavra de origem obscura, no Brasil e em Portugal significa “criança”, “jovem”, indivíduo de pequena estatura” e em sentido pejorativo “criança ou jovem atrevido ou com pretensões de adulto”. Considerada um brasileirismo, só aparece nos textos brasileiros dos séculos XVIII e XIX, e em Portugal nas regiões da Beira, Minho e Madeira. Mas isso não importa, a palavra existe e é antiga.

A propósito, o jornalista e poeta brasileiro, Emílio Nunes Correia de Menezes, nascido no Paraná em 1866, deixou uma frase ótima usando a palavra “pirralho”: “apertado para aliviar a bexiga, correu até um terreno baldio. Muito gordo, estava a desafogar-se quando um pirralho grita: Ih, eu vi seu negócio!. Satisfeito, Emílio tirou do bolso uma cédula de alguns réis, dando-lhe: “Tome, você merece! Há muitos anos não o vejo…”

Machado de Assis, no seu conto “Bons Dias”, conversando com um escravo: “– … Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos…” E no “Diálogo” da “Teoria do Medalhão”, o pai conversa com o filho: “- Saiu o último conviva do nosso modesto jantar. Com que, meu peralta, chegaste aos teus vinte e um anos. Há vinte e um anos, no dia 5 de agosto de 1854, vinhas tu à luz, um pirralho de nada, e estás homem, longos bigodes, alguns namoros…”

E, para não esquecer as obras primas, em seu romance “Dom Casmurro”, no capítulo 22, Sensações Alheias”, o autor conta o pensamento do narrador e… “Ciúmes não podiam ser; entre um pirralho da minha idade e uma viúva quarentona não havia lugar para ciúmes.” Precisa mais? Precisa, é claro.

José Mauro de Vasconcelos, em seu premiado e muito vendido “O Meu Pé de Laranja Lima” escreveu “A carranca do Português parece que aumentara. Seus olhos despendiam fagulhas. – Então, moleque atrevido. Eras tu? Um pirralho desses com tal atrevimento! … Deixou que meus pés tocassem no chão”

*****

Pois é, meus caros, meus pais cansaram de me chamar de pirralho. Eu mesmo, aliás, volta e meia usava o pirralha com minhas filhas. A palavra, que estava esquecida, foi bastante usada nos anos 50/60/70, sem provocar nenhum trauma, ao contrário do acontece hoje em dia. Vai entender…

Carlos Emerson Jr (2019)

Metrô

Foto: Tomi Um (New York Times)

A plataforma de embarque do Metrô na estação Copacabana como sempre cheia, muito cheia. Final de dia, queria o quê? Pelo menos os trens não estão atrasados. Logo uma luz surge na escuridão do túnel, anunciando sua próxima chegada. Vagões cheios, a multidão na plataforma se desloca para as suas portas e a lei da física mais uma vez confirma que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo e um impasse absurdo se estabelece, ninguém consegue entra ou sai da composição. Eu sei, o bom senso e a educação mandam que quem vai embarcar aguarde quem vai desembarcar, mas… Deixa pra lá.

A primeira fase da viagem, até a Estação Central do Brasil, é um tormento. O excesso de lotação não permite sequer um reles pensamento. Dali para a frente, o carro vai esvaziando e dá uma melhorada. Se der sorte, consegue até para sentar, tirar o celular do bolso e conferir as redes sociais. Aliás, quase todo mundo no vagão, mesmo quem viaja em pé, faz o mesmo. A cabeça inclinada, os olhos atentos na telinha iluminada. Foi-se o tempo que os passatempos preferidos dos passageiros eram dormir ou observar o sujeito do banco da frente, a moça ao lado da porta, o casal de velhinhos no banco preferencial. Agora é tudo virtual.

Chego ao meu destino, saio do carro, subo as escadas da estação para a luz da rua e só aí me dou conta que esqueci a pasta com o trabalho para terminar logo mais mais à noite. Não dá para deixar para lá, o assunto é importante, tão importante que tomo a dura decisão de embarcar de volta ao escritório, pegar minha pastinha e retornar para casa. Mais uma ou duas horas perdidas. Acontece. Numa das colunas um cartaz com um Cristo Redentor acima de uma cidade maravilhosa improvável, me observa desalentado. Neste instante as portas se abrem, sento lá no fundo do vagão, fecho os olhos e tento cochilar um pouco. Afinal, o Metrô leva, o Metrô traz. Simples assim.

O trem de Nova Friburgo

Um trem em plena Avenida Alberto Braune e ainda por cima na contramão? Brincadeira de Photoshop? Negativo.

