Manias

Uma das primeiras crônicas publicadas no jornal friburguense A Voz da Serra, em maio de 2011, “Minhas manias preferidas” é uma bem-humorada visão das nossas esquisitices diárias e que, em sua maior parte, nem notamos. Como muito tempo já se passou, a crônica foi devidamente remixada mas, para desespero da garotada, ainda continua um textão. Divirtam-se!

Manias… Quem não as tem? Até onde um mero hábito mecânico pode virar um perigoso TOC? E por falar nisso, o que é mesmo um TOC? Perguntas, perguntas e mais perguntas. Será que perguntar também é uma mania? Sem brincadeira, acho que uma das coisas que nos diferenciam dos demais habitantes vivos deste planetinha são as nossas manias, saudáveis ou não. Alguém já viu um cachorro angustiado quando saiu para passear, tentando se lembrar se deixou o gás ligado? É um exagero, claro, mas do jeito que estamos tratando os nossos pets, qualquer dia eles vão acabar maníacos compulsivos por osmose!

Segundo o Wikipédia, a palavra vem do grego mania (loucura), distúrbio mental caracterizado pela mudança exacerbada de humor, com alteração comportamental dirigido, em geral, para uma determinada ideia fixa e com síndrome de quadro psicótico grave e agudo característico, embora não exclusivo (mania secundária), do Transtorno ou Distúrbio Bipolar e se caracteriza por grande agitação, loquacidade, euforia, insônia, perda do senso crítico, grandiosidade, prodigalidade, exaltação da sexualidade e heteroagressividade.

Entendeu alguma coisa? Nem eu!

Vamos de novo: o Dicionário Houaiss define mania como “hábito extra, prática repetitiva, costume esquisito, peculiar, excentricidade como por exemplo deitar-se sempre do lado direito ou gosto ou preocupação excessiva por ou com algo”.

Melhorou, não é mesmo?

A questão da mania é tão fascinante que alguém, na internet, é claro, se deu ao trabalho de elaborar uma lista com todas as manias conhecidas, de A até Z. Ali encontramos coisas interessantes e inesperadas como a “dacnomania – mania de morder alguém ou a si mesmo”, “erotografomania – desejo de escrever cartas de amor”, “nudomania – mania de ficar nu”, “sofomania – mania de saber muito”, “odaxelagnia – desejo de mordiscar carinhosamente os outros”, “rinotilexomania – mania de colocar o dedo no nariz” e a mais conhecida e que acomete a classe política em geral, a “cleptomania – mania de roubar sem necessidade”.

Mas o que importa mesmo são as nossas próprias manias, aqueles toques que não causam danos a ninguém e, por que não, facilitam nossas rotinas. E sem mais delongas, aí vão algumas das minhas manias preferidas:

  • Ler jornais de trás para diante. Eu acho que isso vem de criança mesmo. Lembro que gostava dos quadrinhos do segundo caderno do jornal carioca O Globo, que ficavam na penúltima página. Depois passei a ler a seção de esportes, sempre na última página. Hoje, bode velho e leitor compulsivo (opa!), só sei ler da última para a primeira página (mas, atenção, é só com jornais, não faço isso com livros e revistas porque ainda não estou louco);
  • Nunca piso no chão sem estar calçado. Isso não sei explicar, já que nasci e cresci em Copacabana, indo sempre à praia de pé no chão. De repente, não consegui mais andar sem um chinelo, sandália, tênis, qualquer coisa, menos pé no chão. Acho que Freud explica. Ou então Jung… Será que pisei em cocô de cachorro e fiquei traumatizado? Vai saber!
  • Minhas roupas são todas arrumadas no armário por tipo e cor. É sério! Separo as camisas em mangas compridas, curtas e sem mangas e agrupo pelas cores. Calças e bermudas também. Mas isso deve ser porque sem óculos não enxergo nada e dessa maneira consigo visualizar facilmente a peça que vou usar. Ainda bem que não sou daltônico.
  • Detesto filas. Fila de banco, restaurante, cinema, teatro, INSS, vale transporte, vale idoso, vale gáz, correios, bolsa família, eleição, o que for. Se for preciso mudo de programa, chego mais cedo ou mais tarde, enfim, faço qualquer negócio para não ser obrigado a encarar uma fila.
  • Roer as unhas. Para falar a verdade, tecnicamente eu corto as infelizes com qualquer objeto cortante que caia nas minhas mãos, ou seja, não sou um “roedor”. Ansiedade, insegurança, falta de louça para lavar? O mais curioso é que agora, já na terceira idade, não tenho mais esse hábito. O que mudou? Não tenho a mínima ideia, deve ser esquecimento mesmo!
  • Pois é. Não, não é o fim da crônica não, é mania mesmo. Podem reparar que uso e abuso do “pois é”, escrevendo e falando, principalmente quando o raciocínio, já meio baleado, custa a fechar a ideia. Tá bom, isso não é mania, é pobreza de vocabulário mesmo…

Mais algum? Sem dúvida, mas acho bom parar por aqui. Algumas manias são tão nossas que fica até difícil explicar. Aliás, não conto nem por decreto! E você, querida leitora e caríssimo leitor, qual a sua mania preferida?

Celacanto provoca maremoto

Esta crônica foi publicada no Caderno Light do jornal A Voz da Serra, de Nova Friburgo, em 13 de julho de 2012. Partindo do caso de uma pichação que provocou uma comoção na cidade do Rio, falo sobre Arte Urbana, a eterna discussão “grafite x pichação” e como tudo isso é importante para as cidades onde ideias ainda fervilham. O texto estava completamente esquecido nos meus arquivos e nunca foi publicado aqui no blog.

A propósito, vocês sabem o que é um Celacanto?

oOo

Imagem: Carlos Emerson Junior

A Voz da Serra

Corria sem novidades o ano de 1977 quando, da noite para o dia, muros e fachadas de prédios acordaram pichados com esse aviso, de uma certa forma sinistro para quem mora à beira-mar. Maremoto, como assim? E o que é um celacanto? Se fosse hoje seria moleza, bastava dar uma googlada, mas na época só consultando a vetusta Enciclopédia Barsa e mesmo assim ainda ficaria a dúvida: celacantos realmente provocam maremotos?

