Morro de vergonha

Arte: Brian Stauffer

Morri de vergonha quando vi a prisão do quinto ex-governador do Estado do Rio, todos por corrupção. Cinco! Deve ser um recorde mundial, digno (na verdade, indigno) de constar no Guiness. Mas eles não estão sozinhos. Dois ex-presidentes, uma penca de deputados da Alerj, prefeitos, ministros, secretários, assessores, vereadores, empresários, caramba, a lista não tem fim! Senti vergonha, sim. De ser brasileiro e carioca. Não levamos eleições a sério, nem hoje, nem nunca. Eleição é tratada como um jogo de futebol, uma obrigação chata que, para quem mora no Rio, acaba atrapalhando a praia.

Votamos mal porque um parente pediu, um vizinho recomendou, um amigo avalizou. Votamos mal porque o candidato nos dá telhas para o telhado de casa, promete uma assessoria para nossos filhos, contratos milionários e certos para nossas empresas nas licitações das prefeituras. Votamos mal porque, talvez, sejamos tão corruptos quanto os canalhas que acabaram com a economia do nosso Estado do Rio, com a Segurança Pública, com a Educação e a Saúde. Vocês já perceberam como nossas cidades estão quase todas na miséria?

Pois é… Cinco governadores! Morro de vergonha.

Lixo em Lumiar

Foto: Saint Clair Mello

Confesso que fiquei arrepiado quando soube o motivo da revolta dos moradores de Lumiar, bucólico e simpático distrito de Nova Friburgo: a implantação de um lixão! Como assim? Querem matar o que ainda resta de turismo em nossa cidade? Nem foi preciso chegar, o jornal local A Voz da Serra reproduziu declarações de diretores da concessionária de lixo, a EBMA, garantindo que a intenção é a construção de um “ecoponto, local de entrega voluntária de resíduos recicláveis e para armazenamento temporário de resíduos domiciliares”.

Sei lá. Mais uma vez a falta transparência entre os órgãos da administração municipal e os moradores traz dúvidas e incertezas. O que tenho certeza mesmo é que uma obra dessas, da maneira como for feita e utilizada, pode produzir danos irreparáveis no meio ambiente e no turismo de Nova Friburgo. Acho bom ficarmos todos com olhos e ouvidos bem abertos.

Somos bárbaros

Candido Portinari (A Criança Morta)

Mas que humanidade é essa? Será que estamos precisando de uma reedição da segunda guerra mundial para aplacar as bestas que tomaram conta de nossas mentes e almas? Reconstruir os campos de concentração para exterminar todos os que pensam diferente de nós? Trazer de volta a doença, a fome, a sede, a miséria e morte? É esse o empoderamento que tanto falam?

Não me conformo com o massacre da escola de Suzano, os oito mortos, os dez feridos, as centenas de crianças que vão carregar para sempre um trauma horrível, conhecer a morte tão cedo, na sua frente, cega e implacável. Um dos dois atiradores tinha apenas 16 anos, tão jovem quanto suas vítimas. Qual o sentido de tudo isso?

Não me venham com papo de liberação de armas, apologia à violência. Isso tudo existe há muito tempo, quando descobrimos que matar o próximo era possível, desde que em nome do Rei, do Estado, da Lei, da Ordem, da Moral, da Religião, do Partido, da Inveja, do Preconceito, da Ignorância,de tudo! Atentados à escolas ocorrem no mundo inteiro, inclusive aqui no Brasil. Tomamos alguma atitude? Que nada, ainda estamos discutindo abobrinhas, em gênero, número e grau.

Enquanto isso, crianças morrem. Até quando, Meu Deus, vamos aceitar passivamente tamanha barbaridade? Quando trouxerem de volta a segunda guerra mundial, por favor, não se esqueçam das bombas atômicas. Talvez elas deem um jeito em nossa desumanidade.

Voos do Rio

Foto: Varig

Li por acaso um “tuite” do escritor Aguinaldo Silva, reclamando que a partir de primeiro de abril,os vôos diretos do Rio para Nova York não existirão mais. Pior, a opção com escalas (o famoso e famigerado parador) começa com pulo até Brasília, quase que no caminho para trás! Aliás, uma rápida “googlada” mostrou uma matéria da Latam informando que suas rotas Rio – Miami e Rio – Orlando também serão encerradas a partir da mesma data. Seria uma brincadeira do “Dia da Mentira”?

