O banquete dos mendigos

Foto: Fabio Rodrigues (G1)

Bobó de camarão, camarão à baiana, frigideira de si, moquecas capixaba e baiana e medalhões de lagosta. Aliás, as lagostas devem ser servidas com molho de manteiga queimada.As bebidas não ficam atrás: uisque com 10,15 ou 30 anos, espumantes, vinhos Tannat ou Assemblage, safra 2010 e que tenha vencido pelo menos 4 (quatro) premiações internacionais. Além do mais, deve ter sido envelhecido em barril de carvalho francês, americano ou ambos, de primeiro uso, por período mínimo de 12 (doze) meses. O valor da licitação é de R$ 1,13 milhões. (Estadão)

Pois é errei o título do post, esse banquete não é sequer para os brasileiros.

O Imperador da Paz

O imperador da paz
Foto: Ytsuo Ynouye

O 125º Imperador do Japão, Akihito, quinto filho do imperador Hiroito (aquele mesmo da segunda guerra mundial), nasceu em 1933 e assumiu trono em 1989, onde reinou até hoje, dia 30 de abril, quando abdicou em favor do seu filho Naruhito, depois de 30 anos, por motivos de saúde (um câncer e coração). É o primeiro imperador a abrir mão do trono em 200 anos.

Confesso que cresci vendo a figura icônica do seu pai, o primeiro imperador japonês que foi ao rádio avisar ao seu povo que o Japão não podia mais continuar a guerra. Com o tempo, a história foi sendo escrita, revista e descobri que o filho Akihito era seu oposto, tendo visitado mais de 37 países, a maioria deles para pedir perdão pelos sofrimentos da guerra. Apoiou materialmente e pessoalmente as vítimas dos terremotos e da usina de Fukushima, tragédias que devastaram o Japão nos anos recentes. Em suma, era um imperador da paz.

Aliás, uma de suas últimas frases, que vai ficar marcada na minha memória, foi quando ele afirmou que sua “maior alegria era saber que durante seu reinado nenhum soldado japonês morreu numa guerra ou conflito armado”. Até onde eu sei, só o Papa pode afirmar algo semelhante.

Vai com Deus, Imperador Akihito. E oremos para que Naruhito não se meta em aventuras militares de terceiros, o mundo precisa muito de paz.

E o futuro, gente?

Pintura: Diego Rivera (1932)

Caramba, o que está acontecendo com o Brasil? Ou melhor, com os brasileiros? Quanta energia jogada fora! No domingo o pau comeu entre a turma que acha que o 31 de março de 1964 foi um golpe e os que acreditam em uma revolução redentora. Na segunda começou o mimimi sobre o nazismo: é de esquerda ou direita? Gente, vamos baixar o facho. Estamos olhando para trás, para fatos ocorridos no Século 20, há exatos 55 e 86 anos! Vocês não tem um prato para lavar ou uma calça para passar em casa? Jornalistas, analistas, sociólogos, políticos, filósofos, professores, militares, todo mundo olhando para o passado. Acabou, gente, o tempo passou na janela e os brasileiros do Século 21 não viram (e tem raiva de quem viu). Lembrem-se que viagens no tempo ainda são fisicamente impossíveis e nosso caminho, aliás, o de toda a humanidade, é para a frente, buscando um futuro melhor. É válido e obrigatório conhecer nossa história, admitir os erros e lutar por tempos melhores. Mas do jeito que estamos, daqui a pouco vamos nos odiar por causa, sei lá, da Guerra do Paraguai, que este ano completa 155 anos. Bom senso, meus amigos e calma, muita calma nessa hora. Ainda dá tempo de pensar no futuro do Brasil.

Morro de vergonha

Arte: Brian Stauffer

Morri de vergonha quando vi a prisão do quinto ex-governador do Estado do Rio, todos por corrupção. Cinco! Deve ser um recorde mundial, digno (na verdade, indigno) de constar no Guiness. Mas eles não estão sozinhos. Dois ex-presidentes, uma penca de deputados da Alerj, prefeitos, ministros, secretários, assessores, vereadores, empresários, caramba, a lista não tem fim! Senti vergonha, sim. De ser brasileiro e carioca. Não levamos eleições a sério, nem hoje, nem nunca. Eleição é tratada como um jogo de futebol, uma obrigação chata que, para quem mora no Rio, acaba atrapalhando a praia.