Segundo o site Estações Ferroviárias, a estação de trens de Nova Friburgo foi inaugurada em 1873, como parte da Estrada de Ferro Cantagalo, que ia de Porto das Caixas, em Itaboraí até o hoje município de Macuco.

Em 1887 a ferrovia passou para a Leopoldina e foi desativada, com todas as suas estações, em 30 de maio de 1967.
A estação Nova Friburgo hoje em dia é ocupada pela Prefeitura Municipal da cidade, mantendo seu estilo arquitetônico.

A linha do trem atravessava a Alberto Braune e as praças Dermeval Moreira e Getúlio Vargas. Para evitar confusão no trânsito da cidade, o trajeto entre a atual Prefeitura e a estação de Conselheiro Paulino tinha que ser feita em, no máximo 10 minutos.

Aliás, existe a ideia de transformar esta estação no “Museu do Trem”, com o acervo das Estradas de Ferro Cantagalo e Leopoldina. Mas como as coisas demoram um pouco para acontecer, aguardemos…

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Esta crônica foi escrita em maio de 2009 para o site “Contos de Nova Friburgo”.

Velejar

Foto: Carlos Emerson Jr.

Se tem uma coisa que tenho saudades do Rio é o mar. Nascido e criado em Copacabana, tendo sua praia como única área de lazer, lá aprendi a nadar e, principalmente, conhecer os humores e respeitar o oceano. Vi ressacas históricas, peguei muito jacaré como quase todo mundo nos anos 60, fui queimado pelas traiçoeiras águas-vivas e, certa vez mergulhando, dei de cara com uma baita arraia e seu ferrão. Não sei onde fui consegui coragem para virar e nadar até a faixa de areia, completamente apavorado!

Um dia resolvi aprender a velejar. O cais aí da foto, lá na Marina da Glória, no Parque do Flamengo, era onde ficava o veleiro escola, um barco pequeno e robusto, fácil de manejar. Foram alguns meses de aulas, sempre aos sábados depois do almoço, com sol, chuva, vento ou nevoeiro. Afinal, Machado de Assis já dizia que “não é em terra que se fazem os marinheiros, mas no oceano, encarando a tempestade”.

Velejando descobri que o mar da Baia da Guanabara é diferente do mar aberto do oceano. Se as ondas por aqui são suaves, os barcos estão por toda a parte. Grandes, pequenos, feios, bonitos, modernos, velhos, veleiros, traineiras, botes, canoas, iates, o que o freguês imaginar. E dos atracadouros do Iate Clube, do Quadrado da Urca e do cais do Forte São João, saem ou chegam os barcos que cortam essas águas antigas levando gente para outras paragens.

Tudo bem, nunca nos aventuramos fora da Barra. Íamos até a boca para curtir o tamanho das ondas e retornávamos felizes. Só isso bastava.O importante era a técnica, o domínio da embarcação, não a aventura, até porque não há mais terras para descobrir. Mas podemos sonhar que ainda há peixes para pescar, praias para conhecer, ondas para enfrentar, nevoeiros para desbravar, correntezas para desviar. Aos barcos, rumo ao horizonte navegar: “marujos, levantar ancora, içar velas, soltar as amarras!”

Um belo dia o pequeno veleiro cortava a Baia da Guanabara, perto da Praia do Flamengo, quando o instrutor avisou, onda à frente. Embiquei a proa em sua direção, subimos até o alto de sua crista e descemos, prontos para encarar a próxima. Mas não veio nenhuma outra. O mar voltou a ficar liso e o vento manso. Acho que aquela onda foi só uma brincadeira. Do tipo, acorda aí, marinheiro!

Que pena… Nunca mais velejei.

Os vagalumes ainda estão aqui

Foto: Carlos Emerson Jr.

No último dia 15 de novembro completaram-se dois anos de nossa mudança definitiva da cidade do Rio para Nova Friburgo. A adaptação foi rápida e parece que já moramos a vida inteira aqui na serra. Descobrimos que nosso apartamento, comprado ainda na planta a quase vinte e quatro anos, é um dos poucos que se manteve original. Também, pudera, só era usado nos feriados e algumas férias mais prolongadas. Hoje, abriga sua família, mas visivelmente precisa de reformas nos banheiros, pintura nos quartos, estofamentos novos na sala.

Ah, sim, qualquer hora dessas vou testar a lareira, desativada já tem tempo, quando descobrimos porque fuligem e fumaça nunca são lembrados quando o pessoal elogia o charme desse sistema de aquecimento que vem acompanhando a humanidade desde…. A descoberta do fogo?