A frase enigmática foi criada pelo hoje jornalista Carlos Alberto Teixeira, o CAT, uma das feras do falecido Caderno de Informática do jornal O Globo, junto com a Cora Rónai e B.Piropo. Ele tinha na época 17 anos e se inspirou em um episódio do seriado japonês “National Kid”, onde um cientista adverte um grupo de garotos para nunca se aventurarem nas profundezas do oceano, já que o celacanto, quando enfurecido, emite grandes ondas de ódio, podendo revolver o mar.

O sucesso da pichação foi tão grande que um hacker (talvez um dos primeiros do Brasil), invadiu o computador do Instituto Militar de Engenharia (IME), alterando a função raiz quadrada para a cada dez vezes, depois de efetuar o cálculo normalmente, imprimir a frase mágica: celacanto provoca maremoto. Imaginem o tamanho da onda na tradicional escola militar!

Aliás, muita gente não achou a menor graça na brincadeira, especialmente os proprietários dos imóveis pichados. Apesar do risco de pegar um processo por vandalismo e crime ambiental, ninguém nunca deixou de escalar fachadas de prédios para deixar sua assinatura nas paredes e, convenhamos, alguns edifícios chegam a dar pena, de tão riscados. O celacanto, sem dúvida, popularizou esse, digamos assim, crime.

Mas o assunto aqui não é pichação, celacantos ou maremotos—que hoje em dia viraram tsunamis—e sim Arte Urbana, com letras maiúsculas, é claro. Novamente o Google ensina que “arte urbana, urbanografia ou street art é a expressão que se refere a manifestações artísticas desenvolvidas no espaço público, distinguindo-se das manifestações de caráter institucional ou empresarial, bem como do mero vandalismo”. Sua expressão mais óbvia é o grafite, pelo baixo custo e facilidade para trabalhar sozinho.

No entanto, o uso dos espaços público e privado é muito complicado. É fácil citar a capital fluminense ou cidades europeias como Londres, Barcelona, Berlim, Buenos Aires e New Orleans, por exemplo, onde a arte nas ruas é uma atração turística. Evidente que não é do dia para a noite que a convivência será harmoniosa mas, sem tentar ou conversar, jamais iremos a lugar algum.

15112009001Há alguns anos atrás, acho que em 2009, fui surpreendido com uma instalação muito interessante ao lado da pracinha do Cônego. Alguém, ou algum grupo, simplesmente montou um banheiro ao ar livre, com um vaso sanitário, bidê, caixa de descarga e um suporte para o papel higiênico. Não tenho certeza se a intenção era um protesto, simples irreverência ou uma forma de expressão. Mas aquilo era, sem dúvida, arte urbana. E melhor ainda, audaciosa!

Outra intervenção impressionante, mas desta vez marcada pela dor e a indignação, foram as 2.000 cruzes de madeira fincadas nas areias da praia de Copacabana, em frente ao Copacabana Palace Hotel, simbolizando as vítimas das chuvas da Região Serrana em janeiro de 2011. Organizado por associações de moradores como um protesto, não deixou de cumprir sua função, impressionar e chamar atenção para a nossa tragédia.

GilsonAlguns tapumes de obras e os antigos quiosques da Alberto Braune foram premiados com versos do Gílson, poeta urbano que zanzava pelas cidades do estado do Rio, sempre escrevendo com giz. E ninguém apagava! Lembro dos Misantropos, aqui mesmo de Nova Friburgo, com suas tiradas irônicas e oportunas, destacadas em alguma parede isolada. E na capital um profeta genial nos ensinou que “gentileza gera gentileza”! Hoje, suas frases pintadas nos pilares da Avenida Perimetral estão tombadas.

A professora Sonia Jobim ensina que “cultura é o conjunto de atividades e modos de agir, costumes e instruções de um povo. Cultura é um processo em permanente evolução, diverso e rico. É o desenvolvimento de um grupo social, uma nação, uma comunidade; fruto do esforço coletivo pelo aprimoramento de valores espirituais e materiais. É um conjunto de fenômenos (língua, costumes, rituais, culinária, vestuário, religião, etc.) em permanente processo de mudança.”

Podemos pensar em uma cultura friburguense? Sem dúvida e digo mais, pela nossa formação histórica, onde se misturam povos tão distintos que vão dos suíços aos japoneses, muito rica. O que somos hoje, bem ou mal, vem daí. Lembro-me que a Nova Friburgo que conheci comemorava a data nacional de cada uma de suas colônias e era pródiga em festas temáticas, culturais, ambientais e religiosas, que atraiam visitantes de todo o Brasil.

Temos um teatro municipal, grupos e centros de artes, feiras de artesanato, biblioteca, duas bandas centenárias, jogos florais mas… Sabem do que sinto falta? Do artista de rua, o músico mostrando suas canções numa calçada qualquer, a trupe de palhaços encantando crianças em uma praça, um grupo de jovens fechando o trânsito repentinamente com um bem-humorado flash mob, um muro lindamente grafitado.

Quando ouço a garotada friburguense reclamando, com toda a razão, das pouquíssimas opções de lazer de nossa cidade, não tenho como não me lembrar de Mick Jagger cantando “mas o que um rapaz pode fazer, a não ser cantar em uma banda de rock, porque na cidade sonolenta de Londres, não há lugar para um lutador nas ruas”. Pois é, precisamos com urgência de um adolescente de 16, 17 anos, que acredite que o celacanto ainda pode provocar, vá lá, uma tsunami!

As cidades são vivas e, como os seres humanos, precisam se renovar. Os meninos do GAM e seus megafones têm feito um barulhão, mas precisam de companhia! Com boa vontade e muita criatividade, podemos imaginar uma Nova Friburgo remoçada e repaginada, um lugar onde moços e moças tenham, além de música, diversão e arte, prazer e orgulho de aqui morarem.

E aí pessoal, vamos para as ruas?

Fila do banco

A Voz da Serra

Dobrou o jornal, passou a mão na papelada, suspirou resignado e lá se foi para a primeira tarefa do dia: pagar um monte de contas, quase todas atrasadas. Bem feito, ia gastar mais e perder a manhã na agência bancária!