Votamos mal porque um parente pediu, um vizinho recomendou, um amigo avalizou. Votamos mal porque o candidato nos dá telhas para o telhado de casa, promete uma assessoria para nossos filhos, contratos milionários e certos para nossas empresas nas licitações das prefeituras. Votamos mal porque, talvez, sejamos tão corruptos quanto os canalhas que acabaram com a economia do nosso Estado do Rio, com a Segurança Pública, com a Educação e a Saúde. Vocês já perceberam como nossas cidades estão quase todas na miséria?

Pois é… Cinco governadores! Morro de vergonha.

Somos bárbaros

Candido Portinari (A Criança Morta)

Mas que humanidade é essa? Será que estamos precisando de uma reedição da segunda guerra mundial para aplacar as bestas que tomaram conta de nossas mentes e almas? Reconstruir os campos de concentração para exterminar todos os que pensam diferente de nós? Trazer de volta a doença, a fome, a sede, a miséria e morte? É esse o empoderamento que tanto falam?

Não me conformo com o massacre da escola de Suzano, os oito mortos, os dez feridos, as centenas de crianças que vão carregar para sempre um trauma horrível, conhecer a morte tão cedo, na sua frente, cega e implacável. Um dos dois atiradores tinha apenas 16 anos, tão jovem quanto suas vítimas. Qual o sentido de tudo isso?

Não me venham com papo de liberação de armas, apologia à violência. Isso tudo existe há muito tempo, quando descobrimos que matar o próximo era possível, desde que em nome do Rei, do Estado, da Lei, da Ordem, da Moral, da Religião, do Partido, da Inveja, do Preconceito, da Ignorância,de tudo! Atentados à escolas ocorrem no mundo inteiro, inclusive aqui no Brasil. Tomamos alguma atitude? Que nada, ainda estamos discutindo abobrinhas, em gênero, número e grau.

Enquanto isso, crianças morrem. Até quando, Meu Deus, vamos aceitar passivamente tamanha barbaridade? Quando trouxerem de volta a segunda guerra mundial, por favor, não se esqueçam das bombas atômicas. Talvez elas deem um jeito em nossa desumanidade.

Ano: 2050

Foto: Nattanam726/Shutterstock

Em 2050 a população do planeta chegará ao espantoso número de 9.6 bilhões de pessoas. A expectativa de vida média será de 76 anos. A Índia será o país mais populoso do mundo, enquanto a Europa registrará um decréscimo demográfico de 14%.

Em 2050, 7.2 bilhões de pessoas (75%) viverão em cidades, com as preocupações de sempre: saúde, transporte, educação, segurança e gerenciamento de emergências. Cidades pequenas e médias serão engolidas por cidades cada vez maiores, as megacidades. Dois terços dessas grandes cidades estarão localizadas em países subdesenvolvidos.

Em 2050, 3 bilhões de pessoas viverão em situação de pobreza, morando em locais sem água potável, saneamento, eletricidade, saúde e educação. Cidades imensas degradadas, possivelmente sem governo de fato. Convivendo com epidemias, violência e miséria. E, como atualmente, migrando de um lugar para outro em busca de esperança de vida.

Em 2050, mais de 65 milhões de idosos representarão quase 29% da população brasileira. Como a taxa de fecundidade vem caindo desde 1970, o índice de filhos por mulher chegará a 1,50 e, já em 2030, o Brasil irremediavelmente será um país velho.

Em 2050 terei 100 anos de idade, possivelmente não estarei por aqui, mas não é por isso que vou virar para o lado e fazer de conta que o futuro não é comigo. É bom lembrar que o quadro acima não leva em conta nenhuma anormalidade, como um desastre climático, uma guerra nuclear, uma pandemia letal ou um apocalipse espacial.

Todos os números citados, com exceção do meu centenário, são divulgados exaustivamente pela ONU, Unesco, IBGE e derivados (no presente, por óbvio). Não se trata de futurologia, é claro. É um assunto sério, envolvendo nossos descendentes e, principalmente, o futuro do planeta.

