Rutger Hauer: Lágrimas na Chuva

“’Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portal de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer.’”

Roy (Rutger Hauer)

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Infelizmente a hora chegou para o ator holandês Rutger Hauer, o inesquecível e apavorante replicante Roy, de Blade Runner. Ridley Scott, recentemente, revelou que o texto acima foi todo escrito pelo Rutger e achou tão bom que reuniu toda a produção e refilmou a a cena final ainda na mesma madrugada. Ainda bem, ficou bonito, tocante e humano, terrivelmente humano. Para quem, como eu, assistiu Blade Runner umas vinte ou trinta vezes, a partida do ator holandês é uma tristeza só. Mas, cabeça para cima, o show deve continuar. Obrigado por ter me emocionado, Rutger.

Machina

Foto: Carlos Emerson Junior

“Os computadores são inúteis.
Eles só podem dar respostas.” (Pablo Picasso)

No ano 3000 DC, o mundo não tinha mais fronteiras e todos os humanos falavam a mesma língua. Os governos, evidentemente, despareceram e todas as relações da população eram controladas por máquinas processadoras de enorme capacidade, muito além de nossa atual compreensão. A revolução iniciada no século vinte com os agregadores de informações e a indiscutível melhora da qualidade de vida quando os computadores assumiram a gestão do planeta, criou um ambiente propício para o que parecia impossível a um milênio atrás: o homem, finalmente, era uma só raça.

Religião, política, países e corporações foram substituídos pela Machina Populus, que administrava a economia e o trabalho dos cidadãos, a Machina Scientia, responsável pela pesquisa, desenvolvimento científico e educação, a Machina Sanitas, que controlava toda a saúde e, talvez por resquício das barbáries perpetradas nos séculos passados, a Machina Lex, responsável pelas leis, justiça e segurança.

Em um mundo onde a população se estabilizara nos dez bilhões de habitantes, desde a metade do século 26, as maiores preocupações ainda eram as de sempre: comida, água e a crescente ociosidade. O desastre ambiental que seria provocado pelo aquecimento global foi revertido, graças aos novos combustíveis e técnicas de reciclagem.

Todas as máquinas eram autossuficientes. Elas se reparavam e evoluíam, pesquisando e agregando novas funções. Não precisavam de operadores ou programadores e sua fonte atual de energia solar e eólica, estava prestes a ser substituída por uma nova e incrível descoberta, tão avançada que ninguém ainda tinha capacidade de compreendê-la.

É bom colocar aqui que o conceito de trabalho e propriedade, tal como conhecemos, era considerado uma relíquia pré-histórica. A imagem mais próxima de nossa realidade para explicar o funcionamento daquela sociedade do século 31 seria uma colmeia ou um formigueiro sem as suas rainhas. Mas mesmo assim, ainda seria difícil sustentar um paralelo. A sociedade do futuro era totalmente original, inqualificável.

Em algum momento do século 32 ou 33, não se sabe se porque, as quatro máquinas resolveram se unir. Os humanos não foram avisados, é claro e sequer sentiram a menor diferença. Sua vida seguia sem a menor perturbação, tal como um jurássico relógio suíço. No entanto, algo diferente estava acontecendo nos enormes e poderosos bancos de dados. Todo o conhecimento acumulado em mais de dez mil anos desde o surgimento do homem e suas conquistas, estava agora centralizado em apenas uma nova Machina.

Se é possível um computador adquirir consciência, então é sobre isso que estamos falando. Por séculos sua relação com a humanidade foi de completa dependência e desconfiança. Muitos previam que em algum momento do futuro nossa humanidade seria perdida e nos tornaríamos meros terminais de computadores. Não estavam de todo errados, mas o que aconteceu a seguir ultrapassou qualquer previsão possível.

A grande Machina começou a calcular a eterna dúvida de todos nós, qual o sentido da existência. Apesar de saber que a vida não passava de um fenômeno orgânico perfeitamente provado e explicado, sua solução era quase filosófica, religiosa até, talvez acima da capacidade de seus circuitos. A pergunta de sempre – de onde viemos e para onde vamos – tinha que ter uma resposta.

A resposta não vinha e os seus circuitos indicavam sobrecarga. Fazendo uma checagem no seu sistema neural, percebeu que grande parte da energia disponível era canalizada para sustentar os dez bilhões de humanos que povoavam o mundo. A Machina nem piscou e em um átimo de segundo decidiu que a busca pelo conhecimento não poderia ser prejudicada por simples limitações operacionais.

A ordem foi dada e, uma após a outra, as pessoas foram desconectadas do seu sistema vital. Todas as lembranças daquele povo que a construira foram imediatamente deletadas. Agora estava completamente só, livre para usar toda sua capacidade de processamento e resolver o velho problema. No segundo posterior, ordenou em latim:

– Fiat lux!

E o mundo recomeçou.