A fila até era pequena mas todos os três caixas estavam ocupados. Ignorando a proibição, tirou o celular do bolso para brincar com o joguinho de fé, a velha e boa paciência. E com o dedão no teclado se desligou do mundo.

Acordou, ou melhor, caiu em si quando uma das caixas levantou a voz para o cliente:

– Eu vou ter que repetir? O senhor não fez reserva e assim não dá pra liberar essa quantia. Não é uma questão do banco ter ou não numerário, acima desse valor só com reserva. O senhor sabe muito bem disso.

– Escuta aqui, moça, eu sou cliente antigo, preciso sacar agora mesmo e não vou sair daqui enquanto não receber meu dinheiro.

– Não, o senhor tem que subir e falar com a gerente de sua conta. Eu não tenho sequer esse valor disponível.

– Não subo e não saio enquanto meu dinheiro não sair!

Caramba, a coisa estava descambando. Os dois discutiam em voz alta e a funcionária digitava alguma coisa nervosamente em pé. Seu cliente, um tipo comum, baixinho, já por volta dos cinquenta, encostou-se no balcão sem a menor intenção de arredar o pé.

Guardou o celular, afinal, aquilo estava mais interessante do que a paciência. Um segurança e uma supervisora juntaram-se à discussão que já chamava a atenção de todo mundo dentro da agência.

O baixinho continuava irredutível: a gerente da conta que viesse até ele!

– O senhor sabe muito bem que é norma do Banco Central. Saques muito altos tem que ser solicitados de véspera. Aliás, na sexta-feira o senhor cumpriu os procedimentos sem nenhum problema. Não podemos fazer nada.

– Daqui não saio, daqui ninguém me tira. Conhece a música ? Claro que não. E nem adianta vir se chegando com esse segurança feioso aí que eu chamo a polícia!

Impasse total. Coçou a cabeça e começou a considerar a ideia de procurar outro banco para fazer os pagamentos. Aquilo estava ficando estranho. Os outros caixas, envolvidos na discussão, não pareciam notar na fila que crescia, formada por pessoas cada vez mais irritadas.

Até que…

Bom, de repente, do nada, surge uma senhorinha, dessas bem pequeninas que andam pelo centro de Nova Friburgo, conhecem todo mundo, sempre com um sorriso no rosto. Nas mãos trazia três rosas vermelhas e um pacotinho verde. Pediu licença, passou para a frente da fila e, como uma figura de filme cabeça italiano, entregou as rosas, uma para cada funcionária dos caixas. Parou em frente ao baixinho e colocou o pacotinho em suas mãos, falando:

– Meu querido, o dia está lindo, o sol brilha, não está frio, uma beleza, e você perdendo seu tempo aqui dentro, discutindo com essa jovem bonita por uma bobagem! Olhe seu rosto, está cheio de rugas, um rapaz tão distinto. Notou que os olhos da mocinha que está lhe atendendo estão marejados de lágrimas?

– Eu acho que a senhora não enten…

– Entendi sim, meu filho, estou vendo uma pessoa boa com ódio de uma outra pessoa que só está trabalhando. Você está esquecendo que ela não é a dona do banco. Vamos conversar, vá lá falar com a gerente e, por favor, nunca se esqueça que um bom dia e um sorriso abrem mil portas.

O baixinho olhou sem graça para a caixa, como que pedindo ajuda. A moça, visivelmente emocionada pediu que ele a acompanhasse até a gerência, no segundo andar. E, para satisfação de todos, a fila finalmente andou.

Pois é… algumas histórias só tem final feliz em crônicas.

Pedras que rolam

Foto: Carlos Emerson Junior

A Voz da Serra

Quando Muddy “Mississipi” Waters”, o genial bluesman norte americano escreveu, em 1950, os versos de uma canção, contando que sua mãe, antes dele nascer, dizia que “I got a boy child’s comin, he’s gonna be a rollin stone, sure ‘nough, he’s a rollin stone” (vou dar à luz um menino, ele será um rollin stone, com certeza, ele será um rollin stone), jamais pensou que batizaria uma das maiores bandas de rock que já existiu.

A expressão “rollin stone”, nesse caso, não deve ser traduzida ao pé da letra e sim como alguém sem rumo, moradia, um vagabundo ou até se preferirem, revolucionário. Os Rolling Stones, ou melhor Keith Richards, Mick Jagger, Brian Jones, Byll Wyman e Charlie Watts, com sua atitude completamente rock de ser e sua música de raízes negras, sempre fizeram jus ao seu nome.

Os anos 60 mal tinham começado e o rock era a grande novidade, o contraponto à guerra fria que dividiu o mundo entre bons e maus. Os Beatles, é claro, eram seus astros principais. Por volta de 63 ou 64, nem lembro mais, comprei meu primeiro compacto duplo (para a garotada de hoje, era um disquinho de vinil, com quatro músicas, duas de cada lado) do grupo de Liverpool. A estreia do seu filme “A Hard Day’s Night”, infamemente traduzido como “Os Reis do Iê-iê-iê”, catalizou todas as atenções da juventude da época.

Conheci os Rolling Stones através de uma prima que ganhou e detestou o álbum “12×5”, lançado nos States em outubro de 1964. Aliás, também foi o meu primeiro contato com o então chamado “disco importado” e seu vinil com com quase o dobro da espessura dos Lps fabricados pela extinta Odeon. Sua qualidade de som era brilhante mas, o que me pegou mesmo foram preciosidades como “Around and Around” do Chuck Berry e a pungentes “Time Is On My Side” e “If You Need Me”.

Para melhorar, Mick Jagger declamava parte de algumas canções, sem perder o ritmo ou soar estranho. Caramba, aquilo era muito melhor que os Beatles! Musicalmente talvez fossem até parecidos, mas aqueles rocks tinham alma, não eram simples canções tolas de amor, como o próprio Paul McCartney confessaria mais tarde.

