Onda verde

Foto: Carlos Emerson Junior

Na época da Rio+20 , lá no ano de 2012, recebi a historinha abaixo por e-mail, de autor ignorado, ilustrando como a nossa sociedade consome e descarta em ritmo acelerado, sem medir ou sequer ter noção de suas consequências. Quando deixamos que a situação fugisse do controle, jamais imaginamos que o futuro chegaria tão cedo, cobrando o preço de nossa imprevidência. Rendeu até uma crônica no jornal A Voz da Serra, daqui de Nova Friburgo.

Divirtam-se!

*****

“Na fila do supermercado, o caixa diz uma senhora idosa:

– A senhora deveria trazer suas próprias sacolas para as compras, uma vez que sacos de plástico não são amigáveis ao meio ambiente.

A senhora pediu desculpas e disse:

– Não havia essa onda verde no meu tempo.

O empregado respondeu:

– Esse é exatamente o nosso problema hoje, minha senhora. Sua geração não se preocupou o suficiente com nosso meio ambiente.

A velha senhora suspira profundamente e fala:

– Você está certo, a minha nossa geração não se preocupou adequadamente com o meio ambiente. Naquela época, as garrafas de leite, refrigerante e cerveja eram retornáveis: a loja mandava de volta para a fábrica, onde eram lavadas e esterilizadas antes de cada reuso.

– Subíamos as escadas, porque não havia escadas rolantes nas lojas e nos escritórios. Caminhamos até o comércio, ao invés de usar o nosso carro de 300 cavalos de potência cada vez que precisamos ir a dois quarteirões. Mas você está certo. Nós não nos preocupávamos com o meio ambiente.

– Até então, as fraldas de bebês eram lavadas, porque não havia fraldas descartáveis. A secagem era feita por nós mesmos, não nestas máquinas bamboleantes de 220 volts. A energia solar e eólica é que realmente secavam nossas roupas. Os meninos pequenos usavam as roupas que tinham sido de seus irmãos mais velhos e não roupas sempre novas. Mas é verdade: não havia preocupação com o meio ambiente.

– Naquela época tínhamos somente uma TV ou rádio em casa, e não uma em cada quarto. Na cozinha, batíamos tudo com as mãos porque não havia máquinas elétricas, que fazem tudo por nós. Quando embalávamos algo um pouco mais frágil para o correio, usávamos jornal amassado para protegê-lo, não plastico bolha ou pellets de plástico que duram cinco séculos para começar a degradar.

– Bebíamos água diretamente da fonte, em vez de usar copos plásticos e garrafas pet que agora lotam os oceanos. Recarregávamos as canetas com tinta umas tantas vezes ao invés de comprar uma outra. Abandonamos as navalhas, ao invés de jogar fora todos os aparelhos descartáveis e poluentes só porque a lamina ficou sem corte.

– Na verdade, tivemos uma onda verde naquela época. Naqueles dias, as pessoas tomavam o bonde ou ônibus e os meninos iam em suas bicicletas ou a pé para a escola, ao invés de usar a mãe como um serviço de táxi 24 horas. Tínhamos só uma tomada em cada quarto, e não um quadro de tomadas em cada parede para alimentar uma dúzia de aparelhos. E nós não precisávamos de um GPS para receber sinais de satélites a milhas de distância no espaço, só para encontrar a pizzaria mais próxima.

– Por tudo isso, meu jovem, é risível que hoje se fale tanto em meio ambiente, mas ninguém pense em abrir mão de nada e muito menos viver um pouco como na minha época.”

Carlos Emerson Junior (2012/2018)

Ódio

Foto: Carlos Emerson Junior

No poste tinha uma palavra, “hate”, ódio em inglês. Como sei que postes não odeiam ninguém, claro fica que alguém foi lá e escreveu. Não sei se o ódio desse alguém é com a nossa língua, com o próprio poste ou a humanidade em geral. Posso estar enganado, de repente “hate” é apenas uma sigla ou sei lá, a assinatura de um artista ainda desconhecido.

Confesso, fiquei cismado. Para que serve o ódio? Seria realmente a antítese do amor? O escritor gaúcho Érico Veríssimo garantia que “o oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença.” É… Pode ser. Mas indiferença não faz ninguém escrever “hate” em um poste ou rechear as redes sociais com demonstração de ódio explícito, sem o menor pudor!

