O teatro morto

Foto: Carlos Emerson Junior

Então sonhei um sonho tão bom: sonhei assim: na vida nós somos artistas de uma peça de teatro absurdo escrita por um Deus absurdo. Nós somos todos os participantes desse teatro: na verdade nunca morreremos quando acontece a morte. Só morremos como artistas. Isso seria a eternidade?” (Clarice Lispector)

oOo

Foi a primeira vez que viu a porta da rua do antigo teatro aberta. Curioso, olhou para dentro. Uma jovem sorridente, sentada numa mesinha bem a frente sorriu e o convidou a entrar. Subiu a pequena rampa, na semiobscuridade, passou pelo que restou do antigo hall e entrou na grande sala onde ficava a plateia. Os olhos, sem querer, marejaram.

Quantos anos se passaram… As paredes descascadas, tomadas pela umidade, os tijolos aparentes. O palco desapareceu. A coxia, absurdamente desnuda, isolada por tijolos e pedras para evitar que incautos por ali transitem. O piso original, de pedras brancas, agora é cinza escuro, cheio de pó, cheio de nada. Nenhuma luz, os lustres e refletores sumiram. Apenas o sol clareia um pouco, pelos buracos das paredes.

Meu Deus, o que fizemos? Como deixamos que uma sala que brilhou nos tempos que foi de um hotel, depois um cassino e por último uma rede de televisão, chegasse a esse ponto? Ruínas, esquecidas, condenadas a uma morte lenta e inexorável. E os artistas, roteiristas, diretores, funcionários, toda essa gente que ali atuou? O que será de sua memória?

Não creio, Clarice, teatros também morrem.

Manhã de domingo

Praia Vermelha, Urca
Foto: Carlos Emerson Junior

Apesar das previsões desastradas do tempo, o domingo amanheceu bonito, céu azul e temperatura outonal na medida certa: nem muito quente, nem muito frio. A mulher foi à missa, a cachorra toma sol na porta de casa e eu, bom, ao invés de correr até o Parque do Flamengo ou simplesmente dar uma caminhada pela orla da Urca, estou digitando este texto, enquanto aguardo a visita da assistência técnica da operadora de internet. Desde ontem estou fora do ar.

Fora do ar é exagero, claro. Os onipresentes smartphones nunca dormem, Android e IOS se encarregam de registrar e transmitir para algo ou alguém tudo o que fazemos, falamos, comemos e, se bobear, pensamos nas 24 horas do dia. É engraçado, falamos em privacidade e pagamos (caro) para expô-la… No entanto, o que seria de nossa vida, hoje, sem esses aparelhinhos tão úteis?

Mas divago, como sempre. E não, não li o jornal de hoje, não liguei a TV, nem naveguei na internet pelo celular. Afinal, tenho que ser coerente, se estou fora do ar, que seja fora do ar mesmo. De qualquer maneira, as notícias não devem ser nada diferentes das de ontem. Terrorismo em Londres, corrupção no Brasil, crise no Estado do Rio…

Não, uma manhã de domingo tem que ser diferente do resto da semana. Fico pensando se não teria sido mais sábio agendar o técnico para a segunda-feira. Enfim, agora já era. Ou não, sei lá. De qualquer maneira, nesse espaço de tempo já varri o quintal, lavei e guardei a louça de ontem, coloquei a cachorra para tomar sol, escrevi esse texto e dei uma mexida em outros dois que aguardam ideias melhores para sua conclusão.

De tardinha, se for possível, saio para ver as modas. É isso aí, gíria da década de 60. Hoje é domingo, gente, relevem e aproveitem. A foto foi feita ontem, sábado pela manhã, na Praia Vermelha. É verdade, a areia completamente vazia e só uma turma de nadadores dentro da água. Já na calçada, que multidão! Reflexos do outono. Ah, sim, antes de colocar o ponto final, o técnico da Net chegou, trocou o roteador, voltei ao ar e este post foi publicado. Tudo nos trinques!