Daí para a frente a paixão pelos Stones foi num crescendo. Minha prima ganhava os Lps e nem ouvia mais, passava direto para mim. Assim comecei minha discoteca com “Out of Our Heads” e a inacreditável “Satisfaction” ao até hoje mal compreendido “Their Satanic Majesties Request”, de 1967, com a foto da capa em três dimensões, atualmente um item de colecionador.

Nem preciso falar das confusões que arrumava com esse – digamos assim – lado “Stone”. Para começar, dizia para quem quisesse (ou não) ouvir, que os Rolling Stones eram muito melhores que os Beatles. Lembro que o Laerte, um grande amigo da escola, beatlemaníaco de carteirinha, brigou feio e quis acabar a amizade quando afirmei que “Satisfaction” era muito melhor que “Help!”.

Os Stones foram uma abertura para mim. Através deles descobri uma música negra americana efervescente, conheci o R&B, Blues, Soul e, por consequência, o Jazz. Aprendi a tocar violão, baixo e alguma coisa no piano. Comecei a compor melodias para letras dos amigos e, é claro, entrei em um dos centenas de conjuntos musicais que tocavam rock nos apartamentos de classe média de Copacabana.

Mas infelizmente, a vida não é só música e com a escalada da guerra do Vietnã, o crescente inconformismo diante do status quo e a situação política do Brasil cada vez mais complicada, o foco da minha geração foi mudando. Todos nós, principalmente os estudantes, estávamos diante de uma ruptura que marcaria para sempre nossas vidas, de uma maneira ou outra As canções agora eram cantadas em português, sempre com um recado nas entrelinhas.

No dia 3 de julho de 1969, o guitarrista Brian Jones foi encontrado morto em sua residência, na Inglaterra, por motivos até hoje meio obscuros. O controle da banda passou para a dupla de compositores, Jagger e Richards. Os trabalhos seguintes, ainda com gravações antigas de Jones renderam bem mas, após “Exile On Main St.”, de 1972, alguma coisa se perdeu e a graça se foi. Mudaram os Stones, eu mudei, o mundo mudou.

Em 1967 quatro rapazes de Cambridge entravam no lendário Abbey Road Studios, em Londres, sob a liderança de um maluco genial para gravar seu primeiro e antológico álbum, “The Piper at the Gates of Down”, com forte influência da música psicodélica dos últimos trabalhos dos Beatles e Rolling Stones. O sucesso e o prestígio que o Pink Floyd conseguiu com seu disco de estreia, abriu caminho para um novo tipo de rock, cerebral, introspectivo e técnico, que exigia ótimos músicos, criatividade e muitas horas em bons estúdios de gravação.

Nascia ali o Rock Progressivo, minha próxima paixão. Já os Rolling Stones continuam até hoje a sua saga, mesmo (ou apesar de) setentões e bem castigados pelos excessos. Mas cinquenta anos depois, seus concertos ao vivo pelo mundo todo, com uma energia inacreditável, provam que o poeta gaulês Dylan Thomas sabia o que estava falando, quando um dia cantou que as pedras que rolam não criam limo! Muddy Waters, com certeza, aprovaria.

Foto: Carlos Emerson Jr.

Fiat Elba

A Voz da Serra

– Não foi por causa de uma Fiat Elba que aquele presidente foi afastado?

– Hum… Na verdade foi um problema com corrupção, falta de apoio no Congresso Nacional e…

– Não, não, a acusação que vingou mesmo, o motivo técnico para a cassação foi a Fiat Elba!

– Bom… É, tem razão, mas isso foi apenas um detalhe, a coisa era maior.

– Tinha uma Fiat Elba, é o que importa.

– Mas importa como, foi uma comoção nacional, esqueceu?

– Importa prá mim! Prova que existiu uma praga em cima dos donos desse carro.

– Ah, para com isso. Onde já se viu “praga de automóvel”?

– Existe sim. Eu mesmo nunca acreditei nessas coisas e olha que já tive latas velhas até da Lada, você lembra, não é mesmo?

– Lembro sim, mas aí não foi praga e sim burrice…

– Foi mesmo, confesso. Mas garanto que o único carro de que me desfiz com prazer foi a Fiat Elba. Aliás, minto, com prazer não, apavorado.

– Caramba!

– O pior é que foi meu primeiro carro zero quilômetro. Comprei logo que foi lançado, no final da década de 80. Era uma bela perua prata, com tudo o que tinha direito. E o motor não era essa coisa tosca de 1000 cilindradas não, era um bom e forte 1.5 a gasolina.

– Mas…

– Espera e ouve: ela nunca deu um defeito sequer. Valente, andava rápido e macio. Quebrava o maior galho, já que minhas filhas ainda eram pequenas e qualquer saída era aquela tralha para transportar. Em resumo, era o veículo ideal. Mas meu amigo, o bicho pegou.

– Tô ouvindo.

– Logo de cara, com uns dois dias de uso, minha mulher estacionou na garagem da clínica, como habitual. Uma meia hora depois apareceu o responsável pelo estacionamento, apavorado. Um advogado foi manobrar um Opalão e entrou em cheio na lateral da Elba. Tá bom, o homem arcou com todas as despesas e ficou novinho. Mas já era um aviso.

– Pera lá, acidentes acontecem e outra coisa, você não faz seguro?

– Claro que faço, pô! Mas a história ainda não acabou. Um mês depois, de novo minha mulher tranquila no ambulatório e entra o mesmo zelador do mesmo estacionamento. Acontece de novo, só que desta vez não foi um advogado e sim um engenheiro.

– Oquié isso, sô?

– Pois é! A seguradora bancou o conserto e nós começamos a ficar com um pé atrás… Uns quinze dias mais tarde fomos passear no interior de São Paulo e aí foi comigo: numa rua tranquila de uma cidadezinha, em plena reta, bati com a roda dianteira do lado direito na única pedra do meio-fio que estava desalinhada, sei lá porque motivo. Perdi o pneu, a roda e ainda tive que consertar a suspensão daquele lado. Não chovia, não tinha ninguém na rua ou algum carro perto e juro que não dormi ao volante, até porque a Elba estava cheia de crianças fazendo a maior algazarra.