Pessoalmente e com toda a sinceridade, acho o ódio um sentimento muito ruim, negativo, desgastante, inútil mesmo. Quando você declara seu ódio, está fechando qualquer tipo de diálogo, conhecimento. Aliás, o francês Sthendal uma vez declarou que “já havia vivido o suficiente para ver que a diferença provoca o ódio.

Pois é, talvez seja por aí. O medo também é associado ao ódio e tudo isso vem do desconhecimento e, porque não, da falta de empatia e respeito entre seres ditos humanos. Perseguições de raças, religiões, culturas, comportamentos, caramba, acho que isso existe desde que o homem saiu das cavernas.

Lamentavelmente, em pleno século 21, com toda a tecnologia disponível para nos unir em todos os cantos do planeta, cada vez mais nos refugiamos em nossos cantinhos, amargurados até o pescoço, odiando tudo e todos que nós não entendemos, desconhecemos ou tememos.

Como disse acima, as redes sociais, através das figuras dos políticos, “formadores de opinião”, pastores e que tais, se presta muito bem para disseminar mensagens de ódio como um efeito manada, onde ninguém questiona o que ouve/lê/vê, exatamente porque não sabe ou quer ouvir/ler/ver. Onde foi parar nosso senso crítico, se é que já tivemos algum?

Não, meus caros, não vou me alongar mais por causa de uma palavra em inglês pintada em um poste numa rua deserta das Braunes, aqui em Nova Friburgo. Prefiro encerrar com uma frase do Jorge Luiz Borges, falando de amor, que é tudo o que nos resta, no fim das contas:

“Parece-me fácil viver sem ódio, coisa que nunca senti, mas viver sem amor acho impossível.”

Carlos Emerson Junior

Inspiração, cadê você?

Foto: Carlos Emerson Jr.

Da janela do meu escritório eu vejo o Caledônia. Por cima dos telhados das casas, muito além da antena da Rádio Friburgo e, nesses dias de março, sempre enevoado e chuvoso. No outono o sol bate forte pela manhã e a rocha fica que nem ferrugem, contrastando com o céu bem azul e limpo.

Essa é a minha janela. Coloquei a escrivaninha bem ao lado dela. Meu desktop, as anotações, rascunhos, fotos, telefones, o pendrive… Enfim, é aqui que eu trabalho. Inspiração? Com essa vista? Sei não, às vezes atrapalha. Distrai sabe, a gente fica olhando, divagando, agora, por exemplo: a montanha está dentro das nuvens e só vejo a chuva caindo lá pelos lados do Cônego.

Tudo muito cinza, muito escuro. Aliás, com licença que vou baixar o vidro, está batendo um vento gelado! Mas onde eu estava? Ah sim, inspiração! Curiosamente, não conheço a montanha. Dizem que em dias claros, lá do alto podemos ver o Rio e a Baia da Guanabara. Também falam que a subida é fácil, apesar de longa. Talvez um dia…

E lá estou eu fantasiando novamente. As nuvens que rodeiam a montanha agora vem rápido em minha direção. O vento forte faz as janelas baterem e trovões já se fazem ouvir. Vai chover outra vez e eu aqui no escritório, ao lado da janela, precisando escrever um texto, qualquer um!

Inspiração? Onde foi parar você, minha cara? Olhando para a janela, só consigo mesmo é sonhar.

(2008/2018)

Guerras justas?

Foto: Carlos Emerson Jr.

O que seria uma guerra justa? Uma guerra religiosa? Racial? De defesa? Ou de expansão? Civil? Revolucionária? De libertação? Vingança? Retaliação? Segurança? A única saída? A guerra que vai acabar com todas as guerras? Não, decididamente não sei o que é uma guerra justa.

Guerras são imorais, aéticas, selvagens, a barbárie levada ao seu paroxismo. Guerras servem para dominar, exterminar, subjugar e escravizar. Só nos séculos 20 e 21, quase 90 milhões de pessoas morreram em conflitos que vão desde as duas guerras mundiais, até os brutais massacres em nome de sei lá o quê.

A guerra é a falência do ser humano. Se nos consideramos “animais racionais”, matamo-nos com uma fúria não encontrada sequer nos grandes predadores “irracionais”. Chegamos a tal ponto de “sofisticação”, que temos um arsenal nuclear capaz de destruir toda a vida no planeta, pelo menos umas quatro vezes.

O escritor português José Saramago afirmou que “é mais fácil mobilizar os homens para a guerra que para a paz”. De fato, basta ver que a História mostra que os breves intervalos de paz serviram para a preparação das guerras futuras. Aliás, todas as guerras foram declaradas em nome da paz, uma blasfêmia inominável.