Na cozinha a situação pede mais cuidado. A máquina de lavar, que não era nenhuma Brastemp mas segurou a barra esse tempo todo, não resistiu ao uso diário e faleceu. Em seu lugar entrou uma Brastemp legítima, é claro. O microondas, um velho Panasonic cansado de guerras, também cansou e, apesar do lado afetivo (pipocas e filmes na TV com as filhas pequenas), teve seu merecido repouso. A geladeira e o fogão devem ir pelo mesmo caminho, mas por enquanto, seguram a barra com galhardia!

Temos dois bons closets e um porão enorme. E é aí, coitado, atulhado de caixas de todos os tipos, origens e documentos possíveis, que está o nosso maior desafio. Temos que abrir pacote por pacote, estudar documento por documento e imbuir a alma do mesmo sentimento que tivemos quando saímos do Rio, um desapêgo brutal. A essa altura, com mais de vinte anos, não temos a menor idéia do que tem ali dentro e fico com a sensação que de útil mesmo, vamos aproveitar uma ou duas caixas.

A parte elétrica está ok e, como agora tenho um escritório em casa para chamar de meu e de escritório mesmo, atualizei a conexão à rede pelo sistema de fibra ótica, ligado diretamente na operadora do serviço. Melhorou mil por cento e a internet só cai quando falta luz que, por sinal, evoluiu. Bastava chover, ventar ou cair raios que apagava tudo. Agora, só quando tem tempestade de raios.

Foi bom voltar a conviver com quadros, pratos ornamentais (é isso mesmo?) e demais enfeites que espalhamos ao longo desses anos pela nossa casa. Ainda estão bonitos e cada um tem uma história. Um ótimo marceneiro salvou o estrado de nossa cama de casal. Falta só trocar o colchão por um mais moderno para ficar ok. Pois é, estou notando que falei muito e não disse nada sobre Nova Friburgo, não é mesmo? Peço perdão, mas casa da gente é muito bom. E olha que nem contei como está bonito o bosque que separa os chalés, o silêncio das noites, os passarinhos que vem conversar na jardineira do quarto todos os dias, bem cedinho.

Mas o melhor de tudo aconteceu na semana passada, numa dessas faltas de luz generalizadas: no escuro, percebemos que ainda existem vagalumes, muitos vagalumes por aqui. Quase chorei de emoção.

As cidades exterminadas

Foto: Carlos Emerson Jr.

Uma observação para os “jornalistas profissionais” e “colunistas especializados” do Globo: desde ontem, o jornalão carioca e o Portal G1 noticiam continuamente que o governo federal vai extinguir mais de 1.000 cidades que não preencham requisitos mínimos financeiros, densidade populacional e por aí vai. Aliás, a foto do post foi feita com uma matéria da edição impressa de hoje, dia 6 de novembro, na página 20.

O site Brasil Escola, explica de maneira didática e simples a diferença entre município e cidade:

Por cidade, entende-se o espaço urbano de um município delimitado por um perímetro urbano. Para ser considerada cidade, é preciso ter um número mínimo de habitantes e uma infraestrutura que atenda minimamente as condições dessa população, mesmo que essa cidade seja dependente de outras que se localizem próximas a ela.”

Por município, entende-se o espaço territorial político dentro de um estado ou unidade federativa, é o espaço administrado por uma prefeitura. O município possui a sua zona rural e a zona urbanizada. Um mesmo município pode ter várias cidades, também chamadas de distritos, de forma que o nome do município será o mesmo da cidade principal ou do distrito sede, e é nesse distrito que se encontra a administração ou prefeitura.”

Extinguir 1.254 cidades só com armas nucleares, bombardeios aéreos de saturação, barragens de artilharia, mega operações de engenharia de demolição e por aí vai. E ainda nem falei dos refugiados. Onde vamos abrigar os dois, três, quatro mil moradores das cidades “exterminadas”? No Projac? Pois é. E aí vem o diretor de jornalismo do Globo garantir que eles são sérios. Estou morrendo de rir.

Vendeu a alma e não foi ao teatro

Foto: Carlos Emerson Jr.

Platéia e palco vazios. Uma sensação de abandono e desesperança ocupam os lugares esquecidos, coxias às escuras, camarins desertos, bilheterias fechadas. Ninguém vai aparecer para apresentar um espetáculo que ninguém assistirá. Infelizmente acabou, c’est fini.

Este post é dedicado a alguns colunistas da imprensa (eles sabem quem são) que, por motivos diversos, perderam todo o sentido, todo o conteúdo, toda a alma e, é claro, toda a honestidade. Meus sentimentos.