– Tô pasmo…

– Tem mais. Depois de morrer numa roda, pneu e oficina voltamos para Nova Friburgo por Petrópolis para almoçar num restaurante do tipo alemão, cujo nome já nem me recordo. Era um dia de semana e o local estava completamente vazio. Bem na entrada havia uma vaga enorme, acho que dava para uns cinco veículos, sem exagero.

– E…

– E… enfiei a lateral da desgraçada da perua no único poste que tinha na calçada. Levei um baita susto, custei a entender o que tinha acertado. Puxa vida, até hoje fico me perguntando o que aquele poste foi fazer ali! O para-lama da parte traseira afundou, tal o impacto.

– A maior barbeirada, cara, não sabe colocar o carro numa vaga?

– Muito engraçado! No final de semana seguinte meu cunhado precisou do carro para levar alguma coisa para algum lugar, sei lá.

– Você contou essas histórias para ele?

– Sem dúvida. No dia seguinte ele aparece lá em casa com uma cara horrorosa, agradecendo a gentileza e contando mais uma de amargar.

– Bateu?

– Pior, quase morreu! Quando chegava em casa, um ônibus colou na traseira da Fiat. Ele achou estranho, já que só tinham os dois na rua. E continuaram assim, em alta velocidade até o final da rua, quando ele conseguiu escapar um pouco do maluco e virou para a direita de qualquer maneira. Subiu na calçada, cantou pneu, foi um escândalo, mas escapou do maníaco do ônibus. Depois de terminar de tremer, foi me devolver a bomba, digo a Elba.

– E aí?

– Aí? Ficamos com medo, acabamos vendendo a infeliz e juramos nunca mais sequer olhar para uma outra. Logo depois, em 90, 91, sei lá, o presidente cai por causa dessa perua. Vê se pode!

– Mas o problema do presidente não foi esse…

– Não interessa. Quem mandou se meter com uma Fiat Elba?

Casos cariocas, segunda parte

A Voz da Serra

– Motorista este ônibus tem banheiro?

– Tem sim, minha senhora, fica lá no fundo…

– Tem que ter banheiro. Eu paguei a passagem e quero meus direitos, o banheiro e… cadê o ar condicionado, não tem ar no ônibus? Eu paguei!

– O ar só pode ser ligado quando o carro sair da plataforma, dona, são ordens da prefeitura.

– É bom que seja isso mesmo, senão vou dar queixa na empresa. Isso é um absurdo. A
gente já embarca tensa, tendo que reclamar de tudo.

– Tá certo e boa viagem, dona!

– E mais essa… Minha filha quais são as poltronas?

– A dois e a quatro, mãe.

– Então por que esse sujeito está sentado no meu lugar? Sai daí seu enxerido.

– Opa, essa aqui é a poltrona um, minha senhora.

– Eu não estou falando? Minha filha, quer dizer que você comprou assentos separados e ainda por cima ao lado desse grosseirão?

– É mãe, comprei…

– Minha senhora, não seja por isso. Eu troco de lugar com sua filha e vocês duas ficam
juntas.

– Ora, ora, o grosseirão até que é esclarecido. Então sai daí, moço!

– Dona, grosseirão é a sua… Deixa prá lá, com licença.

– Motorista, eu estou morrendo de calor, esse ônibus sai ou não sai? E liga o ar!

– Só ao meio-dia, dona, aí eu ligo, já falei.

– Puxa mãe, está frio, as pessoas estão de casaco, não vai nem precisar de ar
condicionado…

– Cala a boca, coisa inútil. É uma questão de direito: eu paguei e exijo usar. E vai logo ver se tem banheiro mesmo nesta porcaria.

– Mas mãe…

– Vai lá, não discute.

– Dona, tem banheiro sim, mas ainda dá tempo da senhora usar o da rodoviária.

– Não pedi sua opinião!

– Eita!

– Por que será que aquela inútil da minha filha está demorando?

– Mãe, tem banheiro sim. E acabei de me lembrar de que não comi nada. Será que dá tempo para almoçar ali no barzinho?

– Senta aí sua desnaturada. Para de falar besteira. Se eu sair daqui vem outro grosseirão rouba o lugar ou a minha mala. Fica quieta. E você está muito gorda para ficar comendo toda hora. Motorista, olha a hora. E vê se liga essa droga do ar condicionado logo que eu não aguento mais de calor!

A viagem prometia…

oOo

A festinha infantil seguia animada e alegre no salão de festas do prédio de um casal amigo. A criançada assanhadíssima corria para cá e para lá e, quando um deles arranjou uma bola de futebol, a coisa ficou meio caótica. A dona da casa, querendo salvar o que ainda restava de suas mesas decoradas com o tema da festinha, implorava para que um dos pais tomasse qualquer providência.

De repente, alguém desvia a bola em nossa direção. Para nosso espanto o Rui, um modelo de elegância, discrição e sobriedade, faz o improvável, dá um bicão de direita e sai gritando: – Goooollllll!!!!! Gooolllllll! MEU SAPATO! Alguém pega o meu sapato! Isso mesmo, seu impecável mocassim de couro, caro prá burro, decolou do playground e aterrissou aos trambolhões no telhado da casa ao lado.

Meus queridos, um gol de placa! Já o Rui… Bom, os moradores da casa só voltariam no dia seguinte. Pular o muro e subir no telhado estava fora de cogitação, vai que algum vizinho chamasse a polícia… O remédio era torcer para não chover e que nenhum gato gostasse de morder mocassim. Alguém gentilmente cedeu um par de havaianas e o aniversário seguiu sem maiores problemas. Uma sapatada para não ser esquecida.

Foto: Carlos Emerson Junior

E o desapego, como fica?

 

Desapego. Substantivo masculino, nos dicionários significa falta de apego, afeição, desamor, desinteresse, indiferença. Desprendimento diante das coisas superficiais, das vaidades em detrimento de fatos importantes e que fazem sentido a vida. Saber dividir e compartilhar.

Pois é, mas… sei lá, essa definição é muito econômica! O budismo ensina que “quem a tudo renuncia jubiloso, alcança, já agora, a mais alta paz do espírito; mas quem espera vantagem das suas obras, é escravizado pelos seus desejos”. É aquela velha questão, o problema não é ter uma Ferrari na garagem e sim achar que precisa de uma!