Lembrem-se, só faltam 31 anos para 2050…

Pequenas distrações

Gil Elvgren (Belle Ringer 1941)

Atire a primeira pedra: quem nunca foi para o trabalho com o controle remoto da TV ou o telefone sem fio na bolsa? Ou colocou o leite no copo e jogou a caixa de leite, cheiinha, na lata de lixo? Se arrumou toda para um evento social e se mandou com as sandálias havaianas?

Pôs a água para ferver, esqueceu da vida e a água evaporou. Repetiu a operação e esqueceu novamente! Saiu de casa correndo, debaixo da maior chuva e não conseguiu abrir a porta do carro. Viu que pegou a chave do marido, voltou para casa e retornou com a chave do carro do filho. E tome chuva!

Foi fazer o exercício diário na praia com a camiseta do lado do avesso. Preparou um café na Bialetti sem água no recipiente próprio. E pior, no supermercado, ao invés do açúcar, comprou sabão em pó. Saiu de carro e voltou de ônibus. Duas vezes. Revirou a casa inteira atrás do celular, que só foi localizado na manhã seguinte, dentro da geladeira.

Entrou na fila do banco: quando chegou no caixa descobriu que não tinha levado o dinheiro que ia depositar. Resolveu tomar uma chuveirada e esqueceu de tirar os óculos. Trinta anos de casados depois, pergunta para o marido qual o dia do seu aniversário. Deixa a carteira com dinheiro e documentos no médico. No dentista. No oculista. No restaurante. No açougue. Na padaria.

Salta do ônibus no ponto errado. E piora, porque aí descobre que embarcou no ônibus errado. Reclama do troco quando pagou com o cartão de débito. Ou o de crédito. Deixa o filho esperando no colégio. Deixa a filha esperando na academia. Deixa o marido de castigo na porta do shopping. Sai de casa com a câmera fotográfica compacta ao invés do celular.

Bateu a porta de casa, deixando as chaves do lado de dentro. Bateu a porta do carro, deixando as chaves do lado de dentro. Bateu a porta do trabalho, deixando as chaves do lado de dentro. Tocou a campainha de casa, com as chaves nas mãos. Tentou abrir a porta da casa do vizinho com suas chaves. Duas ou três vezes.

Coloca uma meia de cada cor, atravessa a rua sem olhar o semáforo, para na banca de jornal para folhear uma revista, gosta de um artigo e leva sem pagar. Usa os óculos do marido e entra em pânico porque não está enxergando nada. Está sempre em dúvida se já tomou a medicação diária para a memória.

É como diz uma amiga, não está fácil para ninguém.

Carlos Emerson Jr. (Junho/2015)

Fuzil

Foto: Robert Capa

Aí você prepara a pipoca no micro-ondas, liga a TV, senta na velha e aconchegante poltrona, aproveita que a patroa não está em casa e coloca os pés na mesinha de centro de estimação e quase tem um “treco” quando a apresentadora do programa de entrevistas afirma para o governador recém-eleito que um homem com um fuzil nas mãos, em plena via pública, não pode ser considerado uma ameaça, um risco à segurança de terceiros.

Mas piora. Para tentar justificar a sandice, a emissora chama uma “cientista política” que candidamente explica que “as políticas de seguranças estimulam a compra de mais fuzis pela bandidagem, para combater os fuzis das forças de segurança.” (Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=1ZK58NlOPXM). Decididamente essa gente não tem a menor noção do que é um fuzil, além de “desconhecer” a Lei 13.497/2017, que qualifica a posse desse tipo de armamento como crime hediondo.

Quando estava no Exército o uso de um fuzil era cercado de muito treinamento, conhecimento profundo de toda a sua estrutura (desmontar, limpar e remontar) e responsabilidade pela arma e cada cartucho de munição usado. Após seu uso eram todos recolhidos a um paiol, devidamente trancado e guardado. Fuzis são armas de guerra, feitos para matar o inimigo. Seu emprego é controlado, sua operação restrita e, principalmente, seu porte jamais deve ser visto como atividade “sem riscos”, até mesmo (e principalmente) por militares. Por favor, não repitam qualquer bobagem que ouvirem por aí, principalmente se vocês forem da grande mídia.

Pega muito mal.

oOo

A foto que ilustra o post é de autoria do renomado fotógrafo húngaro Robert Capa (Endre Ernő Friedmann). Foi tirada em Córdoba, em setembro de 1936, em plena Guerra Civil Espanhola.