Infelizmente, não. Segundo a American Airlines, o cancelamento da tradicional rota até Nova York (que teve origem em 1920, com hidroaviões da Pan Am, que pousavam na Baía da Guanabara), foi a queda da demanda, reflexo da crise financeira agravada pelos desmandos e roubalheiras dos dois últimos governadores do nosso combalido Estado do Rio, os notórios Sérgio Cabral e Pezão. Como a recuperação será lenta (os rombos continuam aparecendo), nosso futuro ainda é incerto.

Que pena. Uma cidade que já recebeu voos desde o dirigível alemão Hindenburg até o supersônico Concorde, não merecia mais essa perda. Para mim, fica a saudade dos vôos da Varig, pontuais, seguros e confortáveis, lembrança de uma época que o Rio ainda era a Cidade Maravilhosa.

Autopsicografia

Pintura: Almada Negreiros

Fernando Pessoa

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Alegoria

Foto: Carlos Emerson Jr.

Quando alguém conta uma história, é bom ter em mente que, além da que você ouviu, existe uma versão diferente do outro lado do caso. Saber qual das duas é a verdade é o objetivo, isso se você não descobrir um terceiro lado, oculto, sombrio, esquecido, que pode provocar uma reviravolta em toda a conversa. Em tempos de redes sociais e mídias raivosas e partidárias, todo o cuidado é pouco. A palavra de ordem é desinformação, ou pior, a meia verdade, onde a brasa da sardinha é sempre puxada para um só lado (o certo, por óbvio, julgam eles).

Muita gente conhecida, querida até, está nessa aí. É pena. Talento jogado no lixo. Como uma alegoria usada no Carnaval.

Solidários, sempre.

Falam mal dos brasileiros. Que somos preguiçosos, ignorantes, violentos, desonestos, sem caráter, uns canibais mesmo. Pois é, dizem tudo isso por aí… No entanto, hoje, vendo o sofrimento do maquinista do trem, preso nas ferragens por mais de sete horas, assistindo o esforço quase sobre humano do pessoal do Corpo de Bombeiros, lutando contra o aço que insistia em manter o seu refém e a população angustiada diante de mais uma tragédia desse sombrio ano de 2019, agarrei-me ao sentimento que, apesar de nossos defeitos, somos solidários, sempre! Seja uma criança perdida em um shopping center, um idoso indeciso para atravessar uma rua, um tentativa de estupro em um bar (aconteceu ontem, no Leblon), até o colapso de uma represa em cima de cidades inteiras, se você precisar de ajuda, qualquer uma, logo aparece um de nós para socorrer, consolar, amparar, muitas vezes se expondo ao perigo e arriscando a própria vida.

Fiquei triste com a morte do maquinista do trem. Meus sentimentos para a família, os colegas e amigos. Sofremos juntos de vocês todos.. Mas tenho que deixar registrado o meu orgulho pela solidariedade, dedicação e persistência dos nossos Bombeiros, mais uma vez, os verdadeiros Heróis do Brasil. Temos que bater no peito e nos orgulhar, somos solidários!

Falando (outra vez) de calçadas

Foto: Mobilize

Aconteceu no verão de 2015, lá no Rio de Janeiro. Tomei um baita tombo no calçadão da Avenida Vieira Souto, numa caminhada acelerada com destino ao Leblon. A culpada não fugiu, ficou quietinha aguardando outro incauto no local do acidente: uma pedra portuguesa solta que, ao sair do lugar quando pisei, me jogou de frente na ciclovia. O prejuízo, ainda bem, não foi grande, joelhos, mãos e cotovelos arranhados e a vontade de esganar o responsável pelas calçadas cariocas.

Lembrei desse tombo lendo o interessante artigo do Zuenir Ventura, no jornal O Globo, de hoje, intitulado “A desordem custa caro ao Rio”, de onde pinço uma ótima observação do nosso querido escritor: “basta dizer que deixei de caminhar no calçadão por causa dos buracos e das pedras portuguesas soltas. Já tinha ouvido histórias de acidentes graves (uma senhora fraturou o fêmur), mas insistia, até o dia em que eu mesmo quase caí ao tropeçar em uma dessas pedras. O tombo, como se sabe, é o maior inimigo do idoso.”

Casos como esse estamos cansados de assistir (ou participar), em qualquer cidade do Brasil. As causas são sempre as mesmas, calçadas em péssimo estado de conservação, geralmente por descaso do proprietário do imóvel, obra porca de uma concessionária qualquer, carros indevidamente estacionados em cima delas ou imprudência do próprio pedestre, andando onde não devia (ou sem prestar atenção).

Cair ou não cair, não é nem a questão, diria Shakespeare, se hoje vivesse nas esburacadas cidades brasileiras. Mudar a maneira de ver esses tombos e tipificá-los como acidentes de trânsito, colocando responsabilidades, seria um bom começo. A legislação atual da grande maioria dos municípios brasileiros deixa a cargo do proprietário do imóvel a construção e manutenção das calçadas, mas estamos carecas de saber que isso não é o suficiente.