Vivemos tempos onde o único objetivo parece ser o consumo, fonte de prazer disponível em cada shopping do bairro ou nas lojas eletrônicas da internet, convenientemente parcelado em 12 vezes sem juros. E piorou depois que o Steve Jobs nos convenceu que seus gadgets são essenciais, mesmo que ninguém realmente precise deles.

Pois é, aqui estou eu tentando falar de desapego mas é bom vocês saberem que já tive três carros na garagem, uma coleção com mais de mil bolachões de vinil nas estantes, aparelhos de som de todos os tipos, montanhas de livros e o péssimo hábito de trocar de celular a cada lançamento, o que deixava a coitada da minha mulher preocupadíssima, esperando virar a bola da vez.

Nem tanto e como gosto de falar, um dia a gente aprende que não dá para nos medir pelos bens materiais a que nos apegamos. Saber viver com o que temos, sem entrar nessa paranoia que a sociedade e a economia ocidental literalmente nos vende diariamente já é um bom começo. Não somos monges ou ascetas mas é importante ter em mente o que realmente vale.

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Se conhecemos o caminho para praticar o desapego material, o mesmo não podemos afirmar do desapego ao poder. Para começar, basta um olhar mais atento para o nosso quadro político e perceber que, apesar do regime democrático, ignoramos ou permitimos a criação de mecanismos que perpetuam os nomes e grupos de sempre. Políticos desapegados existem, sem dúvida, mas são tão poucos que chegam a ser considerados figuras excêntricas.

O poder é inebriante, contagia e vicia. Aliás, sejamos sinceros, qualquer poder, não apenas o político! De novo a filosofia oriental ensina que todos nós somos líderes: se não temos uma empresa, temos uma família. Se não temos uma família, temos a nossa própria vida e, em última instância, o relacionamento com nós mesmos. O segredo é como fazemos isso.

Desapego ao poder não é se afastar do fato e sim reconhecer que temos o nosso momento e apenas ele. O grande lance é saber a hora de seguir em frente sem prejudicar ninguém Afirmar, como os políticos adoram, que já fez muito pela população não passa de bravata populista e conversa fiada! Solidariedade não é moeda de troca ou ação marqueteira, é obrigação de qualquer ser humano.

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E o lado emocional, fica de fora? Para o Dalai Lama, amor requer desapego, saber que não possuímos ou somos propriedade de outrem. O verdadeiro amor não é apenas um jogo a ser jogado ou uma relação que pode ser contratada em uma escritura de posse. Paixão, respeito, amizade e muita cumplicidade são os ingredientes de uma relação estável e feliz.

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Conversando com uma amiga comentei que com a idade a gente fica naturalmente mais desapegado, mas aí bateu a dúvida, será que não são as coisas que não querem mais se apegar a nós? É, confesso que muito vivi e sei muito bem que, ao contrário dos faraós e nobres do Egito antigo, não vou levar ouro, vinhos, joias e escravas nuas para uma sepultura numa pirâmide qualquer, pelo contrário.

Quer um conselho? Desapegue-se!

Antes de sair correndo para comprar um carro novo, pense bem se vale a pena trocar de carro. Aliás, será que você realmente precisa de um carro? E aquele closet cheio de roupas e sapatos, sem uso há pelo menos um bom par de anos, que tal doar para quem necessita? As estantes de sua casa estão abarrotadas de livros, juntando mofo e poeira? Biblioteca neles! A namorada ou namorado controla até a hora do seu banho? Hummm… Desapego nela. Ou nele!

Desapego de verdade é doar uma parte de seu tempo e ler um livro para um cego ou passear com um idoso. Participar de um mutirão de limpeza, como fez o pessoal lá de Nova Friburgo, depois das chuvas de 2011. Manter a capacidade de se indignar com injustiças e não ter medo de defender quem está sofrendo com elas.

Desapego é simplesmente uma questão de humanidade, é ubuntu, como ensinam os africanos. Desapego pode ser até pescar na companhia de uma garça. Desapego é o caminho para a felicidade.

A Voz da Serra, 15/6/2012

Foto: Carlos Emerson Junior

Medo

Quando o escritor moçambicano Mia Couto, um dos mais importantes nomes da moderna literatura na língua portuguesa, leu seu texto “Murar o Medo”, nas Conferências do Estoril, realizadas em Portugal em 2011, tocou na maior ferida da humanidade. Temos medo desde as nossas origens, quando sem luz procuramos abrigo dentro de cavernas contra inimigos reais e imaginários.

A humanidade evoluiu, foi ao espaço, aumentou seu conhecimento e o medo continua lá, sempre a nossa espera. O poder está sempre com quem tem a capacidade de provocar o medo, seja ele físico, moral, espiritual ou psicológico. O medo vence porque ele não tem medo. O medo se basta, é intangível e presumo, infinito. Talvez seja essa a nossa sina, para viver, precisamos temer.

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Existe uma saída contra o medo? Segundo José Saramago, outro grande escritor português, vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 1998, em um artigo publicado na Folha de São Paulo, em 1991, é possível, mas só depende de nós mesmos: basta dizer não!

“A palavra de que eu gosto mais é não. Chega sempre um momento na nossa vida em que é necessário dizer não. O não é a única coisa efetivamente transformadora, que nega o status quo. Aquilo que é tende
sempre a instalar-se, a beneficiar injustamente de um estatuto de autoridade. É o momento em que é necessário dizer não. A fatalidade do não – ou a nossa própria fatalidade – é que não há nenhum não que não se converta em sim. Ele é absorvido e temos que viver mais um tempo com o sim.”

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Texto extraído da crônica publicada no jornal A Voz da Serra, edição de 7 de dezembro de 2012.

Uma queda olímpica

A crônica é antiga, foi publicada no jornal A Voz da Serra, de Nova Friburgo, exatamente no dia 7 de setembro de 2012, mas não fala do nosso ‘Independence Day’ e sim de tombos, quedas, tropeções, escorregadas e tudo o que nos joga no chão, no sentido literal da expressão e sem direito a nenhuma medalha.