Não, a verdade é que não existe guerra justa ou santa. É tudo guerra, trazendo morte, sofrimento e miséria para ambos os lados. Sem vitoriosos, sem honra, sem glória, sem heróis. A guerra é a morte do diálogo, do amor, da empatia, da humanidade. Guerra é nossa maldição, para todo o sempre.

Um amigo

Foto: Carlos Emerson Junior

A caminhada na manhã de hoje, uma segunda feira, mostrou Friburgo ensolarada mas ainda com o resto do frio da madrugada e completamente vazia. Do Sans Souci até o Bairro Ypú, passando pelo Alto das Braunes, Santa Elisa e Catarcione, ônibus, carros e pessoas transitando eram raridades. Parecia um domingo mal colocado, como se o calendário tivesse enlouquecido.

Andei trechos enormes sem cruzar com ninguém. Quase não vi bicicletas, o que é uma pena, a cidade está ótima para elas. Na Praça Marcílio Dias, no Paissandú, reapareceu a civilização, mas muito distante do habitual. Algumas lojas se preparando para abrir, rodinhas em algumas bancas de jornais e um ou outro gato pingado naqueles botequins que nunca fecham.

Na Avenida, aí sim, muita gente aproveitando o sol para se exercitar. Um casal de namorados em um banco à margem do Bengalas, idosos para lá e pra cá, além da turma que sempre traz o cachorro para andar. Voltando para casa, subindo as Braunes, a mesma solidão do início da jornada diária: ninguém nas ladeiras ou na Estácio (não teve aula).

Para não dizer que não conheci ninguém, aí em cima está o amiguinho que não quis conversa comigo na petshop, mas posou como um modelo aqui para o Blog. Gente boa, até a gatinha da loja gosta dele. Em tempos estranhos, difíceis mesmo, uma imagem simpática não tem contraindicação. E se você sorrir, melhor ainda.

Boa semana.

Cedro do Líbano

Foto: Carlos Emerson Jr.
A caminhada-treino de hoje teve um propósito, um destino. Fui até os jardins do Country Clube para ver o Cedro do Líbano, recém-plantado no último dia 5 de maio pelo pessoal da colônia libanesa de Nova Friburgo. Gostei. Uma placa de metal identifica a muda, que está devidamente protegida de seres irracionais e racionais por uma gaiola de ferro. Uma cartaz maior, com os versos do Salmo 92.13 e 15, chama a atenção para o pequeno broto.

Fico aqui, pensando, quanto tempo leva para um Cedro do Líbano crescer. O Google, consultado, não se faz de rogado e informa que é uma árvore grandiosa, de crescimento bem lento, podendo atingir 40 metros de altura e 14 metros de diâmetro no tronco. É o símbolo do Líbano e é citado mais de 70 vezes na Bíblia. Também é chamado de o Cedro de Deus.

Será que algum dia o verei lindo, bonito, imponente, único em nossa cidade? Possivelmente não, mas não importa. Saber que estamos criando um ser vivo que vai durar séculos é, definitivamente, um legado da festa dos nossos 200 anos. Cabe a nós, friburguenses da gema, adoção e coração cuidar, proteger e amar o nosso Cedro do Líbano.

Como o nosso futuro, não é mesmo?

Foto: Carlos Emerson Jr.

Saúde!

 

copacabana 1940

Esse ‘causo’ aconteceu no longínquo e perdido ano de 2015, lá na ex-cidade maravilhosa.

Caminhada no final da tarde na praia, na direção do Posto Seis. Domingo, uma multidão saindo da areia na direção das estações do Metrô e pontos de ônibus e uma outra chegando para tomar um vento e ver as modas, como se falava antigamente, cruzavam animadamente o calçadão, mal dando espaço para andar. E não é figura de linguagem não!

Segurei a mão da minha mulher e lá fomos nós seguindo o fluxo que ia para o sul e desviando do contra fluxo rumo norte. Foi quando meu nariz começou a coçar. Aliás, quem tem rinite sabe o que estou falando. Sem dar tempo sequer de fungar, soltei um espirro de alívio, em alto e bom som que, como efeito colateral, assustou quem ia e vinha pela via. Minha mulher me olhou muito séria, com os olhos arregalados:

– Cara, que susto que você me deu! Precisava espirrar tão alto? Você tremeu tanto que pensei que tinha sido atingindo por uma bala perdida! Não faça mais isso, todo mundo se assustou. Só esse ano mais de 36 pessoas já foram atingidas por balas perdidas e dois casos foram aqui em Copa. Toma juízo!