Uma ótima semana para todos nós.

Rojão

Rojão (ro.jão): fogo de artifício formado por tubo de papelão com pólvora, pavio e punho; foguete; ritmo de vida intenso e agitado; tipo de baião; toque arrastado ou rasgado de viola; passo de cavalo (ou outro animal) quando cavalgado. Segundo o Dicionário Aulete, Rojão é isso tudo aí.

Rojão rima com arranjão, feijão, fujão, gajão, intrujão, marmanjão, mijão, rabujão, requeijão, rijão e varejão. É sinônimo de casca grossa, foguete, descompostura, repreensão, rojo, fogos, fogos de artifício. Rojão em inglês é rocket.

Rojão também é um prato regional. No norte de Portugal, nacos de carne de porco fritos em banha chamam-se rojões. Mais corretamente, rojões à moda do Minho. Rojão é sobrenome de famílias vindas lá da terrinha.

Rojão é uma dança nordestina, de ritmo acelerado. Quem toca e canta, procura narrar suas façanhas ou de algum personagem famoso, exaltando sua valentia. Pode durar horas. É tocado com a viola, o tan-tan e a pandeireta.

Rojão, meu caro amigo, está nos versos do Chico Buarque, aquele que diz “que a coisa aqui tá preta, muita mutreta pra levar a situação, que a gente vai levando de teimoso e de pirraça, e a gente vai tomando que, também, sem a cachaça, ninguém segura esse rojão”.

Rojão, segundo o Regulamento para a Fiscalização de Produtos Controlados (R-105), não pode ser vendido para menores de 18 anos e sua queima depende de licença da autoridade competente, com local e hora previamente designados, nos casos de festa pública ou em qualquer lugar, dentro do perímetro urbano.

Rojão faz mal para os animais. Eles sofrem com o barulho da explosão, entram em pânico. Alguns fogem, outros choram, a maioria se esconde. Podem se mutilar, tentando escapar. Se estiverem juntos, podem brigar. Convulsões e trauma psicológico são esperados.

Rojão mata. Mais de 1300 pessoas já se feriram manuseando ou apenas assistindo queima de fogos. Dados do Ministério da Saúde. Até 2011, foram mais de 120 óbitos. Seis mil pessoas foram internadas com ferimentos graves. Um rojão matou 242 jovens em uma boate de Santa Maria. Um jornalista morreu em 2014 durante uma manifestação no Rio.

A propósito, seria o Brasil um imenso rojão?

Dias frios

Foto: Carlos Emerson Junior

A Voz da Serra

Será que pega mal um carioca escrever um artigo sobre o frio, logo nós que vestimos os casacos quando a temperatura no Rio cai abaixo dos 19º? Bom, no meu caso específico acho que posso dar palpite sim, afinal moro em Nova Friburgo tem uns dez anos e aqui, meus queridos, quem não se acostumar com o clima da serra está perdido!

Quando comprei o apartamento no Sans Souci, o velho hotel tinha acabado de fechar e os poucos vizinhos estavam espalhados no meio de uma enorme mata. A estreia no inverno foi premiada e experimentamos de cara várias noites com o termômetro gritando zero grau! Certa vez o frio foi tanto que pela manhã fugimos de volta para o calor do Rio, questionando seriamente se tínhamos mesmo feito um bom negócio vindo para cá!

Mas como não somos de desistir e sabemos muito bem que, parafraseando Euclides da Cunha, o friburguense é, antes de tudo um forte, levantamos a cabeça, compramos edredons, moletons, meiões, luvas, gorros, cachecóis, aquecedores e hoje achamos até graça do aperto daqueles dias.

Sempre fui fascinado pela região serrana e pelo frio em particular, talvez por ter nascido e morado a vida inteira em uma cidade praiana, onde o calor nos verões beira ao insuportável. Minha primeira experiência com uma temperatura realmente baixa, mas muito baixa mesma, foi em Campos do Jordão, no interior de São Paulo, quando encaramos dois graus negativos. Minhas filhas, duas pirralhinhas na época, corriam felizes do interior do hotel calafetado para um jardim em frente, onde um relógio digital mostrava inexorável a queda da temperatura.