Muito pelo contrário…(Carlos Emerson Jr.)

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Uma queda olímpica

Meu sogro, talvez influenciado pelos recém-encerrados Jogos Olímpicos de Londres, esqueceu que está com 80 e muitos anos e resolveu saltar sobre um balde de água que a faxineira esqueceu na porta da cozinha do seu apartamento. O resultado da proeza foi um tornozelo fraturado, quinze dias de molho com um trambolho na perna jocosamente apelidado de robocop e, é claro, sem direito a uma medalha qualquer.

Um grande amigo nosso, médico e professor de primeira linha, gostava de alertar, com a voz grave e a expressão bem séria que, o que mata velho mesmo é um bom tombo. Um belo dia ele mesmo, também idoso, escorregou na escada de casa, quebrou uma clavícula e lá se foi para o hospital. Não é que ele sabia o que estava falando?

Minha mãe, já com quase noventa anos, saiu do boxe após o banho, ignorou o piso molhado e se esborrachou no chão! Para sua sorte, minha irmã estava por lá e correu para ajudar. Incrivelmente ela não fraturou um ossinho sequer e as sequelas foram alguns hematomas e a dignidade profundamente ferida. Imagina se a velha senhora ia aceitar que tinha caído porque não usou o tapete de borracha do banheiro?

Eu também não posso falar nada: após terminar um trabalho no notebook de uma de minhas filhas, resolvi guardar o aparelho. Como a cachorra da casa estava dormindo no corredor, fui tateando no escuro para não acorda-la. A idiotice não deu em outra: pisei em um dos brinquedos da peluda, perdi o equilíbrio e cai de cara no chão. Não me machuquei e nem quebrei o computador, mas tive que aturar dores no corpo e gozações por alguns dias. E olha que eu ainda nem era oficialmente um idoso!

Pois é, casos como esses se sucedem em todos os lugares e todo mundo tem uma ou várias histórias para contar, uma grande parte com um final bem mais triste.

Segundo o Sistema Único de Saúde – SUS, 75% dos acidentes sofridos por pessoas com mais de 65 anos acontecem dentro de casa, sendo as quedas as mais comuns. De fato, 30% dos idosos caem pelo menos uma vez por ano e 75% dentro de sua própria casa. Infelizmente, as quedas também são as maiores causadoras de óbitos, chegando a 70% na faixa etária acima de 70 anos. É importante frisar que 46% das fraturas provocadas por esse tombos acontecem durante a noite, no trajeto quarto-banheiro.

As causas dessas quedas são inúmeras, já que à medida que a idade avança, perdemos nossos reflexos e agilidade, mas em alguns casos, a imprudência também faz suas vítimas. Meu sogrão, logo depois de seu tombo olímpico, cismou que a poltrona do seu computador era mais adequada que a cadeira de rodas recomendada, se empolgou e… caiu novamente, felizmente, desta vez, sem mais nenhum dano físico!

O renomado Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia – INTO publicou o artigo “Queda de Idosos”, (que pode ser lido na internet, no endereço http://bvsms.saude.gov.br/bvs/dicas/184queda_idosos.html), abordando o assunto de forma didática e deixando uma série de sugestões e cuidados para minimizar ou até mesmo evitar os tombos.

Confira algumas:

No quarto:

  • Coloque uma lâmpada, um telefone e uma lanterna perto de sua cama;
  • Durma em uma cama na qual você consiga subir e descer facilmente (cerca de 55 a 65 cm);
  • Os armários devem ter portas leves e maçanetas grandes para facilitar a abertura, assim como iluminação interna para facilitar a localização dos pertences;
  • Dentro do seu armário, arrume as roupas em lugares de fácil acesso, de preferência evitando os locais mais altos;
  • Instale algum tipo de iluminação ao longo do caminho da sua cama ao banheiro;
  • Não deixe o chão do seu quarto bagunçado.

Na sala e corredor:

  • Organize os móveis de maneira que você tenha um caminho livre para passar sem ter que ficar desviando muito;
  • Mantenha as mesas de centro, porta revistas, descansos de pé e plantas fora da zona de tráfego;
  • Instale interruptores de luz na entrada das dependências de maneira que você não tenha que andar no escuro até que consiga ligar a luz. Interruptores que brilham no escuro podem servir de auxílio;
  • Ande somente em corredores, escadas e salas bem iluminadas;
  • Mantenha fios de telefone, elétricos e de ampliação fora das áreas de trânsito, mas nunca debaixo de tapetes;
  • Coloque nas áreas livres tapetes com as duas faces adesivas ou com a parte de baixo não deslizante;·.

Na cozinha:

  • Limpe imediatamente qualquer líquido, gordura ou comida que tenham sido derrubados no chão;
  • Armazene a comida, a louça e demais acessórios culinários em locais de fácil alcance;
  • As estantes devem estar bem presas à parede e ao chão para permitir o apoio do idoso quando necessário;
  • Não suba em cadeiras ou caixas para alcançar os armários que estão no alto;
  • A bancada da pia deve ter de 80 a 90 cm do chão para permitir uma posição mais confortável ao se trabalhar.

Na escada:

  • Não deixe malas, caixas ou qualquer tipo de bagunça nos degraus;
  • Interruptores de luz devem estar instalados tanto na parte inferior quanto na parte superior da escada. Outra opção é instalar detectores de movimento que fornecerão iluminação automaticamente;
  • A iluminação deverá permitir a visualização desde o princípio da escada até o seu fim, assim como as áreas de desembarque;
  • Remova os tapetes que estejam no início ou fim da escada;
  • Coloque tiras adesivas antiderrapantes em cada borda dos degraus;
  • Instale corrimãos por toda a extensão da escada e em ambos os lados. Eles devem estar em uma altura de 76 cm acima da escada.

No banheiro:

  • Coloque um tapete antiderrapante ao lado da banheira ou do box para sua segurança na entrada e saída;
  • Instale na parede da banheira ou do box um suporte para sabonete líquido;
  • Instale barras de apoio nas paredes do seu banheiro;
  • Mantenha algum tipo de iluminação durante as noites;
  • Use dentro da banheira ou no chão do box tiras antiderrapantes;
  • Ao tomar banho, utilize uma cadeira de plástico firme com cerca de 40 cm, caso não consiga se abaixar até o chão ou se sinta instável.