Falta padronização, acesso para deficientes, sinalizações horizontal e vertical e, principalmente e infelizmente, fiscalização. É inadmissível circular em uma calçada tomada por lixo e entulhos, ocupada por automóveis ou instalações urbanas completamente irregulares, perigosas e na maioria das vezes, inúteis.

É sempre bom ter em mente que somos todos, antes de qualquer coisa, pedestres. Nossas cidades nunca serão amigáveis se suas calçadas forem inseguras. Aliás, já que o poder público se preocupa em manter ruas, avenidas e rodovias em condições perfeitas para o trânsito de veículos automotores, tem a obrigação de cuidar dos caminhos dos cidadãos, as nossas calçadas. Ao contrário do que as “excelências” acreditam, cidades são para pessoas.

Ah, sim, não esqueci as calçadas de Nova Friburgo. Já estou preparando uma grande “homenagem” em um próximo artigo, cheio de fotos, é claro. Afinal, adoro filmes de horror!

Dias de calor

Foto: Carlos Emerson Jr.

Você mora na serra fluminense. Sua cidade é considerada a mais fria do estado. No inverno as temperaturas chegam ao zero absoluto e geadas são comuns na zona rural. Reza a lenda que até já nevou. Seu bairro fica em cima de um morro, bem na frente da montanha que separa sua cidade da baixada. Mais arejado e ventilado, impossível. No entanto, o verão veio forte e lá na sua cozinha, ao lado da janela, o velho termômetro avisa que a temperatura chegou a inacreditáveis 30º à sombra, ou melhor, dentro de sua casa.

É o fim do mundo, diriam os ambientalistas, aplaudidos de pé por cariocas calorentos, como este que vos fala. Como assim, 30º? Cadê a chuva? O frio? A geada? Foi com o maior prazer que dei adeus para o Rio e me mandei atrás de paz, segurança, sossego e um pouco de frio, não necessariamente nessa ordem, é claro. Com que direito uma onda de calor – que veio pelo mar – invade minhas montanhas, minha cidade, minha casa, meu bem-estar?

Pois é, fica registrado o meu protesto indignado contra esses dias de calor que estão assolando nossa querida Nova Friburgo. Tem quem goste, é claro. A turma que ama descer a serra para as praias fluminenses está fazendo a maior festa. Deixa estar. Qualquer hora dessas Friburgo volta a ser Friburgo e uma frente fria, daquelas que chegam aos 12, 13º estaciona por aqui durante, digamos, uma semana e tudo volta a ser como era.

Um baita frio!

Ano: 2050

Foto: Nattanam726/Shutterstock

Em 2050 a população do planeta chegará ao espantoso número de 9.6 bilhões de pessoas. A expectativa de vida média será de 76 anos. A Índia será o país mais populoso do mundo, enquanto a Europa registrará um decréscimo demográfico de 14%.

Em 2050, 7.2 bilhões de pessoas (75%) viverão em cidades, com as preocupações de sempre: saúde, transporte, educação, segurança e gerenciamento de emergências. Cidades pequenas e médias serão engolidas por cidades cada vez maiores, as megacidades. Dois terços dessas grandes cidades estarão localizadas em países subdesenvolvidos.

Em 2050, 3 bilhões de pessoas viverão em situação de pobreza, morando em locais sem água potável, saneamento, eletricidade, saúde e educação. Cidades imensas degradadas, possivelmente sem governo de fato. Convivendo com epidemias, violência e miséria. E, como atualmente, migrando de um lugar para outro em busca de esperança de vida.

Em 2050, mais de 65 milhões de idosos representarão quase 29% da população brasileira. Como a taxa de fecundidade vem caindo desde 1970, o índice de filhos por mulher chegará a 1,50 e, já em 2030, o Brasil irremediavelmente será um país velho.

Em 2050 terei 100 anos de idade, possivelmente não estarei por aqui, mas não é por isso que vou virar para o lado e fazer de conta que o futuro não é comigo. É bom lembrar que o quadro acima não leva em conta nenhuma anormalidade, como um desastre climático, uma guerra nuclear, uma pandemia letal ou um apocalipse espacial.

Todos os números citados, com exceção do meu centenário, são divulgados exaustivamente pela ONU, Unesco, IBGE e derivados (no presente, por óbvio). Não se trata de futurologia, é claro. É um assunto sério, envolvendo nossos descendentes e, principalmente, o futuro do planeta.

Lembrem-se, só faltam 31 anos para 2050…