Palavras desconexas (ou não)

A internet caiu. Checou o pequeno ícone da rede, na barra de ferramentas, onde um “x” vermelho confirmava a ausência de sinal. Suspirou profundamente, pegou um cigarro e se levantou para fumar na janela. Nesse momento olhou o monitor do notebook e ficou pasmo ao ver o que estava digitando no editor de textos.

Frases e palavras desconexas, sequências alfanuméricas sem o menor sentido, nenhuma paginação, um caos completo! De novo, ficou chocado. Não se lembrava de ter escrito nada daquilo e pior, sabia muito bem que tinha sentado no computador simplesmente para colocar um mero post no blog, coisa boba mesmo.

Muito estranho. Teria cochilado? Seria aquilo uma mensagem em código, um pedido de socorro em um lapso de insanidade, para ele mesmo? Ainda bem que não acreditava em sobrenatural, senão já ia pensar um monte de bobagens. No entanto, era impossível não notar um grupo de números repetidos em vários pontos daquela algaravia:

01110011 01101111 01101101 01101111 01110011 00100000 01100101 01110011 01100011 01110010 01100001 01110110 01101111 01110011 .

O que seria aquilo? Teria algum significado? E por que havia escrito? Tentou salvar o texto mas percebeu que o notebook havia congelado. Foi até a mesinha da sala, pegou o celular e tirou algumas fotos. Reiniciou o laptop e, como esperava, perdeu o trabalho. Não tinha importância. Abriu novamente o editor de texto e digitou, cuidadosamente, todo o conteúdo que fotografara no celular.

Teclou enter e publicou, não só no blog mas como em todas as redes sociais que participava. Logo, mas logo mesmo, alguém indagou porque usara um código binário para destacar sua mensagem, quando poderia muito bem ter escrito em português: “somos escravos”. Então era isso! Sim, somos escravos, nascemos para isso, estava careca de saber. A questão ainda era, porque fez esse texto?

Ficou ali sentado, olhando a tela, pensando no que viria a seguir.

Nova Friburgo, 2009
Revisto em julho/2017

A realidade

“Não quero esconder a realidade, porque eu estou vendo que o Rio de Janeiro está morrendo aos poucos. O nível de violência atual não permite mais a vida social, dificulta muito o turismo, o comércio, a vida cultural… Vejo áreas da cidade que estão morrendo, às 19h30 não tem ninguém na rua, as pessoas estão trancadas em casa. Eu estou fazendo um chamamento à reação da cidade. (César Benjamin, Secretario Municipal de Educação do Rio de Janeiro)

No meio da escuridão que tomou conta do Rio de Janeiro, César Benjamin talvez seja um dos poucos pontos de luz (e lucidez) que tenta encontrar um norte, uma saída que seja da colossal crise moral, financeira, administrativa, política e social que empurra a cidade (e o estado) para o fundo de um poço sem fim. Corrupção, desemprego, violência, mais corrupção, impostos, fraudes e politicagens em doses cavalares provocam náuseas e depressão em qualquer um.

Vale a pena ler sua entrevista ao jornal espanhol El País, aqui e refletir quando ele afirma que “há um processo de dissolução da sociedade, que nos coloca muito próximos de uma situação de anomalia, de ausência de regras, de ausência de referências, uma perda de valores essenciais do processo civilizatório. É essa crise que me preocupa mais.”

A cidade engana

foto: carlos emerson jr.

Vista assim, de longe, a cidade engana. Ou melhor, esse ângulo exuberante irremediavelmente nos leva para longe da realidade. Cidades podem ser maravilhosas em prosa e versos, em fotos e filmes. No entanto, será que resistem a um olhar bem atento? Um avião em baixa altitude sobrevoando quatro bairros residenciais antes de pousar, rugindo suas turbinas sem o menor pudor. As águas imundas e fétidas da enseada tão bonita. A crescente e desamparada população de rua, usando barcos abandonados e barracas nas praias para morar. A insegurança sempre presente, em qualquer lugar e a qualquer hora. Os ladrões que tomaram o poder e levaram tudo o que quiseram e puderam. Ah, meus caros, a cidade engana e como. E nós, reféns de lembranças de tempos melhores, apenas olhamos e murmuramos: pois é…

Canal do Mangue

foto: Carlos Emerson Junior

As cidades tem seus recantos e encantos, mesmo quando cabem apenas na lente de um smartphone. Ou até mesmo quando você erra a regulagem, treme ou pisca e a imagem mostra alguma coisa que você não viu, mas algum dia imaginou. Pois é, essas árvores (sempre elas) estão na Avenida Francisco Bicalho, no centro do Rio, margeando o mal afamado e mal cheiroso Canal do Mangue. A luz da tarde de outono ajuda a compor ou talvez sonhar com uma cidade civilizada.