Para meu espanto, uma pequena roda se abrira e as pessoas, me olhando com curiosidade, pareciam concordar com a bronca. Tá bom, espirrei alto, talvez herança dos espirros escandalosos que meu pai dava, sempre no meio da rua, que me levavam às gargalhadas. Só esqueci que isso foi há mais de 50 anos, quando o Rio ainda era uma cidade risonha e franca, sem balas perdidas, por óbvio.

Bons tempos.

 

Outra Caminhada

E não é que antigas crônicas às vezes não envelhecem? Essa aí de baixo, publicada no jornal A Voz da Serra, de 25 de novembro de 2011, continua atualíssima e ensina um passeio imperdível para friburguenses e turistas. Olha os 200 anos chegando aí, gente!

oOo

Foto: Carlos Emerson Junior

Vamos falar de caminhadas outra vez? E que tal explorar um trajeto todo urbano e com dois atrativos especiais, a vista estonteante da cidade e belíssimas obras de arte, representando figuras importantes da história de Nova Friburgo? Pois é, estou falando da travessia Braunes – Parque Santa Elisa, pela parte alta dos dois bairros.

O ponto de partida é na Estácio de Sá, no Sans Souci. Dali subimos até a rua Visconde Itaboraí e viramos à direita como quem vai para Vargem Alta, sempre seguindo as placas para a Praça da Criança. Pegamos a rua Monerat e chegamos na Praça Alberto da Veiga Guignard, uma homenagem ao pintor mundialmente famoso, nascido no ano de 1896, em Nova Friburgo.

Estamos a 1.010 metros de altura e depois de toda essa subida vale à pena sentar num dos bancos e apreciar a colorida paleta de tintas, obra do artista plastico Felga de Moraes, do grupo Gama. O local é muito tranquilo, silencioso e lembra uma vila do interior.

Agora vem a parte divertida, para baixo! Prepare os joelhos e siga pela rua Sílvio Carestiato com cuidado, já que a ladeira é muito íngreme. Aproveite para curtir as montanhas de Nova Friburgo ao fundo, de um ângulo diferente e, algumas delas, abaixo da nossa linha de visão. Sensacional.

Foto: Carlos Emerson Junior

No final da rua chegamos na Praça da Criança, onde se destaca mais um monumento do Felga, dessa vez homenageando o médico friburguense Galdino do Valle Filho. Para quem não sabe, trata-se do idealizador do “Dia da Criança”, quando foi deputado federal na década de 20. Um mirante permite a visão de quase 180º e uma placa ensina os nomes de todas as montanhas em volta.

A caminhada segue morro abaixo pela rua Boechat, também bastante íngreme, atravessando a mata que ainda é abundante naquele bairro. As ruas são todas asfaltadas e aqui vai uma dica: na primeira bifurcação, pegue a rua Luterback, à esquerda, para evitar o grande transito de veículos na rua Raul Sertã. Ande até a rua Stutz, à direita e comece uma longa e íngreme descida até a Praça Dom João VI, outra criação do Gama, às margens do antigo lago do Parque Santa Elisa.

Foto: Carlos Emerson Junior

Aqui o monumento do Felga, em forma de uma caravela, é dedicado ao homem que tornou possível a colonização de Nova Friburgo. A ideia era recuperar o lago para passar a impressão de um navio no mar mas, nas atuais circunstâncias, essa obra vai ficar para mais tarde. Um outra pequena estátua ao bem ao lado é um tributo à Marinha do Brasil.

Infelizmente o lago está tomado pela vegetação e sofre com a turma sem noção que adora jogar lixo nas vias públicas. Uma pena mesmo. Mas o nosso trajeto não terminou. Vamos prosseguir até o Serraville, descer mais um pouco para a antiga Fábrica Ypú e daí caminhar em direção ao Centro, onde um suco bem gelado será muito bem vindo para repor as energias.

Medidos no GPS, foram 5,2 quilômetros de extensão até a Praça Marcílio Dias, no Paissandu, come a altitude variando de 919 metros na saída lá da Estácio, 1.028 metros no Alto da Braunes, 1.000 metros da Praça das Crianças, 950 metros na Praça Dom João VI e chega, não é mesmo? O trajeto indicado é razoavelmente sinalizado, todo asfaltado ou com paralelepípedos e pouquíssimo trânsito de veículos, pelo menos até o Santa Elisa. Calçadas praticamente inexistem, só aparecendo na descida do Catarcione para o Centro.