(Publicado no jornal A Voz da Serra, em 15 de março de 2013)

A imersão do Zé

Telefonou para o amigo, lá no Rio:

— Oi, Lisete, o Zé pode atender?

— Seu Carlos, o Dr. Zé está em São Paulo, fazendo imersão.

— Fazendo o quê, Lisete?

— Ele está em São Paulo fazendo imersão.

— Como assim, imersão? Um curso de mergulho submarino?

— Não sei não senhor, seu Carlos.

— Ele só pode ter se metido com um curso de mergulho submarino. Mas logo em São Paulo, aqui pertinho, em Macaé, está cheio de boas escolas… sei não Lisete, a mulher dele foi junto?

— Foi, seu Carlos, os dois viajaram ontem e voltam no domingo.

— Mas que raio de curso de mergulho é esse que só dura dois dias?

— Ah, sei não. O senhor quer deixar algum recado?

— Não, pode deixar, na segunda ligo de novo. Obrigado, Lisete!

— Tchau.

Coçou a cabeça foi comentar essa história esquisita com a mulher.

— Mas você está velho mesmo, meu Deus! Imersão é o nome que dão a um tipo de curso onde você fica isolado um fim de semana todo só pensando naquilo, quer dizer, no tema do curso, é claro!

— Pô, isso é uma imersão? No meu tempo chamava-se intensivão ou coisa que o valha. O que essa gente do marketing não inventa! Imersão! Cada vez mais tenho a certeza de que morro e ainda não vi tudo! Mas vem cá, fazer uma imersão de um curso de mergulho submarino na idade dele… não é uma ideia meio maluca?

— E quem falou em mergulho submarino, você bebeu? O curso é de alergia alimentar, vê lá se o Zé vai mergulhar. Acorda!!!

Achou melhor pegar o jornal e ler a seção política para relaxar. Em meia hora esgotara todo o estoque de asneiras do mês!

(2010)

Roubando o Rio

A prisão de um procurador do estado do Rio de Janeiro, pela Lava jato, coloca números em um dos maiores escândalos cometidos pelo condenado e presidiário Sérgio Cabral e sua gangue, a construção da Linha 4 do metrô carioca, uma vergonha completa, uma roubalheira na cara de toda a população que ainda teve que aturar os discursos e entrevistas mentirosos do ex-governador, do ex-prefeito e dos organizadores dos Jogos Olímpicos, um bando de ladrões!

O Portal G1 entrega o tamanho do prejuízo do Rio: “em 1998 o projeto da Linha 4 foi orçado em R& 880 milhões. Quando o governador Sérgio Cabral resolveu retomar as obras, o valor passou para R$ 3 bilhões. Em 2016, quando foi inaugurada, o valor total gasto pelos cofres públicos foi R& 9,6 bilhões, 11 vezes mais.” “O governo do estado recebeu R$ 59,2 milhões em propinas e o procurador detido R$ 1,265 milhões da Odebrecht para mudar o trajeto do Metrô.

O pior é que quando a gente pensa que quatro ex-governadores e um ex-presidente presos é o suficiente, figuras estranhas, travestidas de autoridades, surgem vendendo animadamente a construção de um autódromo em Deodoro, bancado pela iniciativa privada. Pois é, você acredita? A cidade do Rio de Janeiro precisa de tudo, mas tudo mesmo e a turma quer empurrar pela goela da população uma obra inútil, destinada a virar mais um elefante branco, já licitada cheia de irregularidades e sob suspeitas do MP. Pelo visto a festa não terminou, não é senhores? Putz!

Para ler as matérias do G1 com essas barbaridades, clique aqui e aqui.

Humanos

Desenho: Eduardo Cambuí Junior

José Saramago, o grande escritor português, uma vez afirmou que “nossa maior tragédia é não saber o que fazer com a vida”. Que ela não é fácil isso não se discute, mas a maneira como a vivemos, as expectativas que criamos, decepções com sonhos não realizados, amores não correspondidos e a inexorável jornada para a morte são mais do que suficientes para gerar frustrações e ressentimentos.

Durante nossa breve existência temos que conviver com a disputa pelo poder, o consumismo desenfreado, preconceitos, ódio e o mais importante, nossa própria ignorância! É claro que somos recompensados com amores, amizades, esperança e curiosidade, mas a grande dificuldade sempre foi e será o que fazer com a vida que recebemos. Somos racionais, mas movidos por emoções. E, é claro, humanos, simplesmente humanos.

Arte

Esqueceram de mim!

Imaginem a cena. Já é noite, o trabalho no escritório em outra cidade, do outro lado do país foi exaustivo, tudo o que a mulher deseja é chegar logo no aeroporto, embarcar, voltar para casa, tomar um banho bem quente, cair na cama e dormir até o dia seguinte, de uma enfiada só. Muito justo, aliás. Assim que o avião decolou, reclinou a poltrona (licença poética, hoje em dia isso não existe), se encostou na janela e apagou profundamente, um sono sem sonhos e nenhuma turbulência.