Bobagem, não é mesmo?

O teatro morto

foto: carlos emerson junior
“Então sonhei um sonho tão bom: sonhei assim: na vida nós somos artistas de uma peça de teatro absurdo escrita por um Deus absurdo. Nós somos todos os participantes desse teatro: na verdade nunca morreremos quando acontece a morte. Só morremos como artistas. Isso seria a eternidade?” (Clarice Lispector)

oOo

Foi a primeira vez que viu a porta da rua do antigo teatro aberta. Curioso, olhou para dentro. Uma jovem sorridente, sentada numa mesinha bem a frente sorriu e o convidou a entrar. Subiu a pequena rampa, na semiobscuridade, passou pelo que restou do antigo hall e entrou na grande sala onde ficava a plateia. Os olhos, sem querer, marejaram.

Quantos anos se passaram… As paredes descascadas, tomadas pela umidade, os tijolos aparentes. O palco desapareceu. A coxia, absurdamente desnuda, isolada por tijolos e pedras para evitar que incautos por ali transitem. O piso original, de pedras brancas, agora é cinza escuro, cheio de pó, cheio de nada. Nenhuma luz, os lustres e refletores sumiram. Apenas o sol clareia um pouco, pelos buracos das paredes.

Meu Deus, o que fizemos? Como deixamos que uma sala que brilhou nos tempos que foi de um hotel, depois um cassino e por último uma rede de televisão, chegasse a esse ponto? Ruínas, esquecidas, condenadas a uma morte lenta e inexorável. E os artistas, roteiristas, diretores, funcionários, toda essa gente que ali atuou? O que será de sua memória?

Não creio, Clarice, teatros também morrem.

Manhã de domingo

Praia Vermelha, Urca
foto: Carlos Emerson Junior

Apesar das previsões desastradas do tempo, o domingo amanheceu bonito, céu azul e temperatura outonal na medida certa: nem muito quente, nem muito frio. A mulher foi à missa, a cachorra toma sol na porta de casa e eu, bom, ao invés de correr até o Parque do Flamengo ou simplesmente dar uma caminhada pela orla da Urca, estou digitando este texto, enquanto aguardo a visita da assistência técnica da operadora de internet. Desde ontem estou fora do ar.

Fora do ar é exagero, claro. Os onipresentes smartphones nunca dormem, Android e IOS se encarregam de registrar e transmitir para algo ou alguém tudo o que fazemos, falamos, comemos e, se bobear, pensamos nas 24 horas do dia. É engraçado, falamos em privacidade e pagamos (caro) para expô-la… No entanto, o que seria de nossa vida, hoje, sem esses aparelhinhos tão úteis?

Mas divago, como sempre. E não, não li o jornal de hoje, não liguei a TV, nem naveguei na internet pelo celular. Afinal, tenho que ser coerente, se estou fora do ar, que seja fora do ar mesmo. De qualquer maneira, as notícias não devem ser nada diferentes das de ontem. Terrorismo em Londres, corrupção no Brasil, crise no Estado do Rio…

Não, uma manhã de domingo tem que ser diferente do resto da semana. Fico pensando se não teria sido mais sábio agendar o técnico para a segunda-feira. Enfim, agora já era. Ou não, sei lá. De qualquer maneira, nesse espaço de tempo já varri o quintal, lavei e guardei a louça de ontem, coloquei a cachorra para tomar sol, escrevi esse texto e dei uma mexida em outros dois que aguardam ideias melhores para sua conclusão.

De tardinha, se for possível, saio para ver as modas. É isso aí, gíria da década de 60. Hoje é domingo, gente, relevem e aproveitem. A foto foi feita ontem, sábado pela manhã, na Praia Vermelha. É verdade, a areia completamente vazia e só uma turma de nadadores dentro da água. Já na calçada, que multidão! Reflexos do outono. Ah, sim, antes de colocar o ponto final, o técnico da Net chegou, trocou o roteador, voltei ao ar e este post foi publicado. Tudo nos trinques!

Uma ótima semana para todos nós.