Na manhã seguinte, outra surpresa: nosso velho Passat completamente coberto por uma fina camada de gelo, não deu a partida de jeito algum! O coitado, movido a álcool e ainda por cima com injeção de gasolina manual (um botão no painel), não suportou a madrugada glacial e só lá pelo meio-dia, quando o sol deu as caras, pudemos sair para passear. Mas ninguém esquentou a cabeça, afinal, para uma família carioca, aquilo era pura diversão!

Frio mesmo, daquele de doer o corpo e a alma, sentimos em Montevidéu, a bela e organizada capital do Uruguai, onde tive o desprazer de conhecer o Minuano, vento polar que atravessa o sul do continente e chega até o Paraná. Cortante, quando bate no rosto parece que vai arrancar sua pele. Nem me lembro da temperatura oficial, mas a sensação térmica era uns trinta graus negativos, o horror! Voltamos correndo para o hotel para não virarmos picolés!

Em Atlanta, nos Estados Unidos, foi a mesma coisa. Vínhamos alegres depois de um ótimo voo pela extinta Varig quando, na hora de pousar, o comandante informou solene:

– Senhores passageiros, vamos aterrissar no aeroporto internacional de Atlanta. O tempo está ensolarado e firme. A Varig agradece a preferência e deseja um bom dia. Ah sim, já ia me esquecendo, a temperatura no momento é…. Menos dois graus!

A comoção foi geral, claro, afinal saímos do Rio debaixo de um solão de 40 graus! Ninguém a bordo, a não ser os norte-americanos, estava preparado para tamanho choque térmico. A sorte é que íamos para New Orleans e permanecemos no quentinho do enorme aeroporto, aguardando o traslado. Mas por via dúvidas, comprei um casaco de couro, estilo do James Dean, tão bom que me acompanhou durante anos nessas viagens enregeladas.

Portugal foi outro local improvável onde morri de frio. Não em Lisboa, claro, uma cidade ótima para caminhar, com um clima que lembra um pouco o da nossa cidade. O problema apareceu quando fomos para as cidades medievais, com seus calabouços, catedrais e mosteiros sempre à sombra, escuros e gelados. O Mosteiro de Batalha e a vila de Óbidos, lindos patrimônios da humanidade, foram os campeões e fico pensando como seus moradores suportavam tanto frio e umidade. Mas sem dúvida, valeram todos os casacos e acessórios que pudemos colocar!

Mas vamos voltar para Nova Friburgo e seu gostoso frio seco. Parece e é uma bobagem, mas um dos meus motivos de orgulho, assunto de todas as conversas com meus conterrâneos era a lareira aqui de casa! Meu maior prazer era puxar “casualmente” o assunto, sempre associando seu uso a um bom vinho, fondue e ótima companhia, não necessariamente nessa ordem.

Pois sim! Quem tem lareira aqui em Nova Friburgo sabe muito bem que a realidade não é rosa, azul ou dourada: é negra, da cor da fuligem! Para começar, uma lareira esquenta a sala e apenas ela. Os quartos, no andar de cima, ficam congelados, o que nos obriga a dormir no chão, à sua volta. Nada contra, mas o fogo geralmente apaga durante a noite e a gente acaba acordando batendo os dentes de tanto frio.

Antes de usar a lareira, temos que acendê-la, o que se para uns é moleza, para mim era um pesadelo. Não havia caixa de fósforos que aguentasse, lenha, jornais, madeira, álcool, gel, pinhas secas ou xingamentos. Uma vez acesa, começava o ritual para não deixá-la apagar. E, como bem diz o ditado “tudo que está ruim pode piorar”, ainda tem o dia seguinte, ou seja, limpar a lareira, o que significa meter a mão na fuligem, cinzas e carvão, ficar imundo, fedorento e estragar todo o clima romântico da véspera.