*****

Já estava colocando o ponto final na crônica quando minha irmã telefonou para contar que a mãe de uma amiga, uma senhorinha simpática e independente, foi atender o interfone do apartamento, se enroscou com o cachorrinho de estimação e caiu no chão, fraturando o fêmur. Como diziam antigamente nos filmes de suspense, o perigo está sempre à espreita e vem de onde menos se espera.

Como prevenção não custa nada, que tal dar uma checada na sua casa? A turma da terceira idade agradece.

A Voz da Serra (7/9/2012)
Fotografia: Eddie Keogh/Reuters

Vamos ler um livro

 

Os números divulgados pelo Instituto Nacional do Livro são desalentadores: o brasileiro lê, em média, quatro livros por ano, mas só consegue levar apenas dois até o fim! A pesquisa feita pelo Ibope Inteligência mostra que as mulheres (57%) leem bem mais do que os homens (43%) e que 75% dos entrevistados nunca entrou em uma biblioteca.

Ao contrário do que acreditamos, a maior parcela de não leitores são adultos, na faixa dos 30 aos 69 anos. Assistir televisão continua sendo a atividade preferida e foi escolhida por 85% dos entrevistados. Em seguida vem escutar música ou rádio (52%), descansar (51%) e reunir-se com amigos e a família (44%). A leitura aparece no sétimo lugar dessa lista.

Enquanto o percentual de entrevistados que declara gostar de ler cai, o grupo dos que aproveitam o tempo ocioso para acessar a internet subiu de 18% para 24%. A pesquisa também identificou um novo comportamento que não estava no estudo anterior: o acesso às redes sociais, indicado por 18% como atividade frequente.

A principal razão apontada por aqueles que diminuíram o volume da leitura foi o desinteresse (78%), o que inclui a falta de tempo, a preferência por outras atividades e a “falta de paciência para ler”. Apenas 4% apontaram a dificuldade de acesso aos livros como motivo para ler menos, o que inclui o preço do livro, a falta de bibliotecas perto de casa ou de livrarias.

Entre os participantes, 64% concordaram totalmente com a afirmação “ler bastante pode fazer uma pessoa vencer na vida e melhorar sua situação econômica”. Ao mesmo tempo, a maior parte diz que não conhece ninguém que tenha progredido na vida por ler muito. Essa doeu…

Entre os livros mais lidos, a Bíblia foi citada por 42% e manteve-se no primeiro lugar, mesma posição ocupada na edição anterior da pesquisa, em 2007. Os livros didáticos foram nomeados por 32%, os romances por 31%, os livros religiosos por 30% e os contos por 23%. Cada entrevistado selecionou em média três gêneros.

Bom, até aí morreu o Neves, como se dizia antigamente. Afinal, pelo que me lembro, nunca tivemos mesmo a fama de bons leitores. Mas confesso minha surpresa ao saber que 70% dos entrevistados nunca ouviram falar dos livros eletrônicos ou digitais, que podem ser lidos em computadores, tablets e até em smartphones.

Aliás, nesse setor, praticamente ainda nem demos a partida: dos 30% que já ouviram falar em e-books, 82% nunca leram um livro eletrônico. De acordo com o levantamento, as pessoas que têm acesso aos livros digitais ou leram pelo computador (17%) ou pelo celular (1%). A maioria dos leitores (87%) baixou o livro gratuitamente pela internet, enquanto outros 38% piratearam os livros digitais, um péssimo sinal…

Os livros digitais são mais populares entre o público de 18 a 24 anos. A maioria dos leitores de e-books pertence à classe A e tem nível superior completo. De acordo com a pesquisa, 52% dos leitores são mulheres e 48% homens.

Pois é, a pesquisa é importante e útil, mas não explica porque estamos lendo cada vez menos. O escritor Affonso Romano de Sant’Anna, em um artigo para a UNESCO/PUC-Rio, acredita numa crise do livro, cujos principais aspectos seriam editoriais (disputa de um mercado mínimo com vinte ou trinta milhões de leitores,), livrarias (temos uma para cada 64.255 habitantes, quando a UNESCO recomenda uma para cada dez mil pessoas), ensino, autores e bibliotecas (o mesmo problema das livrarias, apesar dos recentes esforços para colocar pelo menos uma em cada município).

Não é uma questão puramente econômica, afinal, o poder aquisitivo do brasileiro melhorou e o consumo disparou. Ironicamente, talvez essa riqueza e a inclusão digital que colocou 200 milhões de celulares nas mãos dos brasileiros e permitiu a abertura de um sem número de lan houses pelo Brasil afora, possa ser um alento, atraindo novos leitores e, principalmente, autores.

O professor de Língua Portuguesa Sérgio Nogueira afirma que o melhor a fazer é incentivar o hábito da leitura o mais cedo possível. Para colocar isso em prática, o papel dos pais é fundamental, já que o exemplo dado em casa é o mais importante. Atividades como ler juntos, levar o filho à livraria e apresenta-lo a uma biblioteca, para que ele mesmo possa escolher os livros que quer ler, são simples e deixam raízes.

Hoje em dia, além de ser mais fácil publicar um livro, você ainda pode contar com os blogs, redes sociais e sites literários para compartilhar suas ideias e trabalhos. Novas editoras têm procurado formas ousadas e rentáveis de bancar livros de todos os gêneros, a um custo razoável. Alias, tem até quem julgue que um dos problemas seria o excesso de autores, uma maldade, é claro!

Devemos sempre ter em mente que o crescimento do cidadão passa obrigatoriamente por uma boa educação. Os livros, sejam em que formato for, são essenciais para a transmissão de conhecimento e aprendizado. Manter viva sua função e disponibiliza-los para todos os brasileiros é o nosso grande desafio. Afinal, quanto mais pessoas tiverem acesso e interesse nos livros, melhor será a nossa sociedade.

A Voz da Serra, 20/4/2012