Dois de setembro

Em uma noite o Brasil, o Rio de Janeiro e todos nós perdemos um pouco de nossa História, Cultura e Ciência. Em uma noite perdi parte de minha infância, da minha educação, de minha brasilidade. O incêndio que destruiu o Museu Nacional acabou sendo o legado, um infeliz símbolo das verbas públicas e privadas desviadas para fins escusos por políticos e empresas dos mais diversos matizes. Um símbolo da vaidade que norteou as fortunas aplicadas na Copa do Mundo de 2014, nos Jogos Olímpicos de 2016 e nas inevitáveis obras de embelezamento do Rio. O incêndio levou o Palácio Imperial do Brasil, onde foi assinada a nossa independência, em 1822. Independência para quê, incendiar a História? Os bombeiros não tinham água para apagar o fogo. O prefeito do Rio, como era de se esperar, não deu as caras. O governador, acuado no Palácio Laranjeiras, idem. Nenhuma autoridade, aliás. Pessoas choravam, assistindo uma parte da cidade e do país ardendo nas chamas.

Temo que o incêndio, indiferente e impiedoso, tenha levado de vez o nosso futuro.

Foto: TV Globo

Ilusões perdidas

Mais uma eleição, mais esperanças de dias melhores e, com certeza, mais decepções, quadro que vem se repetindo desde que, criança ainda, vivi a campanha de Jânio Quadros, aquele mesmo que renunciou sete meses após a posse, pressionado por “forças ocultas”. Aliás, bem que meu pai brincava que essas tais forças ocultas deixavam uma ressaca das bravas…

Daí para frente, ou melhor, de 1960 em diante, não demos uma dentro. Jango Goulart,seu vice que assumiu em seguida, fez um governo panfletário, tentou ser reformista, coisa que ele nunca foi e deu no que deu, um longo período de governos militares de triste memória. No período de 1964 até 1985, 21 anos portanto, tivemos cinco presidentes eleitos indiretamente pelo Congresso e, de brinde, uma Junta Provisória com os comandantes das três forças armadas.

Mas a confusão não acabou aí: Tancredo Neves, morreu antes de tomar posse, assumindo o imortal (mesmo) José Sarney, que passou todo o seu mandato brigando com uma inflação descontrolada. Seu legado foi a eleição do Fernando Collor, também conhecido como Caçador de Marajás, cuja medida de maior impacto foi o ataque às cadernetas de poupança!

Itamar Franco focou no básico e passou a faixa do trono, perdão, presidencial para Fernando Henrique Cardoso, o FHC que, vaidoso e muito inteligente, inventou a reeleição dos cargos executivos, inclusive (e principalmente) o dele. Foi sucedido pelo Luís Inácio da Silva, o Lula, que pretendia levar os pobres ao paraíso, Dilma Rousseff, o poste, perdão, a presidenta das pedaladas e, finalmente, o vice Michel Temer, a unanimidade que dispensa comentários: ninguém gosta!

Resumindo a ópera, de 1960 até hoje, foram eleitos, das mais diversas formas, 14 presidentes. Um renunciou, outro foi deposto, dois foram cassados e um morreu. O mais famoso de todos, segundo ele mesmo, está condenado e preso. Seis presidentes, quase a metade, foram defenestrados. O que significaria isso? Não sabemos votar? Nossa democracia ainda é uma criança? Ou somos todos idiotas e acreditamos em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e em Salvadores da Pátria?

O quadro para a eleição deste ano é confuso, deplorável e mostra inequivocamente que não temos saída, se é que já tivemos algum dia. O que fazer? Votar no menos pior? Isso aí, meus caros leitores, eu já ouvia a uns cem anos atrás. Aliás, vamos ser sinceros, nós sempre votamos no menos pior! E olhem só no que deu…

Sinto muito, mas não dá para terminar essa crônica com nenhum otimismo, esperança ou sequer ilusão. Apesar da lava-jato e a indignação e revolta geral contra os absurdos abusos da turma da Praça dos Três Poderes, o sistema político vem sendo blindado e deve resistir a qualquer tentativa de mudanças estruturais profundas, não importa de que ideologia venha. Ainda vai levar muito tempo para acreditar que temos realmente uma democracia neste país.

Texto e foto: Carlos Emerson Junior