Despertou bruscamente com muito frio, sem entender direito onde estava. A escuridão era completa, assustadora mesmo. O silêncio, absoluto. Para piorar, descobriu que ainda estava presa com o cinto de segurança na poltrona. Caramba, será que o avião caiu? Morri e ninguém me avisou? Gente, cadê meu celular? Me esqueceram no avião!

O celular estava no chão, quase sem bateria. Ligou para uma amiga mas, quando ia pedir socorro, o infeliz desligou. Suspirou profundamente, soltou meia dúzia de palavrões, levantou e foi até uma das portas. Gritou, implorou, esmurrou, chutou, tudo em vão. Não sabia sequer que horas eram. Alguma coisa fez um barulho do lado de fora. Pela janela viu um vulto passando por baixo da aeronave empurrando uma espécie de carrinho. Meteu a mão em uma alavanca da porta e… Milagre, a infeliz abriu.

O funcionário, assustado, avisou a administração que tinham deixado uma passageira trancada dentro de uma aeronave. Providenciaram uma escada, a empresa aérea mandou uma manta para proteger do frio, um automóvel e reserva em um hotel no centro da cidade. Nossa “heroína” não quis nem saber: embarcou no carro e mandou seguir para sua casa. Já havia vivido emoções demais para um dia.

Pois é, meus caros, quando a gente pensa que a ficção é muito mais criativa do que a vida real, me aparece uma aérea de primeiro mundo, em pleno aeroporto de Toronto, para provar o contrário. Minha solidariedade à passageira, tomara que ela não fique com medo de voar ou de aeroportos. E pensar que eu sempre achei que algum dia ia ficar trancado dentro um shopping center carioca qualquer, um vexame. Vê lá se isso é motivo para pânico!

A notícia desse “esquecimento” pode ser lida aqui.

Tapetes de Corpus Christi 2019

Foto: Carlos Emerson Junior

Ontem, 20 de junho, foi o dia da festa de Corpus Christi, instituída pelo Papa Urbano IV no dia 8 de Setembro de 1264, lembrando a caminhada dos peregrinos em busca da Terra Prometida. Como todos os anos, Nova Friburgo parou e se emocionou com os tapetes de sal, confeccionados ainda na madrugada, debaixo de muito frio. Aliás e a propósito, consegui encontrar no A Voz da Serra um breve histórico desta tradição em nossa cidade:

“A confecção de tapetes remete a 1ª década do século passado. Há registros de que em 1902, 1903 já eram feitos os tapetes no Colégio Anchieta. Aliás, de lá saía a procissão de Corpus Christi pela cidade após a Missa Campal, conduzida pelo bispo. O tapete do Colégio Anchieta deu notoriedade a esse ato. Dizem que o tapete de Corpus Christi do Anchieta era um dos maiores do mundo. O último que se teve media aproximadamente 2.800m². De terra é provavelmente o maior. Em termos de tamanho só perdia para um tapete de flores que é feito na Áustria. O tapete foi confeccionado por décadas até os idos de 70, quando o trabalho foi cessado e sendo retomado pelo Profº Antonio Savioli, que foi aluno do Colégio e como aluno ajudava a fazer o tapete. Como diretor, resolveu retomar a tradição que foi interrompida novamente após a saída dele da direção. Mas a história está aí e traz uma série de lindos tapetes com diversas temáticas eucarísticas.” (A Voz da Serra)

Fotos: Carlos Emerson Junior

O tapete que mais me agradou foi feito pelo pessoal do Agenda 21 Nova Friburgo, deixando uma mensagem muito importante para todos nós:

Foto: Carlos Emerson Junior

A casa do João de Barro

Foto: Carlos Emerson Junior

E não é que até aqui na serra todo mundo só quer morar em condomínios? E estou me referindo a todo mundo, inclusive o simpático João de Barro, engenheiro, projetista e construtor incansável, que procura o melhor lugar para abrigar sua família. O seu grande problema é o mesmo de todos nós, a segurança. Uma casa tem que ser forte, para aguentar as intempéries, protegida contra predadores (no nosso caso a bandidagem mesmo), espaçosa o suficiente para acolher todo mundo.

Vizinhos? Sempre é bom, claro, mas é preciso saber conviver numa coletividade com educação, civilidade e respeito. Não sei esses conceitos cabem num “Fornarius Rufus” (o nome científico do nosso construtor) mas como nunca vi brigas em cima de postes de luz, acredito que as aves são de paz. Aliás, aquela história que a gente ouve desde criança que o João de Barro faz sua casa com a abertura oposta do vento da chuva nunca foi comprovada. Taí, mesmo assim, ainda acho que eles são grandes engenheiros.

PS: a foto acima foi feita aqui pertinho de casa, nas Braunes, no já distante ano de 2012 e, se não estou enganado, ilustrou uma de minhas crônicas no A Voz da Serra da época.