Depois de algumas tentativas malsucedidas e um baita entupimento da chaminé que encheu o apartamento de fumaça numa madrugada gelada de julho, tomei vergonha na cara e assumi que não sei e nem tenho cacoete para operar uma lareira. Comprei aquecedores de óleo e vivemos felizes para sempre. Ah, a tecnologia!

Hoje convivo em paz com o inverno e, como bom friburguense que me considero, adoro a estação. Os dias muito claros, o céu azul contrastando com o verde das matas, chegando a emocionar de tão bonito e a temperatura baixa, principalmente nas noites estreladas, lembram que moramos em uma cidade especial, regida por um frio gostoso e amigável, intenso o suficiente para amenizar o verão e tornar único o nosso inverno.

Olho de Deus

Foto: Carlos Emerson Junior

Já fui mais cético. Aliás, muito cético. Mas a gente envelhece, os tempos mudam, o Google (que entre outras coisas sabe a minha cor favorita, onde moro, meus telefones, gostos pessoais, medos, remédios e, quem sabe, o dia de amanhã) aparece e fica difícil não acreditar que exista uma entidade superior até mesmo ao próprio Google, criadora e responsável por toda essa humanidade, cujo propósito, a propósito, ainda não foi bem compreendido por ninguém.

Dito isto, entro no assunto da crônica e pergunto singelamente: vocês já viram o “Olho de Deus”? Pois é, eu vi, na sexta-feira à noite mesmo e bem aqui na mureta da Urca. Não, não estou falando da nebulosa Hélix, localizada na constelação de Aquário e nem de alguma Epifânia, estava simplesmente fazendo minha corrida diária, coisa simples, meros seis quilômetros em duas voltas pela orla.

Vinha desacelerando o passo, depois de um baita escorregão numa pedra portuguesa solta quando, bem à frente, bem acima do mar, duas luzes vermelhas surgiram do nada, dançando de forma descompassada. O céu, claro e estrelado, emoldurava e abrigava o “fenômeno”. Curioso e cauteloso, parei e, é claro, saquei o smartphone. As luzes se aproximaram como se quisessem falar comigo. E, acreditem ou não, meus queridos leitores, ouvi uma voz grave, forte e nítida:

– Vocês bancaram eventos caríssimos sem sequer questionar sua necessidade, esqueceram os hospitais sem remédios e médicos, a insegurança das guerras urbanas nas ruas, os assassinatos, os roubos, as balas perdidas, a falta de saneamento básico e as escolas. Vocês dividiram-se lados opostos, defendendo pseudo-líderes, meros bandidos, gente autoritária, populista, criminosos  enrolados com a justiça até o pescoço. Vocês provaram definitivamente que só ligam mesmo é para carnaval, futebol e o tal do big brother. Caramba, onde foi que eu errei?

Nesse momento ouvi um ruido forte, como se o zumbido estivesse chorando, se é que a imagem é possível. As luzes, quase no meu rosto, refugaram, o barulho aumentou como um grito e o “Olho de Deus”, imponente, caiu na calçada da Avenida João Luís Alves, bem na minha frente. Em pânico eu estava, em pânico continuei!

Ouvi as vozes ao longe. Desculpa, moço, o senhor se machucou? O drone bateu na sua cabeça? Como assim, aquilo era um drone? Era sim e jazia estatelado no chão, aparentemente sem danos materiais mas, sem dúvida, apagado. Saí do transe. O dono da geringonça me explicou que estava tentando filmar uma saída clandestina de esgoto mas parece que nem o aparelho aguentou a fedentina. Coisas do Rio, mesmo.

Luzes da cidade

Foto: Carlos Emerson Junior

As luzes da cidade enganam. Iludem. Mentem. Zombam. À noite todos os gatos são pardos e as cidades podem ser uma Paris. Para perceber uma cidade como ela é, feche os olhos. Ou, como o poeta norte-americano Wallace Stevens escreveu, “jogue fora as luzes, as definições. Diga o que você vê na escuridão“.