É possível fazer todo esse roteiro de carro, até porque nas três praças existem estacionamentos, mas quer uma sugestão? Vá à pé! Além de ser uma caminhada saudável, você vai conhecer uma parte da cidade onde a natureza ainda é respeitada. Aproveite a oportunidade para descobrir pequenos detalhes das ruas e da vista, aqueles que só quem está andando sem pressa, disposto a respirar um ar muito puro e se deixar ser envolvido pela paisagem poderá perceber.

Garanto que você voltará para casa com a alma bem mais leve.

A torre

Foto: Carlos Emerson Junior

Aquilo não podia ser normal. Desde criança, pequeno mesmo, sempre que passava pela torre onde ficava a caixa d’água, parava bem embaixo e ficava olhando para cima, para o topo, querendo adivinhar se algum dia conseguiria a subir até o alto para ver como era o mundo lá do alto.

A medida que ia crescendo, a curiosidade aumentava. Entrar na torre não era tarefa simples. Seus pais, já sabendo da esquisitice, alertaram os funcionários do condomínio para não ficarem de olho: qualquer bobeada e o menino era bem capaz de se mandar escadaria acima.

Secretamente traçava planos para “tomar de assalto” a torre da caixa d’água. Percebeu que à noite, depois que os empregados iam embora, o único impedimento era a porta de acesso ao alojamento e depósito, que ficava na sua base e dava acesso à escadaria, devidamente trancada.

Uma vez tentou: escalou o muro que cercava o condomínio (aproveitando escada de pedreiro esquecida), passou para o teto do cômodo de baixo, olhou para os lados, lembrou da avó e se benzeu, colocou o pé direito no primeiro degrau, segurou com força a lateral, tomou impulso e começou a subida. Mal chegou no terceiro degrau ouviu o grito agudo e imperial da mãe! Pulou fora, em pânico, e só não levou uns cascudos porque sua bendita avó não permitiu.

O tempo passou, a faculdade o formou, uma moça com ele se casou, para uma outra cidade se mudou, uma filha chegou . No entanto, lá longe, nas imagens esquecidas da infância, a torre continuava lá, enorme, inexpugnável, desafiando as alturas, chegando ao céu, a grande aventura proibida. Quando sua mãe faleceu, após o sepultamento e a reunião com os parentes, caminhando pelo velho condomínio onde brincara tanto, deu de cara com ela, desafiadora.

Nunca se soube o que passou pela sua cabeça. Com um pulo, subiu o muro, saltou para a base da escada e, rápido como um raio, subiu com o olhar fixo nos degraus até chegar ao topo, a parte de cima do reservatório de água. Ficou em pé e olhou em volta. Era alto, mas a paisagem, cheia de ruas e casas, era completamente diferente do que esperava encontrar, a grande mata que existiu em algum momento dos anos 80.

Sentou, acendeu um cigarro e foi tomado por uma sensação de alívio. De alguma maneira, tinha exorcizado um fantasma do passado. Um fantasma bobo, é verdade, mas sempre um fantasma. Alguns minutos depois, lembrou-se que a vida continua e resolveu descer. Uma pena que não era uma criança. Teria sido muito mais divertido.

Fim de Ano

Lembre os mortos assassinados, enfermos, acidentados, deprimidos, mutilados, sem esperança. Lembre os infelizes que moram nas ruas, nos cortiços, favelas, saídas de esgotos, lixões, matas. Lembre as crianças magras, famintas, desnutridas, doentes, abandonadas, prostituídas, escravizadas, sem futuro. Lembre os idosos esquecidos em hospitais, asilos, apartamentos, abandonados sem remédios, sem família, sem ninguém. Lembre os desempregados, desesperados, precisando sustentar e dar um mínimo de dignidade para suas famílias. Lembre os mendigos perambulando invisíveis, alguns loucos, implorando um prato de comida, abrigo, calor, bebendo água da chuva e da sarjeta. Lembre os miseráveis, refugiados, discriminados, injustiçados, perdidos, fracassados, conformados, derrotados. Lembre os que desistem e somem para sempre, às vezes até mesmo desta vida. Pois é, lembre também que nessa época do do ano a gente só deseja boas festas.

Desculpem.

Pintura: La Miséria (1886), Cristóbal Rojas