É isso, meus caros, as luzes da cidade enganam.

Parabéns prá você, Friburgo

O que escrever no aniversário de uma cidade que a gente gosta muito? Pois é, meu povo, Nova Friburgo está fazendo 199 anos, com algumas rugas, é verdade, mas um corpinho de 100. Anos, é claro! Lá ainda podemos sair com tranquilidade, curtir o frio seco das montanhas no inverno, morar cercado da Mata Atlântica, beber água da nascente, tomar banho de rio gelado e, principalmente, ser acolhido calorosamente pelos felizardos que moram o ano inteiro lá em cima.

Parabéns, Nova Friburgo. Parabéns, Friburguenses!

Fotos: Carlos Emerson Junior

Os exterminadores

“Eu sou John Connor,
e se você está ouvindo isto,
você faz parte da resistência”.

Os fãs dos filmes da série “O Exterminador do Futuro” conhecem muito bem a frase que abre esse artigo. É quase um bordão para John Connor, o filho de Sarah Connor, o homem que conseguiu unir o que restou da humanidade para combater a Skynet, a rede mundial de computadores e afins que tomou o nosso lugar no planeta.

Foi impossível não lembrar do filme quando li a lista do ministro Fachin, do STF, com os nomes de 8 ministros de estado, 12 governadores, 24 senadores, 37 deputados, 5 ex-presidentes e mais uma penca de gente menos ou nunca votada. Praticamente todos os partidos estão atolados até o pescoço. Os de sempre, como o PMDB, PT, PSDB, PP e PR, na companhia de PSB, PPS, PTB, SD, PCdoB e outros nanicos. Os crimes também são velhos conhecidos: formação de cartel, corrupção ativa, corrupção passiva, fraude em licitações, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica eleitoral, evasão de divisas, violação de sigilo funcional e por aí vai.

Os nomes de cada um dos indiciados e suas acusações, podem ser consultados aqui. Mas seus apelidos (sim, todos tinham um nome de guerra) hilários se a situação não fosse tão trágica, bem que mereciam um estudo sociológico. Decadência perde. Vejam alguns: Decrépito, Boca Mole, Passivo, Angorá, Santo, Menino da Floresta, Justiça. Três deles se destacam: Nervosinho (Eduardo Paes), Roxinho (Fernando Collor) e Mineirinho (Aécio Neves).

Pois é, esses “elementos” ou “excelências”, como gostam e exigem ser tratados, desmoralizaram a democracia, assaltaram sem pudor os cofres públicos e destruíram, ou melhor, exterminaram o futuro de milhões de brasileiros. Temos saída? Sinceramente, não sei. Suspirar profundamente, se trancar em casa e jogar a chave fora. Ou talvez nos inspirar com as palavras do John Connor e resistir, mostrar para esses canalhas que o buraco é mais embaixo e eles jamais vencerão.

Não se iludam, amigos, estamos diante da encruzilhada.

Assalto!

A carioca termina o plantão no centro cirúrgico de um hospital na Baixada Fluminense, no domingo, já bem noitinha. Ela mesma, recém saída de uma cirurgia, não pode guiar, mas conta com a ajuda inestimável do namorado, já a postos no estacionamento. O trajeto para casa é simples, trânsito bom, ruas vazias, todo mundo em casa vendo o Fantástico.

Todo mundo não. No meio do caminho, ou melhor, na entrada da Avenida Brasil, um automóvel toma a frente e para repentinamente, fechando o trânsito. De dentro saem quatro homens empunhando fuzis de assalto e mandam o casal entregar o carro, carteira, bolsa e celulares. Um deles toma a direção e desaparecem na escuridão, na direção da zona norte.

Os dois, atônitos, correm para uma birosca próxima. Uma patrulha da PM se aproxima, mas os policiais saem disparam a pé pela avenida para impedir um outro assalto alguns metros atrás. Uma jovem, penalizada, encosta seu carro e os leva até a delegacia de Ricardo de Albuquerque, onde conseguem registrar a queixa e avisar a família. Na atual conjuntura do Rio, todos respiram aliviados: estão inteiros, vivos.

****

Pois é, a narrativa acima infelizmente não é ficção, aconteceu com minha filha mais velha no domingo passado. Estavamos entrando em casa, por volta das dez da noite quando recebemos sua ligação, pedindo que acionássemos a seguradora. Um susto enorme, sensação de impotência e alívio foram os sentimentos mais fortes. Como assim, nossa filha virou estatística?

Já tem algum tempo que parei de me iludir e deixei de acreditar que o Rio de Janeiro tem alguma saída. Não tem, meus caros, a cidade foi perdida pelo estado. Áreas enormes, geralmente encravadas em favelas, pertencem à bandidagem e ali ninguém entra. A prefeitura finge que governa, o governo do estado finge que dá segurança, o governo federal faz cara de paisagem e a população, acuada, tenta dar um “jeitinho” para conviver diante de descalabro, abandono e violência.

Não vou analisar as causas da violência. A situação chegou a um ponto que, todo santo dia um especialista na mídia explica suas causas. Não vou culpar A, B ou C por esse estado de coisas. Qualquer carioca sabe muito bem quem são os responsáveis, por ação e omissão. Não vou criticar a pobreza, educação, a justiça, a democracia, o capitalismo, o universo ou os deuses. Pura perda de tempo, ninguém liga.

Mas um belo dia, vamos perceber que estamos pagando impostos e pedágios para os bandidos e não mais às autoridades constituídas. Corremos o risco de virar uma cidade sem lei, bairros cercados por muros blindados, controlada por milícias, isolada do resto do Brasil e do Estado do Rio, ocupada por tropas e em permanente estado de guerra.

*****

Meu muito obrigado a todos que foram solidários com minha filha e seu namorado. Vocês são uma luz nessa escuridão que tomou conta do Rio de Janeiro.

A tragédia do Brasil

Um bar carioca, algum dia em março de 2117:

“Já se passaram tantos anos que nem sei se consigo me lembrar direito dessa história. O transatlântico Brasil, um navio bonito, moderno, zarpou para mais um cruzeiro, completamente lotado. Tudo ia bem até que a noite que os organizadores da viagem ofereceram um festão, com políticos, artistas, intelectuais, cantores, celebridades e buffet liberado. A alegria era tanta que ninguém notou que, por volta da meia noite, os motores pararam.

O comandante, furioso, mandou os mecânicos resolverem o problema com urgência. No horizonte, uma tempestade se aproximava. O tempo passava e, completamente à deriva, o Brasil seguia indefeso ao sabor da maré. A borrasca, de proporções descomunais, atingiu os infelizes em cheio. A tripulação, temendo um naufrágio, baixou os botes salva-vidas para, digamos assim, salvar a própria pele.

Os passageiros, tardiamente perceberam que estavam sendo abandonados, mas, sem iniciativa e liderança, entraram em pânico e alguns até mesmo se atiraram ao mar para a morte certa. Inacreditavelmente o Brasil suportava a terrível tempestade, jogado para cima e para baixo pelas ondas como uma simples folha de papel. Um operador de rádio, um dos poucos remanescentes da tripulação ainda a bordo, tentava desesperadamente enviar pedidos de socorro. Alguns foram captados, embora quase ininteligíveis. Um deles dizia mais ou menos assim: “… Brasil à deriva, fazendo água, sem comandante e oficiais, passageiros em pânico, caos total. Socorro. Latitude…”

Para encurtar o caso, o Brasil nunca mais foi visto, outro sinal jamais foi enviado, nenhum destroço sequer foi encontrado. Todos a sua população, perdão, passageiros e tripulantes desapareceram. Mais de cem anos depois, até seu sumiço foi esquecido e nem ao menos um navio fantasma ele virou. Uma tragédia, o Brasil ainda tinha um futuro pela frente.”

PS: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança como nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.